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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

7 de março de 2013

Segredos de Algibeira: Ilnéa País de Miranda


       Uma outra história do "achamento" 

Sempre se ouviu dizer que o Brasil - que nem era Brasil naquela época e nem por muito tempo depois - foi descoberto "por acaso" o que nunca se firmou como verdade. E o que eu vou contar para vocês bem pode rezar pela mesma cartilha.

A história se conta assim...

Diz-se que D. Manuel I, venturoso Rei de Portugal, resolveu formar uma esquadra para refazer o caminho das Índias, descoberto por um tal Vasco, que também era da Gama, mas por certo não jogava futebol - que à época nem coisa de inglês era ainda - para buscar especiarias para a cozinha do palácio. 

No comando, Pedro Álvares Cabral, navegador português de quatro costados; de escrivão, o Caminha, para que de casos e acasos, nada ficasse sem registro, e de timoneiro da nau capitânia... alguém que não sei o nome, mas de importância vital nesta história. (aqui também pode entrar a versão do coelho de estimação que se chamava Acaso por conta da maneira como fora parar nas mãos do timoneiro)

Pois que este moço - ora pá! - adorava comer coelhos! Só de pensar no acepipe, sua boca salivava, lambia os beiços e estalava a língua. Pois para tristeza sua, disseram-lhe que, jeito e maneira, coelhos não fariam parte da dieta das caravelas "não dão sustância," diziam, "comem demais e fazem muita sujeira! Salgar não adianta, pois que com tão pouca gordura, no final sobrará nada." (é que, naquele tempo, como não havia refrigeração, as carnes viajavam salgadas, ou então vivas, na embalagem original.)

O moço timoneiro passava dias ensimesmado, andando de um lado para o outro, mãos enfiadas nas algibeiras, lamentando os dias, meses, que ficaria sem provar da iguaria preferida. Até que, para sua surpresa, achou, lá no fundo do bolso das calças, uns ossinhos do coelho que comera umas semanas atrás. Pensou, "Ora pois, pois! Visto essas calças o tempo todo! Se nem eu me apercebi que isto estava cá ..."

Sem demora foi ao curral de coelhos, pegou um dos "miúdos", meteu-o bem no fundo da algibeira e lá se foi para a caravela.

No dia aprazado, ou seja, "aos nove dias do mês de março do ano da Graça de 1500," sob auspícios de D. Manuel, e algazarra generalizada do povo da terra, partem as tantas caravelas, uma após outra, lideradas por aquela capitaneada por Cabral. 

Ao timão, o TIMONEIRO com seu coelho escondido lá no fundo da algibeira... (Nota - acho que aqui merecia uma musiquinha! Mas vamos deixar pra próxima!)

... e como era timoneiro da nau capitânia... de certa forma era ele que capitaneava aquelas outras tantas que lhe vinham atrás.

Em se considerando que o Norte é "lá em  cima," de lá veio nosso timoneiro arrastando uma fieira de caravelas mar abaixo, na direção do Equador. Nesta manobra, bom que se note, o Norte ficava-lhe às costas, o Leste à esquerda, o Oeste à direita, e o Sul à frente... enfim: tudo ao contrário! Mas, seguindo sem piscar as instruções do navegador, não havia o que errar. Para frente e para baixo, um olho na carta o outro no mar, segurando o timão com firmeza. 

 Vez em quando o coelho miúdo se lhe agitava a algibeira. Acalmava-o com uns tapinhas, uma cenoura, uma folhinha verde, uns grãozinhos de cereal. À noite, quando não havia ninguém por perto, prendia o timão na rota e ia até a beira do tombadilho descartar as porcarias com que o bichinho presenteara seu bolso. 

No princípio, tudo isso era manobra fácil. Mas com o passar dos dias, o coelho foi crescendo, cada vez comendo mais, cada vez .... mais, tomando mais lugar, e ficando mais e mais impaciente.

Uma noite, lá pelas tantas da viagem, o bichinho - já nem tão "inho" assim - mui arreliado, pulou tanto que o timoneiro, ocupado em seu mister num mar um pouco agitado, deu-lhe uma espremida de encontro ao timão. O coelho, já de bom tamanho para a panela, pulou fora da algibeira e saiu pulando pelo tombadilho. Vendo seu prato favorito ameaçado, nosso moço largou o timão e correu-lhe atrás. 

Nem é preciso entender de navegação para perceber o que aconteceu. O coelho sumiu porão adentro; o timoneiro, desolado, voltou ao timão sem nem notar certo desvio para a direita que, nas circunstâncias já descritas, significava para o Oeste, ou seja contrário à pretensa rota declarada - as Índias.

A esquadra, distraída, continuou seguindo atrás.      

Dias mais de bons ventos, o vigia, encarrapitado no alto do mastro, em seu cesto da gávea, anunciou o que todos esperavam:
                 
"Terra a vista!" gritou bem alto.
  
Os que puderam, correram para a proa. Todos queriam avistar a terra que pensavam ser as Índias. 

E de sua posição privilegiada, lá do alto da gávea, gritou outra vez o encantado vigia:

"Ora cá! Já "posso ver as índias! Todas lá na praia, peladinhas, com as vergonhas de fora!"

