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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

10 de junho de 2013

O encanto do Deserto esmagador: Chico Lopes

O deserto de Paul Bowles rendeu um filme subestimado



Quando vi “O céu que nos protege” (“The sheltering sky”, 1990) pela primeira vez, foi em VHS, nos tempos imediatamente posteriores ao lançamento do filme, que tinha provocado polêmicas. Conservava da produção a lembrança vaga de Debra Winger, como Kit, enfiada num esconderijo, feito uma das esposas do chefe da caravana beduína em que se engajara, tendo uma relação sexual com o sujeito, relação que é observada pelas frestas do esconderijo por garotos que, pelo lado da fora, dão risadas daquilo. Um deles explica, inclusive, com a língua, para os outros, o que está sendo feito lá dentro.

Depois, quando o filme era mencionado entre apreciadores leigos de cinema ou cinéfilos, sempre se ouvia opiniões do tipo “é uma chatice”, “é uma monotonia danada”, ou “é um fracasso de Bertolucci”, mas também não era impossível achar quem admirasse o filme, e, por vezes, com um entusiasmo que parecia um pouco equivocado também, um entusiasmo a que não faltavam umas boas pitadas de esnobismo.

Para tirar essas dúvidas, recentemente comprei uma versão do filme em bancas, a um preço promocional satisfatório. É o tipo do filme que acaba mesmo em cestos promocionais, notado e comprado por pouquíssima gente, numa era de consumismo cultural.

Quando o filme saiu nos Estados Unidos, o diretor Bernardo Bertolucci estava no apogeu, tendo recebido nove Oscar por “O último imperador”, e na certa o cinema industrial norte-americano esperava muito dele. Como esperou dos nossos Hector Babenco e Walter Salles Jr., que não deram a eles exatamente o que esperavam. Nesse particular, só mesmo o mais recente Fernando Meirelles parece ir dando-se bem.



De um autor excêntrico 


O Bertolucci que filmou “O céu que nos protege” adaptava o livro de um escritor, Paul Bowles, não necessariamente popular entre os norte-americanos. Tipo difícil de classificar, Bowles foi mais visto como compositor de vanguarda durante um bom tempo, e dificilmente seus livros, apreciados por uma certa faixa da crítica mais informada, teriam encantos assegurados para espectadores de cinema na cartilha de Hollywood. Viveu com a mulher, Jane, uma vida conturbada e nômade, interessado pela África e por lugares do mundo que a América careta jamais poderia aprovar, e o casal tinha esses traços que, se nos parecem menos imprevisíveis hoje em dia – era bissexual, rico, niilista e chique –, não tinha mesmo como ser aceito por aquele puritanismo todo.

Mas Bowles, quando lido com o devido cuidado, tem muito a dizer. Acabou se tornando um de meus favoritos. Seus contos trazem sempre uma originalidade que está longe de ser de forma, mas de conteúdo – a força psicológica de seus relatos sempre impressiona e não se vale de nenhum pseudo-vanguardismo do tipo ausência de pontuação e fragmentação de pontos de vista para jogar areia nos olhos de ninguém.

A crítica se dividiu quanto ao filme. Roger Ebert, crítico respeitável e muito lido, gostou. Vincent Canby, do New York Times, achou-o “o mais sedutor e o mais hipnótico dos filmes de Bertolucci”. Outros, como Pauline Kael, acharam-no tedioso.

Em geral, o comum foi o espectador anônimo achar que o filme era mesmo uma chatice, tratando de “dois inúteis perdidos no deserto”. Posso compreender essa aversão. Kit e Port Moresby são um pouco o símbolo de uma América tão opulenta que pode ter, entre seus filhos desgarrados, gente rebelde e chique a ponto de trocar todo o conforto e civilidade pelo deserto da África do Norte, com suas misérias, doenças, seu primitivismo intratável. É natural que isso pareça excessivo, esse ócio de “frescos” bem alimentados, ricos, que, a qualquer momento, podem ser resgatados de suas aventuras no Terceiro ou Quarto Mundo por alguma providencial embaixada norte-americana.



Grandeza incompreendida: o colonialismo cultural


Pois, na minha revisão, topei com um filme de que, decididamente, mal me lembrava. Tem uma grandeza incompreendida, essa produção, e é uma grandeza tão óbvia que a incompreensão me deixou um tanto perplexo.

