CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de janeiro de 2017

O Destino estrangeiro segundo a Cliceana Maria Marlie



Maria Marlie
Não importa o tempo passado, após ler a dedicatória que você escreveu para mim, em que disse que o afeto era eterno. Digo que serei sua amiga para sempre, sem importar o passado, mas em razão do futuro, que nos fará ligados para sempre em afeto. Haverá o pacto firmado


Adorei o livro: primeiro, as lembranças de uma infância que já vai longe, figuras que se sobrepuseram ao ler seu livro, trazendo fatos e pessoas  de toda uma infância de amigos que frequentaram sempre o meu cotidiano e traziam em sua maioria, para a menina tão pequena que eu era, uma certa aura de encantamento. Seu Davi, um homem sempre vestido em ternos escuros, um chapéu e, pasmem, tinha um carro! De dentro desse carro, tiraria uma enorme mala, enorme para o meu tamanho de três anos e cheia de roupas e cheia de roupas lindas. Uma delícia” Lembro-me de minha mãe, usando um vestido bonito, para quando meu pai chegasse, à noite, e dissesse diante de seus filhos como a mãe deles estava deslumbrante. E outros nomes diferentes dos que eu tinha em minha família, como Moisés Tubenschlach, com quem fui ainda menina comprar a mobília de quarto, que tanto tempo sonhara em ter. Minha mãe queria pagar um preço – nove -, seu Tubenschlach dizia outro – dez –, e eu me desesperava, queria a minha mobília. Propus, então, nove e meio. O negócio foi fechado.

Seu livro  faz-me lembrar de um menino que morava perto de nossa rua e tinha o hábito de jogar futebol com meninas. Era certo que ele não tinha pressa para terminar o jogo. A mãe dele, na esquina, gritava: Maurício está ha hora"!  Os meus primos diziam: seu pai chegou,corre. É capaz do seu Shermann brigar com você. Corre!

Eu me lembro de outros cabelos ruivos que invejava. Regina e as outras meninas, duas ou três, que moravam na Visconde de Sepetiba. Lindas! Cabelos ruivos e crespos, diferentes dos meus quase castanhos e lisos.

Depois, veio a guerra. Acabou a guerra. Nos cinemas, eram mostrados horrores, os judeus eram os gringos, mas muito diferentes dos judeus amigos que conhecia. Tão diferentes dos filmes.

O tempo passou, cresci e passei a saber outras coisas. Eram judeus sim, os nossos amigos. Salomão e as irmãs, da família Rubens, os Grabier, os Grand, os dois nomes um pouco enrolados. Para melhor entendermos, ficaríamos muito tempo falando dessa gente que tão bem nos é apresentada e, ao crescer, vim a conhecê-los melhor. Na mocidade, já casada, seu Leon joalheiro, que trazia em casa fios de pérolas para eu usar. Eu era o que as pessoas chamavam de “mãe das pérolas”. Pérolas têm vida e morrem se não são usadas. E eu com o Dani fazia com que elas revivessem. Meu amigo Leon casou e teve duas lindas filhas. Um dia, partiu para Israel. Perdi de vista os amigos, mas não as suas lembranças. Toda vez que uso milhas pérolas, lembro-me do amigo por quem tenho um eterno afeto.

Seria capaz de contar muitas coisas que me ligam aos “gringos” em minha vida. Mas vamos aos feitos do seu livro, esse fazer diferente, capítulos curtos, com um título no final. Nunca tinha visto nada assim. As fases de fixação de uma família em terra diferente e, por causa disso, difícil. O tempo passou e foram se fixando. A mãe judia, hoje tão falada, me fez lembrar da minha, a família que formamos, o trabalho diário. Para isso, não há diferença na luta.

O tempo é curto, as reminiscências são muitas. Tentei falar da minha leitura na sua escrita. O comentário (se é que se pode chamar de comentário o que escrevi) foi feito com o coração. As lembranças desse povo que fazem do ventre materno a condição dos filhos serem judeus. Isso acho lindo e torna o povo judeu único e eterno.

Acho que tudo foi dito. Só me resta dizer obrigada por você ter escrito o livro.

                                                           Maria Marlie

(o nome é alemão, mas o nome do meu pai era Salomão, escolha do pai dele, que queria para o filho o nome de um grande homem)


Daniel Chutorianscy 
médico que sofreu AVC e fundou o Grupo AVC-PULANDO A CERCA



Um comentário:

  1. Olá, Daniel! Poderia confirmar o preço do seu livro que será tema do debate de Dezembro de 2015 do Clube de Leitura? E também não se esqueça de levar exemplares para que os Cliceanos possam adquiri-lo antecipadamente.

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