CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

26 de novembro de 2016

Trecho extraído do livro do Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros


Helene Camille, uma das escritoras que contribuiu com o livro do CLIc


Em "Não Contem com o Fim do Livro", Jean-Claude Carrière e Umberto Eco travam um gostoso debate com Jean-Philippe de Tonnac sobre nossas bibliotecas particulares, onde se compara livros a bons vinhos. Não raro, ouvimos donos de grandes bibliotecas particulares (quando não nós mesmos) lamentarem-se pela ausência de tempo hábil para a leitura de todos os seus livros. Para Carrière, Eco e Tonnac devemos consumi-los sem pressa! Segundo os escritores estas bibliotecas, são garantias de um saber. São espécies de adegas, onde o prazer não está em beber tudo, mas saber poder selecionar as melhores safras, sempre que desejável ou deixar aprimorar uma garrafa e ter a surpresa de encontrá-la anos depois, quando finalmente se desejará consumi-la (ou não). Este tipo de visão desobriga o leitor de ler porque é novo, porque acaba de ser publicado.

"Jean-Philippe de Tonnac: Em todo caso, vocês conseguiram tirar definitivamente a culpa de todas as pessoas que possuem em suas prateleiras um monte de livros que não leram e nunca lerão!
Jean-Claude Carrière: Uma biblioteca não é obrigatoriamente formada por livros que lemos ou livros que um dia leremos, é fundamental esclarecer isso. São livros que podemos ler. Ou que poderíamos ler. Ainda que jamais venhamos a lê-los.
Umberto Eco: É a garantia de um saber.
Jean-Philippe de Tonnac: É uma espécie de adega. Não é recomendável beber tudo.
Jean-Claude Carrière: Também formei uma excelente adega e sei que vou deixar garrafas espetaculares para os meus herdeiros. Em primeiro lugar, porque bebo cada vez menos vinho e compro cada vez mais. Mas sei que, se me desse vontade, poderia descer à minha adega e enxugar minhas melhores safras. Compro vinhos en primeur. O que significa que você os compra no ano da colheita e os recebe três anos depois. O interessante é que, caso se trate de um Bordeux de qualidade, por exemplo, os produtores os guardam em tonéis, depois em garrafas, nas melhores condições possíveis. Durante esses três anos, seu vinho se aprimora e você evitou bebê-lo. É um ótimo sistema. Três anos depois, você em geral esqueceu que tinha encomendado aquele vinho. Você recebe um presente de você para você. É delicioso.
Jean-Philippe de Tonnac: Não poderíamos fazer a mesma coisa com livros? Deixá-los de lado, não obrigatoriamente numa adega, mas deixá-los amadurecer.
Jean-Claude Carrière: Em todo caso, isso combateria o chatíssimo "efeito de novidade" que nos obriga a ler porque é novo, porque acaba de ser publicado. Por que não guardar um livro "de que estão falando" e ler três anos mais tarde? É um método que uso muito com filmes.... "

(Não Contem com o Fim do Livro - Jean-Claude Carrière e Umberto Eco)






Um comentário:

  1. Adorei a comparação! Agora, poderei ler com calma, esperando a melhor safra.

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