CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de junho de 2013

Entrevista com o Concièrge do CLIc: Mr. EPA

By Rita Magnago

ENTRE LIVROS E LEITORES


Polêmico, dedicado e bem-humorado, o mediador do Clube de Leitura Icaraí, Evandro Paiva de Andrade, apelidado "concièrge" após a leitura de "A elegância do Ouriço", de Muriel Barbery, dá a sua visão sobre livros e leitores e declara ao melhor estilo bombástico: 

"Na verdade, não tenho interesse em livros"



Qual foi o livro que mais o impactou entre todos que você já leu?
Não sou leitor de apenas um livro e um autor. Livros são alimentos para mim e os autores são criadores dessas poções mágicas transformadoras que são os bons textos. Bons autores são aqueles que sabem a fórmula para criar esses alimentos capazes de impactar nossa vida.

Descontraído, exercendo a arte
da dramaturgia
Como você considera cada livro que lê e de que forma eles mexem com você?
Cada livro que leio é um fragmento do único livro que vou construindo no conjunto de minhas leituras. Daí a importância de um clube de leitura para mim. Vou encontrando pedaços de mim em cada livro e reverberando sua compreensão através das mentes de outros leitores.

Sou um outro observado por mim mesmo a cada novo livro que leio. Se um livro não me transforma, para quê ele serve? Entretenimento? Tem coisa melhor do que ler para entreter-se, por exemplo, experimentar na prática o que um bom livro suscitou, de novo, em você?

Você costuma reler livros?
Faço pouca releitura, talvez porque ainda não chegou a hora de revisitar impressões passadas. Ainda estou colhendo as novidades existentes, tem tanta coisa pra ler antes de completar o quadro daquilo que considero que vai direcionar a minha busca das leituras feitas.

Acho que quando empreender essa grande revisita do que aprendi nas leituras realizadas, o impacto será muito maior, porque estarei reencontrando pedras preciosas que saberei atribuir o devido valor que elas têm no conjunto da obra. Não vejo a hora de recomeçar!


Você acha que algum dia considerará que esse livro formado de tantos livros estará concluído? Como será então?
Ainda não sei exatamente o que será e o que não será importante para mim, leitor, a partir dessa nova perspectiva que terei quando o único livro que leio for dado como encerrado, nem se e quando isso ocorrerá, o que não quer dizer que não lerei mais nada novo a partir daí, mas certamente priorizarei as releituras.

Sobre os livros lidos pelo CLIc, costumam te impactar?

Vários livros que li no CLIc me impactaram enormemente, incluindo aí leituras bem recentes, para contrariar quem anda dizendo que não lemos mais bons livros no nosso clube de leitura. É aquela velha história: bom pra uns, ruim pra outros, e vice-versa. Aliás, estive em reuniões memoráveis no Clube! As melhores, para mim, foram aquelas que as opiniões dos participantes divergiram. As piores foram aquelas em que todos concordavam que o livro era maravilhoso e que, de certo modo, arrefeceu o potencial criativo do texto.

O que um livro precisa ter para ser determinante em sua vida?
Ele precisa arrebatar-me, acossar-me, indignar-me de forma positiva. Sou um devorador de ficção, uma máquina de transformar ficção em consciência do mundo em que vivo. O dia a dia é um poderoso dínamo catalisador dessa transformação.

Qual o seu maior objetivo no Clube de Leitura?
Não estou no Clube para ler os livros de minha preferência, mas para ler os livros que meus companheiros de leitura querem ler, porque creio ser essa a melhor maneira de aprender quem são essas pessoas que se tornaram minhas amigas de forma gratuita, que eu provavelmente não teria conhecido se não fosse a partir do interesse por literatura.

Na verdade, não tenho interesse em livros. Meu interesse é pelas pessoas, pela vida e pelo mundo em que vivo. Os livros são a melhor maneira de remexer tudo isso. O mais importante é a leitura. Por isso somos um clube de leitura, e não um clube de livros. O mais adequado, na minha opinião, seria “clube de leitores”, mas isso poderia ser mal interpretado nesses tempos de redes sociais acachapantes.   



Você está convidado a continuar a entrevista através do campo "Comentários" deste post. 
Aproveite. Mr. EPA está na berlinda.

