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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

12 de dezembro de 2012

Curtindo Passados de Novo - Prêmio UFF de Literatura 2011

NOVO: Dia 17 de Dezembro teremos a premiação da edição de 2012 do Prêmio UFF de Literatura. Assim como no ano passado, neste ano temos três participantes do nosso clube de leitura entre os finalistas: Rita Magnago (Crônica), Benites e novaes/ (Conto). É torcer e comemorar!!!

Assista o vídeo da entrega de prêmios em 2011

(Vencedor do Prêmio UFF de Literatura 2011 - Conto)



A VIAGEM DO FILHO QUERIDO: novaes/ 

Tudo bem que adolescentes são estranhos. Está certo que os hormônios põem-se a trabalhar, a atrapalhar a ordem até então estabelecida; ok que os púberes rejeitem a infância e almejem a maturidade e, ainda, que confundam sua ansiedade por tomar decisões com a capacidade real de tomá-las. Está tudo muito bem, mas não há como negar que são seres estranhos esses, apenas não tão estranhos para nós porque já o fomos um dia e sabemos como é sê-lo, ou pelo menos deveríamos sabê-lo.

Apesar disso tudo, houve um susto. Jantávamos em família, a mesa como nosso teatro diário de conversas, dramas e comédias, mas também de ajustes e enfrentamentos. Eis que nosso filho de dezesseis anos – dezesseis anos e meio!, ele sempre enfatiza – anuncia que quer ir à Itália. Que lindo, disse sua mãe, sem perceber aquilo que logo pressenti no tom de voz do garoto: não era um dia, era agora. Você vai adorar a Itália, continuou perigosamente a mãe. Posso ir semana que vem..., lascou de chofre, com o abuso característico da idade, fazendo a mãe engasgar com as palavras que havia dito ainda na boca.

O jantar e o assunto foram mal digeridos. Usamos nós, os adultos, todos os argumentos de praxe, e os seus estudos, o que você vai fazer sozinho na Itália, não é assim que a banda toca, de uma hora para outra sair pelo mundo, com que dinheiro, você não pode fazer o que quer ainda, não com apenas dezesseis anos, tá legal, e meio, nem vão te deixar lá assim, vão pensar que você pretende imigrar, vai ser mais um despreparado nas ruas, vai ser camelô, vai perambular, dormir onde, comer o quê. 

Fechou a cara e emigrou da mesa de jantar como se fosse um país em ruínas, não as históricas, mas as atuais, dolorosas, desprovidas de qualquer encanto. Minha até então aliada e ainda esposa virou-se contra mim. Pronto, ficou aborrecido, aborreceu-se ela. É um ditadorzinho, eu disse, é o nosso Pequeno César. Viu, você que quis botar esse nome: César, o imperador, agora o menino quer ir pra Itália, tem sonhos megalômanos aos dezesseis anos!, concluiu minha mulher com sua lógica irretorquível. Vi logo onde ia dar: era tudo culpa minha, só faltava dizer que era porque me chamo Ítalo, e daí o garoto ficou com essa referência desde a tenra idade, e agora virou uma fixação, o Pequeno César quer atravessar oceanos e mares e tornar-se Ítalo. 

Durante uma conversa com o menino, notei que a coisa era séria. Tentei jogá-lo aos leões, impor minha força de pai, mas o garoto postou-se como um gladiador destemido, usou como escudo seu legítimo direito a viver e como lança afiada a culpa que me caberia caso se tornasse um adulto frustrado, um velho carcomido por tudo que deixou de fazer nesta vida. Com o agravante de que ninguém sabe o dia de amanhã, e se ele sofresse um acidente grave, e se adoecesse, e se não tivesse outra chance de viver. Não, minhas culpas já me torturam o suficiente, combinamos que nas férias de julho, verão na Europa, ele viajaria à Itália.

Meu filho, o Pequeno César, não queria mais ser pequeno, entendi. Onde mais tanta História, tanta cultura; onde mais tantos grandes. Meu garoto queria ser grande. Passou os meses seguintes, antes da viagem, numa incursão introspectiva, absolutamente íntima, apaixonada, a tudo que fosse italiano, treinava palavras, pesquisava mapas, cidades. Queria entrar no clima, pediu à mãe que fizesse em casa todos os pratos típicos daquela culinária. Mais tarde poderia comparar os sabores, temperos e o fazer, lá na origem; seria uma experiência legal.

Vi com surpresa essa sua viagem gastronômica preparatória. César não comia aqueles pratos, ele mergulhava, sentia, enroscava-se. Caminhava pelos fetutines e talharins como se fossem finas estradas rumo ao êxtase; surfava no ravióli ondas infinitas; alucinado, entrava em parafuso com o fusili. Como um aloprado, era quase obsceno quando se relacionava com a carne delicada, fina e apetitosa do carpaccio. Mas espantei-me mesmo quando vi meu filho, meu garoto, agarrar-se aos fios do espaguete como se buscasse, com ânsia, emaranhar-se, alma, coração e impulsos, naquele aroma instigante, naquele roliço e escorregadio labirinto. E, sim, definitivamente aturdi quando o vi emergir do molho de tomate vermelho de paixão.

