CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de outubro de 2016

Clube do Conto - O Candelabro: Elenir




Contrastando com a simplicidade da casa, havia, pendurado no teto da sala, um candelabro de cristal. Explicava-se: Seu Chico, velho comerciante, aceitara-o em pagamento de uma dívida. Poderia, assim, satisfazer antigo sonho de Dona Cotinha, sua mulher.


            Conforme previra, o presente encantou-a. Era muito mais belo do que em sonhos imaginara. Acariciou cuidadosamente os longos pingentes e as rosas com miolos feito velinhas, do mais puro, brilhante e transparente cristal.


            Desde então, aquela parte da casa foi batizada “A sala do candelabro”.


            Quando a noite descia e as luzes se acendiam, o candelabro que era branco muitas cores refletia.

Havia um arco-íris na sala.


            Se uma lufada de vento soprava pela janela, os pingentes tilintavam suavemente. 

Havia música na sala.


            Nas preguiçosas tardes de domingo, depois do ajantarado, alegres crianças brincavam, jovens casais namoravam e Vô Chico, mais uma vez, cochilava, debaixo do candelabro. 

Havia ternura na sala.


            Muitos anos se passaram. Os menininhos cresceram. Os jovens envelheceram. Os que eram velhos partiram. E o candelabro, coitado, escondido na poeira, com seus pingentes quebrados, sofria abandonado! 

Havia saudade na sala.


            Vendida aquela casa, foi parar, o candelabro, num quebra-galho qualquer:


---Quanto vale esta coisa?


---Sujo, quebrado, não dou mais que dez mil réis!


---Pois bem, negócio fechado!


Por dez mil réis!  se vendeu:

Um suave tilintar.
Um pedaço de arco-íris.
Um sonho. Muita ternura.

E um candelabro sofrido que iluminava o passado! 

                                                                                               

                                                                                                

6 comentários:

  1. Bravo, Elenir, lindo! Eu e Newton já namoramos esse candelabro, igualzinho, vimos na Rua dos lustres, em São Cristóvão. Quase compramos quando mudamos para Maricá, depois optamos por um mais moderno. Candelabro-saudade, sem idade para nos trazer poesia. Obrigada, querida.

    ResponderExcluir
  2. Que delicadeza de seu olhar nesse conto Elenir. Confesso que é a primeira vez que leio um desfecho em forma de poesia. Ao terminar de le-lo, senti uma leve brisa do passado soprar meu rosto. Quantos objetos que já nos serviram e que relegamos ao subsolo, aos porões. Nossa!!!! a nostalgia me contagiou que até estou animando os objetos que nos trouxeram alegrias e êxtases estéticos.

    ResponderExcluir
  3. Elenir, você é mesmo uma poetisa. Sua prosa, sensível e linda, é poesia do início ao fim. Sensacional. Deixa a gente com aquele sabor de tempo nos olhos. Parabéns. Obrigado por esse texto!

    ResponderExcluir
  4. Um candelabro é sempre um luxo. É sempre pedaços de sonhos.Um dia hei de ter um na sala, mas vc o carrega na alma.Elenir, você é um candelabro, é um tilintar suave, é um atravessar os tempos. Muitos aplausos para essa delicadeza de texto, para esta joia.É muito bom pode sentir essa luz.
    Bjs,querida!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Êlô, querida,
      Nada melhor do que a amizade para nos iluminar e à nossa vida. Com essa luz, você e os demais amigos do CLIC me presenteiam.
      Obrigada pelo seu delicado comentário.
      Elenir

      Excluir
  5. Adorei, Elenir. Aguardo seu livro de poemas! Beijos

    ResponderExcluir

Prezado leitor, em função da publicação de spams no campo comentários, fomos obrigados a moderá-los. Seu comentário estará visível assim que pudermos lê-lo. Agradecemos a compreensão.