Uma pequena ostra
uma pequena abertura na ostra pequena.
Vejo o macio
sinto o escuro, o sinistro
o oco e a possível, improvável pérola.
Não posso pensar em caçar se quero encontrar.
O encontro é um acaso
ocaso.
Quero a aurora.
Não sei nada
e isso é tudo.
Incognoscível é a palavra que escolho
porque todas são nenhuma.
Não há letra nem sílaba
nem combinação que traduza a palavra não dita
a palavra que não se sabe, mas está lá
latente, latindo, mordendo a ponta da ostra
cansada de ser osso
ansiosa da carne rósea e macia
do lábio que não se diz.
Ainda.
Pra dentro da boca me levo
me engulo, engasgo
regurgito a palavra trabalhada
por dentro da alma condoída, corroída.
Não é fluxo, é re-fluxo.
Não é poema, é floema.
É na troca que me faço orgânica.
Desfaço pesticidas de pele.
Sem superfície.
A endoderme à mostra
Amostra de dentro da ostra
da dor, do re-torcer, do re-fletir.
Quem vai parir a pérola?

A formação da ostra demanda tempo, algo precioso nos dias atuais.
ResponderExcluirLindo poema, Rita Magnago! Parabéns!