CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

5 de março de 2019

A tragédia brasileira: Sérgio Sant'Anna


A garota devolve a Cristo um sorriso puro de dentes branquíssimos e é esse sorriso que exorciza de verdade o Demônio, que pode ser visto num relance, a afastar-se de Cristo na forma de uma velha beata e corcunda que sai de cena resmungando, com o rosto escondido por um xale.  Cristo percebe, nesse momento, que o Demônio era uma presença dentro dele próprio e não da garota.


Já com Buda não pode haver Demônio, pois ele próprio é, simultaneamente, Deus e o Demônio. Não lutando contra ou a favor de um ou de outro, Buda permite que os dois opostos dentro de si estejam conciliados e não em conflito.



A alavanca de mudança é um símbolo fálico. (Freud)



Também diante de Buda, agora, no espaço cênico, passam guerreiros. São guerreiros chineses e dirigem-se a derrubar uma dinastia. Vêem Buda, a princípio, com o desprezo com que o forte examina o fraco. Por puro tédio, ou crueldade, um daqueles guerreiros aproxima-se de Buda, desembainha a espada e pensa em atravessar com ela as carnes flácidas de Buda. Buda, que sabe ler a alma de um homem, pressente o perigo, mas se limita a cheirar uma flor e, nesse instante limítrofe da morte, descobre novas sutilezas na fragrância da flor. Pois é a possibilidade de morrer que faz Buda tornar-se ainda mais atento, embora sem intencionalidade, a seus sentidos. E ele sorri para essa nova oportunidade de penetrar no âmago da vida. Buda sopra a flor e suas pétalas voam ao vento. Buda sabe que nenhum homem é tão forte que não se defronte um dia com algo mais forte do que ele. E, como as pétalas de uma flor, às vezes a maior força de um homem é deixar-se ir, carregado pelo vento. 
O guerreiro chinês dá uma gargalhada, porque captou num relance a mensagem de Buda. Ele e seus companheiros, agora, estarão carregando Buda consigo para a China e o Japão e, sendo guerreiros, serão como uma revitalização de Buda. Atravessarão impiedosos os inimigos com as armas e, ainda assim, serão como Buda. Buda é todos os homens e assim passa por todas as provações e sentimentos deste mundo; deve-se sentir como o vencedor e como o vencido. Deve descer ao inferno, como Cristo em suas dúvidas, e ser o espectador e participante de acontecimentos tão terríveis quanto o de uma criança que perdeu os pais e mutilou-se numa guerra que não é sua. E que permanece ali, à margem, desamparada e sem nenhuma probabilidade de ter esperança. Mas é também nesse terreno que pode germinar a paz, o Nirvana, de Buda. Antes, porém, sentirá o gordo Mestre, diante de tal espetáculo, o desespero e a revolta contra o Poder Supremo. Até que, por exaustão, conheça que não há Poder Supremo a dirigir o Grande Espetáculo e que Deus - ele próprio, Buda - é apenas o fluir assim, eterno, daquilo que é comparado a um rio. 

Maomé e seus seguidores, ao contrário, combaterão pelos tempos afora o Mal e o Demônio, como se fosse possível aniquilá-los um dia. No Corão busca Maomé, através da certeza, a morte de toda angústia. Sem se dar conta de que o Mal e o Demônio se encaravam dentro dele mesmo e que, para destruí-los, deveria degolar a própria cabeça e não dos infiéis. 


Maomé e seus discípulos jamais beberão uma gota de vinho, porque esse vinho soltaria o Demônio tão sufocado dentro deles e os deixaria enlouquecidos. 

"Estou me acostumando com a ideia de considerar todo ato sexual como um processo em que quatro pessoas estão envolvidas" - (Freud)


O poeta é aquele que em primeiro lugar decifra, mergulha, (n)aquilo que ainda se encontra invisível para seus semelhantes. 

