CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

23 de maio de 2015

Maria Teresinha recomenda - O reencontro: Carlos Rosa Moreira



Carlos Rosa Moreira

No restaurante da sobreloja do shopping, o movimento não era grande. Apenas algumas mesas estavam ocupadas naquele canto do corredor. Por isto, foi o ponto escolhido para o reencontro.

‒ Nós não devíamos estar aqui ‒ disse ela.

‒ Por que não? O que tem se nos virem? Somos dois amigos que se encontraram casualmente na hora do almoço.

‒ Muita gente nos conhece, e ele morre de ciúme de você.

‒ E eu tenho muito mais do que ciúmes; tenho uma saudade infinita de nós dois.

‒ Se fosse verdade, teria ficado comigo.

‒ Já conversamos tantas vezes sobre isso...

‒ É, você não quis deixar sua família, prefere “ser infeliz dentro de casa”. Sabe de uma coisa? Você não é infeliz, muito pelo contrário, gosta da vida que tem.

‒ Eu não quis arriscar a paz e a felicidade dos meus filhos. Você é que não teve paciência para esperar.

‒ Esperar... Até seus filhos ficarem independentes? Acha que nasci pra amante?

‒ Nunca pensei em fazer de você minha amante. Eu me envolvi seriamente. Mas nós só provávamos o lado adocicado da vida; eram passeios, jantares, tardes maravilhosas e a cama desprovida de amarguras, cobranças e preocupações. Não sabemos como poderia ser o dia a dia: você nunca me viu acordar e eu não conheço suas manias.

‒ Quem ama não pensa nisso.

‒ Olhe, não foi por isso que a chamei, já discutimos tanto sobre esse assunto... 

Eu quero dar uma coisa a você.

‒ É? Finalmente.

‒ Você me ajudou muito. Naquela época de horror, se não fosse você, não sei o que teria acontecido.

‒ Fui uma boa amante, não?

‒ Não, foi minha amiga, meu amor. Não consegue entender, não é?

‒ Claro que não. Se eu era o seu amor, como pôde ficar com ela?

‒ É a minha família! Não entende?

‒ Não!

‒ Não adianta essa conversa. Você me ajudou, conseguiu aquele emprego com seu pai quando eu já tinha perdido tudo, foi o que me salvou.

‒ Não poderia imaginar que estava ajudando sua mulher... Ela deveria me agradecer, sabia?

‒ Isso não interessa, o que interessa é que eu ganhei as ações na justiça e recuperei tudo. Foi por isto que a chamei. Lembra-se de quando recebi o primeiro ordenado no emprego com seu pai? Você disse: Quero um presente! Pois aqui está.

Ele escorregou a mão fechada sobre a toalha da mesa e colocou algo na mão dela.

‒ O que é isso, um cheque? É um cheque! Dez mil reais! Você está me dando essa grana?

‒ Estou. E se pudesse daria mais, você merece tudo.

‒ Não sei o que dizer... estou boba ‒ disse ela enquanto admirava o cheque esticado entre os dedos.

‒ Compre um carro, viaje, mesmo com aquele chato, ficarei feliz por você.

‒ Meu Deus...

‒ Morro de saudade de você...

Ele entrelaçou seus dedos aos dela. Ela olhou as mãos unidas e acariciou, com o polegar, o dorso da mão dele.

‒ Eu também sinto...

‒ Vamos ficar juntos, uma vez que seja, agora!

‒ Não, eu não posso fazer isso. Faz dois anos que estou casada, e você tem a sua mulherzinha.

‒ Nada tem a ver com eles. Antes do seu marido nós já existíamos, e quando você o namorava ainda estávamos juntos. Temos nossa relação no tempo, é uma coisa que pertence a nós!

‒ Vocês homens são engraçados... Para mim isso se chama traição!

Ela se desvencilhou da mão dele.

‒ Eu estava casado e fiquei com você, por que agora não fica comigo? Isso se chama falta de amor!

‒ Gostaria que sua mulher o traísse?

