CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

3 de fevereiro de 2017

O verão sem homens: Siri Hustvedt

O que valeria mais: a forma ou o conteúdo? Em nosso dia a dia costumamos responder que o conteúdo é sempre o mais importante. Porém, em se tratando de literatura, não há propriamente essa dicotomia forma-conteúdo. A maneira de dizer cria aquilo que é dito. A linguagem constrói a obra. Só se atinge um dado conteúdo, a partir de determinada forma adequada a ele, pois nessa denominada “forma” estão modos de expressão que constroem os personagens, seus pensamentos e até suas ações, que se tornam interessantes ou não pela maneira como são apresentadas. (W.B.) leia a resenha completa







doutora Fme diz para empurrarForçaagora! E eu empurro com todas as minhas forças e mais tarde descubro que até rompi vasos do meu rostomas nem penso nisso na hora, em nada, e empurro, e sinto a cabecinha dela, e depois vozes gritando que a cabeça está saindo, e sai, e o súbito deslizar de seu corpo de dentro do meu, ele ou ela, dois em um, e entre as minhas pernas abertas vejo um ser estranho, vermelho, lambuzado, com um pouquinho de cabelo preto, minha filha. Não tenho nenhuma lembrança do cordão umbilical? Nem do corte. 




















Poema de Boris Pasternak

Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves separar
Teu sucesso de teu fracasso.

Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.

(tradução de Augusto de Campos)





Literatura na Varanda



Tosquiada a intimidade, e vistos de uma distância considerável, somos todos personagens cômicas, bufões farsesco e errantes através de nossas vidas, armando belas confusões no caminho, mas, quando se chega mais perto, o ridículo rapidamente se revela ora sórdido, ora trágico, ou meramente triste.




"As Elegias de Duíno" 
Rainer Maria Rilke 

Primeira Elegia: Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrível. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia valer? Nem Anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe, a árvore de alguma colina, que podemos rever cada dia; resta-nos a rua de ontem e o apego cotidiano de algum hábito que se afeiçoou a nós e permaneceu.


Literatura na Varanda






Aos 59 anos, Siri Hustvedt é uma escritora potente, que sabe onde quer chegar e domina a palavra de tal maneira que faz com que sigamos sua trilha até o fim.  Seu último livro, de 2011, publicado em 2013 pela Cia. das Letras, é o romance O verão sem homens.  O livro, que tem algo de autobiográfico, é uma viagem pelo país das maravilhas das mulheres.  Tal qual Alice de Lewis Carrol, a heroína Mia, uma culta e experiente escritora de Nova Iorque, é levada a um lugar "fantástico": a inexplicável e insondável cabeça feminina.  Ou, mais precisamente, a sua cidade natal, no interior dos Estados Unidos, onde basicamente terá que se relacionar com diferentes sociedades de mulheres: a da sua mãe e suas quatro amigas, todas na faixa dos 80-90 anos; a das suas alunas de poesia, uma cambada de pré-adolescentes que acabam por se mostrar no decorrer da narrativa mais sulfurosas do que pareciam no início; sua vizinha e filhos (sendo o bebê dela o único homem com quem Mia se relaciona, fora o interlocutor misterioso por e-mail, que, afinal, pode ser também uma mulher); e, por fim, a irmã e a filha única, que vêm ao encontro dela. O auto-exílio na cidade ficcional de Bonden, Minnesota, tem uma causa precisa: a habitual troca da esposa-sessentona-pela-jovem-fértil e a subsequente decadência psicológica da dita esposa.  A escolha do nome tem origens norueguesas, como Siri: Bonden quer dizer "o fazendeiro", mas também tem o duplo sentido em inglês de amarras, no sentido positivo (laços de família) e negativo (restrições).

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