Primeiro: dois atores ótimos, escolhidos com perícia para os papéis principais, John Malcovich e Debra Winger. Difícil imaginar atores melhores, tanto que Campbell Scott, no papel do inseparável amigo Tunner, deixa a sua fraqueza de ator completamente exposta, por contraste. A fotografia de Vittorio Storaro (fotógrafo de alguns filmes de Visconti e de “Apocalypse Now”, de Coppola) é magnífica. Percebam como, jogado numa cama do quarto daquele hotel, languidamente, Malcovitch está aninhado sob uma luz alaranjada-ígnea que vem da rua e torna o seu canto um cubículo infernal, não menos. Ele se aninha no Inferno, naquele calor que sentimos que deve dominar Tanger, a cidade onde estão. Essas luzes e sombras de Storaro dão ao filme uma organicidade muito forte, muito fiel ao mundo literário de Bowles. A fotografia, decididamente, é um dos personagens desse filme.

Claro que isso não fica muito claro para o público em geral, mas o casal Kit e Port, inspirado em Jane e Paul Bowles, carrega aquele mal-explicado Tunner como um elemento de “ménage à trois”, por suas predileções bissexuais. Bertolucci não enfatiza, mas não escamoteia isso, e Kit carrega um livro de Djuna Barnes (ver na abertura) em sua mala, o “Nightwood”, o que revela sua abertura intelectual. Autora de peças teatrais, mulher liberada, novaiorquina, com o marido compositor de vanguarda, a verdade está lá, e Bertolucci não cai na vulgaridade de escancará-la.

“O céu que nos protege” vai nos presenteando com sutileza após sutileza, e precisa de espectadores sofisticados, ou se estiola (o que as bilheterias escassas confirmaram). Ele desvenda o colonialismo cultural e a impossibilidade de comunicação entre mundos tão diferentes de um modo que não satisfaz aos apetites dos espectadores meramente “voyeurs” ou turísticos. Veja o outro “casal”, paralelo à trajetória de Kit e Port, que se desenha: os Lyles, com uma mãe feroz, autora de livros de viagem, e seu filho gordo, desmunhecado, pateticamente dependente, cleptomaníaco e Édipo esmagado. São ingleses detestáveis, e a gente nem sabe o que fazem naquele fim de mundo, que o tempo todo criticam, com amargo sado-masoquismo – o filho até se oferecerá, com aquele corpo grotesco, para Port, para, rejeitado, ao menos roubar-lhe o passaporte...A mãe é uma megera completa. E a atitude deles, de desprezo total aos nativos, é só uma explicação mais completa, definida e antipática do colonialismo mais complacente e escapista que está no espírito dos “viajantes” norte-americanos Kit e Port. Bertolucci está lúcido o tempo todo, entendendo muito bem a questão colonialista que ali se ergue.

O deserto, no cinema americano, no imaginário popular que se criou a partir daí, não é de modo algum o Deserto dos ascetas, o deserto implacável, intolerável, esmagador, que sabemos ser, em realidade. Está mais para aquela incrível fantasia kitsch de “O jardim de Allah”, velho filme de Marlene Dietrich em que ela faz uma ricaça em busca de conhecimento (ou passarela de moda?), que desfila roupa após roupa sobre os camelos, sem que nenhuma brisa ou ventinho que seja lhe desfigure os cílios e a maquilagem imaculada.

Mas, indo mesmo para uma produção mais sofisticada e recente como “O paciente inglês”, o que se tem é o glamour daquelas tomadas aéreas em que as dunas são extremamente sedutoras, de uma beleza de tirar o fôlego. Essa beleza, naturalmente, está lá, e Vittorio Storaro precisa dela, mas a sensação para o espectador é bem menos confortável. Mesmo com Kit tendo perdido o marido e se entregado (no que parece uma fantasia romântica feminina com o “sheik das Arábias” que vai de Rodolfo Valentino ao Omar Shariff de “Lawrence da Arábia”) ao chefe de uma caravana de beduínos, o terror da incomunicabilidade está lá.




