CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

20 de abril de 2019

Conto coletivo de Páscoa: escrito pelos participantes do Clube de Leitura Icaraí


"Mãe, quero um ovão de chocolate na Páscoa, tá?" Aquele pedido de seu menino, seis anos de um sorriso que insistia em ignorar a vida dura que a pequena família levava, causou-lhe um sorriso aflito. Não dava para explicar ao pequeno sobre desemprego ou subemprego... Não dava para explicar que a Páscoa, como o Natal ou o dia de aniversário, eram dias difíceis para quem catava as moedas no fundo da bolsa para poder pegar a condução de ida em busca de uns trocados na rua.
Lota, apelido de Carlota, mãe do pequeno, custou a dormir naquela noite. Procurava uma forma de satisfazer a vontade do filho. Quando conseguiu dormir, povoaram seu sonho muitos ovos, pequenos, grandes, ovões e os mais lindos coelhos.


Decidiu então, com o coração apertado, mas buscando uma força interior que a sustentava em momentos tantos e difíceis, tentar responder a mais uma pergunta do mais velho de seus cinco filhos. 


Jesus, chega aqui pertinho da mamãe, senta aqui meu querido. Mamãe vai te contar uma estória...
O período de privações da Quaresma se estendia além dos 40 dias, fora criada com preceitos sérios sobre religião e quando era criança, além dos semi-jejuns que a levava quase ao nirvana, em sua casa não se ouvia músicas "profanas" no período que antecedia a Páscoa.



Antes que a mãe iniciasse a estória, todos da casa ouviram um alarido que vinha da rua. Levantaram-se rapidamente e foram até a porta que estava aberta. Algumas mães, pais e muitas crianças faziam uma brincadeira. Curiosos, a mãe e seus cinco filhos correram para junto dos demais. A ideia foi lançada: quem encontrasse um ovo escondido naquela redondeza, ganharia um prêmio. Os adultos poderiam brincar também.

Dividida entre o desafio que era a possibilidade de um ovo real para seu Jesus e ainda um prêmio - o que seria? - e o rigor da religião que sempre a fez temente demais aos homens, além de sua conhecida subserviência, Lota suspirou. Deixou seu medo de lado e lançou-se à rua, decidida.

Encontrando os amigos, vizinhos e a criançada, Lola caminhou livremente, sentindo-se feliz, alegre mesmo. Lembrou-se por um instante da estória que contaria ao filho e percebeu até aliviada que alguns garotos levavam cartazes que tinham a ver com sua história . Ela leu: Páscoa! Festa da Renovação! Em outro cartaz: Estamos festejando o amor, o perdão, a união! e num outro: Páscoa! Quem achou o ovo?



E então, algo horrível aconteceu: um som de sirene foi ficando cada vez mais forte até que um carro da polícia apareceu a toda velocidade. Quatro policiais fortemente armados desceram do carro de armas em punho e ordenaram que todos ficassem onde estavam, sem se mexerem. Tinham recebido uma denúncia anônima sobre tráfico de drogas e que os ovos de páscoa estavam recheados de cocaína.


Diante da força, a ordem recebida não foi cumprida. Aquelas pessoas, já acostumados a serem acusadas sem provas, onde suas casas eram invadidas e seus filhos levavam coronhadas sem motivo aparente - essa turma que fazia festa na rua -,resolveu não recuar e continuaram...

O alarido recrudesceu. Tornou-se um verdadeiro tumulto. Eram crianças, jovens, adultos e, até seu Zé,vizinho pacato, beirando os setenta anos, acompanhou os netos na brincadeira. Além de tudo, havia, suspenso em um dos postes da rua, enorme espantalho, simbolizando o Judas, que, de acordo com a tradição, deveria ser malhado no Sábado de Aleluia. 
Padre Quinzão, responsável pela paróquia, muito ranzinza, passava pelo local nesse momento, e, abanando a cabeça e resmungando, dizia para si: "Eles só querem saborear o chocolate do ovo, mas não se preocupam em saber o que ele representa". Assim pensando, caminhou, com a inseparável bengala, em direção da Igreja, onde preparou sua pregação para a Missa das 18 horas. Incluiu o seguinte: "Depois da morte de Jesus Cristo e da Sua ressurreição, os cristãos consagraram o hábito de, no Domingo de Páscoa, presentearem-se com ovo, símbolo do nascimento e retorno da vida. No século XVIII, essa prática foi adotada, oficialmente, pela Igreja".
Será que alguém foi à Missa nesse dia? 
O século XVIII estava muito distante e ninguém sabia que a euforia das crianças já era efeito da droga. Seu Zé também provou do chocolate precioso. Lota então resolveu procurar o conselheiro, toda a comunidade tem um conselheiro que dá palpite em tudo e geralmente não são procurados por sua sabedoria e sim pela proximidade do chefe.
Ao chegar na casa do conselheiro encontrou o homem já de saída, com algemas nos punhos diante dos policiais e a séria acusação do tráfico de drogas nos ovos de páscoa. Agora a brincadeira poderia ser comemorada com alegria, sem preocupações. Teria sido mesmo ele, um homem tão sábio, o autor de tal crime? Deixemos isso para os responsáveis do caso. Voltemos às brincadeiras na rua porque é tempo de alegria e comemoração da liberdade.
Mas seria possível brincar diante de tanto alarido? Como rezar a missa com fatos tão intrigantes? Todos, na verdade, ficaram estarrecidos com a prisão do Conselheiro, logo ele, homem sábio e em quem confiavam!