Obviamente cometi um erro, constatei. Aquela volúpia não era apenas o apetite voraz de um adolescente, ou a admiração pela Itália, por mais que ela mereça. Algo de estranho acontecia com meu estranho filho. Aquilo era amor, paixão carnal, sonho de afeto, quimera sexual. E isso num garoto de dezesseis anos... tem proporções colossais para sua alma, é como um Vesúvio incandescente a petrificar seu pensamento. 

Meu filho, abordei-o com cuidado, interrompendo-o numa noite em seu quarto, me diga o que te faz querer tanto ir para a Itália, por que tem que ser agora. Estou apaixonado, disse, deixando de lado o computador, como se eu já não esperasse. Quem é essa moça, perguntei delicado. É italiana, parece brasileira, morena, linda. Mas... como você a conheceu, continuei meu carinhoso inquérito. Na internet. Na internet... repeti como um robô abobalhado, aquilo era demais – ou, na verdade, de menos! – para meus circuitos cerebrais antigos, meus padrões socioamorosos ultrapassados, o que houve com o amor de carne e osso, por que será que “ao vivo” virou apenas uma legenda na tevê, um selo digital, mamma mia... 

Percebendo minha paternidade atrapalhada, inábil com a modernidade, César voltou-se para o micro e pôs para tocar Zeca Baleiro: “Eu me flagrei pensando em você / Em tudo que eu queria te dizer / Em uma noite especialmente boa / Não há nada mais que a gente possa fazer / Eu vou fazer de tudo que eu puder / Eu vou roubar essa mulher pra mim... Se não eu, quem vai fazer você feliz?...”

Entendi o recado. Meu garoto queria tornar real o virtual, apalpar os bites, transformar circuitos em veias, mensagens em sangue, corações <3 em abraços suados e carinhas : ) em sorrisos olhos-nos-olhos, conhecer a moça, falar, ouvir, tocar, sentir o cheiro que no micro inexiste, com a certeza dos apaixonados de que será correspondido, esplêndido, é impossível que não o seja. O mundo é dos amantes, pensei. Nem que seja por um dia, um mês, um ano, mas que seja como Vinicius de Moraes, eterno enquanto dure. Não posso tirar isso do meu filho, na verdade até invejo, deve ser por essa vida pulsante naquela pequena conversa entre pai e filho que uma lágrima desceu de nossos olhos, foram dois filetes irmãos, gêmeos do mesmo desvelo, como se o adolescente de hoje e o de ontem tivessem se encontrado ali, em sintonia para além das épocas e das gerações, como contemporâneos dos mesmos sonhos, desejos e aflições. 

Naquela noite, entrei em meu quarto sob o impacto da juventude, desfraldei bandeiras, reivindicações e campanhas, conquistei minha mulher para as minhas causas amorosas e juntos fizemos todas as revoluções possíveis entre quatro paredes. Espalhamos generosidade sobre o mundo, como só os jovens sabem fazer. Após o cigarro que não fumamos e o ressonar, este sim, inevitável, dei a notícia a meu modo: seu filho vai pôr fogo em Roma. Ri de seu espanto. Expliquei que havia um fogo no Pequeno César, maior que todo o império romano de outrora, uma paixão irrepresável, uma loucura maior que a de Nero, sobre a qual nada podíamos fazer. Vi que era perturbador para a mãe saber de seu filho tão perdidamente apaixonado... por outra! Tentou minimizar, coisas de adolescente, ela disse. Coisas do coração, respondi desafiadoramente, enquanto pensava nas coisas de Freud. Para mostrar que fiz o dever de casa paterno, joguei as escassas informações que colhi como se fossem profundas: o pai da moça se chama Paolo, nasceu em Veneza, mas mudou-se para Roma. Ah... tranquilizou-se como se um véu cobrisse seu olhar perante o corpo desnudo.

No dia da tão esperada viagem à Itália, a mãe, econômica em palavras, serviu para César um risotto nero, talvez numa mensagem cifrada sobre a loucura que o filho estaria cometendo, interpretei. Disse ao filho que pesquisou a receita na internet, nada mais. Mas para o garoto o futuro não era negro, nem louco, nem um pouco estranho, era apenas e tão somente o inevitável a guiar seus passos, como se as artérias do coração fossem ruas a serem percorridas e levassem aos destinos da própria alma, do próprio ser, como se negar isso fosse contrariar Deus ou, mais grave, fosse um desvio imperdoável à missão da primeira molécula, da célula pioneira que se multiplicou no planeta e a partir da qual toda a vida formara-se desde então. 

Mande um abraço nosso para ela, filho, eu disse no aeroporto. Como é mesmo o nome dela, perguntei; Druuna, ele respondeu. Criada por Paolo Eleuteri Serpieri, completou já se apressando em direção à sala de embarque.

