CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de março de 2017

Tudo pode mudar… de repente!


Excelente livro do nosso colega cliceano Daniel. Narra a saga de uma família com suas lutas, a coragem e a tenacidade ao imigrar para o Brasil no tumultuado século passado. Exemplo que bem pode representar o caso de muita gente que precisou se adaptar às novas condições de vida em terras tropicais. São textos sensíveis e autônomos que vão nos envolvendo intensamente ao longo da leitura. Daniel faz um poema de cada situação da vida de uma família com fortes valores humanos.

Ser estrangeiro: a eterna questão do preconceito, da necessidade de discrição para não se fazer notar. Talvez uma das mais recorrentes lições da sábia família retratada no livro seja motivada pela história de perseguições do século XX, o que exigia dos imigrantes moderação e sobriedade no falar, vestir-se e comportar-se. Comedimento era palavra de ordem. Daniel apresenta um panorama esplêndido da formação do povo brasileiro a partir dos processos migratórios que ocorreram.

Na apresentação que faz do livro, o cineasta Sylvio Tendler constata a universalidade do drama humano abordado. Quando o narrador conta a história de seus pais, o faz a partir do que são os rituais do cotidiano de grande parte dos grupos de imigrantes que cruzaram os mares fugindo do horror das guerras do velho continente. A certa altura, suspeita-se que o segredo das famílias que venceram o desafio, em maior ou menor grau, é revelado: “rigor e afeto bem dosados”, cumplicidade e solidariedade no sofrimento. “O calar-se era o respeito de cada um ao perceber a dor do outro.”

Os rituais domésticos à mesa, as orações, as tarefas, a disciplina, a higiene, etc., proporcionam uma radiografia da família, a intimidade entre os membros fortalecida pela solidariedade, pela proteção e o afeto mútuos, pela educação para o mundo e para a vida. “O brilho nos olhos dos pais eram a memória de outros tempos vividos e eram, também, os tempos de agora, o eterno momento vivido agora”. O agora é o melhor momento da vida, sem igual, é preciso acreditar nisso.

O narrador reincide inúmeras vezes naquilo que parece caracterizar sua tradição pessoal, a figura da mãe reinando soberana nos domínios do lar, na educação dos filhos e nas relações familiares. O marido submetendo-se, como bom e fiel companheiro, ao seu protetorado doméstico. Ele afirma que a mãe sustenta a sua dignidade apesar da crueldade de oferecer a troca de qualquer um de seus outros quatro filhos pelo filho preferido, quando este é convocado para a guerra. “Pode sortear entre meus quatro outros filhos. O sorteado servirá à Pátria conforme o seu desejo”, ela diz para o major das forças armadas. Imagino o que passou pelo coração dessa mãe, uma terrível escolha.

A problemática do sexo, suas pulsões e inibições potencializada num ambiente coletivo, é abordada de maneira objetiva e nos remete ao intemporal embate entre o público e o privado. A masturbação se mostra uma via para o autoconhecimento. “A masturbação coletiva na calada da noite aumentava o brilho dos olhos na escuridão, assemelhando-se ao brilho do luar. Mantinham o silêncio e a privacidade como as batidas abafadas dos corações.”  

Realmente um texto com incrível poder literário, que nos seduz pelo ritmo poético das palavras, arrebatando-nos em seu fluxo melódico. A editoração é super caprichada, um projeto visual pensado e sentido nos mínimos detalhes. Simplesmente profundo, de uma leveza que nos sustenta em seu livre planar de emoções. Escrita musical gravada numa singela pauta que se desdobra “até o infinito em emoções harmônicas e desarmônicas, que mesmo um belo texto literário não poderia descrever. O coletivo inscrito nas individualidades de cada ser”. Uma maneira muito legal de se contar uma história, que na verdade retrata incontáveis histórias, atrelando pequenos trechos pela correlação de suas ideias chaves, em que um contexto vai se formando a partir das experiências pessoais de cada leitor, como num tecido formado a partir de seus retalhos.



O que se percebe, ao final do livro, é que o destino estrangeiro não é apenas o porto de chegada dos imigrantes. Ele é também o destino de todos nós, homens e mulheres peregrinos de nossa própria existência, cada qual a seu modo construindo sua própria história… de repente!



3 comentários:

  1. Um debate sobre "destino estrangeiro" no CLIc seria uma espécie de revival de "Daniel na cova dos leões", principalmente depois de debatermos o livro dos lobos.

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  2. Por isso a minha admiração irrestrita ao meu avô polonês e meu bisavô dinamarquês que também vieram para estas plagas desconhecidas a fim de dar início a uma nova vida

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  3. Me parece ser uma excelente escolha.Como venho, por parte de avós paternos, de uma família de imigrantes, gosto muito desses relatos.
    Beijos ternos aos amigos do Clic.

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