23 comentários:

  1. Mr. Epa, você diz que seu interesse está nas pessoas, não nos livros. Eu pergunto: que gênero, qual tipo de leitura, que mais o desperta para as pessoas, mais leva você para perto delas?
    Carlos Rosa

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  2. Adoro enxergar nas pessoas os livros que elas leram. De certa forma, as pessoas também resumem em si as leituras que fizeram. É muito bom ler livros que percebemos o valor através das interpretações que outros fizeram deles. São paralelos que enriquecem nossa compreensão do texto.

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  3. Mr. Epa, ataco outra vez: Como você definiria Literatura? Qual a grande qualidade que considera que ela tem?
    Carlos Rosa.

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  4. Caro Evandro,
    Excelente entrevista! Parabéns aos dois: entrevistado e entrevistadora. Depreende-se, de suas respostas, que não poderíamos ter melhor Coordenador "Concierj", como preferirem, para nosso Clube. Alguém que ama os livros e que, através das leituras e respectivas interpretações dos companheiros, procura conhecê-los melhor. Gosto da forma pela qual você pensa o ato de ler.
    Mais uma vez, Parabéns!
    Elenir

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  5. Prezado Carlos, essa é uma inversão estrambótica: um escritor pergunta a um leigo o que é Literatura. Como poderei explicá-la clara e brevemente? Como poderei apreender, mesmo só com o pensamento, para depois traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que a Literatura? Quando dela falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dela nos falam. O que é, por conseguinte, a Literatura? Se ninguém me perguntasse, eu saberia; no entanto, se quiser te explicar, já não sei.

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  6. Olá Elenir, você com a sensibilidade que Deus te dotou, apreendeu algo muito verdadeiro em minhas palavras, que embora eu não me interesse pelos livros, eu os amo, com um profundo amor desinteressado. Com você, por exemplo, eu descobri a poesia!

    Obrigado por tua amizade!

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  7. Olá Héldice, querido irmão, você declara que não busca nunca "lugar comum", que existe dentro de você uma pergunta que não quer se calar. Você relembra a casualidade dos encontros que temos em nossa vida, e destaca o fato da gente ter se reencontrado depois de 30 anos sem nos vermos, aqui no CLIc, virtualmente, por enquanto. E pergunta, se o suposto "GRANDE LIVRO" que imagino escrever virá apenas em um volume, ou será numa coletânea com variados temas?!?! Eu sei que não pode ser uma cobrança, até porque você sabe a resposta: busco nos livros a mesma beleza da vida, do mundo e das pessoas que foi fruto de nossas conversas na adolescência e o resumo será, muito provavelmente, uma história infantil.

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  8. Mr. Epa. Obrigado pela resposta, mas não se esqueça de que isto é uma entrevista, portanto, as perguntas consideradas básicas como a feita por mim, devem ser feitas. Lembre-se de que, aqui, eu não sou escritor, sou interessado em conhecê-lo e saber suas opiniões e ideias. Mais, numa entrevista, o "perguntador" ou entrevistador, não pode pensar em si, mas em todos os leitores da entrevista. De qualquer forma, embora pareça básica, a pergunta sobre o que é Literatura provoca respostas bem interessantes, pois é a opinião pessoal do leitor e/ou escritor. A pergunta, numa entrevista, muitas vezes precisa ser uma provocação; às vezes no bom sentido, como essa que eu fiz; às vezes mais maliciosa.
    Um abraço. Carlos.

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  9. "Adoro enxergar nas pessoas os livros que elas leram"...
    Profunda resposta,adorei!
    Bem a "cara" do nosso amavel concierge.
    Meu abraco lusitano.
    Dentro do possivel, estou ligada em voces.
    Vera Lucia Schubnell Freire.

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  10. Obrigado pelo "amável", Vera! A gente geralmente fala daquilo que o coração está cheio e o teu, todos sabemos, está pleno de ternura.

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  11. Evandro, vc é mesmo de peixes, nada bem, foge bem de perguntas que não quer responder.Serei bem objetiva.Cte três livros lidos no CLIc que levaria para uma viagem bem demorada, para uma ilha sem livrarias.Explique, por gentileza, por que motivo os escolheu.

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  12. Para uma viagem bem demorada numa ilha sem livrarias? Levaria "Madeira de Lei" de Camilo José Cela, para ouvir ecos ancestrais de minha alma galega; "Pomar de Família" de Nomi Eve, para reviver a vida que vivi até então; e Ulisses de James Joyce, para planejar meus próximos 20 anos de errância existencial.

