CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

25 de junho de 2013

A coroa “intelectual” (CRÔNICA)

(por W. B.)

Ricardo chamou Jão e eu para participarmos dum grupo literário. Jão nem gosta de literatura, mas topou, porque curte grupos de tudo quanto é tipo: é um cara gregário por natureza. Além disso, é um entusiasta do livre-pensar, do livre-agir e do livre-qualquer-coisa. De minha parte, não me animo com quase nada, daí objetei logo:

–Mas, Ric, sua praia é poesia, eu gosto só de romances e contos, e Jão é ligado em política. A gente nem vai ter o que discutir.

Ricardo argumentou que a sogra dele era uma amante das letras, que estava organizando os encontros literários na casa dela, chamando gente interessante, oferecendo um lanchinho legal...

Aceitei. Peguei uma água de colônia que ganhei e – como detesto perfume – resolvi dar para a sogra do Ric (afinal o troço ainda tava até embaladinho). Jão se sentiu obrigado a levar algum presente também. Correu até em casa e trouxe um livro.

– “A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos”!? Pô, Jão!

– Ué, Ric, ela não é amiga das letras? Esse é um clássico do Anarquismo, escrito por José Oiticica, um livro de grande importância, não só para o meio operário e camponês, mas também para...

– Certíssimo! – abreviei. – Vamos logo no tal encontro.

Fomos. Lá já estavam a sogra e a mulher do Ricardo. A sogra abriu o embrulho da água de colônia e, numa gentileza – nitidamente falsa –, elogiou a fragrância (“Huuuum, que cheiro bom”). Quando ia receber o livro, abriu um sorriso branquíssimo (rolou branqueamento artificial ali, com certeza), mas logo fechou a cara quando deparou com o título.

Cheguei a ouvi-la murmurar baixinho: “Ao alcance de todos... humpf!” Não sei se Jão escutou, mas me pareceu que ele – chateado com a desfeita – achou melhor se afastar da mulher e se entreter examinando uma estante com volumes de História. Aliás, a casa era enorme e tinha livro pra caramba.

Fiquei olhando uns romances numa prateleira e deu foi vontade de ficar só ali num canto, lendo. Mas logo a velha chamou para a “discussão literária”. Pegou umas anotações e começou a falar duma peça grega (acho que é grega) chamada Antígona. Jão fez prontamente um trocadilho infame dizendo que a peça era muito antiga mesmo, antigona... Ric ficou com o rosto vermelho, envergonhado. A mulher dele esboçou um sorriso, mas depois disfarçou e ficou séria. A sogra é que foi pior, fez uma baita cara de raiva. Mas depois dum tempinho se refez e voltou a ler as anotações, falou, falou, falou, mas não captei quase nada: meu pensamento voou até um conto que eu estava escrevendo na época, depois perambulou junto com meu olhar pelas estantes da sala e vez por outra pousava na beirada da piscina (Ah, como seria bom dar uns mergulhos!).

No meio daquele blá-blá-blá sobre Antígona, as pessoas beliscavam bolos, salgadinhos, bebericavam chá... Notei uma garrafa de licor dando mole e logo a ataquei (discretamente, claro, mas com minha costumeira obstinação em tudo que faço).

Logo já estava em condições etílicas de vencer minha timidez. Na primeira pausa que a coroa deu, disparei:

–Olhe, eu acho o seguinte, se esse é um grupo literário, não faz sentido discutir teatro, pois teatro não é literatura: é outro tipo de arte. Mesmo que o texto teatral fosse uma espécie de literatura (tem gente que acha isso), mesmo assim não teria por que a gente ficar discutindo esse treco... A gente deveria é escrever nossos próprios textos literários em casa, enviar pros outros membros do grupo e, depois que todo mundo tiver lido, marcar outro encontro só para opinarmos sobre os escritos uns dos outros. Assim dá para fazer algo de útil: nos ajudarmos mutuamente a melhorar nossos textos.

–Foi exatamente isso que eu propus – disse a mulher do Ricardo.

Daí a dona da casa começou uma discussão com a filha dizendo que se ela concordava com aquilo, então não gostava de “literatura de verdade”. Ricardo tomou as dores da esposa. E começou o maior bate-boca. Jão foi se refugiar perto da estante de livros sociológicos. Eu me afastei – junto com a garrafa de licor, óbvio. E voltei à prateleira de romances que avistei ao entrar na casa. Foi aí que – putz! – me deparei com o romance “Trópico de Câncer” do Hernry Miller numa embalagem lacrada. Pela etiqueta de compra dava pra ver que já tinha sido adquirido há mais de um ano. (O exemplar que eu tinha ficou com minha ex-mulher. Caraca, quanta saudade senti... do livro, não da mulher.) Fiquei tentado a enfiar o romance embalado dentro da minha bolsa peruana. Ninguém iria ver... mas minha consciência me acusaria para sempre. Bebi mais uns copos de licor, mas só tomei coragem para abrir a embalagem e ler um pouco ali mesmo, antes de virem me chamar para ir embora.


No ônibus, eu e Jão conversamos sobre tudo aquilo.

–Pelo menos bebi um bocado e li bastante Henry Miller. Aliás, parece que a coroa “intelectual” não gostou do presente que você deu para ela – falei.

– Também notei, cara. Por isso, assim que ela deu mole, enfiei de volta o livro na minha mochila – disse Jão me mostrando o seu “A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos”.

Logo me escandalizei:

– Que isso, cara!!! Você roubou de volta o seu livro?!

– Roubo, não: expropriação revolucionária!

Esses caras da esquerda são fogo. Mas bem que eu gostaria de ter pegado o romance do Hernry Miller.

8 comentários:

  1. Delícia de texto! Por coincidência estava tomando um cointreau e avistei meu trópico de câncer na estante logo acima do computador. Época propícia para ler Henry Miller, já que foi nessa semana mesmo que o sol bateu no trópico de câncer e começou sua viagem de volta pelo zodíaco.

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  2. Crônica das boas. Quanto ao Henry Miller, sugiro "Dias tranquilos em Clichy". É um livro de leitura rápida, é verídico e tem a marca registrada de H. Miller. Parabéns ao Winter pelo texto, muito bom, gostoso de ler e bem real.
    Carlos Rosa.

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  3. Caro Winter,
    Parabéns pelo conto! Leve, saboroso,irônico, real, enfim, traz a marca de um grande escritor.
    Elenir

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  4. Salve, Winter. Adorei sua crônica. O bom humor sempre me encanta e o texto além disso é inteligente, bem articulado, tem uma linguagem estimulante que atiça o leitor. Parabéns!

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  5. Winter, adorei o seu texto. Essa atmosfera de crônica-conto me agrada bastante. Também me agradaram bastante as doses de humor, bem na medida. Parabéns, Winter, é sempre bom ler seus textos.

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  6. Uma entretida homenagem do Winter à coroada do nosso grupo literário.

    Aguardo os acontecimentos do segundo encontro dos personagens, apesar do bate-boca que houve no final do primeiro. Não podemos esmorecer.

    Parabéns ao Clube de Leitura Icaraí por sobreviver a seus personagens!




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  7. Parabéns pela crônica. Ótima! Parodiando o Antonio, com a dose de humor na medida certa. Leve, como as crônicas bem-humoradas devem ser.

    Um abraço!

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  8. Saborosa crônica-conto Winter! Bem-humorada, leve, com personagens bem caracterizados. Muito bom! Parabéns! Que pena que o narrador não foi revolucionário o bastante para fazer a sua expropriação! Seria merecida! rsrsrs...

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