Na foto o Cliceano que indicou o romance-teatro
Entreatos
Dezoito anos depois, A Tragédia Brasileira, de Sérgio Sant’Anna, é uma representação quase perfeita do país nas últimas décadas  
A primeira impressão provocada por A Tragédia Brasileira, de Sérgio Sant’Anna, é a de que estamos diante de uma obra datada. Com uma trama que se passa em 1962, o livro foi publicado com uma tiragem reduzida pela Editora Guanabara em 1987 — um tempo em tudo distante do que vivemos agora, em 2005. A passagem do tempo, entretanto, acaba contando a favor deste livro definido como um “romance-teatro”, numa feliz convergência entre suas técnicas narrativas, o acaso do mercado editorial e a própria história do Brasil nestas últimas quatro décadas.
Dividido como uma peça de três atos, o livro tem justamente nas suas várias gradações, internas ou externas, seu elemento-chave. No primeiro ato, predomina a linguagem teatral, embora seja evidente que o palco a que Sant’Anna recorre não se presta à representação cênica; ele é uma fórmula que serve para agregar novos recursos à narrativa. É por meio dessa dramaturgia imaginária que se conta, logo de início, a história do atropelamento da menina de 12 anos Jacira, morta pelo personagem do Motorista quando lhe despontavam os pequeninos seios, surgiam as penugens púberes, manchava-se o vestido de sangue pela primeira vez.
Não faltará o erotismo típico de Sant’Anna, que vai de um tom rodriguiano de dessacralização da inocência até um mais provocador, com um pouco de pedofilia, e resvala em sugestões de necrofilia. Aqui e ali, apresenta-se um pouco daquele país que saía do pós-desenvolvimentismo de JK, preocupado com a contusão de Pelé na Copa do Chile e em dúvida se a solução para o Brasil estava nas mãos de Deus ou nas dos militares. Perguntas de quem se pôs a escrever duas décadas depois, quando já se tinha passado pela ditadura e o país do futebol andava meio traumatizado com o jejum de títulos.
Novas possibilidades, então, vão surgindo. À medida que Sant’Anna investe mais na prosa, desenham-se outros cenários e personagens. No segundo ato, Jacira se confunde com a atriz que a representa; o Negro misterioso, que espreitava a menina de um terreno baldio, reaparece como contra-regra; e o melancólico e apaixonado Poeta Roberto, que de sua janela viu a tragédia, mostra ser, em parte, uma idealização pessoal do demasiadamente humano Autor-Diretor, que é, lá pelas tantas, um eco do próprio Sant’Anna.
A partir do terceiro ato, a encenação se apresenta mais como ideia, e é quase como um romance de ideias que se cria um terceiro nível de ficção, em que já não há mais limites: unem-se as pontas da dramaturgia e da prosa, da representação e da “realidade”. Como num círculo, voltamos à tragédia por meio de Maria Altamira, Virgem pura transformada em estrela radiante no momento em que estava também prestes a deixar a infância, atropelada por um Motorista de caminhão na Belém-Brasília — um dos símbolos de uma já antiga concepção de progresso e, também, esboço de metáfora religiosa.
Já aqui, na própria narrativa, as perguntas são outras. E hoje, quase 20 anos depois de o livro ter sido escrito, temos tantas outras a acrescentar. No ato que encerra as três épocas da história da obra, a tragédia persiste. Orgulhosos de um futebol pentacampeão, também nos vemos — arrasadas de vez quaisquer ilusões políticas construídas desde os anos 80 — sem rumo. É como se Jacira renascesse e morresse perpetuamente, deixando no céu a luz de uma estrela incerta, que talvez leve a um lugar que não este.
BRAVO!, outubro de 2005
© Almir de Freitas




Existe algo à beira da possessão demoníaca no Islã. Como se o Fundador fosse um dos anjos aliados de Lúcifer que no último momento se houvesse contido. Esse anjo se embevecera com a arrogância de Lúcifer e sua beleza feminina, mas teve medo de Deus e do castigo. E também de um desejo seu, inexplicável e tido como terrível: o desejo da treva total que há dentro de um regaço feminino antes de um homem haver nascido. Mandou então que se cobrisse a beleza feminina e a rotulou para sempre como impura. Enquanto eles próprios, os homens muçulmanos, estarão condenados a cavalgar loucamente pelos tempos afora, brandindo a espada contra os infiéis. Fugindo, talvez, no eco das patas de seus cavalos, da parte de seu corpo e alma que é mulher.





