CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

4 de maio de 2012

Sobre Lima Barreto e seu "livrinho" Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá



Gostaria de ter lido mais cedo este pequeno notável livro de Lima Barreto, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, pois vejo nele grande potencial para um bom debate. Por hora, quero deixar só duas coisinhas: a primeira é uma referência de Lima Barreto ao filósofo francês J.J. Rousseau (1712 - 1778). Diz Gonzaga de Sá:

"— Se eu pudesse — aduziu —, se me fosse dado ter o dom completo de escritor, eu havia de ser assim um Rousseau, ao meu jeito, pregando à massa um ideal de vigor, de violência, de força, de coragem calculada, que lhe corrigisse a bondade e a doçura deprimente."


Ao ler este trecho, lembrei-me de "O Contrato Social", uma das obras mais conhecidas de Rousseau, e que muitos dizem ter influenciado a nossa Constituição Republicana. Escreveu Rousseau:

"... o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado o terreno, lembrou-se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “evitai ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém”." (Desculpem, mas não lhes posso indicar a referência por não ter o livro aqui comigo, enquanto escrevo este texto). 

Esta passagem é  bem condizente com a crítica social implícita e explícita no livro de Lima Barreto. 

segunda é um trecho do livro, um dos que mais gostei, acredito que já seja um esboço da prosa poética que viria influenciar decisivamente a prosa do século XX, acho eu:

"As alturas apareciam cristalinas e o sol caía em jorros de luz sobre a superfície da baía. Começara já a viração. Ao fundo, e na frente, as montanhas saíam nitidamente do painel em pareciam pintadas. Uma ilhota, com sua alta chaminé, não diminuía o largo campo de visão que o mar oferecia. Alonguei a vista por ele afora, deslisando pela superfície imensamente lisa. Surpreendi-o quando beijava os gelos do polo, quando afagava as praias da Europa, quando recordava as costas da Ásia e recebia os grandes rios da África. Vi a Índia religiosa, vi o Egito enigmático, vi a China hierática, as novas terras da Oceania, e toda a Europa abracei num pensamento, com a sua civilização grandiosa e desgraçada, , fascinadora, apesar de julgá-la hostil. E, depois de tão grande passeio, minha alma voltou a mim mesmo, certificando-me de que, aqui como naqueles lugares, era hora a mais, ora a menos. E me pus a pensar que sobre a convexidade livre do planeta que me fez, não tinha um lugar, um canto, uma ilha onde pudesse viver plenamente, livremente. Olhei o mar de novo. Boiavam sargaços, balouçando-se nas ondas, indo de um para outro lado, indiferentes, à mercê dos movimentos caprichosos do abismo. Felizes!   (p. 78) 

Este é um trecho que pode alimentar bons debates, pois há nele a questão da liberdade, do sentido da vida, da felicidade, temas que todas as gerações, em todos os tempos, propõem-se a discutir, e cujas respostas estão sempre em aberto para as gerações vindouras. 

É só, depois postarei minhas marcações, trechos que achei interessantes e tecerei alguns comentários, minhas impressões sobre esses trechos. 


Antonio R

Um comentário:

  1. Antonio, adoro as comparações de texto que você faz entre uma obra e outra. Muito enriquecedoras e estimulantes. Lima fez essa ponte entre o ontem e o hoje, sua obra é bonita e, para mim, também 'naif', com aquele ar de criança crédula que precisamos ter para mudar o mundo.

    ResponderExcluir

Prezado leitor, em função da publicação de spams no campo comentários, fomos obrigados a moderá-los. Seu comentário estará visível assim que pudermos lê-lo. Agradecemos a compreensão.