CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

25 de junho de 2012

Urgências, Carências e Permanências


Ilnéa País de Miranda

Sob a marquise de uma revendedora de pneus na esquina movimentada, uma família ainda dorme em sua “casa”. Alguém lhes deixou até um carrinho de bebê junto aos restos de comida esquecidos nos pratos descartáveis. A cidade, que de há muito já acordou, vai ao encontro de seus afazeres como pode. E, como pode, procura não tomar conhecimento da cena. Se possível, melhor nem sentir o cheiro.Quem são essas pessoas? Quem as exclui? A quem interessa mantê-las excluídas? E quem, realmente, se interessa por elas?

Urgências exigem medidas rápidas e eficientes. Carências precisam ser remediadas. Secas ou enchentes, prédios que desabam por incompetência ou cupidez dos (ir)responsáveis, e as conseqüências de tudo isso exigem atitudes direcionadas e imediatas. Então, que se tomem tais atitudes de emergência. 

Mas por que manter a ditadura de uma custódia que impede pessoas de se tornarem cidadãs orgulhosas de si mesmas e de sua capacidade de competir por trabalho, por uma vida digna por seus próprios méritos? Por que impedir que se reconheçam como iguais? Essa caridade dúbia mantêm-nas exatamente onde estão; pior que isto, reafirma que aquilo é o que são:- sem terra, sem teto, sem pátria, sem direitos.

Ajudar o próximo será tão somente alimentar quem tem fome? e dar um cobertor para cobrir do frio ainda que a temperatura ambiente seja, com freqüência, neste nosso país tropical, mais amena que a postura alienada de muitos, e menos perversa que o desconhecimento das reais necessidades daqueles que são “carinhosamente” chamados “irmãos”? Já estão alimentados? Pois que fiquem onde estão esperando pelo próximo caridoso prato. Não faz frio? Pois que usem o cobertor para cobrir a vergonha que não deve ficar exposta e da qual poucos se dão conta: a vergonha que com certeza sentem da impossibilidade de cuidar de si mesmos e de suas famílias.

Carregar no colo quem não pode andar, dar suporte a quem precisa, mostrar o caminho a quem o desconhece, tudo isso é absolutamente legítimo. Mas não se pode impunemente impedir alguém de caminhar sozinho. Isso é no mínimo retardar o crescimento: é manter na ignorância a potencialidade ou até a genialidade. 

Humilhados por uma ajuda humanitária discutível, ofendidos por uma bondade mal fundamentada, que adormeçam sob o cobertor, enquanto, em nome da caridade se lhes rouba o direito à cidadania, acobertados pelo cruel e imoral eufemismo do “anonimato.” e da necessidade.


(Ilnéa é escritora e participante do nosso clube de leitura Icaraí desde Outubro de 2008. Seu livro "Eu Menina Toda Prosa... e alguma Poesia" será tema do debate no clube em Setembro de 2012. Enquanto Setembro não vem, nossos leitores podem degustar um pouco de sua prosa.)


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