3 de março de 2019

O deserto dos Tártaros: Dinno Buzzati










Mortos estamos todos e sempre estivemos.

Na vida, cada um tem que aceitar o papel que lhe é destinado.




Depois, o areal extenso
Depois, o oceano de pó
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...

(Navio Negreiro - Castro Alves)

ISMAEL MONTICELLI


   Mesmo que tivessem tocado os clarins, que fossem ouvidas as canções  de guerra, que do norte chegassem mensagens inquietantes, se fosse somente  por isso, Drogo teria igualmente ido embora; mas já havia nele o torpor dos hábitos, a vaidade militar, o amor doméstico pelos muros cotidianos. Quatro meses haviam bastado para amalgamá-lo ao monótono ritmo do serviço. 

    Tornara-se hábito para ele...


Finalmente Drogo entendeu, e um lento arrepio percorreu-lhe a espinha. Era a água, era uma longínqua cascata rumorejante, a pique nos despenhadeiros próximos. O vento que fazia oscilar o longo jorro, o misterioso jogo dos ecos, o diferente som das pedras em percussão, formavam uma voz humana, que falava, falava: palavras de nossa vida, que se estava sempre prestes a entender, mas que na verdade nunca se entendia.   





"Mas alguma coisa no fim da linha vem. Ela nos espera e, finalmente, para todos nós, chega o dia, a hora, o momento do acontecimento extraordinário. Não era exatamente o que estivemos ansiando, e só nos resta aceitá-lo com dignidade e estoicismo, como um soldado. Será que a última chance de uma vida equivocada é uma morte digna? Será o que resta? A única saída?"







O tempo entretanto corria, sua batida silenciosa marcando cada vez mais precipitadamente a vida, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. "Pare, pare!" se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam inertes, acaba-se sendo arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca 



“Estirado na cama, fora da zona iluminada pelo lampião de querosene, enquanto devaneava sobre a própria vida, Giovanni Drogo foi repentinamente invadido pelo sono. Entretanto, justamente aquela noite — oh, se o soubesse, talvez não tivesse vontade de dormir —, justamente aquela noite iria começar para ele a irreparável fuga do tempo.
Até então ele passara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que na meninice parece infinita, onde os anos escoam lentos e com passo leve, tanto que ninguém nota a sua passagem. Caminha-se placidamente, olhando com curiosidade ao redor, não há necessidade de se apressar, ninguém empurra por trás e ninguém espera, também os companheiros procedem sem preocupações, de-tendo-se frequentemente para brincar.
Das casas, a porta, a gente grande cumprimenta-se benigna e aponta para o horizonte com sorrisos de cumplicidade; assim o coração começa a bater por heroicos e suaves desejos, saboreia-se a véspera das coisas maravilhosas que aguardam mais adiante; ainda não se veem, não, mas é certo, absolutamente certo, que um dia chegaremos a elas.
Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? Não são talvez estas árvores, estes prados, esta casa branca o que procurávamos? Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retomasse despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.
Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.
A um certo momento batem às nossas costas um pesado portão, fecham-no a uma velocidade fulminante, e não há tempo de voltar. Mas Giovanni Drogo, naquele momento, dormia, inocente, e sorria no sono, como fazem as crianças.
Passarão alguns dias antes que Drogo entenda o que aconteceu. Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro.
Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. Nas janelas não mais aparecerão figuras risonhas, mas rostos imóveis e indiferentes. E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. Entretanto, os companheiros se perderão de vista, um porque ficou para trás, esgotado, outro porque desapareceu antes e já não passa de um minúsculo ponto no horizonte.
Além daquele rio — dirão as pessoas —, mais dez quilômetros, e terá chegado. Ao contrário, não termina nunca, os dias se tornam cada vez mais curtos, os companheiros de viagem, mais raros, nas janelas estão apáticas figuras pálidas que balançam a cabeça.” 



