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O Clube de leituras não obrigatórias

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9 de março de 2012

Um heterônimo para o além?




Leitura de Março/Abril


Fernando Pessoa, li que entre suas dezenas de heterônimos você já teve um mulher, melhor dizendo, não chegou a tanto, foi mais um alter-ego chamado Maria José, corcunda e perdidamente enamorada, não é isso? Mas a minha proposta é outra. Que tal um heterônimo feminino no seu porvir, que por acaso já chegou? Pode ser uma brasileira? Será que seria seu primeiro heterônimo formado pós-morte? Apresento-me ao cargo.

Sorvi contigo, gota a gota, o desânimo e a falta de apetite para a vida que nos representa. Senti teu tédio, inimigo meu de tantas horas não desejadas, passeei ao lado do Tejo em dias de chuva e noites sem sol – coisa que por aqui não há mesmo. Caminhei sem perceber e também cheguei a lugar nenhum de mim, onde me desconheço profundamente. Fui presença sem notar. Nem incômoda foi minha sombra, posto que não pode haver sombra do que não existe, no entanto, sinto que em algum lugar, em algum momento de desalento maior, eu fui, senti esse prazer ou sonhei que senti, e assim ele me foi real, ainda que breve.

Não pude entregar-me de todo como tu, pois estou presa à vida que não existe - mas finge tão bem - estou presa à família, aos amigos, ao amor e, é claro, ao sexo, do qual não posso mesmo fugir, tu bem o disseste através de Bernardo Soares, ‘nem as mulheres superiores o conseguem’. Mas, te confidencio, achei que o que desvesti foi minha alma. Ah, e isso foi bom. Foi só pra mim, que só o sou quando outros, então foi pra todos os que não viram nem souberam, mas não me tira o mérito, não é mesmo?

Agora deixa que te fale o mais importante. Conheci o divino pelos teus pensamentos, que nem eram teus, mas isso não importa. Conheci e quero que tu sintas a maravilha que é. O divino é como um respirar sem fim, um ar puro cheirando a eucalipto com capim limão, que só entra, preenchendo o vazio sem, no entanto, ocupar espaço. O divino é a luz da lua cheia que devolve o brilho à minha alma e a traveste de alegria. O divino é o contentamento infinito do meu coração, que transborda num sorriso incontido e se alegra com o prazer meu e do outro, que também é meu, posto que não sendo ninguém, sou todos. O divino, desculpe que te digas, assim, de chofre, não te queria magoar, mas não te posso mentir. O divino sempre esteve em mim, mas foi por ti que o descobri lá, intrincado com as outras mil facetas que brincam comigo de esconde-esconde.

E, antes que te entregues à melancolia, deixe que te diga mais uma coisa: há 124 anos que nasceste e ainda hoje estás vivo em tantos de nós e por tanto tempo hás de estar que podes agora, enfim, regozijar-se de ter existido, já que se comprova tua presença em nós na tua ausência de nós. Não foste sombra, foste toda a luz por nós. E por isso hoje posso ser leve, tu já carregaste todo o peso da existência social, moral e individual.

Logo, pretendo ser um heterônimo pra cima e agradecida. Hoje em dia, Fernandinho – nós brasileiros vamos logo pegando intimidade - posso ser liberada de conceitos e preconceitos, emancipada de mim, dependente de ti, um pouco, porque a vida sem poesia é mesmice e eu preciso da graça, do sonho e da ilusão, tudo junto e misturado, para formar minha prosa. Vou sonhar teu sonho para ti para que não te canses, concordas? E se quiseres voltar, agora que te ofereço o presente do futuro em seu passado, reencarna em mim Fernandinho, que estou pronta. 

Rita Magnago

4 comentários:

  1. B R A V O !!!!! Assim eu fico cada vez mais orgulhoso... falta pouco para eu dar vexame aqui...

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  2. Newton, ame e dê vexame!rsrsr
    O texto de Rita está maravilhoso. Como eu disse , lá no Face, nada como a lua e um grande livro a nos inspirar, a penetrar nos cantinhos escondidos de nosso ser. Quando fiz o curso com Dília, chorei com Maria José. F Pessoa atinge camadas do inconsciente e talvez do nosso futuro. Viu só, postamos a imagem ao mesmo tempo!rsrsrVocê aqui e eu no Face.
    Rita, parabéns, você diz todo o possível e talvez o quase possível.
    Excelente texto, mais que isso, brilhante. Foi um presente!...

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  3. Rita, você tem certeza que já não é a reencarnação heteronímia do Fernandinho? Esplêndido o seu texto. Pode dar vexame, Newton, a poetisa merece. Rita, parabéns!!!

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  4. Queridos Môzi (ih, falei), Elô e Antonio, vocês são todos muito gentis comigo. Muito, muito obrigada.

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