‒ Lembra-se dos nossos momentos, nossas brincadeiras? Era tão bom... Lembra quando te paguei?

Ele sorriu, esticou o braço e pegou a mão dela. Ela também sorriu, olhando-o carinhosamente de baixo para cima.

‒ Lembro... até isso eu fiz.

‒ Estava linda naquele vestido vermelho: as unhas pintadas, o batom carmim...

‒ Parecia uma puta.

‒ E era. Era a minha puta.

Ela sorria parecendo envergonhada, desenhava na toalha com a unha.

‒ O que a gente não faz... Cento e cinquenta reais pra ser puta...

Ele não respondeu, perdeu-se na face dela. Deixou-se transportar para o quarto de motel, sempre o mesmo nos seus encontros. Ela estava deitada de bruços completamente nua. As três notas de cinquenta dobradinhas sobre a mesinha. Beijou-a dos dedos dos pés aos cabelos. Percorreu com a ponta da língua as pétalas úmidas, desabrochadas, tocando-a no ponto mais sensível para que explodisse num gozo louco. Ele se viu em riste, admirando as pernas longas afastadas, deixando entrever os pêlos castanho-claros. Ela esticou os braços para trás e, com as pontas dos dedos, abriu as nádegas alvas e arredondadas oferecendo-lhe o que tanto desejava. O contraste das unhas longas, vermelhas, com a brancura da pele, as carnes íntimas, tão róseas, o oferecimento...

‒ Daria qualquer coisa para ter de novo aquele instante. Vamos ficar juntos agora, por que não? Eu sei que você quer...

Ela abaixou os olhos e movimentou negativamente a cabeça.

‒ Eu pago qualquer coisa. Por favor, mostre que é verdade quando dizia que me amava, eu preciso ter certeza!

‒ Paga?

‒ Pago. Pago dez mil!

‒ Mais dez?

‒ Isso. Eu amo você de verdade, quero vê-la feliz, nunca vou deixar de amá-la.

Ela olhou para ele, depois se virou e olhou à volta, puxou os cabelos loiros para trás com as duas mãos, prendendo-os com um estilete de madeira trabalhada. Apertou a mão dele que jazia sobre a mesa.

‒ Vamos, disse ela.



Conheça mais sobre a leitora CLIc Maria Teresinha que indicou este Conto de Carlos Rosa


36 comentários:

  1. Muito bom! Só espero que não vejam "machismo" onde não há! rsrsrsrs.....

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  2. Cadê a Regiane, hein? Ela ia gostar deste conto, rsrs. Carlos, gosto desse seu humor sutil, suave e espontâneo. Achei sensacional o conto, quase rodriguiano, eu diria. Embora os estilo solto do diálogo lembre mais um Rubem Fonseca ou um Luis Fernando Veríssimo. Sempre bom ler você.

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  3. Carlos, além de sua escrita elegante, gosto muito desse seu estilo de contar, com a mesma suavidade envolvente, desde episódios aparentemente corriqueiros até os bem inusitados. Em qualquer caso, há neles muita vida e, sempre, a surpreendente alma humana, "inexplicável" e saborosa, a nos cutucar. Parabéns!

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  4. Pô, nunca achei que minha busca me trouxesse aqui. Massa! Digno da Playboy! Parabéns, cara!

    Rodrigo

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  5. O que mais se esconde nos abismos dessa escrita?Coragem? Nem só de poesia vive o escritor, ou talvez poesias de verdades! Parabenizo-o por mais um conto em que capta um instante da vida.
    Abraços.
    Elô

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  6. Fico feliz por terem gostado, e agradeço muito os comentários.
    Carlo.

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  7. Quem resiste a um jogo de sedução, ao desejo guardado, escondido e proibido, à fantasia... Sem dúvida ingredientes que preparam para a transgressão que produz faíscas num ser. Parabéns Carlos por navegar com clareza neste universo.

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  8. Tudo que eu já li da sua escrita é bem feito. Começou com crônicas da natureza, contos de jardim zoológico, pulou para a repugnância, esbarrou na escatologia, e agora ... quase pornografia. Essa alma precisa de paz.