Não há consolos escapistas – aquilo é esmagador, e está bem clara a razão de a primeira cena dessa produção ser um homem de ponta-cabeça. Apavorada com a morte do marido (e já se viu cena mais atroz que aquela em que Port uiva na mão dos médicos, esperneando feito animal, pelo tifo que o consome?), é muito lógico que Kit sinta que não lhe resta mais nada senão entregar-se àquela caravana, nada entender, nada falar, apenas cair num torpor absoluto. É inesquecível a cena em que, perdida naquele forte onde parece haver uma única pessoa falando francês, a areia do deserto constantemente entrando pelas frestas, tenta ajudar o marido em sua febre delirante, vagueia como uma criatura absolutamente perdida, apalpa o Nada em todas as direções: de um lado, o marido e a Morte, de outro, o Desconhecido completo...

O público dificilmente mergulha nessas viagens de niilismo, e as traduções cinematográficas do desespero e do “choque de culturas” encontram sempre escassa receptividade. “O céu que nos protege”, poético e belo, é acusado de monotonia, quando o seu assunto é, pasme-se, precisamente o que essa monotonia incompreendida abriga. Naturalmente, um filme como “O paciente inglês” será sempre mais palatável. Ou pode-se ficar com aquela África à medida do deslumbramento turístico que “Entre dois amores”, de Sidney Pollack, com Meryl Streep, oferecia. As escolhas “normais” são essas, geralmente. Diretores mais artísticos e comprometidos, por sua liberdade e sua coragem existencial, são sempre punidos pelo público vingativo com o insucesso.


Cenas do filme



Rever “O céu que nos protege” nos dá algumas lições importantes, por causa disso. Paul Bowles foi um grande escritor (ele aparece, em carne e osso, ao início e ao final do filme, no café de Tanger) e hoje em dia é menos lido. Mas seus contos soberbos me acompanharam, em alguns anos, e senti vontade de relê-los, revendo o filme. E os que conhecerem “O céu que nos protege” só agora sentirão vontade natural de saber quem é ele, desde que tocados pelo filme. Que, realmente, é uma produção para “gatos pingados”.

No entanto, sabemos que na cretinização geral a que estamos submetidos, pela indústria cultural, gatos pingados são os únicos que ainda possuem pedigree.


Chico Lopes é autor do romance "O estranho no corredor", debatido no clube de leitura em 3/5/2013

O texto acima integra o livro de ensaio ainda inédito: "Amar e Morrer no Cinema - Cadernos de Cinéfilo"


3 comentários:

  1. Chico , seu comentarios, fundados ou não, (não conheço a obra) mas muito bem escritos,argumentados, despertam nos leitores, vontade de ler e ver a obra,O livro está em votação no CLIc_Face. Um comentario logo me chama atenção, a incompreensão pela vida do escritor, por sua obra. A frase de Nélson se concretiza: a opinião da maioria é burra, é no que podemos pensar, na maioria das vezes.
    Tomara fazer parte dos "gatos pingados",pois estou confiando nas suas palavras.
    Um abraço,
    Elô

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  2. Ótimo texto, Chico! Você esclareceu bem a sua visão do filme e do livro, como também soube criar interesse pelas dias obras nos leitores - pelo menos em grande parte deles, espero. Seus argumentos não precisam provar que tem razão sobre o que defende, mas mostram que tem uma visão mais profunda e arguta do filme e do livro, além de revelar por que as tem.

    Um abraço!

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  3. Vi o filme duas vezes. É, simplesmente, belo. Debra Winger está um espetáculo, Malkovich é aquilo que sabemos, a atriz que faz a inglesa insuportável, cujo nome esqueci, brilha nos seus momentos e a fotografia entra com grande participação naquela beleza toda. A fotografia é pura arte. Não entendo porque o filme não foi um estrondoso sucesso, talvez o Chico tenha mesmo razão. O livro de Bowles deve ser lido, é fascinante como o filme, uma dessas raridades em que filme e livro quase se equivalem, eu escrevi quase. Comparo a falta de receptividade de "O céu que nos protege" com outro grande filme: "Barry Lyndon", de Kubrick, que também não foi sucesso de público. Parabéns ao Chico pela análise sempre boa.
    Carlos Rosa Moreira.

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