Aquela Páscoa tomou um rumo diferente no pensamento das pessoas: muitos se questionaram sobre seus credos,seus ideais. Agora, sem a confiança no Conselheiro,o que fazer, o que pensar...E a alegria dissipou-se trazendo a cortina da noite, da noite de um dia diferente. 

D Lota, que na confusão já estava sendo tratada por Lola, reuniu seus filhos em volta da mesa e procurou acalmá-los. Teve a brilhante ideia de cada um desenhar um ovo, com as cores que preferissem, e que contassem uma estória. Cada um debruçou-se sobre seus sonhos e fantasias e transferiu para o papel todas as suas emoções...assim adormeceram com esperanças no novo dia que surgiria.




Mais uma vez, dona Lola guardou a verdadeira história, a história real de suas vidas para escutar as estórias de seus filhos. 

Seu filho mais velho, Jesus, foi poupado. Até quando? Nada mais importava naquele instante, só os sonhos de seus filhos. Afinal era Páscoa, ela não podia perder a esperança em dias melhores...


Enquanto isso, numa bela casa, não muito longe, sua proprietária, conhecida como dona "Generosa", questionava seu neto, rapaz de uns dezessete anos, sobre a causa de seu nervosismo e inquietação. A princípio, recusou-se a falar, mas, tanto ela insistiu, que ele aquiesceu. Disse-lhe que nutria raiva e inveja daquelas crianças, pois, embora pobres, viviam alegres, brincando na rua e eram levadas à escola pelas mães. A sua morrera quando ele tinha, apenas, nove anos, vítima das drogas, conforme lhe contaram. Por isso, aquela brincadeira incomodava-o. Decidiu acabar com ela e, pelo menos uma vez, veria os meninos tristes. Assim pensando, fez a denúncia anônima e falsa à polícia de que os ovos objeto do prêmio continham cocaína. Por sua causa, um inocente, estimado e respeitado por todos, pobres e ricos, o Conselheiro, estava preso como suspeito. Sentia-se arrependido. Ao ouvi-lo, a avó exigiu que ele fosse à delegacia confessar seu crime. Mas, antes, disse-lhe, compre, com este dinheiro que te dou, muitos ovos, grandes, pequenos, enfeitados, recheados e coloque-os nas portas das casas dessas crianças. Ficarão alegres e felizes. "Ai de ti se não me obedeceres!", acrescentou ainda. O rapaz comprou os ovos. Depositou-os nas portas. Foi à delegacia, onde confessou seu crime. O Conselheiro foi libertado. 


Quando Lota viu o Conselheiro pela manhã, caminhando pela rua, livre novamente, deixou-se dominar por uma alegria que não sentia há muito tempo. E sem pensar em nada, apenas deu uma pequena corrida e abraçou-o festivamente. O Conselheiro, que nunca presenciara uma manifestação assim de Lota, ficou sem saber o que fazer. Quando ela finalmente o soltou e os dois ficaram frente a frente, seus olhos se encontraram e eles se viram de uma forma diferente, como nunca se haviam visto antes.

O Conselheiro percebia que algo havia mudado. O sabor da recente liberdade fazia-o experimentar cada detalhe como uma nova oportunidade. Sentia-se como um portador de vida nova, em sintonia com o ovo que se rompe pois seu interior quer se expandir. Quando encontrou com Lota, estava a caminho da casa de D. Generosa para agradecê-la e para revê-la, pois guardava há tempos um forte sentimento por ela.


