CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

24 de maio de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (6)

Sonho que não sonhei
by Novaes/

Não sonhei a vida. Ela me veio
assustadora, definitiva,
isolando-me bem no meio
desta selva viva.

Assustam-me as feras,
os uivos, a escuridão:
devoram quimeras,
erguem solidão.

Não sonhei a vida e, sabei,
não sonhei afetos nem desafetos.
Nem mesmo os sonhos eu sonhei!
(nem os pesadelos, nem os prediletos).

Não sonhei o amor, tampouco o ódio;
não desejei o prazer, nem o asco.
Nascer é real – sonhar é ópio?
Sonhar é arriscar-se ao fiasco.

Não sonhei a vida. Ela me foi imposta.
E, mesmo depois de nascer,
entre choro, mamadas e bosta,
se tive, foram sonhos de bebê.


Mais tarde, criança,
sonhos eram limitados
a alguma esperança
de doces e bons-bocados.

Um dia, universitário,
sonhei com um mundo melhor.
Foi sonho solidário
e antigo, desde os tempos de minha avó.

Todo o povo unido
pelo fim da iniquidade,
slogans de tempos idos,
liberdade, igualdade, fraternidade.

Depois, mais maduro,
tive que cuidar da vida
em seu aspecto prático, duro,
dinheiro para a comida.

Comi arroz com ovo, quando tinha.
Vivi de biscates que, na classe média, chamamos “frila”.
E sonhava com uma fada madrinha...
que me arranjasse umas 100 “pilas”!

Sonhei com os livros que li.
Com as músicas que escutei.
Amei tudo o que apreendi
nas entrelinhas que saboreei.

Quando criança admirava a folha em branco
mesmo sem ter ideia do que nela fazer.
Talvez fosse o sonho se chegando,
sem forma ainda para aparecer.

Já desenhei, já escrevi, já transformei
a folha em branco em sonhos reais.
Até algum dinheiro eu ganhei,
aportando meus navios aqui, nesse cais.

Não sonhei viver, mas aconteceu.
A vida é um sonho não sonhado.
Um sonho lindo que, a quem me deu,
eu devo dizer “muito obrigado!”

Neste sonho não sonhado
há dores, fins e recomeços.
Mesmo assim é o sonho mais festejado
e louvo até os meus tropeços.

Se não sonhasse, eu não viveria!
E se não vivesse, mesmo sem olhos eu choraria.

Viver é, feliz e convicto,
arrebentar-se.
Sonhar é um irrestrito

amar-se.


13 comentários:

  1. Extremamente bom, meu caro Barra, gostoso pacas de ler. Seria bacana essa leitura num grande espaço cheio de gente de todas as idades, lugar informal que mistura sonhos sonhados e a sonhar ainda, com um fundo musical do Chico lá dos 60/70, ou do Gonzaguinha, até mesmo do Vandré. Haveria muito aplauso e assobio, tenha certeza.
    Parabéns.
    Carlos Rosa.

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    1. Também acho!
      Parabéns ,Newton/

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    2. Salve grande Carlos Rosa! Obrigado pela leitura e comentário. Nos anos 60/70 eu só sonhava mesmo era com o Tri da Seleção Brasileira... mais nada. Mas o bom dos sonhos - e da arte - é poder nos transportar no tempo e neste cenário aí que você pintou me bastaria ficar ouvindo essas feras... Mas sabe que, antes de você postar este comentário, este era um sonho não sonhado? Agora já é sonho sonhado! Obrigado!

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    3. Obrigado por seus parabéns, Helentry!

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  2. Parabéns, Newton! Bela postagem, Rita! Se eu estivesse nesse espaço idealizado pelo Carlos, esteja certo que aplaudiria e assobiaria bem alto. Coisa que não aprendi a fazer até hoje.
    Abraços.
    Elenir

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    1. Vc está inspiradíssima para comentar, Elenir. Imaginei a cena, ri muito.

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    2. Elenir, sabe de uma coisa? Você é um sonho não sonhado!! A pessoa que assobiaria bem alto, mesmo sem saber assobiar... ou seja, que transcende o real. Grato pelo comentário.

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  3. Belo poema, final primoroso e convidativo, Newton. My congratulations!

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  4. Newton,mais uma vez sua MARCA esta gravada, agora neste lindo poema.
    Nao precisaria assinar que era voce...
    Aqui na Alemanha chove, mas seu poema veio aquecer um pouco meus dias.
    Parabens!
    Vera Lucia Schubnell Freire.

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    1. Valeu Vera, você fez a poesia, como um sonho, ter o aconchego de um cobertor, um chá, um chocolate quente. Grato. Abraços.

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  5. Adorei o poema Novaes. Concordo com você que a vida é arrebentar-se conscientemente e essa confiança consciente que nos faz continuar dando os passos para além. E por falar em sonhar um sonho, ja me incluo no sonho coletivo do aplauso, contudo, assim como Elenir, não emito nenhum som parecido com assovio, será que um bordão basta? tipo "O Novaes, cadê voce, nós vimos aqui só pra te ver..." rsrsr

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    1. Grande Helene, obrigado! Você sempre atenciosa e gentil. Estamos por aí, nos arrebentando de viver. Desde pequeno meu projeto é chegar aos 100 anos como uma bandeira nacional que foi à guerra e agora descansa num canto aos trapos, rasgada, com as bordas queimadas, em frangalhos. Mas cheia de histórias pra contar. Grande beijo pra você!

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