CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de novembro de 2009

Lavoura Arcaica



“Resta-me apenas contar-vos a história do meu sexto irmão, chamado Chacabac, dos lábios fendidos. A princípio, valorizou bastante as cem dracmas recebidas na partilha, como seus outros irmãos,… mas um revés da sorte o reduziu à mendicância. Um dia, passando na frente de uma magnífica residência,… Meu irmão, a quem generosidade e liberalidade dos barmecidas não eram desconhecidas, dirigiu-se aos porteiros,… e pediu-lhes que lhe dessem uma esmola. Entra, disseram-lhe, e dirige-te pessoalmente ao dono da casa, que ficará contente… Avançando, entrou numa sala ricamente mobiliada e ornada com pinturas de folhas de ouro azuis e onde distinguiu um homem venerável, com longa barba branca, sentado num sofá o que o levou a crer que se tratava do dono da casa… Senhor, respondeu meu irmão, juro-vos que nada comi hojeAi! Pobre homem, morrendo de fome! Ó rapaz,… traze imediatamente uma bacia com água, para que lavemos as mãos. Embora ninguém aparecesse, e o meu irmão não visse bacia nem água, o barmecida esfregou as mãos, como se alguém tivesse derramado água por cima delas;… e como sabia compreender brincadeiras, e não ignorava a complacência que os pobres devem aos ricos, se querem lucrar alguma coisa, aproximou-se e imitou-o… Que achais deste pão?, perguntou o barmecida; não o achais delicioso? Ah, senhor, respondeu meu irmão, que não via nem pão nem carne, jamais outro tão branco e delicado

Sherazade quis continuar, mas o dia a obrigou a deter-se neste ponto. Na noite seguinte, assim prosseguiu:

… Efetivamente, o barmecida pediu vários outros pratos de diferentes tipos, dos quais meu irmão, sempre morrendo de fome, fingiu comer… Quero que vos farteis! ...vos peço que me dispenseis de beber vinho; contentar-me-ei com água. Não, não, disse o barmecida, bebereis vinho… Mas o vinho não era mais real que a carne e as frutas… Quero saber se achais bom este vinho… Meu irmão fingiu pegar a taça, observá-la de perto… Senhor, disse ele, acho este vinho excelente, mas não é muito forte, ao que me parece. Se desejais outro mais forte, respondeu o barmecida, basta-vos dizê-loVede se este vos agrada … Àquelas palavras, fingiu servir outro vinho a si mesmo, e depois ao meu irmão. Fez aquilo tantas vezes, que Chacabac, fingindo ter-lhe o vinho subido à cabeça, portou-se como um embriagado, levantou a mão e bateu-a na cabeça do barmecida… o barmedida, porém, erguendo a mão para evitar os golpes, gritou-lhe: Estas louco?Senhor, tiveste a bondade de receber em vossa casa um escravo e de oferecer-lhe um grande festim; devíeis ter-vos contentado em ter-me feito comer; não convinha oferecer-me vinho, pois que eu bem vos tinha dito que, possivelmente, vos faltaria ao devido respeito. …o barmecida … desatou a rir, e disse-lhe: Há muito tempo, que procuro um homem com o vosso caráter … Não somente vos perdôo pelo golpe que me deste, como também quero que, de hoje em diante, sejamos amigos, … Tivestes a complacência de vos submeter ao meu humor e a paciência de agüentar minha brincadeira até o fim; mas agora vamos comer realmente … Finalmente, Chacabac teve todas as razões para alegra-se com as gentilezas do barmecida …” (História do Sexto Irmão do Barbeiro: Chacabac dos Lábios Fendidos - As Mil e Uma Noites – Malba Tahan).

E assim como Sherazade falava ao sultão da Índia sobre a História de Chacabac, Iohánna não se cansava de contar a seus sete filhos (Pedro, Zuleika, Huda, Rosa, André, Ana e Lula) sobre a parábola do faminto. Os ensinamentos do pai à beira da mesa pregavam obediência ao tempo, precauções diante do mundo das paixões, comedimento, fé na ordem, elogio ao trabalho e, principalmente, louvor ao exercício da paciência.

