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O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

13 de fevereiro de 2013

Clube do Conto - O Gato de Minha Mãe: Ilnéa País de Miranda



O gato da minha mãe não foi só um, foram muitos. Mas contando nem parece que foram tantos. O gato era Chaminho. E era sempre Chaminho não importava cor ou procedência. Sempre de raça “puríssima”  Chaminho  era contado, e cantado, e decantado. 

A criatura nem sequer tinha um número atrelado ao nome como os Reis das histórias que eu lia e ouvia dos meus contadores. - aquele número que para criança é letra e para adulto é “romano”: Dom Felipe II, Dom Carlos I... Acho que faltava linhagem ao gato da minha mãe. Chaminho, assim, ao invés de nome, era sinônimo.  

Sumido, por conta de qualquer acidente, ou por conta da vontade de ter um nome próprio, era substituído incontinente por outro... Chaminho.

Em razão da variedade, o gato da minha mãe, se contadas todas as suas peripécias, havia que ser considerado talvez o mais inteligente e interessante representante de sua espécie. Foi, por sim, o primeiro gato de que tive notícia, que fazia xixi no ralo do banheiro. E só xixi, porque, gato educado, jamais deixaria fétidas lembranças no banheiro de minha mãe. Estas ele deixava - sei lá onde! - por certo em terras de quintais outros, bem cobertas, pois que, "gato de D. Belinha", não seria capaz de emporcalhar caminhos de ninguém.

Houve pelo menos um Chaminho em cada casa em que moramos. Mas acho que tivemos mais chaminhos do que casas. Não me lembro de nenhum na casa onde eu nasci, a # 4 do quintal de meu Vô Chico. Também lá eu só nasci, enquanto minha xará estava sendo construída. Enquanto eu crescia um pouquinho, Vô Chico construiu uma casinha verde e batizou com o meu nome. E para lá me fui no colo da mãe, escudada pelo pai, e - quem sabe? - pelo resto da família. Só não sei se pelo gato, pois que nem sei se já havia algum. 

Mas penso que não demorou muito. Logo, logo, havia lá estava ele, malhado, mais preto do que branco, ligeiramente "afanador" se bem me lembro, e que um dia, nefasto e nefando, "assassinou" meu verde periquito. Ah, Chaminho!... instrumento da primeira grande dor de minha memória...

Não me lembro de gatos em Itatiquara... nem em nossa casa, nem em casa de ninguém. Chaminho, certamente, nenhum. Talvez Chaminho fosse gato citadino... e Itatiquara era só um ponto perdido no mato. Itatiquara... "Buraco de Tatu", segundo um amigo arquiteto, versado em língua de índio. Ou talvez fosse só porque naquela época nossa casa eram duas: a interiorana e aquela minha xará lá de Neves. E na xará morava o Chaminho do periquito.

Cresci, mudei de casa. Não fui para muito longe, só alguns quarteirões distante. Aquele Chaminho não foi, que gatos naquele tempo gostavam mais de lugares que de gente. Ficou-se lá, miando para o próximo morador. Casa outra, outro Chaminho. Esse, era aquele do xixi.

Bem que eu tentei ter um gato com personalidade própria. E entre um Chaminho e outro, arrumei um todo cinza-claro em cima, e barriguinha branca. E como era charmoso, macio, lustroso -  e eu estava muito entusiasmada com minhas aulas de inglês - chamei-o Sliky. Um desastre! Só eu conseguia (ou pensava que conseguia) pronunciar o nome do bicho direito. À minha volta o máximo que o povo conseguia era dizer "islique" ou "silique" o que me deixava entre furiosa e penalizada com a "anglo-ignorância" dos circunstantes.

Pobre Sliky!... durou muito pouco o pobrezinho. Aquela não era mesmo uma casa para gatos cinzentos, sedosos, de nome impronunciável. Era uma casa para chaminhos malhados de preto e branco. E o pobre escorregou de barriga no piso da cozinha onde sei lá por-que-obra-do-capeta, alguém tinha espalhado ácido muriático! Queimou todo seu branco!...E lá se foi juntar-se a anjinhos do céu dos gatos.