O Conselheiro, após despedir-se de Lota prometendo voltar para deliciar-se com sua famosa canjica, dirigiu-se à casa de D.Generosa. Ela fazia jus ao nome. Se não usasse energia com o neto e não se preocupasse com o outro, certamente, ele estaria, ainda, na cadeia. O Delegado e os policiais não se preocuparam em averiguar a verdade. Prenderam-no e pronto. Missão cumprida! Por outro lado, Lota, na cozinha de sua casa, preparava o café para as crianças, cortava o pão, estendia a toalha na mesa. E cantava. Através da música, extravasava toda sua alegria. Cantava tanto, e tão alto, que a garotada acordou. Jesus, o mais velho, muito sensível, aproximou-se, beijou-a e disse: Que bom mamãe, ouvir a senhora cantar! Um novo dia começava trazendo alegria e muita esperança. E eles não tinham visto, até àquele momento, os ovos deixados na porta!



Que tipo de chocolate é você?


Elenir, entre a sacerdotisa do CLIc e a escritora GR

Que injustiça dizer que o Taurino é "pão duro"! Sou taurina e me considero muito generosa, embora, sempre, com os pés no chão, sem esbanjar. Realmente, gosto muito de Serenata de Amor.

Sou Taurina, pés na terra,
com medo do vôo alçar.
Mas tenho Vênus brilhando
para a estrada embelezar.

Por ter ascendente em Gêmeos,
trago em mim dualidade.
Ora alegre, ora triste,
vou fazendo a caminhada


As palavras são meus chocolates preferidos. Adoçam minha vida.

Muitos beijos para todos. Sem economia.


Páscoa ! Renascer.
Brindar a vida, espalhando
Alegria e Amor.

Libertação! Páscoa!
Tempo de paz, esperança,
e renovação


Carinho e Amizade
Elenir

Feliz Páscoa a todos os participantes do nosso clube de leitura Icaraí!!!


Beije-me onde o sol não alcança: Mary del Priore


"Não devemos buscar a felicidade, mas unicamente o dever."




"Longe do domicílio conjugal, tenho direito a travessuras."


O cafezal: Portinari

Interesses velados

As vastas plantações de café
E as cotações na Bolsa
Interesses velados conjugam o verbo

O amor e a infidelidade

unidos ao escárnio

Traição

Império e ostentação
Rumores de guerras
Caiu a escravidão
Impasses e medos
Senhores e escravos
E as palavras expressas
paciência e resignação
E para complementar
veio a imigração
Foram-se os vestígios da glória
Cafeicultores endividados
Cartas de alforria
Fim da escravidão
Abolição


Sonia Salim
10/04/19


Um pouco das minhas inquietações de leitura do livro de Mary del Priore: Beije-me onde o sol não alcança.


Manet


No escuro da noite,
a estrela me olha em silêncio.
Quer dizer-me o quê?

Ainda ouço o vento
cantando sobre as palmeiras,
 e os negros no campo.

Em Piraí, sinos
tristes badalando  avisam:
"Nicota morreu..."

Lembrando o passado,
ele, à sombra da velhice,
reflete e faz versos.

O jornalista poeta amou, verdadeiramente, a frágil Nicota



(Elenir)


"Junto a um
 ribeirinho serpenteante..."


"Pelos bons serviços, e pela fidelidade com que me serviu."




O que uma mulher quer, Deus também quer.




"Os fatos são a parte visível de uma escrita invisível." (p. 235)



Pequena jaça no livro do mês, Beije-me onde o sol não alcança.

Pag. 53, março de 1865, : …no reinado de Nicolau II…

O último Czar da Russia, Nicolau II, nasceu em 1868, iniciou o reinado em 1894 e foi deposto em 1917, na revolução bolchevique, sendo posteriormente executado, com sua família, em Ekaterinburg.
Na época descrita no livro, o Czar era Alexandre II.

(Simples comentário histórico que não altera a trama do romance)

[Fred]



"Não se trata de amor, mas de interesse agudo à primeira vista."

São Elesbão
"O primeiro dever de uma mulher é ser bela, o segundo, ser estúpida" 
(Anne Houy Haritoff)


São Benedito

"Deus abençoe este lar"

Os reis magos

Eva pecou só para despachar o marido e mandá-lo pro trabalho.



3 de abril de 2019

Shalimar, o equilibrista: Salman Rushdie







Atenção fãs do realismo mágico!


Clube de Leitura Icaraí se reúne nessa sexta-feira, dia 11, para debater a leitura de "Shalimar, o equilibrista", do autor Salman Rushdie, cujo estilo narrativo mescla fantasia com vida real.