Criada..., estranhei. 

Foi chegar em casa, ligar o computador e procurar por Druuna Serpieri. Achei no Google: Quadrinhos Eróticos – Druuna – A personagem sensual de Paolo Serpieri, um dos maiores artistas do gênero.

Até hoje não sei como contar à mãe do meu filho.

9 comentários:

  1. Fiquei muito feliz com a premiação do Newton, que foi sem dúvida um sujeito que chegou ocupando o seu espaço no Clube e conquistando o respeito e o carinho de todos, e ainda tem esse talento todo para nos proporcionar essa grande alegria. Gostaria de lembrar que devemos a Rita essa agradável surpresa em 2011, a de ter trazido o Newton ao Clube. E dela posso falar tudo o que falei do Newton, realmente um casal amigo e do bem que veio para valorizar mais ainda nosso Clube. Parabéns, amigos!

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  2. Antonio, você é muito generoso. Nós é que agradecemos a todo o clube pelo apoio, incentivo e inspiração. Veja fotos e mais detalhes no meu blog http://ritamagnago.blogspot.com/2011/12/gato-rouba-cena-no-teatro-municipal.html.

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  3. Newton (NOVAES/)-->achei o seu conto fantástico. E olha, meu amigo, não digo isso porque você venceu. Você foi muito criativo mesmo. Muito divertido quando atrelou as comidas italianas ao comportamento do filho. E surpreendeu o leitor no final, com o fato de a paixão do filho ser um personagem de estórias em quadrinhos de um famoso artista italiano. Simplesmente sensacional. Achei gostoso demais ler seu conto. NOTA MIL COM LOUVOR PARA VOCÊ. Endosso tudo que o amigo Antonio falou do casal no nosso Clube de Leitura Icaraí.
    Beijo da fã ........ Angela Ellias.

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  4. Novaes, sem querer fazer eco, vc é demais!
    Seu conto, pode-se dizer, perfeito. As figuras , vocábulos usados transmitem perfeitamente os exageros que costumamos atribuir aos italianos, o sangue fervente!Os pratos em que o rapaz mergulha , seu amor pela pesquisa da cultura italiana foram perfeitamente retratados pela linguagem usada, pelos exageros... E você ainda consegue encerrar de forma inesperada como os bons contos costumam fazer.Seu conto é digno de um Alcântara Machado. Surpreende! Admiração da amiga,
    ELõ

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  5. Grande Newton, o conto é dos bons mesmo! Espero que dedique mais tempo à produção literária amigo. Tudo de bom neste Ano Novo para vc, Rita e amigos.
    Sérgio Ricardo

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  6. Mas o que danado restou para eu falar de seu conto Newton, só que é maravilhoso mesmo e foi mais do que merecido o premio, principalmente porque o meu pequeno-grande infante de 19 está completamente apaixanado (por alguém de carne e osso) e com 3 ou 4 meses de namoro chegou para mim e disse que queria abrir uma conta conjunta, pode? não é de enlouquecer?

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  7. Ri bastante ao final, Newton. Adorei! Já sabia de sua premiação, quando eu retornei ao Clube, mas ainda não tinha lido o seu conto. São contos que a gente gostaria de ter escrito.
    Fiquei aqui pensando que eu iria participar do concurso de 2011. Vinha com uma ideia de história desde que divulgaram o tema, mas só resolvi escrever na véspera do prazo final. A história fluía e quando vi ela já estava com quase 4 páginas (o limite) e eu tinha certeza que faltava muito mais que uma página para que eu fechasse o conto. Quando chegou ao final da quarta página, por mais que eu quisesse diminuir parágrafos, percebi que realmente não conseguiria concluir o conto e deixá-lo com quatro páginas. Desisti e não me inscrevi. Aliás, o texto ainda está incompleto...rss.. Agora, olha as coincidências (e pode perguntar ao Benito, que ele vai confirmar), meu conto partia, como o seu conto, para incluir a Itália, num romance ocorrido na internet. Se eu tivesse conseguido chegar entre os finalistas, os membros do júri iriam se surpreender e achar que havíamos conversado antes, já que ambos somos do Clube de Leitura, embora na época eu estivesse um pouco afastado. Qualquer dia eu tomo coragem e retomo o conto e o termino, ainda mais que agora não terá mais a obrigatoriedade de deixá-lo com quatro páginas...rsss
    Abraço

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  8. É isso aí, Benites, termine sim o conto! E publique aqui no Blog do CLIc. Fiquei curioso. Esse negócio de romance pela internet é sempre interessante. Em 2011 você acabou não concorrendo, mas este ano está lá, né? Acho que o "caneco" este ano vai ser seu, hein... Vamos torcer! Obrigado pela leitura e os comentários. Um forte abraço!

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  9. Novaes, seu conto é estupendo!!!

    Abraços!

    Sonia Salim

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