Não é sobre a vida militar que fala o livro, mas sobre a vida de todos nós.

Fala da vida como uma aposta na imobilidade.  Se não fizermos nada além de aceitar as coisas como são, um dia algo virá para redimir nosso pobre cotidiano, algo notável e brilhante que a vida nos reserva mais para frente.


Embora escrito quase setenta anos atrás, o livro parece endereçar-se diretamente ao século XXI e nos atinge profundamente. Ou não é exatamente isso que diz a publicidade, a televisão, enfim, o pensamento médio reinante: seja disciplinado e trabalhador. Não mude sua vida. Trabalhe infatigavelmente que um dia algo maravilhoso vai lhe acontecer. Algo glorioso, que vai justificar sua existência, não uma batalha, claro, mas talvez uma linda mulher inatingível, uma esperada promoção, uma casa cercada de árvores, ou muito dinheiro. Só que isso sempre virá mais adiante. Cada vez mais adiante. Até que um dia nos damos conta que fizemos a aposta errada.

Os tártaros não vieram. 



"Era um trabalho monótono e aborrecido e os meses passavam, e passavam os anos e eu me perguntava se seria sempre assim, se as esperanças, os sonhos, inevitáveis quando se é jovem, iriam se atropelar pouco a pouco, se a grande ocasião viria ou não."



Viver a vida não possui outra finalidade senão deixá-la escorrer e a morte é a única justificativa. 




Aqui ou onde quer que seja, 
estamos todos em algum lugar por engano. 


A vida como exercício de espera jamais satisfeita, a morte como única resposta aos amores impossíveis, às amizades traídas e às esperanças frustradas. 


28 de fevereiro de 2019

Tocaia grande, a face obscura: Jorge Amado




Hoje tem Clube de Leitura na Livraria Icaraí!

Daqui a pouco, às 16h, acontece mais uma edição do Clube de Leitura Icaraí. E o livro escolhido para o debate de hoje é um clássico da literatura nacional: ''Tocaia Grande: a face obscura'', de Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

A ideia do livro surgiu de um texto que o próprio Jorge Amado havia escrito, no qual contava lembranças de sua infância na Bahia. A trama descreve o processo de fundação de uma cidade nordestina em meio a uma disputa por terras que resultou em um massacre. O romance aborda diversos temas próximos da realidade do Nordeste brasileiro, entre eles o coronelismo e os conflitos territoriais, questões que ainda hoje perduram na região. Gostou dessa sinopse? Então venha para o Clube de Leitura!

A Livraria Icaraí fica na Rua Miguel de Frias, nº 9, em anexo à reitoria da UFF, em Niterói.




Caros colegas,

espero que esteja tudo bem com todos vocês.

Qual o dia, horário e local de nosso próximo encontro? Na Livraria da EdUFF mesmo? 

Estou terminando de ler TOCAIA GRANDE, mas tendo alguma dificuldade. São 472 páginas, a trama não se desenvolve. Tenho a obra completa de JORGE AMADO, sou admiradora inconteste do escritor, do cidadão, premiado no Brasil e no exterior. 

Leio e releio MAR MORTO, CAPITÃES DA AREIA, A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D'ÁGUA,  TENDA DOS MILAGRES, DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, TIETA DO AGRESTE, com imenso prazer e orgulho: é a verdadeira literatura brasileira! 