Contém nessa história elementos como amor e vingança, além de todos os ingredientes dos grandes épicos: guerras, revoluções, heroísmo, assassinatos, tabus violados, destinos interrompidos e grandes deslocamentos no espaço ao longo de sessenta anos de história do século XX. 

Gostou? Então vem! Nas 2ªs Sextas Feiras mensais, às 19h, na Livraria Icaraí.






"Shalimar, O Equilibrista é uma obra de ficção de Salman Rushdie publicada em 2005 e que conta a história do personagem Shalimar, da infância à morte, da sua carreira como artista a assassino profissional, tendo em foco quatro personagens fundamentais: Índia/Caxemira, Boonyi, Max, e o próprio Shalimar. O livro não segue a ordem cronológica dos eventos e inicia-se com um misterioso assassinato que se desvenda ao longo do romance.

O lançamento mundial do livro teve como principal evento a Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil, em 2005, com a presença do autor."



ENTREVISTA DE SALMAN RUSHDIE À FOLHA


Folha - Quanto do sr. há em "Shalimar, o Equilibrista"?

Salman Rushdie
 - Não há um personagem que fale pelo autor. Meu objetivo foi criá-los como seres empenhados em suas próprias histórias. A maneira como os personagens do livro evoluem não tem nada a ver com uma vontade de expor meu ponto de vista sobre o mundo. Flaubert disse: "Madame Bovary, c'est moi", mas é claro que é mentira. Madame Bovary não é Flaubert. A verdade é que você deve estar em cada frase do seu livro. Há algo com que devemos lidar mais do que nunca agora, que é o fato de que nossas vidas não são mais vidas privadas. Quando Jane Austen escrevia, ela ignorava as guerras napoleônicas. Podia contar a história de seus personagens sem se referir à esfera pública, pois esta não interferia na vida dos seus personagens. Só que hoje não vivemos mais assim.

Folha - Hoje um escritor pode ignorar a situação mundial?

Rushdie
 - Não quero ditar regras, mas é difícil para mim. Para explicar a vida das pessoas, você precisa levar em conta o mundo em que elas vivem e o efeito direto que esse mundo causa nelas.

Folha - Como no exemplo da Caxemira, que está no livro.

Rushdie
 - Sim, a vida de Shalimar foi destruída por dentro, pela traição de sua mulher mas também por fora, pelas forças da história. A maneira como costumávamos acreditar no destino dos personagens não existe mais, agora é o destino que faz os personagens. É preciso trabalhar com esse duplo sentido para escrever. Uma boa questão é se somos os mestres ou as vítimas do nosso tempo. Nós comandamos nossas vidas ou não temos chances?

Folha - E o que o sr. acha?

Rushdie
 - As duas coisas. Às vezes, nós podemos comandá-la, noutras não. Por exemplo, esse concerto de rock que houve no fim de semana, o Live 8, foi uma tentativa de um grande número de pessoas de causar algum impacto transformador. Pode-se dizer que é simplista, mas pode funcionar. Mas é claro que, se você estiver num arranha-céu e um avião bater nele, não importará se você viveu sua vida bem ou mal. Nós vivemos num mundo muito estranho, e as conseqüências para a literatura são muito profundas.

Folha - Por quê?

Rushdie
 - Porque uma das grandes perguntas para um escritor é: como se diz a verdade sobre o mundo? De acordo com o nível do seu talento, a profundidade da sua visão, ou das limitações que todos nós temos. De outro modo, você não dirá a verdade.

Folha - Os americanos sabem o quanto o que acontece na Caxemira afeta a vida deles?

Rushdie
 - Acredito que o 11 de Setembro tenha sido um alerta. Mostrou que o mundo não está mais separado. Os americanos sentiram na pele as conseqüências de um mundo que encolheu.

Folha - Há uma grande importância em relação a nomes e identidades em seu livro.

Rushdie
 - Acho que a questão da identidade é central. Ninguém no livro gosta do nome que tem, exceto Max [o embaixador na Índia].

Folha - Max falsificava identidades quando estava na Resistência francesa.

Rushdie
 - Exato. Ele é o único que sabe quem é. O livro é sobre pessoas que não sabem quem são. No caso de India [filha de Max], há uma boa razão para isso. Durante toda a sua vida lhe mentiram, inclusive sobre seu nome.

Folha - Por que Max compara a situação na Alsácia, nos anos 30/40, ocupada por França e Alemanha, com a da Caxemira, disputada por Paquistão e Índia?

