CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de novembro de 2008

Dom Casmurro

Ela é carioca
 Ela é carioca
 Basta o jeitinho dela andar
 Nem ninguém tem carinho assim para dar

 Eu vejo na cor dos seus olhos
 As noites do Rio ao luar
 Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
 Vejo o mesmo mar
 ...
 (Ela é carioca – Antônio Carlos Jobim/Vinícius de Moraes - 1963)


Não, não, o texto não trata do movimento Bossa Nova. Nem de Antônio Carlos Jobim, ou de Vinícius, mas de outra personalidade da cultura brasileira, que assim como os representantes da Bossa, cantou, ou melhor, escreveu a cidade do Rio de Janeiro. Falo de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Ou será que você o conhece como ‘O Bruxo do Cosme Velho’?

Menino de origem humilde, mulato, descendente de escravos, tímido, gago, vítima de crises epiléticas. Passou de aprendiz de tipógrafo a revisor, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta. Ingressou no Ministério da Agricultura, fundou e foi presidente da Academia Brasileira de Letras. Mais do que a ascensão social na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX, Machado alcançou a imortalidade, através da criação de obras que transformam a alma humana em Literatura. Machado é considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa. Foi 'um homem de seu tempo e de seu país'.

“(...) O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço (...)”
(Machado de Assis, 1985, Obra Completa, III, 804)

A origem do epíteto “Bruxo do Cosme Velho” é incerta. Ao que parece, deve-se ao poema "A um bruxo, com amor" (do final da década de 50), de Carlos Drumond de Andrade (1902 – 1987), em referência ao sobrado no número 18 da rua (e bairro) Cosme Velho, onde morou Machado de Assis (o sobrado foi demolido e hoje, dele, só resta uma placa). Mas há a versão que diz que o apelido foi dado por causa de um caldeirão de bronze instalado do lado de fora do sobrado do Cosme velho. Nesse caldeirão, Machado queimava papéis velhos (cartas, manuscritos) e os vizinhos, estranhando o hábito, teriam lhe cunhado o apelido de Bruxo.


Enquanto os representantes da Bossa Nova exaltavam os encantos da Zona Sul do Rio de Janeiro ao final da década de 1950, Machado de Assis nos apresenta através de seus personagens Brás Cubas, Quincas Borba, Conselheiro Aires, Bentinho, Capitu e outros, um retrato do Rio de Janeiro ao final do século XIX. Acima: Avenida Rio Branco.

Machado escreveu muito sobre seu tempo e sobre sua cidade. Nascido no Morro do Livramento, há quem conte que Machado, para ‘matar o tempo livre’, tinha o costume de caminhar pelas ruas do Rio. Conhecia, o grande andarilho, a rua do Jogo da Bola, ou a Ladeira Pedro Antônio? Freqüentava a Casa Cavé (desde 1860, na esquina da Uruguaiana com a Sete de Setembro) ou a Confeitaria Colombo (desde 1894 na Gonçalves Dias, 32)? Em seus romances Machado nos apresenta o Engenho Novo, a Tijuca, o Andaraí, o Flamengo, o Corcovado, o Forte da Laje, a Igreja da Glória, o Passeio Público, o Campo da Aclamação (atual Praça da República), a rua Matacavalos (atual rua do Riachuelo), a rua do Ouvidor, a rua da Quitanda, Itaguaí, Vassouras, Petrópolis. Seus romances são uma viagem ao Rio Antigo.

Em 28 de Novembro de 2008, o clube leu “Dom Casmurro”, obra de 1899, onde o Mestre da Periferia dá voz ao narrador personagem Bentinho, viúvo que narra sua história com Capitu, a morena dos olhos de ressaca. Bentinho nos conta de seu amor de infância por Capitu, que se torna sua esposa, mãe de seu filho, mas que o trai com seu melhor amigo Eulálio. A figura idônea de Bentinho leva o leitor a sensibilizar-se com seu drama, porém, também o deixa confuso, visto que não existe prova da traição de Capitu. O “enigma de Capitu” foi um dos encantos do livro.

Os leitores do clube se viram envolvidos em procura por pistas e justificativas que comprovassem a inocência ou a culpa de Capitu. Para alguns, Bentinho era vítima de ciúmes doentio. Para outros, um falso moralista, um homem culto que resumia virtudes de elegância, bondade e caráter das elites brasileiras, e que em nome desta aparência usou de arbitrariedade e autoritarismo, a ponto de destruir a sua própria vida, a vida da mulher que tanto amava, e a do filho, o qual acreditava não ser seu. Pois a razão estaria em manter uma estampa civilizada e impecável. Houve quem pensasse que um casamento enfadonho justificaria o envolvimento de Capitu e Eulálio, e, portanto a trama contada por Bentinho seria verdadeira. Finalmente, até mesmo até a sexualidade de Bentinho foi questionada, visto que seu ciúmes doentio poderia ser, não por Capitu, mas por Eulálio. O mistério permaneceu e somente sobre uma questão não houve dúvidas: Machado foi genial.

E, é claro, o Clube viu o Rio. Afinal, é de Icaraí que se tem um dos mais belos cartões postais desta cidade que é Maravilhosa.

“Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudade
Rio, teu mar, praias sem fim
Rio, você foi feito pra mim

Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
...”
(Samba do avião – Antônio Carlos Jobim - 1962)

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