Em TOCAIA GRANDE, 
Elói Coutinho, Natário, Venturinha, Hermenegildo Cabuçu, Zezinha do Butiá, Boaventura Andrade Junior, Fadul Abdala, Capitão Natário da Fonseca, Coronel Robustiano de Araújo, Jacinta Coroca, Manuel Bernardes, Valério Cachorrão, Pergentino, Jussara Ramos Rabat, o negro Castor Abduim, Bernarda, o velho Ambrósio, a velha Angelina (Vanjé), Prudêncio de Aguiar, Emílio Medauar, a médium Zorávia, Dona Ernestina, Fuad Karam, Pedro Cigano, Nora Pão-de- ló, Durvalino, Zé Luiz, Carlinhos Silva, Frei Theun, Frei Zygmunt Martelo de Deus, Carlinhos Silva (fluente em alemão!!!), Benaia Cova Rasa, Coronel Agostinho, Fuad Karan, Ludmila Gregorióvna Cytkynbaum, Dudu Matias, Senhorita Dona Deuza...  
discutem, matam, morrem, não são felizes, não conseguem alcançar seus objetivos na vida. 

'E AQUI SE INTERROMPE EM SEUS COMEÇOS A HISTÓRIA DA CIDADE DE IRISÓPOLIS, quando ainda era Tocaia Grande, a face obscura. aqui se interrompe em seus começos'. são as palavras com que Jorge AMADO encerra o livro. 

O posfácio de MIA COUTO garante que é imperdível. 

O que vocês acharam? Estou sendo muito exigente? (rs)

Abraço carinhoso,


Cyana Leahy
Professora (UFF), escritora, tradutora
PhD em Educação Literária (London University)
Coordena a CL Edições



E não é que nesse livro de Jorge Amado
logo no livro de um baiano
tem um personagem anti-oblomoviano:
Tição, Castor abduim, encarnação de Oxaguiã

Tocaia grande - A face obscura(1984)


As comemorações dos setenta anos da fundação de Irisópolis e dos cinqüenta de sua elevação a cidade, cabeça de comarca e sede de município, alcançaram certa repercussão na imprensa do sul do país. Se para tanto o dinâmico prefeito despendeu verba elevada, não incorre em crítica: tudo quanto se faça para divulgar as excelências de Irisópolis, o passado de epopéia, o presente de esplendor, merece aplauso e elogio. Além das matérias pagas os jornais do Rio e de São Paulo divulgaram algum noticiário sobre os eventos principais que abrilhantaram os festejos, com destaque para as cerimônias, ambas solenes, da inauguração dos bustos do coronel Prudêncio de Aguiar e do doutor Inácio Pereira, erguidos um em casa praça, a da Prefeitura e a
da Matriz.

A partir do revertério da situação política, com o fim do domínio da laia que assumira o mando após a morte dos Andrade, o pai e o filho, o fazendeiro mandou e desmandou na Intendência durante lustros, intendente ele próprio ou preposto de sua escolha, parente ou
compadre. Provas da capacidade administrativa do Coronel e de sua dedicação no exercício do poder ainda hoje são vistas e admiradas no perímetro urbano, inclusive a rua calçada com paralelepípedos ingleses
- importados da Inglaterra, sim senhores! -, orgulho da população irisopolense, enquanto as acusações de desvio dos dinheiros públicos desvaneceram-se no passar do tempo. Quanto ao escapulário, na qualidade de cunhado e conselheiro, de cidadão de aptidões singulares, exerceu os cargos mais elevados, assumiu as incumbências mais responsáveis, tendo presidido a comissão formada com o meritório objetivo de angariar fundos destinados à construção da Matriz, magnífico templo católico, outro orgulho da coletividade: símbolo da fé e do idealismo daqueles valentes que, empolgados com o denodo dos dois beneméritos pioneiros, colaboram na colocação da primeira pedra da localidade.






De tanto ouvir a mãe contar, a cena se tornou real na lembrança do menino: a égua tombada morta, e o pai, ensanguentado, erguendo o bebê do chão e o levando para casa no colo. O ano era 1913, e Jorge Amado tinha então dez meses. A imagem evoca a tocaia de que o pai do escritor foi vítima na época das lutas travadas pela posse de terras no sul da Bahia, durante o ciclo do cacau. 




