CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

20 de maio de 2015

Releituras





Em rápida reflexão sobre o quão delicado pode ser escrever sobre momentos que correspondem à vivência conjunta de distintos indivíduos (como os momentos do Clube de Leitura), uma palavra, a princípio desconfortável, me vem à mente: pastiche.

Na literatura, ou na arte, pastiche pode ser definida como uma imitação grosseira da obra ou do estilo de escritores, pintores, ou músicos. Etimologicamente, pastiche deriva do italiano “pasticcio” (ou “pastitsio”), um prato italiano com diferentes compostos a base de massa. Durante a Renascença, o termo era aplicado de forma pejorativa a cópias de obras de grandes pintores italianos, criadas com propósitos fraudulentos. Posteriormente, tanto na literatura quanto em trabalhos não-literários, como artes ou música, o termo passou a ser aplicado como uma técnica de imitação de estilo. Não mais necessariamente visto como plágio, mas, de forma mais respeitosa, como uma releitura.

No ramo da pintura, a releitura implica numa expressão da compreensão da obra, sem preocupações com semelhanças fiéis. “É o sentimento se aliando à observação na produção de um trabalho.” Um exemplo, é o espanhol Pablo Picasso (1881 - 1973). A despeito de sua criatividade e originalidade, Picasso, abusou das releituras. Quase como uma fixação, buscou, de modo incansável, inspiração em obras como "Almoço na Relva" (Dejeuner Sur L´Herbe), do francês Éduard Manet (1832 - 1883), criando 27 óleos e mais de 150 desenhos inspirados no original. Outro trabalho que encantou Picasso foi "Las Meninas", do espanhol Diego Velázquez (1599 -1660).


Esquerda: As Meninas, pintura de 1656, de Diego Velázquez. O quadro retrata a infanta Margarida Teresa de Habsburgo, filha do rei espanhol Filipe IV, acompanhada de damas de companhia e de outros serviçais, numa das salas do Palácio Real de Madrid. Há também um auto-retrato de Velázquez e reflexo do rei e da rainha num espelho atrás da infanta. Direita: Releitura da obra, feita por Pablo Picasso. Em 1957, Picasso havia pintado 58 versões de As Meninas.

Como técnica literária, o pastiche pode ser entendido como uma colagem ou montagem. Quase uma colcha de retalhos de vários textos. A imitação de um estilo literário, nem sempre é vista como grosseira.  Vide Fernando Sabino e Domício Proença Filho, que reescreveram Dom Casmurro, de Machado de Assis, em seus respectivos trabalhos: “Amor de Capitu” e “Capitu – Memórias Póstumas”. Já o romance “Em Liberdade”, de Silviano Santiago, é pastiche do estilo de Graciliano Ramos.
Interessante o que o Silviano Santiago disse de que escrever o romance foi uma espécie de estofamento dos dados e fatos que compilou sobre Graciliano.”
O exercício da releitura pode ser interpretado de diversas formas. Ela nem sempre é exercida. Como num ato de libertação, necessário à conclusão de um trabalho, muitos autores afirmam que não tem o costume de reler o que escrevem. Esta afirmação foi feita por José Saramago, em entrevista, e presencialmente compartilhadas por Gustavo Bernardo e Silviano Santiago, em suas visitas ao Clube de Leitura nas reuniões de janeiro e setembro de 2009, respectivamente. Ambos, utilizando palavras semelhantes afirmaram “Eu não me releio”.

O NÃO à releitura de suas obras, porém, parece não ser regra entre os mestres da literatura. Segundo Silviano Santiago, em conversa com o grupo, Graciliano Ramos não só releu São Bernardo, como o reescreveu.
Muito interessante saber que São Bernardo foi reescrito por Graciliano, em brasileiro, quando caiu-lhe a ficha de quão europeizado sua linguagem era.”
De fato, no posfácio de São Bernardo está registrado que Graciliano “escreveu à esposa que, quando terminou de compor o romance tratou de 'traduzi-lo' para 'brasileiro'...”, tamanha a preocupação do autor com o uso da língua portuguesa. E o romance, lançado em 1934, foi publicado várias vezes durante a vida do autor.

Para um tradutor, como Paulo Bezerra, por exemplo, o exercício de diversas releituras e auto-releituras deve ser quase obrigatório.

Segundo Nelson Rodrigues, "Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

No Clube de Leitura, houveram duas releituras: “Ensaio sobre a Cegueira” (lido em janeiro de 1999 e posteriormente em outubro de 2008), e “Lavoura Arcaica” (maio de 2002 e novembro de 2009). A simpatia do grupo por releituras é reflexo da própria essência que dá continuidade às reuniões: leituras compartilhadas.

Para muitos dos integrantes “as releituras, em geral, se constituem em outra leitura porque o leitor nunca é mais o mesmo.” Discutir um livro em grupo é uma espécie de releitura, pois ouvir as impressões pessoais dos outros leitores “significa estar desenvolvendo um novo olhar, através do outro”. E até mesmo filmes inspirados em livros podem ser interpretados como releituras:
O cinema é uma linguagem diferente, é quase um outro livro.”
Como diz Heráclito de Éfeso, ‘não se pode entrar duas vezes no mesmo rio’. Tenho aproveitado para ler algumas resenhas sobre 'Ensaio...' e estou perplexo com o que ainda não tinha ‘visto’.”
As reuniões do grupo também sempre fazem alguma referência à sua história. Sintomático também que a primeira leitura do grupo na universidade tenha sido de um livro que já fora lido anteriormente (O ensaio sobre a cegueira do Saramago), sinalizando que há leituras e re-leituras, que o ato de ler é também um ato político, que há texto e contexto que se interpenetram e se influenciam mutuamente etc.”
Tão verdadeira é a essência das leituras compartilhadas para os participantes do Clube de Leitura, que o próprio termo “colcha de retalhos” já foi empregado, em referência a síntese mensal feita pelo “concierge” após cada reunião:
A cada véspera de uma reunião mensal fico aqui a imaginar o encontro e as descobertas que cada um deve apresentar a respeito do texto, do autor e das entrelinhas que nem sempre são desnudadas... sobretudo, a interpretação de cada um, num pedacinho aqui e outro ali que o nosso Coordenador tão pacientemente coleciona num lindo emaranhado em forma de cesto. Depois ele tece com maestria, desata os nós, mergulha nos vossos discursos e gentilmente nos apresenta em forma de ‘relato’ aquela colcha de retalhos lindamente colorida e sofisticada,... Ele nos prepara para uma nova leitura. Trata-se de um costureiro! ... Cada retalho é uma palavra, uma emoção, uma leitura. Ele pega, cose direitinho com fio colorido, com agulha grossa e prepara tudo para a exposição.”
Ponho então a desconfortável conotação de pastiche de lado. Pego minha agulha, e respeitosamente tento montar mais uma ou duas releituras do Clube de Leitura. Obra infindável de vários autores, em seus encontros e reencontros, leituras e releituras.

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