Mas sendo a própria imagem da rebelião, da revolta contra travões reguladores na família, o filho André, quis fugir da opressão do pai e dos excessos de ternura materna que o teria incitado a paixões desmedidas. Adolescente como era, voltou-se para sua própria existência, sem fórmulas ou preconceitos, buscando tornar-se um individuo aberto às agruras do Tempo e seus desdobramentos. Seu horizonte tornou-se seu próprio corpo em relação ao mundo repressor. E assim, a ação desenvolveu-se não em representações de espaço e tempo exteriores, mas dentro do próprio André, o qual se tornou um espetáculo íntimo para si e para os que leram sua história.

Um homem, porém, não precisa percorrer quilômetros e espaços infindáveis, se caminha de si para si, pois “estamos sempre indo para casa”. E por não ser possível fugir eternamente, seguindo esta ordem, a trajetória de partida do adolescente foi também a de retorno ao seio de sua família. E nesse confronto, quis o destino, com todos os seus caprichos e vaidades, mostrar que pilares arcaicos estremecem. O pai, pilar do grupo familiar que sustenta o cumprimento do dever, trai seus próprios ensinamentos, não sabendo esperar, exercer a paciência, e “travando os ponteiros do tempo”, em ato cego e impulsivo, é causador e vítima da tragédia final.

E os que ouviram a história de Lavoura Arcaica, verdadeiramente contada por Raduan Nassar, não chegaram a um senso comum sobre a mesma, pois
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.
(Anna Karenina - Liev Tolstoi)
A história, trabalho de minúcias contada em prosa e poesia, a uns mostrou só fascínios e encantamentos, como num jogo justificado de perseguição, sedução e dissimulação. Um espetáculo exibicionista de “pomba-gira”, chamando toda a atenção para si mesma, com vencedores e perdedores ao final. Mas, houveram também os que notaram e elogiaram os aspectos da linguagem. Os que viram uma família de imigrantes libaneses adaptando-se às condições religiosas, sociais e culturais do novo país em sua propriedade rural. “Houve quem achasse que tudo não passou de fantasias do protagonista, que nenhum incesto ocorreu e que a tragédia se passou sem qualquer causa real.” Quem percebeu a mudança do tempo verbal representando o final de um ciclo, de uma fase (no capítulo 5: “e era no bosque atrás da casa...”. No capítulo 29: “e foi no bosque atrás da casa...”). E quem viu um adolescente de dezessete anos representando o “... espírito de qualquer jovem rapaz antes que ele seja capaz de perceber que sua cabeça e seu coração humanos podem manter sob controle suas ‘patas sagitárias’.”

Patas sagitárias”... Atribuiu-se a Raduan Nassar semelhança com o fauno (sátiro), divindade mitológica campestre, que traz em si duas naturezas, a humana e a caprina. Os sátiros têm o seu mito ligado ao campo, à fertilidade e à música, sendo, Pã, o mais famoso deles. Há, porém, uma figura mitológica, que melhor identifica os sagitários: os centauros. Também possuidores de duas naturezas, a humana e a eqüestre, a figura do centauro representa a eterna luta das civilizações, do homem que traz em si o irracional e o racional. É possível dizer, então, que, inconscientemente, identificou-se traços mitológicos inseridos no livro: transbordante da alegria ruidosa dos sátiros, amantes de festas, da melodia da flauta, do vinho, dos bosques. Trágico como a eterna luta dos centauros, que trazem na cabeça de homem o pensamento, a inteligência, e no corpo animal o desejo, o impulso bestial.



“Conta a lenda que os Centauros não têm o hábito do vinho, por isto embebedam-se com facilidade... Esta fraqueza ante ao álcool é sintetizada na lenda do casamento de Pirítoo, o rei dos lápitas, que os convidara para as bodas. Embriagados, os Centauros provocaram confusão e briga entre os convidados. O incidente originou uma longa guerra entre os lápitas e os centauros.” (Pintura do italiano Sebastiano Ricci (1659 – 1734). Período barroco).


E foi assim que na sexta-feira dos centauros, dia 27 de novembro de 2009, data do aniversário de 74 de Raduan Nassar, reuniram-se ao redor da mesa para beber, ouvir e contar sobre suas histórias. Como quem vai às reuniões como se estivesse voltando para casa, “do jeito que Heidegger falava”... E, embriagados pela festa, como centauros e sátiros, que são fracos ao vinho, ovacionaram, urraram e celebraram todo o encantamento do final de mais um ano, com leituras em comum.



Divulgação da EdUFF para a reunião do clube em novembro.


Ao final, houve discursos comemorativos pelo encerramento das reuniões em 2009, este sendo coroado com um ato solene de emoção, sensibilidade e ES-PE-RAN-ÇA...