"O Homem que outrora fui…" (Pushkin)
                             Tel j'étais autrefois et tel je suis encor 

                                                                 André Chenier
O homem que outrora fui, o mesmo ainda serei:
leviano, ardente. Em vão, amigos meus, eu sei,
de mim se espere que eu possa contemplar o belo
sem um tremor secreto, um ansioso anelo.
O amor não me traiu ou torturou bastante?
Nas citereias redes qual falcão aflante
não me debati já, tantas vezes cativo?
Relapso, porém, a tudo eu sobrevivo,
e à nova estátua trago a mesma antiga of'renda…





Trouxe uma apresentação pro Coronel e ele me acolheu.

A égua Imperatriz do coronel Robustiano e a mula preta do capitão Natário iam parelhas em passo lento e cuidadoso na vereda entre os cacaueiros.

O Coronel não comentou, o Capitão prosseguiu a narrativa:

- Coronel Boaventura já tava metido nos barulhos, como vosmicê sabe pois andaram juntos. Fez confiança em mim, me entregou uma repetição e me levou com ele.

Posso dizer que ele me criou, sempre me tratou como se deve tratar um homem, devo a ele o que sou e o que tenho. Não me lembro de meu pai: comeu os tampos de minha mãe, capou o gato. O pai que conheci foi o coronel Boaventura.

- Mas ouvi ele mesmo dizer que você salvou a vida dele mais de uma vez. Boaventura não lhe fez favor quando mandou botar em seu nome o chão que nós tamos pisando.

- O Coronel me acoitou e me pagava o soldo de jagunço pra velar por ele. Sou ligeiro no gatilho e no pensamento. Só fiz a minha obrigação. Se ele quisesse, podia não ter me dado nem terra nem patente.

Não vou dizer a vosmicê que não mereci, mereci bem merecido, só que ele não tava obrigado a reconhecer pois havia o couto e a paga.

O Capitão soltara a rédea sobre o cabeçote da sela, deixava a mula ir a locé pela trilha conhecida, ele percorria outros caminhos, os do passado, onde, às vezes, nem trilha havia:

- O coronel Boaventura foi o homem mais valente e o mais direito que conheci e eu não me importava se tivesse de morrer por ele. Foi por isso que mesmo depois de ser possuidor de terra e de ter plantado cacau, não larguei do serviço dele, continuei cuidando da Atalaia.

Disse a ele em mais de uma feita: enquanto vosmicê for vivo e me quiser, sou um cabra a seu serviço.

Pra depois da morte dele só prometi uma coisa e essa tou cumprindo. Mas nada tem que ver com roça de cacau e com posto de administrador.

- Me disseram que Venturinha ofereceu lhe pagar o que você pedisse.

- Coronel, eu penso que todo homem tem vontade de ser dono de sua sina. Quando eu comecei a ganhar a vida, acompanhando romeiro lá no São Francisco, ouvi o povo dizer que a sina da gente tá escrita no céu e ninguém pode mudar, mas meu pensar é diferente.

Acho que cada criatura tem de cuidar de si e sempre tive vontade de ser dono de mim mesmo. Servi o Coronel por mais de vinte anos: tinha dezessete quando arribei por aqui, já festejei quarenta e dois.

Nunca prometi servir à viúva ou ao filho. Nem nunca ele me pediu.





"Iá-rára-dináh! Rára! Rára!

Deus da ruindade e da desolação, impiedoso, atrabiliário, carrasco!"





O marido deu um passo à frente, colocou-se entre a mãe e a mulher; respondeu ao sorriso aflorando com os dedos o rosto lasso da companheira. Ele, João José, desaprendera de sorrir.

Antes dos acontecidos de Maroim - fora ontem ou decorrera muitos anos? - Dinorá povoava a casa de cantigas, face louçã, olhos vivos, garrida, alvoroçada. À noite, ele a tomava nos braços, riam e suspiravam juntos.

Dedos toscos, mão calosa e suja: o carinho inatendido não tocou apenas a face de Dinorá ampliando o sorriso tímido nos lábios ressequidos. Ungüento milagroso, derramou-se sobre as chagas, por fora e por dentro, no exposto e no recôndito.