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    1. Quero aproveitar, então, para responder o comentário acima do Carlos Rosa e definir literatura de maneira bem superficial. Literatura, para mim, à la Sidarta, seria a experiência viva que nos liberta de doutrinas inúteis.

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  13. Salve, Concièrge. O CLIc está completando 15 anos com pleno sucesso e achei esta entrevista muito oportuna e merecida. O êxito do Clube é, sem dúvida, uma obra que tem o seu toque pessoal, seja como organizador, seja como incentivador das leituras e das iniciativas que vieram agregar, como o blog, o Twitter, o FB, etc. Hoje, além de um leitor voraz, você é um administrador desse verdadeiro "universo Cliciano"... Seriam dois universos paralelos em sua mente - os personagens dos livros lidos e nós, os personagens-leitores? Será que eles se encontram às vezes? Como dizem por aí, será que às vezes a realidade é mais rocambolesca do que a ficção?...

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  14. Olá, novaes/, você tocou num ponto crucial das minhas dificuldades como mediador no CLIc. Para mim, são dezenas, centenas de universos paralelos que se conectam pelos portais de nossos atos. Cada pessoa é um desses mundos nos quais devemos ter cuidado para acessar por seus melhores sítios, onde elas guardam consciente ou inconscientemente o que há de melhor em si, e que nem sempre conseguem demonstrar. Temos no CLIc a singular oportunidade de encontrar pessoas e personagens e creio que devemos ser atenciosos com uns e outros, porque não captamos senão uma pálida imagem do que elas realmente são.

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  15. Valeu, Concièrge, excelente resposta. Abs!

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  16. Mr. EPA, boa noite!

    Quero ir direto à questão: quem escreverá o livro das histórias do CLIc, ou seja, as que acontecem nos bastidores? Ou esse livro seria impublicável? rs

    Abraços!

    Sonia Salim

    Obs.: O livro de 15 anos do CLIc não está no cerne da pergunta.

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  17. Olá Sonia, esse tipo de histórias não se escreve, criptografa-se! E aí, você sabe, como não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz, esse livro já existe e cada um de nós faz uma leitura diferente dele. Todas as ficções são bem vindas! Qual é a sua ficção? Vamos escrever esse livro?

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    1. Vamos, sim, Mr. EPA! A Equipe CLIc é excelente e com o maravilhoso trabalho da Cintia, então, não há quem segure o Clube de Leitura em outras obras que poderão despontar. As ideias vão se organizando à medida que vamos caminhando. Avante!

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    2. Pois é, Sonia, vi um protótipo do livro comemorativo dos 15 anos do CLIc essa semana e meu nome aparece como um dos organizadores. Achei super merecido, porque a ginástica que estou fazendo para não deixar a Cintia ferver com os problemas de diagramação do livro, só mesmo com muito amor... também pela literatura, pelo CLIc, pelos cliceanos, evidentemente!

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  18. "A experiência viva que nos liberta de doutrinas inúteis", boa definição seu Epa. Vou sapecar entre as outras boas definições que tenho. Aliás, qualquer hora dessas vou ler "Sidarta", pois ainda não li. Espero não mudar a vida agora que me tornei idoso.
    Um abração.
    Carlos Rosa.

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    1. Não posso deixar de parabenizar ao Newton pela pergunta, ao Concièrge pela magnífica resposta sobre as dificuldades de um mediador. Que sua experiência seja-nos relatada para que nossa leitura de mundo se ammplie.Lidar com diversas persoanlidades, é uma grande arte, que exige acima de tudo paciência, e a sua, nos parece ilimitada. Parabéns por conduzir este Clube tão bem e sempre arejá-lo criativamente com seu humor e alegria!
      Eloisa Helena.

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  19. Bem dito, Evandro, sobre o "Sidarta": "seria a experiência viva que nos liberta de doutrinas inúteis". É um livro fantástico! Ele e "Demian", também do H. Hesse, são dois dos livros que mais presenteio a amigos.

    Sobre suas respostas acima, você respondeu muito bem a tudo. A Literatura é mesmo uma ótima forma de conhecer pessoas, seja através de suas linhas, seja como mediadora entre nós e outros leitores.

    Parabéns pelo seu trabalho no clube que, apesar de eu ser novo aqui, já percebi que é muito estimado.

    Um abraço!

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