CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

11 de setembro de 2016

Clube do Conto - Desilusão: Rita Magnago



- Marcos, meu amor, já leu o jornal hoje?

- Acabei de acordar.

- O STF nos reconheceu, podemos ir ao cartório e sacramentar nossa união.

- Como assim?

- Agora as relações homoafetivas são aceitas no Brasil, eu estou tão feliz. Queria fazer uma festa pra celebrar nossa união. Nossas bodas de madeira estão quase chegando, né?

- Bodas de madeira, que é isso? Comemoração do pau?

- Ai seu doidinho, são cinco anos, não tem nada a ver com pau não. Para cada aniversário, os materiais são diferentes, vão dos mais frágeis aos mais fortes, conforme aumenta a resistência da relação.

- Mas você é sabida mesmo, hein. Esse negócio de comemorar, comigo, você sabe, é na cama, no chão, na parede, de costas, de frente, de quatro.

- Não fala isso que eu me excito toda e se o chefe entrar de repente me pega assim, louquinha da Silva.

- Ai porra, pra que que você me acordou então?

- Ué, pra falar da nossa união. Queria ir ao cartório contigo na hora do almoço.

- Pra que isso?

- Pra eu me sentir sua por inteiro. A gente vai poder ter um plano de saúde só, eu podia entrar como tua dependente, já que teu salário é maior, podemos declarar o Imposto de Renda juntos, ter direito à herança, tanta coisa.

- Olha aqui, na firma ninguém sabe que eu sou gay. Vamos deixar assim porque se não, não tenho chance de promoção. O pessoal aqui é muito careta.

- Mas como? Sempre que eu falava nisso, você concordava.

- Concordava porque discordar contigo é igual a discutir e eu quero é paz. Agora vou me arrumar que já está na minha hora. Mais tarde a gente conversa.

- Marcos, espera. (desligou)

Durante todo o dia Josivaldo passou pensativo, preocupado, encasquetado e ainda por cima tendo que simular alegria. Ele era assumido, em seu trabalho ser gay não era problema. Ouvia piadinhas, é certo, mas já estava habituado. Era amigo das meninas e frequentava o mesmo banheiro que elas até. O problema é que há mais de uma semana o assunto era a possibilidade de decretação dos mesmos direitos civis aos homossexuais e Josivaldo contou pra todo mundo que ele e seu marido seriam dos primeiros a celebrar a união. Já tinha até avisado da festa. Não contava com a recusa de Marcos, isso não estava nos planos. O que fazer agora?

Cada funcionário que entrava na boutique ia parabenizando Josie, como preferia ser chamada, e já cobrando a festa. Alguns clientes mais chegados também. Até que finalmente entrou o chefe, todo animado, com uma garrafa de champagne e foi logo estourando. Chamou todo mundo e anunciou:

- Atenção, pessoal. Em homenagem à nossa querida Josie, e pra mostrar que nossa loja é de vanguarda e apóia incondicionalmente os homoafetivos, a festa da primeira união gay de nossa rede é por minha conta. Vamos enviar convites aos clientes Vips, todo mundo leva sua família, amigos, não tem limite de pessoas. Cedo minha casa de Angra com prazer, aliás, com muito prazer, não é Josie? (risos, aplausos, assovios).

Josie ficou vermelha, tremeu, disse estar muito emocionada para falar, só agradeceu e ficou de confirmar a data. Estava ansiosa pela noite, tinha que convencer Marcos, custasse o que custasse.

Chegando em casa, tomou banho, perfumou-se, usou sua lingerie mais provocante, pôs vinho pra gelar, partiu queijos, colocou um CD romântico e sentou-se esperando. Deu sete, oito, nove horas, e nada do Marcos. O celular só dava fora da área de cobertura. Josie inquietou-se, bebeu o vinho todo. Quase às dez horas chegou o Marcos, todo desleixado, fedendo a cerveja e cigarro. Nem quis saber de conversar, deitou na cama, acabado. Mas Josie não podia mais esperar. Estava decidida, era hoje que o assunto tinha que ser resolvido, afinal, amanhã ela precisava confirmar a data da festa.

Lavou o rosto, passou um café e começou a despir Marcos, que nem se apercebia de nada. Tentou acordá-lo com beijos e carinhos, mas não funcionou. Apelou então para a água gelada e jogou várias gotas do alto, sobre seu rosto e o peito depilado, sem resultado. Pegou então um punhado de sal, abriu a boca de Marcos e lambuzou toda a língua.

