CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

14 de fevereiro de 2013

[Opinião de uma leitora]


As muitas formas de ler


Quando comecei minha paixão pela leitura, lá na época do Ensino Fundamental II (falar ginásio agora é dar bandeira), fui muitas vezes ler as últimas páginas dos livros. Alguém aí notou que eu era ansiosa? Pois é, mas isso não me tirava o encanto da obra não. Depois tive minha fase Agatha Christie e aí, como eu tentava inutilmente adivinhar quem era o assassino, parei de ler os finais.

Fiquei sócia do falecido “Clube do Livro” e lia os livros direitinho, digo, comportada, como manda o figurino, boa menina. Não marcava nada nem escrevia nas páginas. Preservava a boa aparência das edições. Às vezes nem lia, como aconteceu com Lolita, de Nabokov, que eu li apenas no ano passado.

Depois que entrei para o CLIc, a coisa mudou radicalmente. Era a primeira vez que discutia uma obra lida, então passei a sublinhar trechos, fazer chaves, duas retas, uma reta, estrela, algum tipo de marcação. Fica mais fácil pra mim na hora de comentar o que mais me chamou a atenção e também para fazer o meu resuminho e dar minha nota ao dito cujo, coisa que passei a curtir – mais tarde, quando eu quiser reler, vou começar pelos nota dez. 

Na sequência, passei ainda a desenhar carinhas e até a escrever coisas tipo Absurdo! Não concordo. Esse cara é louco! Genial! E fiquei também necessitada de trocar impressões com outros leitores. Isso me enriquece muito. Quando li A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, o grupo já tinha lido, então contei com a boa vontade de alguns amigos para discutir uns trechos e me sentir contemplada. 

Pode parecer besteira, mas eu entendo isso tudo como uma liberdade e uma permissividade maior que conquistei a partir das leituras e nem um traço de obrigatoriedade passa por aí. Tanto que acontece às vezes. Se eu ler um livro do Mia Couto, por exemplo, acho que será impossível não marcar mil coisas, porque esse autor fala direto com meu coração, então minhas anotações são o carinho de quem soube receber o afeto que perpassa palavras gravadas sobre papel.

Mas isso não acontece sempre. Recentemente li o adorável A ilha sob o mar, de Isabel Allende, e meu exemplar está lá, limpinho da silva. Adorei, mas não senti necessidade de anotações. A mesma coisa aconteceu com Infâmia, de Ana Maria Machado, não marquei neca de pitibiriba, apesar de haver muitas questões dignas de longas dissertações.

São tantas as formas de ler. Quando terminei As brasas, de Sandor Marai, eu não soltava o livro, comecei a folhear, procurar o que eu tinha marcado, reler. Ficava segurando como quem diz: Acabou? Não, não, por favor, não!


Já a leitura de A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, eu fiz economizando, queria que rendesse muito. Demorei o máximo que pude. Saboreei e salguei meu livro (sim, as lágrimas corriam em muitos capítulos).

Olhando para trás, da Gracinda Rosa, eu li em um dia e meio, acho. Fiquei curiosa, a leitura fluiu tão bem, gostosa, li muito rápido.

Ulisses, de Joyce, eu comecei, relutei, suspirei e tentei pular uma parte, pra ver se a coisa pegava, pulei outra e mais outra e nada, então entreguei os pontos. Não estou pronta para ele, ainda.

Outros livros, como Flor da neve e o leque secreto, da Lisa See, eu leio revoltada. Quase tenho vontade de agredir as páginas, balanço a cabeça, fecho o livro, falo com meus botões, mas prossigo porque de toda forma é instigante e acredito que tem que haver um pouco de dignidade no final (ah, tolinha).

Crime e Castigo, do Dostoievsky, eu li emprestado, então não me sentia no direito de marcar o livro, mas queria. Aí li com uma folha A4 do lado e saía anotando o que eu queria. Deu bem mais trabalho, mas foi uma experiência interessante.

Alguns livros eu paro de ler de repente, para escrever um texto ou um poema, alguma coisa que a leitura me inspirou. Foi assim, por exemplo, com Vermelho Amargo, do Bartolomeu Campos de Queirós. Outros, eu só escrevo quando termino e outros não vêm nada na cabeça que valha à pena, como Os enamoramentos, de Javier Marías. Ô livrinho chato.


 As mulheres do meu pai, do Agualusa, terminei e precisei reler várias partes, fiz cronograma, dados dos personagens, tracei mapa e o diabo para melhor entender. Parecia que eu estava brincando de quebra-cabeça, muito legal.

Desde agosto de 2012 eu leio O Caminho de Swan, de Marcel Proust, e não posso dizer quando terminarei. Estou na página quatrocentos e varada, relativamente falta pouco, menos de 100 páginas, mas não consigo ler mais de 2, 3 páginas por vez. Me arrasto, o livro me cansa, apesar de ser bom.

Vejo no grupo do CLIc pessoas que colam aparas coloridas nas páginas ou compram na papelaria uns marcadores transparentes bacanas, fica show de bola.

