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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

13 de fevereiro de 2013

As Fúrias: Niza


Adolphe-William Bouguereau

De repente ela sente frio. Que horas seriam? Trabalhou durante todo o dia tentando finalizar a obra. Há meses a encomenda fora feita, mas a decisão de como fazê-la aconteceu somente no mês anterior, pela manhã, ao acordar. Estava espreguiçando na cama, meio adormecida, quando lhe veio a idéia de esculpir Orestes, um personagem da mitologia grega. Gostava particularmente do momento em que ele foge das Fúrias, figuras emblemáticas e fascinantes que muito a inspiravam. Podia até visualizá-las: a tocha numa das mãos, na outra o punhal e ainda o chicote. Com certeza elas iriam agregar beleza ao trabalho.


Ela seguia tentando domar as Fúrias dentro de si. Quem sabe seu desejo não era transformá-las também em Eumênides: benevolentes, justas, graciosas, veneráveis? Enquanto reflete vai esculpindo o mármore. Precisa se concentrar, afinal aceitara o convite para participar de uma exposição que iria acontecer na cidade e estava vencendo o tempo.

O turbilhão dos últimos meses atrasara a entrega, então se pôs a trabalhar muito para desbastar o mármore. Para vê-lo se transformar sob seus dedos. Para fazer surgir a forma que tanto desejava. Esculpir em pedra requer esforço, pois o material é duro e, com freqüência, pesado. Os erros são também irreparáveis. Normalmente se faz um esboço em argila para depois passar para o material definitivo. Ela dispensou essa fase! Ficou dias e dias olhando o mármore até vislumbrar a sua criação. Depois começou a desgastá-lo até extrair o material supérfluo. Após despir Orestes dos excessos da pedra, seu corpo foi surgindo inesperado. Sorri quando o vislumbra cheio de medo das Fúrias. Um homem que se encontra num momento crucial de seu destino. Como ela.

Era um trabalho intimista. Quase uma vertente clássica de início de carreira. Mas cansou de buscar uma explicação para a sua arte, se está ou não seguindo os passos do mercado. Hoje apenas deseja não mentir para si mesma. Tais pensamentos lhe provocam arrepios.

Trabalha noite e dia, em abundância, sem economia e parcimônia. Para além do drama e o sopro épico, o que mais a atraia era a possibilidade de encontrar a cada desbastar da pedra, o balanceamento na composição de suas idéias. Por isso esforça-se para libertar Orestes de uma postura ortodoxa, rígida, estática, buscando naturalidade e equilíbrio aos seus movimentos. Ele vai surgindo dinâmico e pleno. Aos poucos a sintaxe da escultura vai se engastando em uma gramática própria até ganhar ares estéticos.

Não tinha dúvidas de que a crítica seria enfática, por achá-la audaciosa e desafiadora mais uma vez. Mas não se sentia assim. Queria recuperar algo que se perdera pelo caminho. Algo de sua ousadia e vitalidade que o mercado foi achatando. Você não é nada a menos que venda e seja conhecida, disseram os amigos, inúmeras vezes. E tanto disseram, e tanto as dívidas se acumularam, que acabou de desafiadora à patética, sendo consumida aos poucos. Sua arte foi sendo engolida peça por peça, tornando-se um produto, a seu ver, pequeno. E quanto mais buscava falsos álibis para se justificar, mais experimentava a sensação de que sua carreira se desenrolava numa cronologia linear, tão trágica quanto à de Orestes.

Desafiadora? Audaciosa? Hoje não mais. Embora sua obra tenha grande destaque e polemizassem muito as suas criações, ela torcia o nariz. Pálida demais em suas roupas escuras, ela se esforçava para se misturar à multidão, mas só conseguia olhá-la de longe. Aprendera a apreciar as sonatas a sós enquanto modela.

Tenta sair de seus devaneios. Estava numa fase muito perigosa do trabalho, usando ferramentas cortantes onde qualquer deslize poderia estragá-lo. Precisa entregar a escultura. São horas de dedicação nas profundezas daquele esboço. Suas mãos esmagam as coisas. Suas mãos estalam de violência reprimida.