Rushdie
 - O interessante na região da Alsácia é a questão das fronteiras cambiantes. No livro, que é sobre a Índia, sobre a Caxemira, essa questão está em primeiro plano. Foi uma maneira de unir as pontas do mundo. Na França, durante o jugo nazista, há a Resistência, que é a reação militar à ocupação. Na Caxemira, há a resistência ao poder ocupante, e essa reação pode não ser necessariamente terrorismo --depende de que parte do mundo falamos. Temos aqui uma forma muito similar de ação, tomada em diferentes circunstâncias. O julgamento que fazemos desses momentos é diferente.

Folha - O destino da Caxemira é há muito tempo decidido por forças externas.

Rushdie
 - Sim, acho que essa é a grande tragédia da Caxemira. Os caxemirenses querem que os deixem em paz. Há o Exército indiano e há os grupos patrocinados pelo Paquistão. Ambos destruíram a Caxemira de diversas maneiras. A intelligentsia indiana não tinha idéia do quão grande era o ressentimento na Caxemira. Mas não era preciso ser profeta para ver a insurgência, bastava ter olhos. Quando chamei a atenção para o problema, me chamaram de "muçulmano comunista".

Folha - E além disso há os grupos terroristas...

Rushdie
 - Veja, o islã na Caxemira sempre foi místico, gentil e aberto, não como o dos jihadistas. Não havia segregação sexual. Havia uma grande mistura religiosa. Mas então vieram os grupos extremistas, que tentaram impor à Caxemira uma idéia de islã estranha a ela. A violência funcionou, e hoje na Caxemira se vêem mulheres cobertas, o que é anticaxemirenses. Sempre me senti mal sobre isso, porque minha família é de lá, passava férias lá quando criança. Para todos na Índia, a Caxemira é o espaço encantado da infância. E foi destruído, obrigando-nos a viver num mundo sem sonho. Meu livro é um pouco sobre como viver num mundo no qual seus sonhos são destruídos.

Folha - E, para Max, os sonhos acabaram na Europa. Ele é nostálgico. O sr. também parece saudoso dos velhos valores.

Rushdie
 - Não diria "velhos valores". Diria "valores", sem os quais é muito difícil viver, num mundo desenraizado. Sou saudoso de um mundo menos desenraizado. Há uma ausência de sutileza. O desenraizamento está barateando a vida humana. Mata-se por nada.

Folha - Qual é o papel da religião nisso?

Rushdie
 - É absolutamente catastrófico, quer seja o jihadismo ou o fundamentalismo cristão, ou os hindus fanáticos.

Folha - O sr. é religioso?

Rushdie
 - Não. Não. Não me considero religioso [risos]. Mas, quando você começa a escrever sobre humanos, passa a acreditar que haja algo sobre nós que não é apenas carne e ossos. Há coisas que não podemos explicar para nós mesmos. No entanto, se você não acredita na existência da alma, é muito difícil escrever sobre isso, porque faltam palavras.

Folha - O sr. acompanha a política brasileira?

Rushdie
 - Leio os jornais. Mas não me pergunte nada [risos].



Encontro Marcado


O amor nunca vem de onde a gente está olhando!


Os guerreiros do LeP não conseguiam tirar os olhos das mulheres que estavam se despindo devagar, sedutoramente, mexendo os corpos com ritmo, de olhos fechados. "Deus me ajude", gemeu em árabe um dos guerreiros estrangeiros do LeP, se retorcendo em cima do cavalo. "Essas diabas de olhos azuis estão roubando minha alma". O maníaco homicida de quinze anos apontou o Kalashnikov para Firdaus Noman. "Se eu matar você agora", disse, perverso, "nenhum homem em todo o mundo muçulmano vai dizer que não tenho razão." Nesse momento, um buraquinho vermelho apareceu na testa dele e a parte de trás de sua cabeça explodiu... Os militantes do LeP foram cercados e superados em número e em poucos minutos estavam também mortos. Firdaus Noman e as outras mulheres vestiram as roupas de novo. Firdaus falou, triste, para o corpo de quinze anos do comandante Lashkar. "Você descobriu que as mulheres são perigosas, meu filho", disse ela. "Azar seu não ter tido a chance de crescer para virar homem e descobrir que também somos boas para amar."


COMO PODE O ROSTO DE UMA MULHER
 SER O INIMIGO DO ISLÃ?










