CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

17 de fevereiro de 2014

Uma noite memorável (5)

Café-concerto imortaliza 15 anos do CLIc 
nas vozes de 
Dília, Cristiana e Zezé


Um café-concerto pra lá de especial, idealizado com trechos poéticos extraídos do livro  do CLIc, foi um presente para todos que compareceram à noite de autógrafos. E para os que lá não puderam estar, ou para os que gostariam de relembrar, segue abaixo o caprichoso trabalho de Dília Gouvea e Cristiana Seixas.

As músicas, lindamente cantadas por Maria José (acompanhada do músico Fábio Pereira, contratado pela Dília), estão disponibilizadas em outras vozes, pois infelizmente não temos a gravação in loco. Ao trio maravilhoso, nosso muito obrigada.






Prólogo
Dedicado às mães que não estão presentes e que se encontram na distância, às mães para além da distância e às mães para além do além da distância.


DÍ: Minha mãe visitou-me esta tarde. Servi chá de rosas.
Conversamos sem palavras. Ela falou mais do que eu.
Falou sem falar. Sorriu sem sorrir. Explicou e pouco perguntou.
Não se interessa mais pelos humanos.
É hoje uma mulher de filosofias. Que conta casos. E sorri muito.
Narradora de um tempo que ainda não acabou.
Minha mãe estava diferente. Corpo magro, pele clara, olhos infinitos.
Parece que vi meu rosto no fundo claro de um deles.
Seus gestos vagos tocavam meus cabelos. Suave seu toque. Suave sua
Presença.
Paradas no tempo, tomávamos chá sem pressa.
O mundo de fora não existia por dentro de nós. O mundo de fora era longínquo.
Mundo adentro, meu peito respirava em calmaria. Tudo era perto.
Tudo era belo. Eu vivia e morria em ondas. E nem sentia.
Lá fora o Sol congelado brilhava estático. O ar parado. O vento lento.
Por dentro o chá quente. Chá de rosas. Minha mãe.  (Niza Monteiro)

ATO 1

MÚSICA 1

No pé do vento, da Maria Gadu



CRIS: Quando a imaginação cria asas, voa pelo espaço em busca de lugares, próximos ou distantes, pelos quais viaja sem barreiras e encontra ondes para situar a criação do artista. Que pássaro, por mais veloz que seja, poderia atingir espaços tão variados? (Gracinda Rosa)

DÍ: A casa é envidraçada, há muita luz. Haveria uma lareira e vinho? Entra, que coisa mais atraente: pelas paredes, e perto delas, os objetos de seu desejo: vários livros. Há calor, vinho, luz! Sorrisos afetuosos, palavras sobre paixão. Só faltava mesmo a lareira...Pensando bem, ela lá está, depois de alguns minutos, sentada, percebe que está sim. Uma roda humana, cheia de vida, abraça a mulher...Ela foi fisgada. (Eloisa Helena)

CRIS: Eram pessoas que se abriam, assim como os livros, e se deixavam folhear. Umas páginas mais manuseadas, de letras maiores, outras ainda de pouco uso, mas o papel sempre macio, bom de pegar, as tintas sem borrão, tudo legível, e os livros falando-se entre si, sem algazarra, um livro falava, o outro ouvia, e a música e a dança eram contínuas e alegres e fluíam, simplesmente fluíam. (Rita Magnago)

DÍ: Passo um mês inteirinho buscando entre páginas, rabiscando, grifando um trecho, uma frase, uma palavra, alguma coisa que tenha sido importante para mim. Alguma coisa que tenha penetrado em minha alma para finalmente compartilhar com você. Tem sido assim sempre, desde que nos encontramos pela primeira vez. Essa vontade cada vez maior de me doar, de poder receber de você as respostas para as minhas dúvidas. (Vera Lucia Freire)

CRIS: Dita, escrita e cantada a palavra liberta. Num livro, vira âncora e concentra em si os quatro elementos: da terra por tornar-se imortal pelo registro, do ar pelo sopro de reflexão que promove, da água pelo fluir possível das emoções que culminam na lágrima e do fogo pela transformação do olhar, do pensamento e da própria vida. (Cristiana Seixas)

DÍ: Sou disso tudo apenas palavras - estas, que algum autor lavra -e fragmentado em letras torno-me apenas símbolos do meu próprio preâmbulo: projeto de ser Pessoa sem viver, sugado para dentro das páginas
- que é uma forma doce de se morrer. É para este fim que o livro me arrasta Como se desejasse me consumir - não eu a ele, mas ele a mim!- Eu, pedra, de coração duro e olhar seco inanimado, mas testemunha eterna deste mundo. (Novaes/)

CRIS: O trabalho de acabamento exige movimentos precisos e exaustivos.
Depois de lixar a escultura, acrescenta uma pátina transparente para obter maior grau de suavidade. O efeito não poderia ser melhor. Orestes, por todos os ângulos, está pronto em sua existência dolorosa. Ousa mais uma vez! Vai aos ouvidos dele e sussurra: Medéia, Emma Bovary, Diadorim, Macabéa. Ele permanece quieto como um cervo, mas as cortinas esvoaçantes quase se queimam nas chamas que o vento atiça em labaredas. De onde esse vento se as janelas e portas estão fechadas? Ela permanece de pé ao lado de Orestes. Extenuada.
Vai nascendo o dia. Pouco a pouco. Sem pressa. Ela sente uma inefável e incompreensível sensação de prazer diante da obra pronta. Viva. Mais uma vez ela transpôs seus limites. Sua alma está leve. Fica ali, tremendo, o olhar fixo nos olhos dele, imaginando: que diabos ela irá criar agora? E até quando?
Antes de apagar as luzes, vê, num rápido vislumbre, as fúrias brilhando nos olhos de Orestes. (Niza Monteiro)