Para mim, cada livro pede a sua própria leitura. Antes eu achava que isso era característica do leitor, hoje penso que levamos nossa marca, mas nos marcamos muito mais pelo livro em si. Estou toda tatuada. Adoro. Viciei. Quero sempre uma marca nova.


By Rita Magnago

P.S: As opiniões emitidas são pessoais e não refletem a opinião do clube de leitura.


15 comentários:

  1. Legal esse texto. Acho que o livro tem um poder interessante sobre nós. Ao termos um em mãos, podemos ter sobre ele imensa expectativa, interesse, vontade de devorá-lo, como se aquelas palavras ali escritas fossem nos transformar, abrir horizontes. Ou podemos ter uma expectativa mediana, mas o início e o transcorrer da leitura podem nos levar a um apego extraordinário que nos fará levar aquele objeto de desejo a todos os lugares, aproveitando cada minuto disponível do dia para percorrermos mais algumas páginas.
    E não me refiro apenas aos livros de ficção. Há aqueles que nos informam, os que nos dão cultura, os que nos provocam com ideias. Todos podem ter esse poder mágico de nos mobilizar, nos emocionar, revolver mentes e corações.
    No final dos anos 70 e início dos 80, vivi uma emoção a mais nas leituras: lia livros proibidos. Eram encapados com papel pardo ou rosa ou azul, já que seus títulos não deveriam ser vistos por terceiros, ainda mais se esses "terceiros" fossem policiais. Mas eu os lia não só em casa, mas também no ônibus. Abria o dito cujo e torcia para o vizinho de assento não enxergar as letrinhas miúdas. Ou, se ele lesse alguma coisa, alguma palavra ou expressão estranha como "classe operária", "revolução", "derrubar a ditadura", que ele admirasse o estudante idealista e hipotecasse sua solidariedade com um leve sorriso. Bem, se de todo eu me desse mal e fosse detido por ler um livro, eu estava preparado psicologicamente para ser arrastado pelos meganhas esbravejando como um louco, denunciando aquela violência. Não sairia barato. Livros, vejam só, como incomodam! Quando não propõem revoluções exteriores, no modo de agir e pensar da sociedade, provocam reviravoltas interiores, em nossa alma, em nossa forma de ver-nos e aos demais. Deviam construir um monumento ao livro. Em cada cidade um monumento mais bonito, lembrando a importância do livro. Garanto que há muitas estátuas de figuras históricas por aí que não chegam aos pés, em importância passada e futura, do que representou e pode representar o Livro para toda a população.
    Abs,
    Newton Novaes Barra

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    1. Que interessante essa experiência de ler livros proibidos, Newton. Não passei por isso, mas acho excitante. Junta-se à emoção da leitura o risco, o medo, o ardil. E a ideia do monumento ao livro é excelente!

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  2. Que beleza Rita encontrar você por aqui! Eu comecei a gostar de ler antes de ser alfabetizada. Já lembro de mim em um quarto cheio de livros que poderiam ser abertos sem censura! Que maravilha! Tinha, entre os muitos livros, um grossão capa azul marinho chamado O médico do lar. Ali tinham muitas fotos, de doenças e mortes de todos os tipos, afogamento, gente com erizipela, queimadura e por aí vai. Eu e minha irmã ficávamos olhando aquilo horrorizadas e acho até que minha irmã ficou meio hipocondríaca por conta do tal livro.
    Também faço parte da geração que lia comportada e fazia anotações. Minhas anotações acabaram indo para o que eu chamo de "A caixa do pensamento", resolvi reunir tudo na caixa o que já me salvou de boas em momentos em que a vida não vai como a gente quer e se questiona "Who am I?" como Jean Valdjean, então abro a caixa e entendo que minhas aflições têm a ver com as minhas escolhas.
    Já há bastante tempo comecei a conversar com os livros, e por esse motivo não gosto de emprestar livros porque estou muito exposta ali nos meus comentários, rsrsrs
    Hoje terminei de ler Infâmia, muitas coisas para a caixa do pensamento, muitos reencontros comigo mesma e muitas desconstruções. Adorei o livro, aliás estou adorando o clube. Tanto a escrever que vou parar por aqui para não ser prolixa, nos tempos de 142 caracteres.

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    1. Rose, adoro seus textos, a maneira como você conta a estória é hilariante. Que vontade de ter visto esse "O médico do lar". Entendo essa coisa da reserva em saber que outros poderão nos descobrir através de nossos escritos, mas já relaxei em relação a isso. Nos descobrem de qq maneira, rsrsrs.

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  3. Muito legal a matéria. Discordo de alguns avaliações mas essas diferenças no ponto de vista dos leitores enriquecem o debate. Quem quiser saber quais foram os melhores livros lidos no CLIc em 2012 segundo enquete aberta aos visitantes do blog, visite a aba "MELHORES DO CLIc", ou copie e cole o endereço http://clubedeleituraicarai.blogspot.com.br/p/melhor-do-ano.html no seu browser.