Terpsícore



Na raiz da religião está o desejo de esmagar o infiel. Esta é a força fundamental. Quando o infiel tiver sido esmagado, poderá haver tempo para o amor, embora isso seja de importância secundária. A religião exige austeridade e auto-renúncia. Ela não tem tempo para as branduras do prazer ou para as fraquezas do amor. Deus deve ser amado, mas com um amor masculino, um amor de ação, não uma aflição feminil do coração. Deve-se estar sempre pronto para uma guerra.


Ele ainda é jovem a ponto de ter a ideia de que pode mudar a História, enquanto eu estou me acostumando com a ideia de ser inútil, e um homem que se sente inútil para de se sentir um homem. Então, se ele está inflamado com a possibilidade de ser útil, não vamos apagar essa chama.


Mercader
Udham Singh
... nesse solo oculto estão sendo plantadas as sementes do futuro e o tempo do mundo invisível chegará, o tempo da dialética alterada, o tempo da dialética na clandestinidade, quando anônimos exércitos espectrais lutarão em segredo pelo destino da Terra. Um bom homem nunca é descartado por muito tempo. Sempre se encontra um uso para um homem desses. Max invisível terá um novo uso. Ele será um dos forjadores dessa nova era também, até a velhice finalmente baixar a cortina e a Morte vir bater à sua porta na forma de um belo homem, um Mercader, um Udham Singh, a Morte, em nome da mulher que um dia ambos amaram, lhe pedindo trabalho.



Ela o tinha perdido durante tanto tempo que temia nunca mais consegui-lo de volta. Mas ali estava ele, virando-se para olhar para ela de novo. Era isso que os dois tinham, disse ela a si mesmo, essa inevitabilidade. Eram construídos para durar. Levantou o copo para ele e um sorriso tremulou nos cantos de sua boca. Sou a mulher mais iludida do mundo, pensou. Mas olhe para ele, está aqui. Meu homem.





O que é convencional quando se olha de fato as coisas? Levante a tampa de qualquer vida e ela é estranha, borbulhante; por trás de toda porta doméstica sossegada o idiossincrático e o estranho estão à espreita. Normalidade, esse é que é o mito. Os seres humanos não são normais.      


Suponhamos que fosse eu naquela foto, Max pensou, de repente. Suponhamos que todos aqueles ataques verbais fossem sinais invertidos de amor, pedidos em código para que eu fizesse o que ela sozinha não podia fazer: que a arrancasse do seu casamento e a arrebatasse para algum impossível Éden do tempo de guerra. Tentou afastar essas especulações, que era apenas uma forma de vaidade, ralhou consigo mesmo. Mas a possibilidade de um amor mal compreendido continuou a mordê-lo por dentro. Blandine, Blandine, ele pensava. Os homens são tolos. Não é de admirar que a deixássemos tão louca. Nesta tarde, no arquivo, quando descobriu o destino de Suzette Trautmann, prometeu a si mesmo que se uma mulher um dia lhe enviasse esses sinais de novo, se uma mulher um dia tentasse dizer por favor, vamos sair daqui, por favor, por favor, vamos fugir e ficar juntos para sempre e para o inferno a danação de nossas almas, por favor, ele não deixaria de decifrar o código secreto.






Rumpelstiltskin




Existem grandes infiéis que negam Deus e seu profeta, e depois existem os pequenos infiéis como você, um cuja barriga o calor da fé há muito esfriou, que toma tolerância por virtude e harmonia por paz.

A natureza do poder dominador é tal que o homem poderoso não precisa aludir a seu poder. A realidade dele está presente na consciência de todo mundo. Assim, o poder faz seu trabalho em segredo e os poderosos podem subsequentemente negar que sua força jamais foi usada.


Fidayeen

Ele era apenas um clown e seu amor não levava a lugar nenhum, não mudaria nada, não podia me levar onde estava meu destino.


Não me peça o meu coração, porque estou arrancando o coração do meu peito, quebrando em pedacinhos e jogando fora, de forma que não terei coração, mas você não vai saber disso porque serei a contrafação perfeita de uma mulher apaixonada e você vai receber de mim a falsificação perfeita de amor.


Havia, então, duas cláusulas não expressas no Entendimento, uma relativa a dar amor, outra relativa a reter o amor, codicilos mutuamente contrastantes e impossíveis de conciliar. O resultado, como Max previra, foram problemas; o maior rebuliço diplomático indo-americano da História. Mas durante algum tempo o mestre falsificador foi enganado pela falsificação que comprou, enganado e satisfeito, tão contente de possuí-la  quanto um colecionador que descobre uma obra prima escondida num monte de lixo, tão feliz de mantê-la escondida das vistas quanto um colecionador que não consegue resistir a comprar o que sabe ser propriedade roubada. E foi assim que a esposa infiel da aldeia do bhand pather começou a influenciar, a complicar e até a moldar a atividade diplomática referente à incômoda questão da Caxemira.