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  9. Tá vendo, Carlos, não falei que tinha um quê de rodriguiano em seu conto, rsrs. O qué um elogio, claro. Concordo com você, Rita, o Carlos tem uma versatilidade literária excepcional.

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  10. Preciso não, Rita, prefiro ser um velho desassossegado.
    Carlos.

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  11. Parabéns Carlos. O conto, muito bem escrito, destaca um homem que joga com perícia capitalista para reviver momentos excitantes com a ex-amante. A negociação das emoções, bem ao estilo rodriguiano, está muito bem construída. Texto enxuto, quase cortando a alma dos românticos... Adorei!!!
    Niza

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  12. Carlos, mandou bem na resposta. A alma desassossegada é a que cria e recria . Gostei muito do comentário da Niza, 'texto enxuto, quase cortando a alma dos românticos', eu senti isso, só não soube explicar, e aí essa parte me incomodou, porque sou romântica. Mas, é claro, no seu texto tem tudo a ver.

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    1. Rita, concordo com voce e com Niza. Li o conto logo que ele foi publicado, mas não sabia bem o que dizer. Não considerei o conto machista, porém, adorei o tom não pudico, a limpeza objetiva das palavras, mas o que me atingiu em cheio foi justamente o estilo direto e pouco romantico, mas essencialmente desejante, pulsante, latente e quantos entes mais. A questão do dinheiro: meramente acessória. O final é surpreendente, tão abrupto e exato. o desfecho do conto ("-Vamos, disse ela"), a imagem que se formou em minha mente foi de alguém que corre e de repente se depara com uma fissura abissal. Fiquei a espera de outra fala, não havia mais nada.

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  15. Desculpem-me os fãs do Nelson Rodrigues, pois eu tenho obsessão por ele! Dessa vez, Carlos inventou algo seu, talvez com uma leve influência do nosso grande cronista.

    Carlos, você tem estilo próprio! Nélson falaria primeiro do decote dela, o marido seria homossexual, e mataria o amante! Ela teria feito de propósito, pois se vingaria do amante, e o marido iria para o xilindró!!! Assim ficaria livre dos dois.

    Esse seu estilo parece de romance moderno: A fantasia sem perversão e tragédia.
    Nem sei se ex-amante eles eram, pode ser a própria amante dita, fingindo ser do passado, hum, só para dar o charme.

    Não sei se acertei, mas essa amante, com seu homem é como um filme que a fita roda a fantasia na mesma direção. Isso é maravilhoso! Nada tem haver com machismo.
    O texto é claro, e fica evidente que ambos realizam uma fantasia consciente, e que nada tem haver com o racional.

    Seu conto, sempre verdadeiro, mostra a fantasia de muita gente!
    Ela disposta pintar unhas de vermelho e só Deus sabe se usava algo por baixo do vestido! A moça tinha uma fantasia de ser dominada, desde que a pagassem.

    Ele, louco para que ela viesse, assim realizaria sua fantasia de poder, de domínio, com o dinheiro.

    Ela não era puta, era a puta desse homem, disposto a trocar simbolicamente o dinheiro pelo sexo.

    Fico imaginando a continuação!!! Eles iriam embora, cada um em uma direção e só no dia seguinte, um iria ao apto do outro para tomar o café da manhã e ler o jornal! Ele já teria lido, e ela entraria esvoaçante e com roupa vaporosa para beijá-lo, com gosto de laranja.

    Esse é lado bom da moeda, não tem rotina. Essa é a vantagem de ser amante, e não necessariamente, o personagem masculino era casado, ambos brincavam um com o outro para a fantasia enchê-los de prazer.

    Muito bom, Carlos, sem o tolo pudor!

    Parabéns, com admiração da amiga
    Fátima

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    1. "Tânios me disse: todas as volúpias se pagam, não desprezes aquelas que dizem seu preço" (O Rochedo de Tânios: Amin Maalouf - livro do debate de Outubro no CLIc)

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    1. (comentário reinserido a pedidos)

      Comprar um carro com dez mil reais? Em que planeta esse cara vive?

