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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

12 de novembro de 2013

Entre colisões e clareiras - por Wagner Medeiros Jr


Durante o reinado de D. Manuel I (1498-1521) o Brasil permaneceu quase intocável. Não fora encontrado nenhum vestígio da existência de metais preciosos ou outro produto atrativo de fácil extração. Somente o pau-brasil, utilizado como corante nas indústrias de tecido europeias, valia a pena ser explorado, embora o lucro fosse menor que o do comércio dos produtos do oriente.

Em 1498 Vasco da Gama havia encontrado a rota pelo Atlântico para o Índico, o que barateara o preço das especiarias (espécies de temperos) e da seda na Europa. Isto impeliu o comércio português, que se voltou para o oriente. A Coroa portuguesa, então, resolve arrendar o Brasil a um consórcio de comerciantes capitaneados por Fernão de Noronha, em 1502.

O arrendamento inicial foi de três anos, provavelmente renovado depois por outros períodos. Cabia ao arrendatário estabelecer uma feitoria e prover a defesa da costa brasileira dos contrabandistas e invasores, além de pagar a Coroa um quinto do que fosse apurado da venda do pau-brasil e de tudo mais que fosse explorado.

A madeira era dura e difícil de ser cortada e transportada, tanto pelo peso, como também pela densidade da floresta, que parecia indômita. Mas, com a utilização da mão de obra nativa, o negócio tornava-se lucrativo. Não tardou, portanto, a começar os primeiros conflitos entre os nativos e os exploradores.

Os primeiros contatos foram para os nativos um verdadeiro vislumbre e encantamento. Os presentes, as roupas e armaduras - vistas como adornos -, as armas e ferramentas de metal, o modo de viver e a aparência do branco foram-lhes também divertidos e fascinantes. Porém, os maus tratos e a exploração do trabalho mostrar-se-lhes-iam intolerantes.

Por outro lado, o primeiro assombro do invasor foi a antropofagia. Os inimigos eram literalmente comidos por toda tribo em um ritual festivo, na crença de assim herdar-lhes a força e as virtudes. Antes, porém, levavam uma bordoada de tacape na nuca, que lhes expunham os miolos e o sangue. Este era espalhado no peito das mulheres que amamentavam e depois servido aos futuros guerreiros, no intuito de fortalecê-los.

Entretanto, os nativos não se furtavam em ceder suas mulheres e filhas em demonstração de amizade ou em troca de algum presente interessante, quando estabeleciam alianças. Daí a estratégia do invasor em selar laços de amizade com algumas tribos, com a finalidade de derrotar e escravizar as tribos inimigas, forçando-as com a derrota ao trabalho escravo.  

Nos primeiros anos após a frota de Cabral com destino às Índias aportar na costa brasileira, cerca de três expedições deixavam Portugal anualmente com destino ao Brasil. Na escassez de aventureiros que se sujeitassem aos riscos da viagem, nessas expedições vinham muitos degredados. Na volta, alguns eram deixados à sorte; outros desertavam para viver junto aos nativos, da mesma forma como procederam muitos tripulantes.

Entre dezembro de 1503 e abril de 1504, foi erguida por Américo Vespúcio a primeira feitoria no Brasil, a de Cabo Frio, para apoiar a extração e o armazenamento do pau-brasil. Seus construtores faziam parte da segunda expedição, comandada por Gonçalo Coelho. Vinte e quatro homens foram deixados à sorte em terra, com mantimentos para seis meses. 

Se nessas expedições alguns conseguiam sobreviver e formar família(s), dando origem aos primeiros mestiços mamelucos, outros não tiveram o mesmo destino: foram mortos ou mesmo devorados. Na própria região de Cabo Frio a resistência dos tamoios foi atroz.

No reinado de D. João III (1521-1557) o Brasil foi dividido em Capitanias Hereditárias, para garantir a posse da terra ameaçada pelos franceses, que exploravam a costa brasileira, contrabandeando o pau-brasil, monopólio da Coroa portuguesa.