Pensou em Shalimar, o equilibrista, e mais uma vez ficou horrorizada com a facilidade com que o abandonara. Quando deixou Pachigam, nenhuma das pessoas mais próximas adivinhou o que estava fazendo, os bobos. Ninguém tentou salvá-la de si mesma, e como poderia perdoá-los por isso? Que idiotas eram eles todos! Seu marido, o super idiota número um, e seu pai, o super idiota número dois, e todo mundo logo atrás. Mesmo depois de Himal e Gonwati voltarem a Pachigam sem ela e começar o falatório, mesmo então, Shalimar, o equilibrista, lhe mandava cartas confiantes, cartas assombradas pelo fantasma de seu amor assassinado. 'Estendo os braços e toco você sem tocar você como na margem do rio antigamente. Sei que está em busca de seu sonho, mas esse sonho vai sempre te trazer de volta pra mim. Se o amrikan está ajudando, muito bem. As pessoas sempre dizem mentiras, mas sei que seu coração é verdadeiro. Sento com as mãos no colo e espero sua volta.' Ela ficava transpirando na cama, presa nas correntes da solidão escravizante e rasgava as cartas em pedaços cada vez menores. Eram cartas que humilhavam tanto o autor quanto o receptor, cartas que não tinham de existir, que nunca deveriam ter sido mandadas. Essas ideias não deviam nunca existir, e não existiriam, não fosse a mente débil daquele homem sem honra que tivera a vergonha de desposar.









Os animais não têm opção senão serem o que são 100% do tempo. Eles não conhecem nem moldam a própria natureza, mas sim, a natureza que conhece e os molda. Não existem surpresas no reino animal. Só o caráter do Homem é suspeito e cambiante. Só o Homem, conhecendo o bem, pode fazer o mal. Só o Homem usa máscaras. Só o Homem decepciona a si mesmo.


Abdullah começou a ver lampejos de um outro Bombur, alguém melhor por baixo da superfície inchada e vaidosa que Yambarzal infelizmente apresentava ao mundo: um homem solitário, para quem a culinária era a única paixão da vida, que a encarava com um fervor quase religioso e que ficava, portanto, constante e ferozmente decepcionado com a facilidade com que seus semelhantes humanos se afastavam das extáticas devoções das artes gastronômicas por conta de distrações tão mesquinhas quanto vida familiar, cansaço ou amor. "Se você não fosse tão duro consigo mesmo", Abdullah disse uma vez a Bombur, "talvez pudesse ser mais brando com os outros e se apresentar melhor." Bombur arrepiou-se. "Não estou no jogo da felicidade", disse, duro. "Estou no negócio de banquetes". Era uma declaração que revelava o traço monomaníaco da personalidade do waza. 


Catacumbas da Cidade Reptiliana Assombradas

Los Angeles, apesar de pouco perceber na agitação da vida moderna, está acima de uma cidade perdida de catacumbas cheias de tesouro incalculável e registos imperecíveis de uma raça de seres humanos mais avançada intelectualmente e cientificamente, mesmo sob os atuais povos de hoje.




O único jeito sensato de amar é amar condicionalmente.









"Todos os temas recorrentes na obra de Salman Rushdie concorrem na trama de seu nono romance e se combinam para fazer de Shalimar, o equilibrista a narrativa mais impactante do autor de Os filhos da meia-noiteHaroun e o Mar de Histórias e O último suspiro do mouro. É uma história de amor e vingança, com todos os ingredientes dos grandes épicos: guerras, revoluções, atos heróicos, assassinatos, tabus violados, destinos interrompidos e grandes deslocamentos no espaço, ao longo de sessenta anos de história do século XX.

No cenário das questões políticas mais nevrálgicas da história contemporânea, Rushdie constrói um enredo em que a paixão súbita e proibida de um embaixador americano por uma dançarina belíssima de etnia hindu, habitante da Caxemira, desencadeia uma série de acontecimentos que apontará para os vínculos complexos entre Ocidente e Oriente nos dias de hoje.

Com avanços e recuos no andamento narrativo, Rushdie conduz as histórias dos personagens em vias paralelas, mas as entrecruza magistralmente à medida que a obra avança. Os pontos de contato entre a história da Índia, a política dos Estados Unidos durante a Guerra Fria e a formação dos grupos extremistas islâmicos depois da queda da ex-União Soviética vão se tornando cada vez mais estreitos, relacionando-se às histórias ficcionais de Max Ophuls, Boonyi Kaul e Shalimar, o equilibrista. No romance, as esferas da ficção, da história, do mito e da política se confundem e ganham estatuto artístico excepcional. 


