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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

9 de janeiro de 2015

Hitoshi Igarashi: por Roberto Pedretti

Com fúria assassina,
calaram canetas e homens.
Religião é isso?

Vive la Liberté 
Elenir



Pedretti
Igarashi nasceu em 1947. Tornou-se, com o passar dos anos, um apaixonado pela riqueza e beleza das literaturas árabe e persa. Concluiu seu doutorado no assunto na Universidade de Tóquio e foi prosseguir seus estudos no Irã, de onde teve que partir às pressas, como tantos outros, após a revolução de 1979, que levou o Ayatollah Khomeini ao poder. 

O evento, no entanto, não parece ter feito esmorecer a paixão de Igarashi, que traduziu pela primeira vez para a língua japonesa obras de Avicena e Averróis, os mesmos grandes pensadores árabes que ajudaram a trazer o pensamento de Aristóteles e de muitos pensadores fundamentais da Antiguidade à lume, para que não se perdessem na confusão medieval européia. Além disso, traziam a riquíssima filosofia e teologia islâmicas originais ao Ocidente. Provavelmente Igarashi foi responsável pela primeira ocasião na vida de muitos estudantes japoneses em que liam um autor islâmico em seu próprio idioma. 


Salman Rusdie


Em 1989, ele se encarregou da tradução do livro "Os Versos Satânicos", do escritor inglês Salman Rushdie, para o japonês. 

E vocês já tiveram a oportunidade de ler "Os Versos Satânicos"? É um lindo livro, poético de forma caudalosa, difícil na sua convicção em fazer-nos aceitar uma mitologia islâmica que nos parece impenetrável completamente misturada às familiaridades da nossa vida ocidentalizada moderna. É um romance sobre identidade, sobre encontrar seu lugar no mundo. E que o Corão tenha sido invocado, é apenas uma circunstância incontornável, dada a identidade de seus protagonistas, dado o berço de seu autor. 

Fato é que, em 1989, o mesmo mencionado Ayatollah Khomeini pediu a cabeça de Rushdie e de todos os envolvidos na publicação do livro que tivessem tido noção de seu conteúdo. O autor teve que viver escondido e sob proteção policial por quase uma década. Outros tanto, entre tradutores e editores, sofreram ataques, em diversos países, mas sobreviveram. 
Hitoshi Igarashi, no entanto, não sobreviveu. Foi esfaqueado até a morte no campus da universidade em que lecionava, em 1991. E eu não suponho que muitos japoneses tenham se arriscado a estudar o Islã desde então. 

Hitoshi Igarashi

Igarashi nasceu em 1947. Tornou-se, com o passar dos anos, um apaixonado pela riqueza e beleza das literaturas árabe e persa. Concluiu seu doutorado no assunto na Universidade de Tóquio e foi prosseguir seus estudos no Irã, de onde teve que partir às pressas, como tantos outros, após a revolução de 1979, que levou o Ayatollah Khomeini ao poder. 
O evento, no entanto, não parece ter feito esmorecer a paixão de Igarashi, que traduziu pela primeira vez para a língua japonesa obras de Avicena e Averróis, os mesmos grandes pensadores árabes que ajudaram a trazer o pensamento de Aristóteles e de muitos pensadores fundamentais da Antiguidade à lume, para que não se perdessem na confusão medieval européia. Além disso, traziam a riquíssima filosofia e teologia islâmicas originais ao Ocidente. Provavelmente Igarashi foi responsável pela primeira ocasião na vida de muitos estudantes japoneses em que liam um autor islâmico em seu próprio idioma. 
Em 1989, ele se encarregou da tradução do livro "Os Versos Satânicos", do escritor inglês Salman Rushdie, para o japonês. 
E vocês já tiveram a oportunidade de ler "Os Versos Satânicos"? É um lindo livro, poético de forma caudalosa, difícil na sua convicção em fazer-nos aceitar uma mitologia islâmica que nos parece impenetrável completamente misturada às familiaridades da nossa vida ocidentalizada moderna. É um romance sobre identidade, sobre encontrar seu lugar no mundo. E que o Corão tenha sido invocado, é apenas uma circunstância incontornável, dada a identidade de seus protagonistas, dado o berço de seu autor. 
Fato é que, em 1989, o mesmo mencionado Ayatollah Khomeini pediu a cabeça de Rushdie e de todos os envolvidos na publicação do livro que tivessem tido noção de seu conteúdo. O autor teve que viver escondido e sob proteção policial por quase uma década. Outros tanto, entre tradutores e editores, sofreram ataques, em diversos países, mas sobreviveram. 
Hitoshi Igarashi, no entanto, não sobreviveu. Foi esfaqueado até a morte no campus da universidade em que lecionava, em 1991. E eu não suponho que muitos japoneses tenham se arriscado a estudar o Islã desde então. 
Me lembro de Salman Rushdie em 2010, na FLIP. Me lembro principalmente de ter ido à festa da Companhia das Letras no evento e, de muito tarde, vê-lo dançando desconjuntadamente na pista ao som de "País Tropical", cantada por Wilson Simonal. Fiquei pensando que, para muitas cabeças no mundo, muitas tramando libertações pessoais e cósmicas, ele continua condenado. Sua cabeça ainda estava e está a prêmio. Mas tem sempre uma hora em que é preciso conviver com isso. Para mim, que já comecei a lê-lo depois que tudo isso aconteceu (eu tinha 10 anos quando "Os Versos Satânicos" foi publicado), vê-lo ali se remexendo era um lembrete de que a vida tinha que continuar de algum jeito. 
O discreto caso de Igarashi, no entanto, me toca particularmente. Sua morte fechou um discreto e constante canal entre duas culturas muito distantes. Sua morte e a de sua paixão com ele, empobreceu de forma quase imperceptível a vida de islâmicos e japoneses. E isso provavelmente por obra de um único homem ou mulher, uma faca e o descuido de, provavelmente, não abrir o livro a respeito do qual aquela morte versava.
Igarashi
Me lembro de Salman Rushdie em 2010, na FLIP. Me lembro principalmente de ter ido à festa da Companhia das Letras no evento e, de muito tarde, vê-lo dançando desconjuntadamente na pista ao som de "País Tropical", cantada por Wilson Simonal. Fiquei pensando que, para muitas cabeças no mundo, muitas tramando libertações pessoais e cósmicas, ele continua condenado. Sua cabeça ainda estava e está a prêmio. Mas tem sempre uma hora em que é preciso conviver com isso. Para mim, que já comecei a lê-lo depois que tudo isso aconteceu (eu tinha 10 anos quando "Os Versos Satânicos" foi publicado), vê-lo ali se remexendo era um lembrete de que a vida tinha que continuar de algum jeito. 

O discreto caso de Igarashi, no entanto, me toca particularmente. Sua morte fechou um discreto e constante canal entre duas culturas muito distantes. Sua morte e a de sua paixão com ele, empobreceu de forma quase imperceptível a vida de islâmicos e japoneses. E isso provavelmente por obra de um único homem ou mulher, uma faca e o descuido de, provavelmente, não abrir o livro a respeito do qual aquela morte versava.



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