CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

14 de abril de 2014

Os coveiros: Hélio José Lima Penna


Fonte

É noite, o cemitério fechou os portões. Arlindo, chefe dos coveiros, recebeu as chaves das mãos do zelador. Hoje, especialmente, permanecerá no local. Com as chaves, foi à copa, fez o café e tomou um gole. Dirigiu-se então à sala do administrador. O ambiente suntuoso exalava o aroma das essências usadas para "combater o fedor da morte", como ensinava o chefe. A placa de bronze, na mesa metodicamente arrumada, chama a sua atenção: "Doutor Ary dos Santos Quintanilha", pronuncia Arlindo, ao sentar-se na cadeira do advogado. Como num carrossel infantil, rodopiou várias vezes no assento. Ao segurar a caneta dourada, admirou as suas mãos: gostaria de cuidá-las melhor. Se pudesse, também usaria roupas mais caprichadas. Não devia, porém, chamar a atenção. "O doutor não pode saber o quanto eu ganho nesse negócio: vai me pedir mais e mais...", refletiu. "E os meganhas me tomam até os dentes, se eu estampar algum luxo".

Ele deixa a sala. Tem o cuidado de manter as coisas como as encontrou. Segue para a área dos sepultamentos. Esperaria pelos companheiros já na sepultura escolhida. Era justo que tomasse conta do que lhe pertencia. "É o olho do dono que engorda o boi", pensou e achou graça dessa ideia. Sempre que havia um enterro luxuoso, ele ficava no cemitério. "Só tem barão no velório da capela dois", veio dizer-lhe a gostosa da cantina, rebolando a bunda. E, depois, a servente descrevera-lhe o anel, a pulseira, o relógio, as abotoaduras, o cordão e os sapatos que o morto, um vereador, levaria para o além-túmulo. A cara murcha e triste da faxineira era muito útil. Condoídos, sem perceberem, os parentes passavam-lhe informações preciosas sobre os defuntos.

Na noite clara de verão, Arlindo caminha pelas quadras do jardim dos mortos, que lhe parecem as vielas estreitas do bairro onde mora. Os túmulos são as casinhas apertadas, grudadas umas as outras. Ele avança; suas botas ferem o silêncio majestoso do lugar.

O líder dos coveiros chega à sepultura determinada. A Lua cheia derrama-se sobre o campo-santo. As árvores estendem sombras gigantes na superfície do ostentoso mausoléu que ele violaria com a ajuda dos outros companheiros. Roubava os mortos? Perguntou-se. Mas os mortos são donos do quê? Questionou-se. O quê fariam as almas com todos aqueles pertences? Os finados têm fome? O que ele subtraia dos falecidos, alimentava os vivos. A faxineira, o zelador, o administrador e os demais não partilhavam da viração? Ele mesmo se impressionava com a sua habilidade em administrar o esquema.

Cansou-se de ficar em pé. Doíam-lhe as pernas. Sentou-se no túmulo. Depois deitou-se no mármore frio, apoiando a nuca nas mãos. A pérola do céu sorria-lhe, esplendorosa. Uma vez fizera uns versinhos sobre a Lua e dedicou-os a professora. Ela ridicularizou a sua poesia e riu dele com toda a turma. Ele — apenas disso se recorda — rasgou os versos na cara da professora, tomado de repentina fúria. A escola o expulsou. Foi surrado sem dó pela mãe e pelo pai. Nunca mais estudou.

Arlindo adormece e sonha com sua escola primária. Está na sala de aula. Tímido, mostra os seus versos à professora... O rosto da mestra ilumina-se... Sua arte é aplaudida por ela e os alunos... O beijo suave da educadora toca a sua face... A fragrância feminina o envolve... O pai o elogia... A mãe o abraça... Um assovio longo e preciso desperta-o rapidamente. Mais dois assovios, curtos e ritmados, atingem os seus ouvidos. São os companheiros... Começaria o trabalho.

(Este Conto de Hélio Penna consta do livro "Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros")



Hélio José Lima Penna


Nasceu no Rio de Janeiro em 1961, é contista e poeta.

Foi levado ao Clube em 2012, pelas mãos da poetisa Rita Magnago.







'Fico muito feliz ao saber que os meus textos estão despertando a atenção dos meus companheiros. Estou com 53 anos e escrevo desde a adolescência. Filho de operários, morador em morros do Rio de Janeiro, não tive na família quem me despertasse o amor pela Literatura. Só aos cinquenta anos cheguei ao Ensino Médio, e agora estudo Letras. Não sei explicar de onde vem esta quase necessidade de escrever e ler. Apesar de estar empregado formalmente aos 14 anos numa metalúrgica, eu, e não lembro como, tive acesso a Literatura Brasileira, e isso acalentou os meus pensares e as minhas dores. Meus professores e psicólogos foram, entre outros,  Herberto Sales, Jorge Medauar, Jorge Amado, Cecília Meireles, Drumond, João Antônio. Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Lígia Fagundes Teles,  Massaud de Moisés, esses e tantos outros, sabiam o que se passava no meu interior; sabiam das injustiças que meu corpo e meus olhos presenciavam. Eles me deram, então, a chave da porta do "neurótico" mundo da ficção e me ensinaram a desaguar os meus rios e canalizar toda a reflexão que faço sobre as condições que vive o meu povo.

Veja, o nosso Clube dando, a um escritor, a chance de um fragmento tão íntimo. A chance de poder citar escritores e escritoras que, em certa medida, o adotaram.

Muito obrigado.

Hélio Penna


. . "O escritor criará um mundo  de dentro de si mesmo. Eis o ato neurótico. É o vazio e de repente o mundo" (Oswaldo de Camargo)'

Um comentário:

  1. Já se publicou neste blog um conto do autor intitulado "O barqueiro", agora vem "Os coveiros", ... seu tema preferido são os ofícios profissionais?

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