As pontas dos dedos tocaram cada fibra de seu ser: bálsamo suave, chama voraz. Dinorá sentiu-se renascer, outra vez mulher para a labuta e a cama.



Pássaro sofrê



Dona Ernestina, entregue por completo à religião e à indolência - para matar a saudade do doidivanas empanturrava se de doces e chocolates - envelhecia obesa e pudibunda.

 Dos deboches de cama a que se entregara outrora com o marido nem queria se lembrar - deboches em sua opinião,pois jamais os cônjuges foram além de modesto papai-mamãe procriador.

Cumprira o dever de esposa, concebera e dera à luz um filho. Na esperança de ter uma menina e assim completar o casal, ainda aceitara durante alguns pares de anos a frequentação do Coronel, aliás a cada dia mais vasqueira.

Ela o fez pela menina que não veio, por nenhum outro motivo: como a grande maioria das senhoras casadas, suas conhecidas e amigas, nunca soubera, nem por ouvir dizer, o significado da palavra orgasmo e o que fosse gemer de gozo nos braços do parceiro.

Umas poucas descaradas, bem certo, se comportavam no leito conjugal como putas em cama de bordel, não se davam ao respeito, maculavam a nobreza do matrimônio e a sublime condição de mãe de família. Pouquíssimas e indignas.

Para as baixas necessidades dos homens sobravam as mulheres damas, as públicas e as exclusivas. Dona Ernestina tinha conhecimento da existência de Adriana, amásia do Coronel havia mais de dez anos: não lhe causava mossa.

Tampouco a ofendia o desinteresse do marido: fazia um século que não se punha nela, que a deixara em paz. Graças a Deus.



"Sou da cor do cacau seco

sou o mel do cacau mole"





Depois, no cabaré, Fuad Karan acrescentara novos dados, referira circunstâncias curiosas, ampliara a lista dos galãs. Cidadãos os mais diversos se atropelavam na caudalosa crônica da cabocla. Ninguém poderia acusar Jussara de preconceituosa em matéria de homem: desde que vestisse calça e levantasse o pau merecia-lhe atenção e, ocorrendo circunstância propícia, levava-o para a cama. Fuad Karan, erudito, resumira: Jussara sofre de furor uterino, meu Fadul, não há jeito a dar. Fogo no rabo, confirmava Zezinha, não há macho que apague



Não parou de incriminar-se enquanto o homenzarrão levantava-se da cama, fechava a porta e se despia: nu, crescia de tamanho, tornava-se ainda maior. Da cama, estirada, olhava-o de soslaio, um marido e tanto! Trabalhador e cobiçoso, presumido e tolo, igual a Kalil Rabat, bobo alegre nascido para cabresto e chifre. Com a vantagem de ser grandão, bem-parecido e possuir aquele pé-de-mesa. Jussara chegava com as mãos cheias: o resplendor do rosto, a tentação do corpo, dinheiro a rodo, a mais sortida loja de tecidos de Itabuna, a insolência e o dengue, o fogaréu. Que mais podia desejar um tabacudo bodegueiro confinado em remota caixa-pregos?



No dia magno da formatura, pela manhã, o arcebispo da Bahia, primaz do Brasil, celebrara missa cantada na Catedral Basílica e no verboso sermão conclamou os formandos “à defesa intransigente do direito e da justiça, missão sagrada daqueles que adotavam a meritória carreira da advocacia”. No silêncio da catedral, o coronel resmungara ao escutar as palavras de sua reverendíssima: bonitas porém falsas, sem sentido. Os bacharéis não passavam de uns trapalhões, metidos a sebo, úteis sem dúvida, indispensáveis exatamente para coonestar as violações do direito e da justiça. Caríssimos, ademais. Agora o coronel tinha um em casa, ao seu dispor.