Nossa, o cara levantou de um susto só, tossindo, cuspindo, praguejando. Josie fez o que pôde para acalmá-lo, mas ele estava muito puto, enfurecido. Foi jogando as coisas de Josie pela janela do apartamento e dizendo que naquela casa ela não entrava nunca mais, que tinha acabado, que ele já estava cheio dela há tempos, que era um sacrifício fazer o pau subir olhando para bunda caída dela, que ele estava repensando esse negócio de gay porque agora ficava excitado com a Carolina, do trabalho.

Foi a gota d´água. Com o rosto encharcado, Josie pegou a arma que guardava na terceira gaveta do armário e deu um tiro certeiro na cabeça de Marcos. Depois pegou o membro dele, ainda morno, abriu a boca o mais que pôde, enfiou tudo, pau e cano do revólver e, por um milésimo de segundo, sentiu como sêmen na sua garganta o sangue que escorria da pica, da língua, de tudo.


23 comentários:

  1. Que horror! Acho que vou tirar o blog do ar!

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  2. Depois dessa tudo é possivel. Não há preparo, o conto é cru e tem velocidade vertiginosa. Acho que a autora sentou e escreveu porque não poderia deixar para depois aquela ideia, tenho essa impressão. Pode chocar algumas pessoas, ou muitas, justamente pela franqueza do conto, pela rapidez que o leitor é levado do zero ao cem, sem papas na pena. Não está mal escrito, mas há frases que poderiam ser mais trabalhadas proporcionando uma melhor construção. E é justamente essa falta de trabalho em alguns trechos que faz o conto ainda mais franco, uma bofetada. Rita escreve bem, mas gostaria que fosse menos ansiosa, ia nascer muita coisa boa de sua pena.
    Tira do ar não, Evandro, tá dando certo.
    Carlos.

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  3. Eita que é agora que a jiripoca vai piar!

    Kkkkkk. "- Bodas de madeira, que é isso? Comemoração do pau?". Muito boa essa ambiguidade para os "ingnorantes" como eu - desconheço essas bodas todas, cheguei quase aos vinte, em que bodas eu parei?. Cheguei a tres estagios de animo: 1º seriedade (por conta da situação da relação homoafetiva e do aprisionamento social de alguns homossexuais que não se sentem a vontade para se declarar publicamente), 2º riso (a ambiguidade acima referida e a tao patrocinada festa) e 3º estado de surpresa(pelo final meio que rodriguiano)

    Carlos com voce sobre o conto vertiginoso, mas eu gostei dessa velocidade 5.

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  4. Rita: Eu gostei muito!!! Não achei pornográfico e nem fico chocada.
    Você escreve bem, e os detalhes deixa para Carlos e Newton.
    Beijos
    Fátima

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  5. Minha querida Rita:

    Esse conto do par gay, eu NÃO VI SEU ESTILO.
    Se tivesse sem assinatura, eu nunca pensaria em você.
    Nada ligado ao fato do par ser gay!

    Acostumamos a ler um autor, e sentimos aquilo que o acadêmico chama de estilo. Ou uma percepção que ele tem da forma como é escrita. Talvez, para mim, que sou de outra área, uma intuição. Incluo os diálogos............
    Se disserem que tiraram de uma Revista feminina, Revista gay, não estranharia, mesmo que fosse de um leitor. Há leitores que escrevem bem e não se preocupam em mostrar o que escrevem. Ficam no anonimato.

    Não seria difícil ser uma revista bem comum, feminina, pois é fácil estar no lugar de uma pessoa que antecipadamente anuncia o casamento que tanto deseja e o parceiro já está em outra!

    SE TUDO NÃO PASSAR DE UMA BRINCADEIRINHA, TUDO BEM, DE QUALQUER FORMA, EU NÃO SEI AS FIRULAS PARA ANALISAR SEU, MAS EU LERIA EM UMA REVISTA, SIM! E gostaria como gostei!

    A única coisa que não muda nada para mim é o fato de ser um par lindinho!

    Nelson respondeu a um jornalista que era difícil para ele, empobrecer o texto. O tolo jornalista havia perguntado a ele, publicamente, como ele conseguia escrever textos tão pobres e pornográficos! Mas nem palavrão o Nelson falava.

    Ele dizia também que seus textos de leitura, na época da miséria, na Rua Alegre, quando criança, eram folhetins, considerados de 5a. Categoria nos jornais era o que conseguia para ler! Só aos 13 anos, por acaso caiu nas mãos dele, o Crime e Castigo!

    TALVEZ EU NÃO SUPORTE O PRECONCEITO E A EXCLUSÃO! Mas sou capaz de ler qualquer revista, ainda mais com um conto!

    Adorei o texto da H. Camile, e acrescento para tomar cuidado. Risos..........