MÚSICA 2 

Eu vivo a sorrir, de Adriana Calcanhoto




DÍ: Amor é assim como cafifa, pandorga, papagaio, pipa...
Há que se “dar linha” para voar bonito
E há que se deixar ir junto
Soltar-se céu afora
Voar o infinito, no espaço-tempo...
... e além...
Ahhh... eu ainda vou voar um amor assim. (Ilnea Miranda)

CRIS: No inverno gelado,
A palavra me acompanha
E se faz lareira (Elenir)

DÍ: Há luta no mar!
Homens, ondas, ventos, velas,
Medem suas forças (Elenir)

CRIS: No vaivém monótono
Da cadeira de balanço,
Cem anos cochilam. (Elenir)

DÍ: Fito o espelho.
O outro que vejo
Desconheço.
Sorrindo, zomba deste aflito
Que fita assombrado,
O tempo passado
Espelhado no reflexo inverossímil. (Adriana Marins)

CRIS: Assim nosso amor:
Ração que alimenta nossa vida,
Razão que compensa nossa dor,
Chama para enfrentar a batalha mais renhida,
Luz que dá sentido a nossa sina...(Fernando L.P. Robles)

DÍ: E é assim, com o coração repleto e as retinas reduzidas pela suave luz daquelas manhãs que percebo perfumes e sabores, e vejo os raios oblíquos do Sol de distantes tardes sobre as nossas árvores. São imagens permanentes, lembranças daquela natureza viva, companheira de brincadeiras de cada criança da rua. Ensinou-nos muita coisa. Às vezes paro diante de uma banca de frutas, pego uma e cheiro profundamente sua casca; e esse ato simples como tão simples é qualquer fruta, tem o poder de me fazer sorrir, e de me transportar para longe, para um tempo em que morder uma fruta colhida no pé podia ser a maior felicidade deste mundo. (Carlos Rosa)

CRIS: Quero a calmaria
Das brisas suaves e ondas meninas
Doces curvas que apenas espumam meus horrores
O que escapa e ultrapassa
O sentido e os amores (Rita Magnago)

DÍ: Ria. Sozinho. Ria. Cerveja pela metade. Ria. Ria do fado bobo. (Luiz Gavri)

CRIS: Um ser nascido, devorado e regurgitado
por Cronos e, como sua filha,
Vivo parcialmente
Dentro e fora dele. (Neide Peixoto)

DÍ: A verdade é que não me preparei para contar essa história. Ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto. Dizem que histórias que as histórias valem por isso. Contá-las, e contá-las teria o mesmo efeito de uma vacina que dessensibiliza a angústia sempre na iminência de aflorar à pele. A imagem, entretanto, não é bem de uma 'bola vindo ao gol e eu o goleiro', mas a de um seio vindo em direção a uma boca. Parei tudo para me dedicar a ela. [...] O que era sacrifício e dor transformou-se num fluxo fácil de palavras. Elas correm com tamanha volúpia ao meu encontro que não posso me mexer daqui." (Benito Petraglia)

CRIS: Lembrou-se dos tempos de exílio, quando, nos momentos em que os pássaros entoavam seus cantos, sentia a extrema angústia, pela distância dos que lhe eram queridos. Mas ela o acompanhara e juntos se abraçavam para suprir esse vazio. (Ceci Lohmann)

DÍ: Minha finitude transcende a pequenez
Pó que se revela.Expõe o que não queremos ver. Mastiga
O intragável gosto da autodecepção.
Os sonhos são lindos e fundamentais
-mas um dia nos deparamos com alguém gritando:
“acorda!”  Quando os olhos se acostumam ao breu,
Constatamos foi um livro. (Novaes/)

(Ínicio do diálogo)

CRIS: Como seria se em cada rua, em cada bairro, em cada cidade, em cada estado, em cada país e em todas as ruas, em todos os bairros, em todos os estados, em todos os países de todos os continentes, existissem clubes de leitura diversificados?! E se toda a sociedade civil planetária se pusesse a ler incessantemente todas as delícias da arte, da ciência, da filosofia derrubando as correntes amargas do analfabetismo e da ignorância, e, se...

DÍ: E se de repente... o debate fosse, subversivamente, o debate da consciência, do saber, do retorno ao humano da sua dignidade perdida ou oculta em véus de equívocos e desprazeres? Será que vislumbraríamos finalmente um mundo melhor? Solidário, fraterno, amoroso?

CRIS: Deixemos que proliferem clubes de leitura A, B, C,... de todas as letras do alfabeto, deste mundo e de outros mundos! Por que não ser o nosso clube a mola propulsora desse desafio? (dília Gouveia)

(Fim do diálogo)
MÚSICA 3

A nossa casa, na voz de Bethânia








4 comentários:

  1. Parabéns, meninas. Coletânea espetacular! Show!!

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  2. Agora , entendo melhor a emoção da Vera...Parabéns, queridas Cris e Dília! Amei!

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  3. Meu OBRIGADA, mais uma vez, a essa turma querida pela dedicação com que continuam nos brindando,
    Para mim foi uma noite INCRÍVEL!
    Lembranças que ficarão eternamente guardadas em meu coração!
    Beijos ternos,
    Vera.

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