      Carlos, de antemão já aviso que meu comentário será banal.

      Você, obviamente, sabe escrever, gosta e o faz com frequência. Em relação a construção do texto, acho que os ingredientes devem estar aí. É surpreendente que você, em parte, consiga apresentar as duas argumentações: a do homem que trai, não quer mais problemas e foge em busca de uma relação desprovida de amarguras, cobranças e preocupações e a da mulher que tenta, sem muita ênfase cair fora desta relação sem futuro. Isso é interessante, do ponto de vista que você tem ambos os discursos em mente. O fato de a "ex-amante", agora casada, trair seu marido, de certa forma me lembrou os trabalhos do Woody Allen, que sempre tendem a quebrar o conceito de relação de fidelidade amorosa. Isso dá "pano para manga".

      As lembranças do marido em seus momentos íntimos com a amante, ao meu ver, tornaram o texto um tanto vulgar por beirar o pornográfico. Não choca nem constrange mas, acho eu, vulgariza quando é contado. Ao menos me soou desta forma. Mas são dezoito comentários elogiosos, portanto teu texto parece estar bem na fita. :)

      Fiquei surpresa com seu comentário sobre a interpretação de um texto ser banal por ficar na superficialidade. Sempre vi escritores dizendo que o texto uma vez escrito e compartilhado "não pertence mais a ele", no sentido de que dificilmente o leitor conseguirá compreender um texto literário da mesma forma que o autor o entende. O que está por trás de um texto é uma caixa de surpresas. Há quem delire e veja bem mais que o autor jamais sonhou e há quem veja bem menos. Em "A Elegância do Ouriço", a autora mostra que entrelinhas é, em maior parte reflexo. Acho que as interpretações de um texto literário, uma vez que não sejam ofensivas são válidas. É a leitura de cada um. Seu comentário prova isso. Você descreve o conto como uma história de amor. Eu nunca o descreveria desta maneira. Não por faltar romantismo, mas por faltar compromisso e respeito. Poderia até descrever como uma estória de paixão de fuga e aflições. Mas esta palavrinha é utilizada de formas tão variadas, que, realmente, cada um entende de uma forma.

      Existem vários outros pontos que dão margem a discussão, mas termino aqui.

      Abraço

      Cintia

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  17. Muito bom, Cíntia. Tudo isso que você achou, significa que o texto é seu também, concordo plenamente. Quanto ao meu comentário, já havia pedido ao Evandro para retirar, eu disse uma grande bobagem. Não sobre o que você comentou, mas sobre o que eu disse, que os comentários femininos quando não são banais são profundos, jamais ficam no meio termo. Grande bobagem! É claro que podem ser mediocres, assim como os dos homens. Não me importa se o texto será pornográfico, escatológico ou lirico, se tiver de escrevê-lo não poderei escapar, escreverei. E os leitores poderão ou não, moe-lo a bordoadas. Mas saiba, é história de amor sim, e como quase toda história de amor, vulgar. Leia só o Eclesiastes 1:9. Dá discussão à beça mesmo, concordo.
    Um abraço. Carlos

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  18. Meu não é não. Nem quero. Só tenho direito a interpretar segundo a minha visão do mundo :)

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    1. Enfim alguém para restabelecer a ordem natural da vida inteligente de um clube de leitura, onde a diversidade é uma dos grandes valores. Quando todo mundo concorda com algum texto é sinal de que algo não vai bem. Obrigado Cintia, por lembrar-nos do direito dos leitores, que com coragem enfrenta o poder tantalizador da bela escrita do Carlos, fluidica e cortante, sedutoramente iconoclasta. Não é uma questão de certo ou errado, de lado negro ou da "força". Com seu posicionamento. a Cintia nos exorta a ser livre em nossas opiniões sem que isto altere o espírito civilizado dos participantes do nosso clube. E obrigado, Carlos, por sacudir o clube com seus textos.

