CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de abril de 2012

Rua da Boavista

Carlos Rosa Moreira
   
   Não a suportava mais; a melancolia aumentava com a presença dela, então saí a caminhar pela Rua da Boavista. 
 
    Era muito tarde, não se via ninguém. Fazia frio. Frio de frio e frio de solidão. Naquele fim de inverno português caía uma garoa tão gelada quanto água de geladeira. Nunca passara por tanto frio nem por tanta solidão. Ela estava lá, no calor físico do quartinho, mas seria pior com ela, por isso eu caminhava pela calçada comprida, queria chegar à praça, devia haver alguma coisa na praça, um bar, gente... Cidades nessas altas horas são terríveis para quem sente solidão, há um opressor clima de abandono no deserto que são as ruas silenciosas. Eu me aproximava da praça, quando reparei numa luz por trás das cortinas rendadas da janela de uma casa. Parei diante das grades de ferro do muro e fixei a cálida luminosidade. Parecia luz de abajur. Talvez estivessem a ler sob aquela atraente luz. Meu coração bateu forte com a saudade do aconchego doméstico. E me senti um cão vadio, a espreitar, faminto, alguém que se alimenta. Meu nariz gelado percebeu aromas de quarto, de cozinha, de tecidos macios, de lar. Coisas que havia muito eu já não possuía. Fiquei parado, olhando a casa como se estivesse num transe. O que me despertou foi um pássaro escuro de bico avermelhado que pousou sobre o muro e cantou debaixo da chuva gelada em plena noite. Cantou como cantam os pássaros numa bela manhã de sol. Aquele fato extraordinário tirou-me da triste contemplação e, distraidamente, passei a imitar o canto do pássaro. Imaginei que fosse uma toutinegra. Em Portugal existem toutinegras e eu gostei desse nome desde que o li, quando criança, no Tesouro da Juventude. Absorto pelo ingênuo pensamento, esqueci a solidão e me senti quase feliz na Rua da Boavista. O pássaro deve ter se assustado comigo, bateu asas e voou. 
     
     Foi aí que virei as costas à praça e voltei para ela.

3 comentários:

  1. Carlos,adorei! Lembrei muito do Livro do Desassossego, lendo você."Se te é impossível viver só, nasceste escravo." E quase todos somos escravos.Mas quando temos um texto bom, a solidão desaparece, pelo menos por momentos ou horas.Estar com seus textos poéticos é estar em boa companhia! Obrigada, pássaro !
    Elô

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  2. O medo da solidão, a necessidade de se estar só, um fato que nos tira daquele estado melancólico... A vida é tão bela que mesmo quando sentimos dor podemos ser surpreendidos por belezas desconcertantes e nos vermos bem, novamente. Passou. Obrigada, Carlos, por partilhar sua escrita sensível e bela.

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  3. Há tempos não visitava o blog do Clube, e para minha surpresa vejo muitas coisas boas, além da poesia do Newton, esta sua prosa-poética carregada de sentimentos. Seu pássaro me fez lembrar do poema de E. A. Poe, O Corvo. Maravilhoso o seu texto!

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