CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

4 de julho de 2015

Homem Comum Enfim: Anthony Burgess

 “Stephen faz o que Aristóteles não fez, e agora segue suas definições de piedade e terror com a delimitação estrita do termo 'trágico'. As pessoas morrem em acidentes de trânsito, mas não podemos, tal como os repórteres de jornais, chamar adequadamente essas mortes de trágicas: a emoção trágica é uma face olhando para dois lados, para o terror e para a piedade, pois que ambos são faces dela. Veja que uso a palavra deter. (Tanto  o terror quanto a piedade, ele disse antes, detêm a mente 'na presença daquilo que é grave e constante no sofrimento humano.')  Quero com isso significar que a emoção trágica é estática.  Joyce está de fato definindo o tipo de arte que faz, arte adequada. As artes que excitam o desejo ou a repugnância são inadequadas, cinéticas: são pornográficas ou didáticas. Com a emoção estética 'estática' - que não podemos sentir em relação aos sentimentos da vida real - a mente é detida e elevada acima do desejo e da repugnância. É por isso, claro, que arte adequada não pode ser popular, e que Ulysses e Finnegans Wake foram recebidos com fúria e indiferença. Sua lista de mais-vendidos sempre inclui o pornográfico (excitadores do desejo) e o didático (livros que lhe dizem o que fazer).  Combine o didático e o pornográfico, como em alguns manuais de sexo hindus, e você tem o melhor mais-vendido.  A emoção estética não é em geral mais procurada do que o estado místico. O leitor médio não quer ficar do lado de fora da vida, vê-la de maneira distanciada e com indiferença; ele requer a ilusão de estar profundamente envolvido nela.”  (p.63)




Stephen enfim sabe que a literatura é sua vocação, sacerdotal o bastante, já que sua função é a transmutação de acidentes inferiores em essência divina. Por intermédio da arte ele consegue lidar com os conteúdos baixos da vida material:

O tênue e ácido fedor de verduras podres chegou até ele vindo dos jardins de fundo de cozinha no terreno que se eleva sobre o rio. Ele sorriu ao pensar que era esta desordem, o desgoverno e a confusão da casa do pai, e a estagnação da vida vegetal, que em sua alma traria a vitória.




Se ele...
Oh!
Hã?
Não... não.
Não, não. Não acredito. Ele não faria isso, faria?
Não, não.


INTROIBO AD ALTARE DEI


Estou convencido de que muitos leitores procuram num livro não apenas a história mas também a cumplicidade do contador da história - querem um amigo com um conhecimento do mundo relativamente maior que o deles, alguém que conheça os clubes, um bom charuto, 'Niterói' ou Cingapura, que talvez tenha se divertido com uma mulher invulgar e lido livros esquisitos, mas que permaneça amigável, sorridente, tolerante mas indignado, sempre acessível mas sempre imparcial. 



É mais fácil justificar a estranheza num poeta do que num romancista. O comércio do poeta é com as palavras, um comércio estranho de qualquer modo, e ele tem que as dispor de maneira estranha para chamar a atenção para o mistério da linguagem (um mistério que é uma distração no mercado). Mas o comércio do romancista é menos com as palavras do que com as pessoas, lugares e ações. A maioria dos leitores quer chegar ao conteúdo de um romance sem a mediação de um tipo de escrita que parece obstruir, rivalizando com a trama ao reivindicar atenção. 

...

Se não nos pode oferecer ação, então nos dê inventário.

...

A visão geral é a seguinte: é um erro do romance ser literatura. O romance popular nunca foi literatura, e daí ser popular: a linguagem é transparente, uma janela que se abre para as situações gerais e para as personagens gerais. Os romances de Joyce são todos muito literários, a linguagem extremamente opaca. 





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