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  19. Eu é que agradeço, Evandro. Essas excelentes trocas de ideias não existem na Literatura niteroiense, e é sobre essa falta de comentários e opiniões diversas, sejam elogiosas ou não, que escrevo no jornal Literato deste mês. O Blog, o CLIC e seus participantes estão de parabéns. Como escrevo acima, um texto cai no mundo e é de todos, pode ser chutado igual a lata, afagado igual a gato ou moído a bordoadas como deveria ser a súcia que está em Brasília. Agradeço a todos e todas que comentam e incentivo que comentem mesmo todos os textos que são postados aqui.
    Um forte abraço.
    Carlos.

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  20. Que bom que o comentário da Cintia retornou. Certa vez um amigo me perguntou se ele deveria escrever um texto, me enviou um capítulo e me pediu opinião, disse a ele que de fato minha opinião sobre a publicação ou não, não tinha a menor importância, o que ele tinha que se perguntar era se ele queria escrever aquele livro, se sim, entao sua função era escrever e a dos leitores gostar ou não.

    Lembrei da reunião em que debatemos o livro "A menina que roubava livros" e que 3 pessoas não gostaram muito da leitura (Benito, eu e outra moça), era a primeira vez que eu ia ao clube, confesso que fiquei amedrontada de expor minha opinião diante de tantos elogios ao livro. Admito que fui na aba do Benito quando começou a criticar de modo contrário a grande maioria, um furor naquele dia se alguem lembra. Mas desde aquele dia aprendi a dar meus pitacos sem a menor preocupação se os colegas vão gostar ou não. Hoje acredito que se o autor não quer critica contrária a ele, entao nao escreva.

    Parabéns mais uma vez Carlos pelo conto, reitero me prazer na leitura. E fico feliz que não haja unanimidade no mundo, não gosto muito de homogeneização, principalmente no que diz respeito a lituratura.

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  21. Obrigado, Helene. Pedi ao Evandro que retornasse com o comentário da Cíntia, pois o achei muito bem colocado. Não importa se gostou ou não, importa a forma como expressa a opinião, e a Cíntia expressou-se muito bem, embora contrária ao conto.
    Carlos. Mais uma vez obrigado.

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  22. Perfeito, Helene!!!! Obrigada pelo "moça"!
    Carlos, vc deve ficar preocupado com quem gostou. A sinceridade da Cíntia foi boa, não sei se para vc ou para ela!!!!
    O que muda para o escritor quando ele recebe a crítica , mesmo que bem feita, assim diretamente?
    Eu e mais 25 pessoas amamos o seu conto, o que conta para vc???
    Se todos foram absolutamente sinceros, o que interessa mais?
    Isso é um direito do leitor e pronto, mas parece que vc ficou interessado.
    Conto Maravilha!!!!!!!!!!!!
    Fátima

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  23. Parabéns, Cíntia, pelo comentário. Como debatermos e, até, raciocinarmos com plenitude se não houver o contraponto? A sociedade brasileira e, na verdade, de todo o Mundo, é formada pelas mais díspares concepções, formações, crenças e, portanto, interpretações da realidade e dos discursos. Arte não é realidade, é discurso, é representação, é fantasia algo real, algo desejo. Quando esse discurso artístico, que já é fluido e híbrido por si só, trata do desejo amoroso (ou sexual, como queiram), ele passa a andar ainda mais no "fio da navalha", nos limiares dos nossos sentimentos e fantasias (para o bem ou para o mal) - desejo, medo, repulsa, atração, curiosidade. Nada mais natural que gere diferentes reações. Todas legítimas, verdadeiras, reais. E, talvez, todas elas também com um quê de fantasiosas, de absolutamente subjetivas. Na medida em que... estamos aqui falando de que mesmo? Ah, de uma representação, de uma fantasia, de um discurso estético, de personagens que não somos nós, que não são ninguém... A arte, a meu ver, é um mundo gasoso, que a gente não consegue segurar nas mãos, apesar de podermos respirá-lo, sentí-lo em nosso peito. Vá entender...