Com a chegada dos primeiros colonos, a resistência do nativo torna-se ainda mais atroz e sangrenta. E muito sangue ainda seria derramado em todo curso da colonização do Brasil.

e-mail: wagnermedeirosjr@gmail.com
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9 comentários:

  1. Bons tempos eram esses, quando pagávamos apenas um quinto de imposto ao Tesouro. Hoje em dia pagamos muito mais que isso à Coroa de Brasília!

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  2. Prezado Wagner, eu acho que a antropofagia tinha que voltar, e direcionada aos maus políticos. É muita gente, eu sei, mas só em pensar em vê-los sendo comidos por toda nossa grande tribo em um ritual festivo, levando antes uma bordoada de tacape na nuca, com miolos e sangue à mostra, hum, que espetáculo seria! Só não concordo em espalhar o sangue no peito das mulheres que amamentam, afinal meu conceito de guerreiro forte é bem outro, e eles não são dignos de deixar qualquer herança ou virtude que preste. Seria enfim o canibalismo invertido. Comem-nos o fígado hoje, aguardem-nos no passado. Não esqueçamos, a história pode ser cíclica ... ou não.

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  3. Meu Deus... canibais no CLIc... Rita, eu dispenso, não quero comer político nenhum. Não quero correr o risco de herdar suas "virtudes"... rsrs. Parabéns Wagner por mais um texto histórico interessante. Quanto à escravidão dos índios brasileiros, o que mais me revolta é lembrar da minha professora ginasial dizendo em sala de aula que "o índio não se adaptou à escravidão, era indolente, não tinha aptidão para o trabalho". Ai, ai... Como podiam dizer sandices desse tipo na escola? Que ensino foi aquele?? Parabéns aos índios que não se adaptaram à escravidão! Ninguém deveria! Que diacho de professora foi aquela que pensava com a cabeça do senhor de escravos!!??

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  4. Caríssimos Novaes Barra, Rita Magnago e Evandro,
    Quem sabe os antropófagos modernos não sejam esses os próprios políticos? Não são eles que devoram a formação de uma sociedade de conhecimento, com consciência crítica? Não devoram também, com uma fome terrível, o dinheiro dos nossos impostos?
    Acho, então, pela lógica, talvez até influenciado pelos comentários dos amigos acima, que devemos correr para bem longe dos nossos políticos, bem como dos idiotas que não sabem sequer o que ensinam.

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  5. É muito bom falar da nossa História. É sempre interessante. Uma prova do interesse pela História do Brasil é o sucesso do escritor e jornalista Laurentino Gomes e do também jornalista Bueno, o Peninha. Congratulações ao Wagner Medeiros Jr. pela iniciativa.
    Carlos Rosa Moreira.

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  6. Na minha opinião, Wagner, "correr para bem longe dos políticos" é, no plano social, o equivalente a fugir do espelho no plano pessoal. A classe política reflete a mentalidade da população quer a gente goste ou não. Acho melhor encarar de frente a nossa feiura do que ter que engolir arbitrariedades.

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  7. Caríssimo Evandro,
    Claro que minha colocação foi uma forma de brincadeira. Concordo com tudo que você diz no comentário acima. Não é por outro motivo que também insisto em escrever sobre política. Então, que continuemos atentos, para não sermos vítimas da antropofagia dos nossos políticos. rsrsrsrsrs

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  8. Deve ser difícil escrever sobre política como você faz, preto no branco, porque a gente percebe que as ações de nossos políticos estão mais para cinquenta tons de cinza rsrsrs.

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  9. Gente, estou abismada com o cheiro de sangue no ar. Rita completamente imbuída de "The Walking Dead" rsrsr. Fique a pensar no canibalismo invertido de Rita e do espelho pessoal do Evandro e me passou pela cabeça que se antes o ritual de canibalismo buscava incorporar as virtudes do guerreiro ao vencedor, então fiquei politicamente animada, pois talvez em breve, os políticos possam morrer de algum tipo de congestão fatal, já que nossas virtudes não são lá muito saudáveis na hora de elege-los. Que nós, vermes, possamos come-los vivos de dentro para fora. rsrsrsr

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