CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

15 de janeiro de 2013

Obra artística onde convivem óticas variadas


(por: W. B.)

“A Caixa-preta” (Kufsa Chhora) – livro de Amós Oz, romancista israelense atual (nascido 04/05/39) mais traduzido pro Português – foi lançado em 1987, mas, ambientado no ano de 1976. É composto por correspondências: 51 cartas e 56 telegramas trocados entre os personagens. Essa estrutura, mesmo incomum, não constitui novidade na historia da literatura: é o chamado romance epistolar, do qual são exemplos “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (Die Leiden des Jungues Werthers), escrito pelo alemão Johan Wolfgang Goethe (1749-1832), bem como “Relações Perigosas” (Les Liaisons Dangereuses), obra pertencente ao francês Pierre Ambroise François Choderlos de Laclos (1741-1803). Esses livros vieram a público em 1774 e 1782, respectivamente, enquadrando-se numa forma literária bastante popular naquele século 18.

Porém Amós Oz (cujo nome registrado é Amos Klausner) trouxe, em seu livro, algumas peculiaridades em relação aos escritos de Goethe e Laclos.

Lendo Werther, percebe-se que a voz desse personagem título domina quase absolutamente. O narrador surge ao início afirmando ter juntado tudo quanto lhe foi possível recolher a respeito do “pobre Werther”, a cujas cartas temos acesso a partir daí. São correspondências dum mesmo remetente e todas endereçadas a Wilhem: as respostas não aparecem para nós. O narrador volta ao final do romance pra relatar o destino do protagonista. A estrutura, como se vê, é mais semelhante a um diário que propriamente a um romance epistolar.

O livro de Laclos, em contrapartida, é multifacetado, composto por missivas trocadas entre vários personagens, as quais vão compondo a trama que está a se desenrolar no presente: repleta de artimanhas, adultério e seduções.

Já em “A Caixa-preta”, as cartas estão mais voltadas à exposição do passado dos personagens e seus sentimentos, do que a ações que ocorram na época em que são relatadas. Como a caixa-preta dum avião, o livro desvela o já acontecido na trajetória – e derrocada – do casal Alexander (Alex ou Alec) A. Guideon e Halina (Ilana) Brandstetter.


Muito interessante é a variedade de perspectivas presentes na obra. Cada remetente vai se despindo em seus escritos, desnudando sua visão de mundo, sentimentos e opiniões, diretamente, sem intromissão dum narrador onisciente pairando acima de todos eles.

Compreende-se a verdade de cada um, seus motivos e posicionamentos. Se num momento o intelectual Alex nos parece simplesmente frio, cruel; noutro o vemos também em suas dores, fragilidades e boas intenções em relação ao mundo, o qual quer ver sem guerras ou opressões religiosas. Ilana, a ex-mulher adúltera, também se move em favor do bem, sendo capaz de grandes sacrifícios, mesmo por quem já a ofendeu e agrediu. Seu novo marido Michel-Henri Sommo, embora fanático e, em geral, intolerante, opoia Ilana e, com generosidade, aconselha o filho dela (Boaz), ajudando-o a abandonar condutas violentas. Boaz, por sua vez, de agressivo, desregrado e inconsequente, vai aos poucos revelando seu lado doce, equilibrado, respeitoso com o próximo.

A escrita de cada personagem é bastante própria, e nós, leitores, ao início da correspondência, já percebemos de quem ela é, pelo estilo em que foi feita. Diferente do “Relações Perigosas”, que apresenta logo no início de cada carta o destinatário junto com o remetente; no livro de Oz, só na assinatura aparece explicitamente de quem ela veio.

Vários estilos textuais, múltiplos entendimentos sobre religião, família, política, sexo, amor, convivência, essa é a caixa-preta que nos é dada a interpretar para chegarmos a nossas próprias conclusões acerca do desastre que vive o ser humano hoje num mundo de guerras, fanatismos e incompreensão.

Fontes:
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0101-31062010000100007&script=sci_arttext;

http://pt.wikipedia.org/wiki/Amos_Oz.

(A CAIXA-PRETA FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA DE ICARAÍ EM 03/02/12)

4 comentários:

  1. Um dos melhores livros debatidos em 2012, na minha opinião.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na minha também, Unknown!
      Adorei WB ter falado deste livro sobre este foco: óticas variadas. temos algo semelhante em As mulheres do meu pai. Vamos tomando conhecimento dos fatos com pontos de vista diferentes. Muito bom, Winter!

      Excluir
  2. Também gostei muito desse livro, para mim foi nota 10. Já li outros livros com estrutura parecida. O romance da portuguesa Ines Pedrosa, Fazes-me falta, onde ora é ela, já morta, ora é o amante, quem escreve, e mais recentemente Flores azuis, da Carola Saavedra. Metade do livro é ela escrevendo cartas para um ex-amor, mas na verdade é um estranho quem as recebe, e a outra parte é o que acontece com esse 'estranho'. Interessante. Os outros livros citados por Winter não tive o prazer de ler ainda. Legal o post.

    ResponderExcluir
  3. Romance ruim esse Flores azuis. Não chega perto de "A aixa preta", de Amós Oz. A Narrativa dessa menina, Carola Saavedra, é cansativa e pouco envolvente, e o final do livro, que dizem ser surpreendente, eu chamaria de decepcionante.

    Winter, excelente texto, ótima análise.

    P.M

    ResponderExcluir

Prezado leitor, em função da publicação de spams no campo comentários, fomos obrigados a moderá-los. Seu comentário estará visível assim que pudermos lê-lo. Agradecemos a compreensão.