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  24. Oi, Newton,querido: Certo, mas a pergunta que fiz é para quê seria útil na criatividade do autor?? Aliás, somente isso interessa!
    Todos têm o direito ao debate, claro, mas nem houve debate!
    Concordo absolutamente com você, pois eu mesma entendi o conto do Carlos, como eu queria......... Talvez a razão do conto dele seja outra! Assim, o sentimento do leitor é subjetivo, claríssimo, como em todas as Artes!
    Não falei sobre a crítica da Cíntia que acho legítima, bem como compreendi suas colocações.
    No entanto, o autor também deve ficar no fio da navalha, tem sentimentos reais e subjetivos! Fico na dúvida, Newton, se críticas, mesmo elogiosas, "verdadeiras", no mundo das representações, move a fantasia do autor, que viaja no "discurso estético", como disse tão bem!
    Isso talvez interfira no processo de criação, pois ele é sujeito também! TENHO A FANTASIA QUE ISSO ALTERA A FANTASIA DO ESCRITOR!!
    As dúvidas que tenho também servem para os críticos especialistas, na verdade, por causa deles, muitos deixaram de ler obras incríveis e muitos artistas plásticos morreram no ostracismo. PORÉM O CRÍTICO DE ARTE, JÁ TEM UM DISTANCIAMENTO DEVIDO. MAS A OBRA ARTÍSTICA, SEJA ELA QUAL FOR, NÃO É PARA O CRÍTIVO, É PARA O LEITOR!
    Tenho dúvidas, se as críticas deveriam vir de especialistas que conhecem arte, e conhecimento de arte literária parece ser algo dificílimo!
    Eu posso estar enganada, mas quando debatemos no clube, a forma de dizer é mais elaborada, mesmo que seja agressiva, e não debatemos com o autor ao vivo.
    TEMOS OPINIÕES, PELO MENOS QUEM NÃO ESTUDOU LITERATURA, COMO EU E OUTROS.
    Na verdade, somente com o Carlos e um professor da UFF estiveram presentes no debate! E vimos a susceptibilidade do autor!
    Eu apenas quis entrar em um debate do qual não conheço as nuances. Risos....
    Grata por sua fala, sempre tão alcançável e com entendimento desses detalhes.
    Beijos
    Fátima

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  25. Caros irmãos das letras, lidas ou escritas, venho a público dizer que eu nunca disse que gostei desse conto do Carlos. Disse que era bem escrito, e é, mas disse também que não era meu gênero, que me incomodou a coisa seca, sem romantismo. Na verdade isso era um eufemismo para vocês entenderem "ela não gostou". Acho que fui suave demais, então, venho juntar-me à Cintia, bem mais explícita em seu comentário.

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  26. Gente vou falar bobagem, mas devo ser uma criatura de imensa ignorância literária, pois meu estado de ânimo é que direciona minhas leituras e não que haja uma preferência absoluta por um gênero. Leio desde Platão a Plínio Marcos (com seu grotesco, bizarro). Adoro o Nelson Rodrigues assim como adoro ler Barbara Cartland, Jane Austen, amo o Tolkien, Kafka, sou fã incondicional das obras da monja beneditina Hildegard von Bingen e tantos outros. Repito, meu gosto não está atrelado a preferências sexuais ou de genero. sou extremamente eclética, nesse aspecto posso até dizer que sou uma adúltera literária mesmo, entretanto, sou completamente fiel a Literatura. Amo, desejo e entro em extase algumas vezes como leitora e isso para mim basta!

    Não sou especialista e não gosto muito do academicismo literario. o que eu acredito é que numa obra de mil página, as vezes, uma única frase vale por todo o livro.

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  27. Sensacional, Helene, sou parecido com você nas leituras, embora hoje esteja mais aquietado. E saiba, você é uma leitora das melhores, leitora plena. Com certeza com conhecimentos literários que a deixam capaz de conversar com qualquer outro leitor, ou autor. Essa coisa caótica de ler é muito boa.
    Carlos.

