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2 de março de 2015

A Sabinada – A guerra pela separação da Bahia

Por Wagner Medeiros Junior


Representação dos conflitos entre os farrapos e as tropas imperiais.

Mal começou a desfraldar a bandeira alvianil que substituíra o pavilhão do Império no Forte de São Pedro, iniciou-se o êxodo de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, capital da província da Bahia. Primeiro foram as autoridades civis e militares leais à Coroa. Logo depois os moradores contrários à separação da Bahia do Império do Brasil. Cada um que emigrava levava tudo o que podia carregar, inclusive os estoques de víveres, aproveitando-se da inação do novo governo, que esperava a sublevação do interior para consolidar o movimento.
A força restauradora do Império, por sua vez, prontamente se organizava: Um governo provisório foi instalado em Cachoeira e a Guarda Nacional recrutada, com o apoio logístico e financeiro da aristocracia rural do Recôncavo. Assim, cada um dos levantes que iam surgindo fora da capital acabava por ser imediatamente sufocado, a começar pelo da Ilha de Itaparica, o que fez com que os separatistas ficassem imperativamente isolados. E para dificultar-lhes ainda mais a situação, a capital foi sitiada através de um bloqueio por terra e mar. 
A estratégia de sitiar a capital fora bem sucedida durante a expulsão dos holandeses de Salvador e na guerra de adesão da Bahia à Independência do Brasil, quando o exército português foi posto em retirada. Naquelas ocasiões os inimigos foram levados à exaustão pelo cansaço e pela fome.
No dia 30 de novembro de 1837 as forças separatistas fizeram a primeira incursão para tentar romper o bloqueio, com 800 homens em duas frentes de guerra, uma na Campina e a outra no Cabrito. Em ambos os lados, entretanto, os separatistas foram rechaçados pelas tropas leais ao Rio de Janeiro. Então, para reforçar o exército "libertador", os líderes da revolta deliberaram pela libertação dos escravos nascidos no Brasil, mediante a indenização dos proprietários. Formou-se, assim, um batalhão composto exclusivamente por negros, nominado batalhão dos “Libertos da Pátria”.
O revés da derrota dos separatistas se daria no início de dezembro, quando a Guarda Nacional é rechaçada na tentativa de desembarcar em Itapagipe. No dia 14 de janeiro de 1838, entretanto, os separatistas voltam a ser derrotados ao tentar desalojar a Guarda Nacional acampada em Itapoã. Logo depois da derrota começam a sentir os efeitos do cerco e da fome, razão pela qual resolvem investir ferozmente contra os comerciantes portugueses que permaneciam em Salvador, saqueando-os. 
Outro combate sangrento aconteceu entre os dias 17 e 18 de fevereiro. Pelos dados oficiais mais de 600 baixas dos separatistas foram contabilizadas, entre mortos e feridos, contra apenas 100 das forças restauradoras.
A batalha derradeira, todavia, aconteceu na noite de 12 de março. Segundo Argolo Ferrão, comandante da 2ª Brigada, o inimigo sofreu grande mortandade na tomada de suas primeiras posições, os campos estavam cheio de sangue, assim como as estradas de cadáveres. O fogo cessou à tarde do dia 15, quando os separatistas acuados no Forte São Pedro brandiram a bandeira branca.
À noite desse mesmo dia, como narra Paulo César de Souza, em seu livro “A Sabinada: A revolta separatista da Bahia”, incêndios clareavam vários pontos da cidade. O fogo consumia cerca de 70 sobrados, a maioria em Conceição da Praia – provocado pelos vencidos, em desespero e embriaguez, e pelos vencedores, para desentocar inimigos. Soldados rebeldes foram atirados às chamas... O colapso nas normas de conduta, tão comum nos tempos de guerra, manifestou-se em saques, estupros, assassínios. E a cidade de Salvador amanheceu destruída.
Somente na noite do dia 22 de março que Francisco Sabino foi encontrado. Segundo Gonçalves Martins, chefe da polícia, ele estava dentro de um armário “coberto de roupa suja, em camisa e descalço”. À noite desse mesmo dia o presidente da República aniquilada, João Carneiro, também é feito prisioneiro. Ao final seriam contados 2989 separatistas capturados. Os mortos somaram: 1258 entre os separatistas; 594 entre os restauradores - cifras expressivas para a população de Salvador na ápoca da Sabinada.
No dia 1º de abril a cidade de Salvador comemorou a vitória. Este feito também seria festejado no Rio de Janeiro e em outras localidades, pela manutenção da integridade do território nacional. No extremo sul do Brasil, entretanto, os farroupilhas continuavam a impingir ao Império pesadas derrotas. 

Visite o Blog:  Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

4 comentários:

  1. Show de bola, Wagner! A que você atribui a unidade brasileira, um país com tanta variação regional e de dimensão continental? Certamente não é apenas devido ao idioma, porque o resto da America espanhola se esfacelou, apesar dos esforços de Simon Bolívar, por exemplo?

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    1. Caríssimo Evandro, Estudando cada um dos movimentos ocorridos no Brasil, quer no período Colonial ou no Imperial (que inclui as Regências) observamos que todos eles foram sufocados pela forças dominantes. Então, creio que a monarquia contribuiu para aglutinar o território nacional, principalmente em função dos interesses comuns das classes dominantes e de uma economia sustentada pelo regime escravista. Entretanto, creio que tão fascinante como a manutenção dessa unidade territorial foi a expansão do domínio português, o que demonstra um elevado ímpeto desbravador. Comparando o território português conquistado em Tordesilhas com o atual (quase integralmente conquistado antes do Brasil República) pode-se dimensionar o continente subtraído por Portugal da Espanha. Acho fantástica essa índole expansionista portuguesa, bem como o esforço para manter a unidade territorial.

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  2. Obrigada, Wagner. Como é bom lembrar ou até mesmo , aprender nossas histórias...muito ficou no banco da escola e de uma forma tão diferente!
    Vera.

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    1. Não há razão para agradecer, caríssima Vera Lúcia. Sinto-me muito feliz em poder escrever para pessoas tão seletas, que apreciam a leitura e também o conhecimento da nossa história.

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