Nem tentei outra vez. Noutra casa, noutra cidade, lá estava outro...Chaminho! Tão malhado, mais preto que branco como todos os seus antecessores. Ou...alguém "miou-me" uma possibilidade aqui bem ao pé do ouvido: quem sabe não seria uma outra encarnação do mesmo gato? Afinal não conta a lenda que eles têm sete vidas?

Seja como for, este também fazia xixi no ralo do box do banheiro. E fazia mais! Tomava água na torneira, e - esta minha mãe jurava de pés juntos ser verdade: uma vez machucou a patinha e foi correndo mergulhá-la em água fria!

Minha mãe já se foi faz tempo. E imagino que esteja em algum lugar onde gatos sejam permitidos, com seu Chaminho em sete versões... ou talvez só cinco, pois hoje tenho duas gatas: Íris, a siamesa de olhos azuis, faz xixi no ralo do box e Cleo (apelido de Cleópatra, mesmo) a negra de olhos verde-amarelos... só bebe água corrente na torneira. 

(Ilnéa é escritora e participante do nosso clube de leitura Icaraí desde Outubro de 2008. Seu livro "Eu Menina Toda Prosa... e alguma Poesia" será tema do debate no clube em Setembro de 2012.)


9 comentários:

  1. Parabéns, Ilnéa, uma crônica deliciosa. Cá tenho dois gatinhos também muito astuciosos. Você provocou bonitas imagens com seu texto bem escrito.
    Carlos Rosa

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  2. Baudrillard escreveu coisas interessantes sobre bichos de estimação em seu "O sistema dos objetos", muito gostosa de ler sua crônica, leve e com ar de agradável de doce nostalgia.

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  3. Gostei da crônica.Tadinho do bichano, ácido muriático, snif, snif. Sei que agora você tem um lindo cachorrinho. Espero uma crônica para ele também.

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  4. Ilnéa, quem conversa com você percebe na crônica quase sua oralidade, seu jeito de falar está aqui presente. Gostei do seu texto, mas senti pena do bichinho também. Um abraço,

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  5. Ilnéa, adorei o conto!!! O gato Chaminho sendo substituído para que nunca deixasse de existir, é agora imortalizado por você aqui, neste texto memorioso e muito bem construído. Parabéns!!!
    Niza

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  6. Oi Ilnéa, adorei o conto e muitas de suas frases me deram a impressão (não sei por que cargas d'agua) de ter ritmos mnemonicos ("que gatos naquele tempo gostavam mais de lugares do que de gente" e "terras de quintais outros"). Lembrei de um gato muito "muderno" que conheci no caixa eletrônico da Prefeitura do Rio de Janeiro, estava aboletado em cima do caixa e de lá não saia, entrava cliente e saia e ele continuava lá. Encontrei-o em outro dia deitado todo esparramado entre as pernas de um cliente e outro na fila do bendito caixa, não resisti e tirei uma foto dele(a)- não deu pra ver rsrs.

    Essa frase é imbatível:"fétidas lembranças".

    muito bjs

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  7. Adorei.
    Estou de luto.... perdemos nossos dois chaminhos no espaço de 3 meses. Lá se foram
    "Lince" e o pequeno "Dolinho". Hum... talvez sua mãe saiba deles.

    N. Rodrigues

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  8. Querida Ilnéa, que conto delicioso! Amei seus gatinhos.
    Parabéns!
    Elenir

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  9. Eu sou muito suspeita para falar.rsrAmo gatos e amo seus textos.E para a escritora não vai nada!? Parabéns para a prosa deliciosa e minha grande admiração! Ilnea, a mulher de mil talentos :pinta porcelana, cria quitutes saborosos(como poucas), desenha vestidos de noiva e viaja na poesia!
    Bjs.

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