    Existem grupos no mundo todo, de homofóbicos que acreditam que os gays dominarão o mundo e que todos serão bissexuais. Fui pesquisar na internet, pois sabe que é verdade?
    Há um movimento que começou com isso no Canadá em 1970! Como o futuro chegou, eles acham que os gays querem impor.
    Achei as considerações de Camile, muito engraçadas.
    Já pensou Rita, vc sendo criticada pela galera homofóbica????? QUE DESILUSÃO!!
    VIVA A PORNOGRAFIA!
    Prometo não entrar mais nesse assunto. Risos..............
    Beijos
    Fátima

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  6. Olha, Evandro, pelo "horror" que vc me demonstrou ontem, na Ouvidor, pensei em coisas muito cabeludas. Estava preparado para me omitir ou, até, criticar o conto de minha cara-metade, com a mesma liberdade que ela teve ao postar sem nada me dizer. Mas, ao invés de um conto "cabeludo", chego aqui e encontro esse conto até "depilado"... Olha, eu devo ter algum problema, porque de verdade mesmo não vi nada de chocante. É a história de um crime passional, motivado por um abandono amoroso. Nada mais que isso. Muito bem escrito, principalmente por conta do ritmo e da crueza dos diálogos (bem do jeito que acontece na vida real, entre quatro paredes), e dessa forma nos domina, prende a atenção, cria a expectativa para um final que, embora seja comum (um assassinato passional), é descrito com genialidade. A última frase é algo de maravilhoso - o sangue como sêmen, por um milésimo de segundo -, mostra toda a paixão e desespero do(a) suicida assassino, dos que matam e morrem por um amor desfeito. O detalhe de ser um casal gay para mim é só isso mesmo: um detalhe, que compõe bem a história por conta do conflito do personagem Marcos, que não quer assumir essa condição, gerando provavelmente o conflito com o parceiro desejoso de compromisso. Como Helene, também gostei das bodas de pau, quer dizer, de madeira; muito bem sacado. Note-se que não há, em todo o conto, nenhuma cena de sexo. O que exclui, de cara, qualquer ilação sobre pornografia. Até mesmo sensualidade não se pode dizer que há no conto, pois o único momento em que Josivaldo se diz excitado é por conta de uma frase, dita do outro lado do telefone, e morre por aí. Todo o restante é conflito de casal, de expectativas diferentes (casar ou não casar, assumir ou não assumir), com alguns toques sobre a aceitação ou não dos homoafetivos pela sociedade atual. Ou seja, na verdade é um conto bem família.

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  7. Fiquei surpresa, não pelo conto em si, mas por ter sido escrito por você. Conheço algumas de suas poesias, mas não sabia que também enveredava pelos contos. Então foi uma surpresa boa, pois mostra a versatilidade da autora e isso me deixou feliz.
    Leio fazendo associações com outras obras e o teu conto me remete ao livro do Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados. Ele aborda a dor dos personagens, submetidos ao julgamento preconceituoso da sociedade. Sempre dá bom caldo quando lemos algo que nos mostra nossa forma engessada de olhar o mundo...
    O final trágico não me chocou, mas como me chocar diante da banalização recente das imagens sobre malas contendo pedaços de corpos esquartejados em elevadores? Sabe-se lá o que rola nos bastidores das casas brasileiras....
    O teu conto é lido de uma garfada só. Rápido. Intenso. Sem medo. Uma história de fim trágico como tantas que vemos nas manchetes dos jornais...
    Para finalizar, te devolvo o que me disse faz pouco tempo: “E vamos que vamos...”

    Bjs

    Niza

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  8. E onde ficou o seu romantismo Rita? Ah, sei, no desespero de quem mata por não ter a aceitação do ser amado, pela humilhação feita...Acho que vc exercitou um outro lado de Rita!
    Mas, mesmo num conto, seu lado crítico-social permanece!Sua marca.Parabéns!

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  9. Rita, só agora encontrei um tempinho para comentar seu texto. Então vamos lá. "In natura", é o que posso dizer do seu texto. A minha sensação é a mesma do Carlos. Seu texto parece ter sido escrito com urgência. A ideia veio, e você, num frenesi, o escreveu. Talvez aí esteja a razão mesma da força deste texto, desta velocidade alucinante em que nos envolvemos e deste final surpreendente. Concordo com Newton sobre o conteúdo, que pode não aparecer toda hora em contos, mas que é perfeitamente provável que aconteçam por aí histórias e mais histórias de crimes passionais como este descrito no texto acima. Eu já morei num bairro em que uma mulher, depois de haver descoberto a traição do marido, envenenou-o. E depois, com o sujeito já morto, cortou-lhe o pênis e o enfiou na boca do infeliz. Nem posso imaginar uma cena desta. Mas é realmente comum acontecerem coisas inacreditáveis em crimes passionais. Talvez por isso eu não tenha ficado chocado. Em relação ao fato de ser um casal gay, o que me pareceu interessante foi a colocação implícita da crítica ao preconceito e da dificuldade que os casais homossexuais enfrentam para serem aceitos pela sociedade, esse seu olhar sempre atento ao que acontece na sociedade, como bem disse Eloísa, uma marca sua.

