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22 de setembro de 2017

O Dia Em Que Virei Artista à la Big Brother: Aquiles Andrade



 Aprendi ao longo da vida que ninguém pode mesmo dizer aquele refrão   “dessa água não beberei jamais”. Pois vejam vocês! Quem diria que mesmo depois de ter ultrapassado oitenta anos de vida, me transformaria num tipo de artista à la Big Brother. Não talvez pelos meus dotes físicos ou intelectuais, porque estes a gente vai deixando pelo caminho. E não também por alguma capacidade estratégica que eu tenha de enredar pessoas em situações que, no final das contas, me permitam alcançar sobre elas ganhos ou vantagens.

Enfim, o meu ingresso neste mundo “bigbroziano” se deu pela atenção preocupada dos filhos com a minha cabeça dura de querer garantir minha autonomia em face da minha viuvez, de querer morar sozinho no meu canto, fazendo minha comida etc. A novidade nisso tudo é que tal atenção preocupada, nesse mundo louco, veloz e mutante, está sendo cada vez mais suportada pelas tecnologias mais avançadas do mundo, algumas surpreendentes e a maioria inimaginável.

Pra quem, como eu, viu surgirem o rádio, a televisão, o telefone e outras novidades do tipo, não poderia imaginar que um dia, ao invés de assistir a televisão da minha casa, eu seria “assistido” na televisão de todos os filhos.

Ainda bem que com o passar do tempo nossos espaços de segredo vão mudando de forma. De espaços exteriores, onde nos escondíamos ou escondíamos as coisas que queríamos preservar, vão se tornando espaços interiores, indevassáveis às câmeras desse mundo, para onde entramos sem precisar de chave, nem de senha, nem de portas.

Foi por isso que não me importei quando os familiares me disseram que, para minha própria segurança e bem estar, seria importante colocarmos algumas câmeras estrategicamente situadas na minha casa, de forma que os filhos ficassem tranquilos de que eu não estava pondo fogo na casa, esquecendo o gás acesso, ou deixando portas abertas, dormindo no chão, enfim, estava tudo sob controle.

Foi assim que me tornei um artista à  la Big Brother! Verdade que não tenho a audiência do BBB e nem a apresentação charmosa do Pedro Bial. Mas nem por isso me sinto menos poderoso de poder oferecer distração para os preocupados filhos e netos, em especial o neto Julio, que me atende dia e noite.

E como dizem os filhos que “a cabecinha de Aquiles” voa, fiquei imaginando que, no fundo, no fundo, estamos mesmo sempre envolvidos em alguma espécie de “big brother”, com câmeras ou sem câmeras.  Recordo-me que quando criança, ao fazer minhas travessuras, sentia como se estivesse sendo observado pelo Deus todo poderoso que, com infinita paciência, sacudia a cabeça e me dizia: Sim senhor, hein Aquiles!

Agora, tenho a impressão que esse papel ficou mais prosaico e simplificado, tendo sido designado como tarefa dos próprios filhos, ajudados pela poderosa tecnologia. Mas deixa estar que quando eu partir para o andar de cima e me juntar a Isabel, eu também vou ficar olhando na imensa televisão que tem lá, que possui câmeras espalhadas por cada pedacinho desse mundão de Deus e sacudindo a cabeça direi:

Não Contavam Com Minha Astúcia!


 20/11/2015

5 comentários:

  1. Muito bem, Aquiles! A princípio eu pensei que o escritor Aquiles Andrade estivesse no Snapchat que é a nossa nova forma de "ver tv" escolhendo os preferidos. A propósito, o Clube de Leitura Icaraí poderia nos dar o prazer de podermos ver os debates dos livros pelo Snap. Fica a dica! ;)

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  2. Respostas
    1. É só baixar o aplicativo Snapchat criar perfil que pode ser pessoal ou do clube e gravar os vídeos que são num espaço de tempo mínimo, mas que podem ser muitos.

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    2. Agite o CLIc para o Snap, Evandro. Dá pra comentar a leitura. Eu já estou seguindo a Andreia do Mar de variedades. Encontre-me em 👻 @soniasalim1

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