CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

24 de novembro de 2013

De súbito


Mundo frio, vazio, sem cor quando ele não está. 


A Beleza e o Amor tornaram-se amigos, quase irmãos, porque a Paixão levou embora seus filhos. Levou-os para longe, para os Desejos mais insinuantes, e os filhos, órfãos, caminham por aí, procurando por ela, mesmo sem nunca a terem visto. Isto aconteceu porque um dia disseram que a Paixão era ruim, perversa, que ela enlouquecia cada um que a sentia e, então, ela se foi e deixou o Amor e a Beleza sozinhos. Lá onde o Instinto fazia sua confissão, eis que surgiu de súbito o Gosto e disse: _sim, eu quero que a Beleza, o Amor e a Paixão venham a mim. E o Instinto intrigado perguntou: _ por que, assim, de repente, meu caro Gosto? E o Gosto amargurado respondeu intrigado: _logo tu, Instinto?! De súbito perdeu a vez: agora pensas?! Não sabes que agora sou eu, o Gosto, que determino os Sabores a serem apreciados? O Instinto acanhado, meio deslocado, então respondeu: _ah Gosto, se soubesses que há muito ando esquecido, e se é você quem faz o juízo, me deixe só. O Gosto, ainda intrigado, emudeceu e deixou o Instinto falar por horas e horas e horas, até cansar. E quando o Gosto percebeu que ele havia adormecido, ficou insosso, deixou para lá a Paixão, o Amor e a Beleza, e descobriu-se num tremendo Vazio, pois sem Instinto não dá para se Criar: nem Sabores, que dirá ter Amores, nem Paixão que dirá o Tesão, percebeu que sem Beleza a Vida não há. O Gosto fechou os olhos e sentiu um Sabor de Sangue em sua língua estranha e, de repente, o Instinto acordou e perguntou: _ o que foi, Gosto? Parece Desgosto o que vejo, seu oposto? E o Gosto respondeu: _um Sabor de Sangue me perturba. O Instinto então sorriu e aliviado respondeu: _não é nada senhor dos Sabores, foi só o Rio que transbordou dentro de mim[1].


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[1] Drica – De Súbito (18/03/2013)






4 comentários:

  1. Querida Drica, repito que gostei muito do seu texto. Sempre me incomodou a forma como muitas pessoas tratam a paixão como se fosse algo demoníaco. Não consigo conceber que o amor não tenha paixão e vice-versa, mas é claro que varia de intensidade. Um amor sem paixão é por demais insosso, sem gosto e uma paixão sem um pingo de amor é algo meramente descartável. Quando ouvir a música de Rita Lee "Amor e Sexo", discordei no ato de alguns versos, pois nela o amor é algo sem vida, passivo, sem força vital, enfim, um moribundo. O sexo por outro lado, é pulsão de vida que lateja, que exige do indivíduo ação contínua.

    Essa separação de corpo e alma; em que a alma está para o amor, assim como o corpo para o sexo é inconcebível a meu ver. Acredito que somos seres que somos perpassados por forças dionisíacas e apolíneas e que a tensão entre as duas é que equilibram a balança de nossas emoções e sentimentos. Sem isso, o ser, ao fim de seus dias, terá impresso no corpo e na memória apenas o gosto do nada (se é que existe), do vazio que foi sua existência.

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    1. Sim, Helene! É por aí sim! Do Instinto surge a paixão! O instinto não deve ser negado nunca para que a paixão não seja vista como algo ruim...

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  2. Olá, Drica, prazer em ler seu texto. Me transportei ao tempo de criança, quando não me lembro de lerem estórias para eu dormir, mas esta com certeza seria uma que eu adoraria escutar para embalar meus sonhos.

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    1. Ah, que legal, Rita! Fico muito contente em levá-la à infância! Afinal, no sonho e na infância somos muito mais puros! Um beijo e bons sonhos!
      Drica

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