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  10. Salve Elô... Rita continua romântica, mas romantismo picante é bem mais interessante, não acha?... (sem trocadilho, pelamordedeus!)... rsrsrs...

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    1. kkk Vc é terrível e continua advogado!Bjs.

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  11. Creio que o maior choque com relação aos casais homoafetivos ainda é o ato sexual, e o final do conto nos choca por isso, revelando os preconceitos que temos apesar do discurso politicamente correto. Somos bombardeados com cenas sensuais entre heterossexuais em qualquer filme norte americano disponibilizado na TV a cabo, e no entanto, se tal ocorresse com casais homoafetivos, taxaríamos esses filmes de pornograficos! Não tenho habilidade técnica para elaborar uma crítica, mas achei o conto bem escrito, conciso, com uma abordagem atual para uma problemática antiga: a decepção amorosa. Rodriguiano, sem dúvida! Mas vale a pena acompanhar o mestre! Gostei do conto. Adriana Marins

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  12. Queridos comentaristas, fico feliz que dividam comigo suas versões sobre a minha versão. Gostaria de pontuar duas coisas:

    1 - esse conto, na minha visão, é uma denúncia sobre medo, angústia, pressão, insegurança, vergonha e as dificuldades por que passam os homossexuais, assumidos ou não. Há ainda tanto preconceito... Elô, Antonio, Fátima e Niza ressaltaram esse lado crítico, era o que eu queria mesmo que sobressaísse. Não considero o conto pornográfico, em absoluto, nem mesmo sensual, como bem disse minha cara-metade (eu tenho coisas bem piores, Evandro, prepare-se, rsrsrs). Assim que surpreendeu-me a frase do Carlos "Pode chocar algumas pessoas, ou muitas" e a espirituosa frase da Helène "Eita que é agora que a jiripoca vai piar!.
    2 - a maioria de vocês conhece meus textos mais pelas poesias ou um ou outro conto, digamos, mais ameno. Então, como Fátima descreveu, não me reconhecem aqui. Mas eu sou geminiana, e me contradigo. Como Walt Whitman, contenho multidões. E aproveitando o gancho da Niza, acho ótimo quanto algo nos tira do lugar firme que pensamos existir e podemos ter um outro olhar, quer sobre coisas ou pessoas. Eu sou mesmo intensa, em tudo, mas felizmente nem em tudo me apresso, né Môzi? Deixa eu parar por aí porque, senão, isso dá um outro conto, altamente censurável, rsrsrs.
    P.S: Helène, espero que vc vá à reunião de amanhã, queria muito te conhecer, adoro seus comentários, sempre divertidos e oportunos.

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  13. Adorei, Rita sempre surpreendendo. Um conto dos dias de hoje, direto para que os internautas não abram um outro link sem chegar até o final, que é o que acontece, começamos a leitura na internet e alguma coisa nos chama a atenção e voamos para longe em outros links.
    Também adorei as bodas de pau. Se Nelson Rodrigues fosse vivo talvez abordasse o tema com a mesma coragem que você o fez. Aplausos de pé.

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  14. Adriana, Rose, que bom que encontrei eco na leitura de vocês. Concordo com a visão atualíssima que a Rose expressa. Hoje parece que tudo é premente, e captar a atenção do internauta é cada vez mais difícil porque o olhar vagueia sempre alhures. Além do mais, meninas,estamos no centenário do Nelson Rodrigues. Salve ele!

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  15. ADOREI!RITA É UMA ESCRITORA VERSÁTIL QUE ACOMPANHO E ADMIRO.
    PATRÍCIA SIDI

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  16. Sou meio cafona em termos de realismo. Não sei quando começa o realismo e quando termina o pudor. De qualquer maneira foi um choque para mim. Sou conservador por natureza e por ter vivido grande parte da minha vida enclausurado nos meus navios e sempre atrasado em termos de notícias realistas. Não tinha acesso a TV nas grandes viagens e a outros tipos de comunicação. Ingenuidade?... cautela?...Timidez?...Respeito à mulher? Não saberia definir no momento. Não quero expor meu senso crítico à cafonice. Essa é uma das razões que vivo dizendo que minha linguagem é diferente dos terráqueos. Já assisti cenas pornô no Pigali de Paris, no Estoril de Portugal, as mulheres de vitrines da Holanda, a zona do Mangue no Rio de Janeiro e o choque que mencionei no início desse texto foi semelhante ao que senti ao ler o texto da Rita. Contudo, li todos os comentários acima e fiquei mais confuso ainda. Talvez eu esteja mesmo precisando de umas aulas de realismo. Por enquanto, comentar o texto de Rita, nem pensar..