Como vencer o tempo? Como manter o corpo inteiro, sem cansaço? Está tensa aos 60 anos. Os olhos dilatados até a loucura. Tem a impressão de que uma força multiplicada a desafia ao impossível e a mantém de olhos bem abertos. Está esculpindo Orestes para se desafiar, sabe disso. Deseja experimentar novas possibilidades para compreender a associação misteriosa entre arte e vida. Será que consegue? Aos 60 anos?

O ateliê já está escuro. Na penumbra não se vê seu rosto. Ela se apóia na lareira. Acende o fogo e as luzes. Ela se recusa a parar, apesar de sentir fome. Ainda há um pouco de claridade lá fora, mas a vida lá fora não estava muito interessante. Preferia dar vida a Orestes. Vai esculpindo o nariz, os lábios, tenta reproduzir sensualidade ao rosto. Seu coração bate forte. É a guerra. Segura as ferramentas como uma cirurgiã segura um bisturi. Não pode parar. Não ainda. Seus braços se enrijecem, mas não larga os instrumentos. A noite avança. As veias em seus braços pulsam com força. Agoniza sobre aquela pedra.

É inverno. O frio deixa-lhe tão pouco espaço. Anseia pelo verão para trabalhar de janelas abertas. Mas se mantém com mais obstinação do que nunca. O ritmo lento, tão necessário ao artesão, era impossível na escala produtiva exigida pelo aparato cultural. Por isso desligava o telefone para criar. Não atendia a porta. Evitava sair às ruas. Tentava isolar-se. Quantas vezes não suspirou desejando o exílio, tal qual o de Rimbaud? Mas o exílio não é possível na era da internet. Tudo é exposto. Tudo é sabido. O anonimato acabou.

 Vai construindo a história e o destino de Orestes. Estava atenta à beleza e intensidade das Fúrias, mas era dele que se ocupava. Não o perdia de vista. Ele tornava-se um diário de palavras duras. Um diário de pedra.

Embora recebesse menção honrosa pelas exposições, lembra-se do pacto de Fausto com o diabo. Naquele momento ela deseja a juventude. Deseja sua arte. Tenta consolar a artista que lhe agita o peito. Se uns a atacam aqui, outros a defendem ali, então é preciso manter os lobos uivando dentro dela para ir até o fim.

Trabalha incessantemente aquele perfil. Quem será esse homem que surge amalgamado pelos seus dedos? Ela se inclina mais e vê sua boca jovem, seus olhos ardentes. Fica pensativa: se lhe soprar as narinas, a vida surgirá? Ri à idéia da criação, pois tal como Deus, ela modela o homem. O delírio a domina. Suas mãos continuam a obra.

Que noite fria! O fogo ainda está vivo na lareira, mas ela está tremendo. Põe a mão na testa. Está queimando. Não, não pode adormecer sem terminar o movimento que já contorna aquele corpo. E então os golpes no mármore ressoam mais e mais vezes.

Sente-se em descompasso com o seu próprio tempo. Mas o trabalho a salva! O trabalho a faz andar pelas ruas, ruas que lhe oferecem inspirações e por onde vagam suas futuras criações. As pessoas encerradas em seu cotidiano ofereciam cenas preciosas ao seu olhar. Ela, fascinada pelas imagens instantâneas que vinham ao seu encontro, captava o extraordinário fascínio dos gestos humanos. Orestes era uma mistura daqueles homens todos que via pelas ruas.

Lá estava ele, refletido nos espelhos, um ser que vai nascendo cheio de seiva nova. O corpo dele é o seu palco. Ela se inclina e beija-lhe a boca. Era um bicho assustado, tão belo que até parece que vai morrer. Sussurra nomes para ele: Kafka, Rodin, Wagner, Monet, na esperança de invocar-lhe uma inspiração diária. Infinita. A despeito do tempo e da morte. Mas ele não pode ouvir. Queria dar-lhe uma existência longe do abismo. Tirá-lo das trevas. Mas todos os esforços são tardios, todas as tentativas são embustes. As fúrias o atormentam. Está finalizando a obra.