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  28. Sou amiga de Helene Camille e conheci estes conto e blog por recomendação dela. Vou colocá-lo na minha lista de favoritos.
    Gostaria de dizer que adorei este conto. É leve, interessante, com uma escrita ágil e envolvente e poderia dizer até, poético. E, o que achei muito interessante, bem realista. Ficção e realidade se confundem muitas vezes. A realidade gera ficção e vice-versa. Um bom exemplo disto é Júlio Verne e Isaac Asimov. Há quantos séculos que histórias como as narradas neste conto não são realidade? Barbara Cartland (que considero uma observadora perspicaz e conhecedora da alma humana tão boa quanto Agatha Christie) diz em um dos seus livros, que na sociedade inglesa vitoriana sempre existiu as traições (e as fantasias que as geravam), desde que não se transgredisse o mandamento mais importante: "Não serás descoberto!" Para quem gosta de História, não há nada de novo debaixo do sol, já dizia Shakespeare, usando a citação de Eclesiastes.
    O que encontrei neste momento de novo e delicioso é como o autor consegue nos deixar nesta dúvida: a realidade precedeu a imaginação ou a imaginação gerou realidades? Digo "neste momento" porque já li mais de 20 vezes vários livros, como "Orgulho e Preconceito", "Jane Eyre", "As Crônicas de Nárnia" ou "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e a cada vez que os leio me deparo com algo novo, pois o meu espírito ou meu humor não é o mesmo em cada lida, eu não sou a mesma pessoa todos os dias. Pode ser que ao reler este conto em outro momento ou estado de espírito o veja de outra forma.
    Porém, considero magistral o parágrafo da cena em que o amante relembra um único momento de um ato sexual com sua amante. É poético, delicado e metaforicamente delicioso. Só o consigo comparar à imagem delicada e sensível da "enguia ansiosa em busca da caverna da mulher" (metáfora do ato sexual) do livro "Memórias de Uma Gueixa".
    Contudo, o mais importante para mim, como leitora, foi o prazer que me proporcionou a leitura do conto. Muito bem escrito. E quando digo isso, não me refiro apenas às regras gramaticais, mas ao mais importante: fazer com que eu, como leitora, viaje nas asas da imaginação, prenda a minha atenção e me distraia por alguns minutos (se é que dá para medir o tempo que uma leitura nos absorve ou que nos deixamos absorver). Afinal, a leitura é o alimento da alma e do espírito. Parabéns ao autor e muito obrigada! Desejo que permaneça escrevendo, para nosso deleite.

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  29. Meu caro Evandro, o blog só tem a ganhar com textos e comentários. Maria Teresinha é uma leitora de truz!E escreve muitíssimo bem. Deve ter coisa guardada na gaveta (Camille também). Realidade e ficção... uma pode fornecer tudo, ou só pequenos trechos de vida, e sempre se misturam. Sim, quase toda história de amor é comum, vulgar no sentido de comum. Homens e mulheres que se procuram desde a noite dos tempos, nada mais comum, e belo, e invulgar para cada um que ama, de forma tão comum como qualquer amante. ("Amar, verbo intransitivo"). Cada um é especial, cada um é comum. Pois "nada há,pois,novo debaixo do sol". Nem mesmo a forma de amar, seja física, seja de alma. Muito obrigado a todos que comentaram e comentam esse conto, que pode ser criticado de muitas maneiras, mas foi escrito com amor.
    Carlos.

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  30. Helene, Terezinha e Carlos, amei tudo que disseram.Realmente, um livro pode valer por uma frase, e acho que tb pode ser destruido do mesmo jeito.Mas quando o autor capta um momento de forma fiel e o retém, tudo valeu à pena, assim como há instantes eterno e irrepetíveis e que nem se pagando muito poderão retornar.A alma de cada um, ou a psicologia, tem preço precioso.
    Abraços aos ecléticos e aos não ecléticos.
    Elô

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