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    1. Querido Sr. Carlos. Demorei para responder seu gentil comentário porque, a princípio, fiquei sem saber o que dizer. Agora reli o conto e os comentários dos vários leitores e inclusive minha resposta a alguns deles, que permanece atual (necessário ratificar, porque às vezes mudamos de opinião - ou não?). Como comentei na quinta-feira, sou inteiramente favorável ao homossexualismo, assim como ao heterossexualismo. Acho que a opção sexual de uma pessoa é da alçada exclusiva dela e devemos respeitar isso. Pretendi, talvez, espelhar no texto um pouco do sofrimento por que passam esses casais em função do preconceito, das cobranças, da importância da aparência em nossa sociedade hipócrita. Pontuei também a dúvida, a falta de atração sexual que pode ocorrer com qualquer tipo de casal, o fim do tesão, a atração pelo outro sexo, a bissexualidade. E, mais que tudo, a vergonha, a falta de coragem de enfrentar a realidade tal como se apresenta - sem o romantismo fantástico que muitas vezes inventamos para florear nossa vida, romantismo a que os gays também têm todo o direito -, e as terríveis consequência que daí podem advir.
      Fico muito feliz com a sua leitura, Sr. Carlos, porque mostra uma pessoa de 80 anos com cabeça jovem e aberta, que entra na brincadeira e dá sua opinião, diz que ficou chocado, mas não se furta a comentar. Quando acontece isso comigo num texto qualquer, essa sensação de perturbação, eu gosto. Para mim é uma oportunidade de alargar horizontes, de pensar com a cabeça do outro, usar o ponto de vista alheio, mesmo que eu discorde veementemente. Obrigada por me ceder seu tempo e opinião, ambos muito valiosos para mim.

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  17. Quando eu li este conto da Rita há algum tempo eu também fiquei chocada. Na maioria das vezes eu leio levando todas as minhas emoções para a história, mas com o tempo eu fui aprendendo a tomar distância do texto para perceber melhor o que ele traz como conteúdo ou crítica da sociedade. Eu tranco as minhas emoções para que não interfiram na leitura. O conto da Rita é contundente e sobressai justamente pelo choque que provoca. Escritas mornas não agradam o público na sua maioria, é preciso sair do óbvio, impactar e isso foi o que a autora conseguiu. Dificilmente quem leu este conto vai esquecer-se dele, tanto pela surpresa/choque quanto pela trama que é atual, reflexiva. É isso aí, Rita Magnago!

    Ah, eu consigo entender o que o Carlos Nardin disse. Foi assim que aconteceu comigo na primeira vez que li. Eu pensei: cruzes, o que é isso gente! rs

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    1. Querida Sonia, devo dizer que também fiquei chocada com seu amável comentário. Você diz: “Eu tranco as minhas emoções para que não interfiram na leitura”. Eu sou o contrário, deixo todas as minhas emoções fluírem no momento da leitura, justamente para que interfiram. Mas achei fantástica essa abordagem . Seu modo particular de ler me fez lembrar as aulas de antropologia que foram das que eu mais gostei na época da faculdade. Conseguir sair do nosso mundinho e tentar ver pelo olhar do outro. Quem consegue essa relativização ganha muito, a meu ver. Confesso que uso um pouco a literatura para esse fim, alargar horizontes, fazer-me enxergar mais e além, mesmo as minhas emoções tomando parte. Como aprendemos com o outro. Acho isso maravilhoso. Obrigada, Sonia.

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    2. Rita, o crime bárbaro sempre vai nos chocar. Seja na vida real, nos contos, romances e com qualquer pessoa. Estou aprendendo a ler tomando distância do texto. Aguarde um pouco. Dê-me tempo. rs

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  18. Gostei muito deste conto, Rita. Intenso, realista.

    Hélio Penna

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    1. Obrigada, Hélio. Nem todos compreenderam assim, mas eu entendo as visões diferentes. Ainda há muito preconceito ao nosso redor, inclusive sobre quem escreve, se é que me entende, rsrsrs.

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