O trabalho de acabamento exige movimentos precisos e exaustivos. Depois de lixar a escultura, acrescenta uma pátina transparente para obter maior grau de suavidade. O efeito não poderia ser melhor. Orestes, por todos os ângulos, está pronto em sua existência dolorosa. Ousa mais uma vez! Vai aos ouvidos dele e sussurra: Medéia, Emma Bovary, Diadorim, Macabéa. Ele permanece quieto como um cervo, mas as cortinas esvoaçantes quase se queimam nas chamas que o vento atiça em labaredas. De onde esse vento se as janelas e portas estão fechadas? Ela permanece de pé ao lado de Orestes. Extenuada.

Vai nascendo o dia. Pouco a pouco. Sem pressa. Ela sente uma inefável e incompreensível sensação de prazer diante da obra pronta. Viva. Mais uma vez ela transpôs seus limites. Sua alma está leve. Fica ali, tremendo, o olhar fixo nos olhos dele, imaginando: que diabos ela irá criar agora? E até quando?

Antes de apagar as luzes, vê, num rápido vislumbre, as fúrias brilhando nos olhos de Orestes.

8 comentários:

  1. Niza, que risco,lidar com a Arte e ser fiel a seus princípio!Que sofisticado seu texto! Contrastes que só o tempo mostra.Esforço, cansaço, perigo, paixão...Mas o instante de vislubre vale a vida do artista.
    Gostei!

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  2. Foi difícil escolher a passagem mais bonita, mas destaquei este parágrafo aqui:
    "Lá estava ele, refletido nos espelhos, um ser que vai nascendo cheio de seiva nova. O corpo dele é o seu palco. Ela se inclina e beija-lhe a boca. Era um bicho assustado, tão belo que até parece que vai morrer. Sussurra nomes para ele: Kafka, Rodin, Wagner, Monet, na esperança de invocar-lhe uma inspiração diária. Infinita. A despeito do tempo e da morte. Mas ele não pode ouvir. Queria dar-lhe uma existência longe do abismo. Tirá-lo das trevas. Mas todos os esforços são tardios, todas as tentativas são embustes. As fúrias o atormentam. Está finalizando a obra."
    Niza, seu conto é de uma sensibilidade extrema. Vejo nele a Niza psicóloga e a Niza poeta, esculpindo as palavras, desenhando a alma humana. Parabéns.
    Abs,
    Newton

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  3. Querido Newton
    Obrigada pelas palavras carinhosas. Você está certo, a poeta não cedeu espaço para a “contista”, nem um minuto sequer... É um lugar a ser construído, com certeza. Você é um contista nato e estamos todos aguardando ansiosos o lançamento do teu livro.
    Bjs
    Niza

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  4. Niza
    Seu conto é maravilhoso, é mitológico, alquímico, uma descrição sublime da vida que nasce em meio ao caos, da potência da criação. Uma trança de realidade e ficção, de angústia e êxtase, dor e prazer. Sua palavra é um cinzel que esculpe o humano. Lindo! Parabéns!

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  5. Niza,

    Escrever mostrando/ocultando a si mesmo é um trabalho de audaciosa temeridade, que só quem escreve experimenta e que, muitas vezes, se assemelha à arte de esculpir.
    A beleza de seu conto revela a sua própria beleza, e nas linhas e entrelinhas vislumbro traços seus, dos seus momentos, em cada personagem citado.
    Parabéns pela ousadia!!!
    Um beijo
    ZK

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  6. Niza, lindo texto. Tantas metáforas complexas e poéticas para entender o humano, a noção do tempo, o momento de se tomar a decisão, a criatividade embolada e solta, o homem representado no mito, o mito esculpindo o homem, o controle dos movimentos, o controle das emoções, a expressão que foge e forja e tinge, o trabalho árduo, o amor, a dedicação extremada, o sonho, a quimera, a beleza, a vida, a arte. Uma viagem ao consciente pelo inconsciente, um parto. Nasceu a contista, comemoremos!

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  7. Niza, acho que tem uma escritora gritando dentro de você, pedindo: "Coloque para fora toda essa emoção."
    Parabéns!

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  8. Minha dinda querida,
    gostaria de ter esse dom pois acredito que poucas pessoas conseguem ter a capacidade de criar algo assim. Acredito um dia ler um livro cujo nome da autora seja o seu. Parabéns!
    Beijos Gabi

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