Foi uma correria ainda maior. De capitão a marinheiro raso. De tombadilho ao fundo do porão. Todos queriam ver o que o vigia anunciava. Índias, peladinhas... e com as vergonhas de fora?! Isso era coisa que nunca tinham visto e faziam questão de ver. No afã de ter a melhor visão, nem se lembraram de fechar portas e alçapões.

O porão foi deixado aberto, e de lá subiram galinhas cacarejantes e famintas e aquele coelho do qual o timoneiro talvez nem lembrasse mais. Foi um fuzuê só! E tamanha barulheira acordou um bando de papagaios que dormitava nas árvores. Acordados, saíram voando na direção da caravela. Assustados, alguns se juntaram à gritaria. E foi aí que, abrindo os bicos no grito, deixaram cair no tombadilho uns caroços que carregavam.

As galinhas - como já disse - famintas, danaram de comer as tais sementes! E comeram tanto, tanto, que, ao findar a refeição, nada mais queriam do que tirar uma soneca.

O povo das caravelas seguiu como pode para a "confraternização" que durou dia inteiro. À noitinha, voltaram os homens ao navio - mortos de fome de tanta atividade. Mas descobriram que não havia nada para comer senão os ovos que as galinhas haviam deitado.

"Vamos fazer omeletas!" e prepararam os apetrechos. Só que, quando foram quebrar os ovos... descobriram que aqueles não tinham clara nem gema. Primeiro pensaram em jogá-los fora e até matar as galinhas que botavam ovos tão esquisitos. Afinal, podiam ser venenosos!!!

Mas... e sempre há que haver um "mas" para que as histórias façam sentido,  um dos ovos, descascados, caiu no chão. 

E quem estava lá? O nosso amigo coelho, o salvador! Também com fome, comeu o ovo. Os homens ficaram olhando, curiosos e intrigados. Se o coelho morresse.... mas se não morresse... 

Morrer? Claro que não morreu! E ainda postou-se nas patas de trás como que pedindo mais. Os homens provaram do ovo escuro. Era uma delícia de gosto… e cheiravam como só!

E foi assim, que naquele Domingo de Páscoa - e sempre por conta do Acaso, além do Brasil, foram descobertos, servidos… e comidos Ovos de Chocolate… da Páscoa! 

Ah! Penso que esqueci de dizer: Acaso era o nome do coelho do Timoneiro que… 

… mas isso é uma outra história que, qualquer dia  - quem sabe? - eu conto para vocês.



9 comentários:

  1. Grande Ilnéa, que texto saboroso, literalmente. Sensacional seu conto de Páscoa, muito criativo. O estilo até me lembrou um pouco Ariano Suassuna, no uso da linguagem e no humor. Parabéns!

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  2. Antônio tem toda razão.Mas não é surpresa perceber que aqui fala Ilnea, ela e ela mesma e sempre.Vive a escritora, cheia de alegria e desafios aos pensamentos. Vivas!
    Abraços,
    Elô

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  3. Adorei seu texto, Ilnea. Divertido, interessante, original e super oportuno. Me deu até água na boca, hum...

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  4. Muito empolgante o seu texto, Ilnea, vai nos envolvendo até o momento final e ainda nos deixa com vontade de saber mais. Bravo!

    Abraços!!

    Sonia Salim

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  5. Delicioso o seu conto, muito melhor do que chocolate. Adorei e o melhor sem calorias. Aguardo a prometida continuação no final do conto.
    Abraços

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  6. Este Clube não para de nos trazer surpresas agradáveis...
    Quanta criatividade!
    Além de um encanto de pessoa você é cheia de charme e talento.
    Parabéns Ilnea, me diverti muito com seu texto.
    Vera Lúcia Schubnell Freire.

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  7. Querida amiga, então... além de poeta também contista e "das boas"! me sentí uma criança ouvindo histórias de boca aberta e olhos arregalados, imaginando as cenas, torcendo pelo Acaso e pelo infeliz timoneiro. Quero mais!!!

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  8. Oi Ilnéia Me surpreendi!

    Que timoneira é voce! nos guia por caminhos-frases,atraves
    de mares recheados de uma extrema criatividade.
    E vamos para o próximo....! Ceci

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  9. Um prazer imenso, ou vários prazeres enormes ler seus comentários.

    Para ser absolutamente sincera, tinha até um certo "pejo" por conta das brincadeiras com nossos amigos portugueses. Mas como também tenho sangue (ou DNA?) português - meu Vô Chico, pai de minha mãe era português e minha avó Neném - ou Chiquinha, também Francisca como ele - era filha dos ditos... pois é: resolvi passar para vocês. E - sabem? - penso que, pelo menos por algum tempo, irão lembrar-se do Timoneiro e seu coelho Acaso quando comerem um delicioso ovo de chocolate. E a Páscoa, que já vem chegando, vai ser só um pouquinho mais engraçada.

    Beijinhos com gosto de chocolate...
    ... Ilnéa...
    em nome de Acaso, ainda um coelho um tantinho UNKNOWN.

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