A função de Shalimar, o equilibrista, é tentar desvendar o sentido da desarmonia que transformou sua vida em escombros. Para isso, durante sua representação - que outros chamariam vida -, terá de elevar-se por cima da copa de uma árvore em chamas e equilibrar-se numa corda feita de ar."




Nunca confie em homens que têm muita facilidade com as palavras.


1 de abril de 2019

Paixão fatal: Sonia Salim





A sua maneira de olhar
Quem não se apaixonaria?
Inteligência, sagacidade, perspicácia
O amor à flor da pele
A jovialidade entrelaçada à maturidade
Encontros marcados
coragem e medo se misturam
o tempero da paixão
Desejam aprisionar os seus passos
Mas você nasceu para a liberdade
o risco da leitura e o conhecimento
Impossível não ver o desenrolar do futuro em você
Entretanto, paixões e ódios explodem
Amigos, inimigos ou admiradores
de uma alma ambiciosa, fria, calculista
Máscara ou realidade?
A sociedade tem voz e grita
contra a sua personalidade inquietante
amante das páginas dos livros diversos
põe o mundo a seus pés
cede lugar à paixão
e o leva à condenação
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Poema inspirado no livro, O VERMELHO E O NEGRO, Stendhal.

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O vermelho e o negro: Stendhal


"Ao chegar a Florença, meu coração batia com força... em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia: ‘É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”... as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama... Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]... Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se "nervos"; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair...” STENDHAL (Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio)























O pós Reunião

Incêndio no céu.
Põe-se o ardente sol de agosto,
e as cigarras cantam.
(Elenir)




"Não há direito natural, essa ideia é só uma velha tolice muito digna do promotor que me acusou outro dia, seu avô enriqueceu com o confisco de Luís XIV. Só há direito quando há uma lei proibindo fazer alguma coisa, sob pena de punição. Antes da lei, de natural só há a força do leão, ou a necessidade da criatura que tem fome, que tem frio, a necessidade, numa palavra... Não, as pessoas que se honram são apenas bandidos que tiveram a sorte de não ser pegos em flagrante delito. O acusador que a sociedade lança contra mim enriqueceu com uma infâmia... Cometi um crime e fui justamente condenado, mas, a não ser por isso, o juiz que me condenou é cem vezes mais nocivo à sociedade."

Vocês só vêem o momentâneo! Seus olhos não conseguem seguir o trabalho subterrâneo das escolhas filosóficas sob o manto das decisões pragmáticas.

"É preciso renunciar a toda prudência. Este século é feito para tudo confundir! Marchamos para o caos."

"Repito máximas para servirem de dique às minhas paixões."

"Meu Deus, dai-me a mediocridade."



"Talento? 
Serviço? 
Merecimento? 
Que nada! 
Pertença a um grupinho." 





Palavras soltas, encontros ao acaso, transformam-se em provas mais que evidentes aos olhos do homem de imaginação, se ele tiver alguma chama no coração.

  • "— Você é predestinado, meu caro Sorel — diziam-lhe; — você tem, muito naturalmente, esse ar frio de quem está a 1 000 léguas da sensação presente que nós tanto procuramos adquirir. / — Você não compreendeu esse século — dizia-lhe o Príncipe Korasoff: — faça sempre o contrário do que esperam de você. Aí está, realmente, a única religião de nossos tempos. Não seja doido nem afetado, pois, nesse caso, esperarão de você loucuras e afetação, e o preceito não será mais cumprido." [p.264-265]

A sua grande missão é julgar com calma os pequenos acontecimentos da vida cotidiana dos povos. A sua sabedoria deve prevenir as grandes cóleras movidas por pequenos motivos, ou por eventos que a voz da fama transfigura, levando-os longe demais.




Sua resposta foi perfeita, sobretudo longa como um sermão; dava a entender tudo, mas não dizia nada claramente.




"La vérité est dans la bouche des enfants" (Platão/Sartre)




"O amor, isto é, a mulher, revela os verdadeiros fins da existência: o belo, a felicidade, a vivacidade das sensações e do mundo" (Simone de Beauvoir)



“As mulheres só perdoam depois de terem castigado.” 

“Parecer o que se é, é um crime; parecer o que não se é, um sucesso.” 
DELPHINE GAY DE GIRARDIN