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    1. Obrigada, Evandro. Na verdade minha opinião sobre os livros foi apenas um pano de fundo, serviu somente para exemplificar o que eu queria dizer, ou seja, abordar a incrível multiplicidade de formas de ler, no que diz respeito à velocidade da leitura, à necessidade ou não de fazer anotações, marcações, de escrever sobre ou a partir de, de pular páginas ou seguir a cronologia do livro, de tentar desvendar o quebra-cabeças ou deixar-se levar, enfim, as infinitas sensações e grande impacto que o livro exerce sobre nós, leitores.

      Sobre a escolha dos Melhores do CLIc em 2012, fui conferir, e me surpreendi com o resultado. Acho que não reflete a opinião da maioria, pelo menos dos que frequentam a reunião. Observei também que o nº de votantes vem caindo. Em 2010, 82 leitores participaram da enquete, em 2011, 60, e ano passado, 49. É contraditório com o crescente número de participantes do Clube. Talvez os brasileiros tenham se desanimado tanto em votar nos políticos que agora prefiram se omitir das votações em geral?

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  4. Querida Rita,
    Excelente seu texto sobre o ato de ler. Antes de terminar e ver seu nome,já sabia que era seu. E, quando citou Mia Couto e a impossibilidade de não marcar mais de mil coisas no seu livro, não tive dúvida. A forma de você tratar o livro e abordar a leitura tem muito a ver com os Direitos Imprescrítiveis do Leitor, relacionados por Daniel Pennac. Parabéns! Você é um grande exemplo de leitora. Renovo,aqui, o que lhe digo sempre: aprendo muito com você. Quanto ao melhor livro lido em 2012, tenho dificuldade em apontar. Tantos me encantaram!
    Beijos. Elenir

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    1. Fiquei muito contente de você ter me reconhecido no texto, Elenir, tanto pela forma como pelo conteúdo. A escrita é uma maneira de nos revelarmos e eu pretendo seguir nesse caminho que aponta para o auto-conhecimento. Nossa paixão mútua pelo Mia Couto é um grande prazer para mim, pois você é uma pessoa de sensibilidade e expressão admiráveis, além de inúmeras outras qualidades. Já ouvi muito falar nesses Direitos do Leitor, e embora não os tenha lido, gosto de saber que estou engajada. Muitos beijos para você.

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  5. Interessante que aqui no blog do CLIc repetem-se, com mais calma e a elaboração por escrito, os debates que temos nas reuniões. Opiniões diferentes, que ora se complementam, ora apenas divergem, fornecendo-nos novas visões. Aqui vários leitores publicam suas opiniões, avaliações, encantamentos e críticas sobre os livros lidos. Eu já publiquei, Rita, Winter, Cybéle, Antonio, Elenir, Eloísa, Lilian, Cristiana e vários outros... Foram análises, comentários, poemas, haicais... Sempre expressando a visão e opinião pessoal dos autores, nada além disso. Creio que essa diversidade é a alma do CLIc. Parabéns, Evandro, por ser o condutor desse grande encontro democrático.

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  6. Valeu, Newton! Faço parte do bloco abre alas do clube de leitura. O Carnaval mesmo é feito pela alegria e diversidade de leitores do CLIc, esses foliões incondutíveis!

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  7. Rita, como já havia dito particularmente, acho você de um dinamismo incrível. Outra coisa que aprecio em você é sua forma simples mas ao mesmo tempo corajosa de ser, que fica tão transparente em suas escritas. Fico com a sensação que você se desnuda quando escreve...
    Parabéns,mais uma vez.
    Beijinhos ternos e sempre cheios de esperança,
    Vera Lucia Schubnell Freire.

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    1. Vera, você é a simpatia em pessoa, obrigada. Engraçado você usar a palavra desnuda, meu filho me encarnou muito, disse que eu usei essa palavra muitas vezes no meu livro, não sei, não contei, mas foi isso mesmo que eu senti. Cheguei até a comentar com a Cris, que me falou que era o inconsciente se manifestando. Que se manifeste então!

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  8. Meus parabéns também ao comentário do Newton.
    Naquela época não tínhamos a liberdde de ler e muito menos de pensar em comentar o lido.
    Viva a liberdade do nosso CLUBE DO LIVRO!
    Vera Lúcia Schubnell Freire.

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  9. Rita, parabéns pelo belo texto! Concordo que cada leitura , além de cada tipo de leitor, cobra de nós , ou nos proporciona, um tipo de comportamneto. Há livros que proporcionam trechos que gostaríamos mesmo de tê-los tatuado no coração, outros, indeleveis no intelecto. Há aqueles que lemos, rimos e deixamos de lado. Há mesmo outros que amamos numa época e passados anos, não nos dizem mais tanto.Por isto tenho medo de tatuagens!rsrs Adorei seu saboroso texto, fluiu!
    Bjs.

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  10. Elô, obrigada. Também adorei seu texto, especialmente o final bem humorado. Mas se eu tivesse tatuado O Pequeno Príncipe, Fernão Capelo Gaivota, Longe é um lugar que não existe, e outros idílicos que povoaram minha infância, ainda não tinha me arrependido não.

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