Ainda assim pagava a pena: o título de doutor valia tanto quanto uma boa fazenda, chave para abrir as portas da política e proporcionar um casamento afortunado. Com o filho doutor ali à mão, o coronel não mais precisaria utilizar os serviços de outros bacharéis para cuidar-lhe os interesses nos fóruns e cartórios, tampouco depender de terceiros a quem eleger para cargos de confiança, a quem delegar comandos. Ficava a salvo de aleives e falsidades, de surpresas: assunto mais traiçoeiro do que a política só mesmo a justiça. Por isso andam sempre juntas, de mãos dadas.




É público e notório que a delicada flor do bem-querer não desabrocha nem resplandece se não houver interesse e concordância de ambas as partes, do homem e da mulher. Não adianta um dos dois se enrabichar sozinho: se não for correspondido, fica no alvéu, roendo beira de sino, situação penosa e deprimente, bastante triste.




Por vos me rompo toda!






Levava na bagagem vestidos chiques, uma batelada de remédios, aflitas recomendações maternas e a excitante informação de Madeleine.

A princípio tudo foi novidade e animação, motivo de festa e de riso, mas a monotonia não tardou a prevalecer.

Cansada dos bailes provincianos nos quais, por causa da elegância e dos costumes europeus, provocava inveja e conquistava aversões entre o mulherio atrasado e maledicente, cansada sobretudo da presunção e da tolice do Senhor de Itauaçu, tão cheio de si quanto vazio de interesse, para conter os bocejos e suportar o desterro, Marie-Claude dedicou-se à equitação e à fodilhança.

Ginete petulante, sozinha ou acompanhada pelo Barão, cruzava os campos nos cavalos de raça, os mais árdegos do Recôncavo.

Consorte atenta, comprovou na prática que, iguais aos tenentes-coronéis, todos os barões nascem com irremissível vocação para corno manso: impossível impedir que a realizem.

Em sendo assim, uma esposa devotada deve estar apta a cumprir o seu dever, solidária com o destino do marido. Um dia, quando dissertavam, sobre a pureza e a beleza das raças equinas e similares, andando pelos arredores do banguê, o Barão Adroaldo apontara um negro adolescente, envolto em fagulhas, na oficina do ferreiro, chamando a atenção de Madame la Baronne para aquele magnífico espécime de animal de raça:

— Repare no torso, nas pernas, nos bíceps, na cabeça, ma chère: um belo animal. Exemplar perfeito. Observe os dentes.

Reparou, obediente e interessada. Demorou os olhos molhados no exemplar perfeito, no belo animal. Observou os dentes brancos, o sorriso vadio. Malheur! Uma faixa de pano escondia lhe a primazia.

O Barão era deveras autoridade em raças, herdara a competência do pai, perito na escolha e compra de cavalos e escravos.

Mas Marie-Claude aprendera com as freiras do Sacré Coeur que os negros também têm alma, adquirem-na com o batismo.

Alma colonial, de segunda classe, mas suficiente para distingui-los dos animais: a bondade de Deus é infinita, explicava Sóror Dominique dissertando sobre o heroísmo dos missionários no coração da África selvagem.

 - Mais, pas du tout, mon ami, ce n’est pas un animal. C’est un homme, il possêde un’âme immortelle que te missionaire tal a donné avec le baptême.

Un homme? O Barão desatou a rir.

Quando o Senhor de Itauaçu ria em francês, posando de aristocrata culto e irônico a se divertir com a tolice humana, tornava-se intolerável por afetado e arrogante.

 Um seu xará, Adroaldo Ribeiro da Costa, bacharel e literato de Santo Amaro, ao ouvi-lo rinchavelhar massacrando sem piedade a língua de Baudelaire, mestre bem-amado, passara a designá-lo por Monsieur le Franciú para gáudio dos ouvintes e pelas costas do Barão: o poeta.



Consorte atenta, comprovou na prática que, iguais aos tenentes-coronéis, todos os barões nascem com irremissível vocação para corno manso: impossível impedir que a realizem.





Ao regressar de Guadalupe onde o marido, tenente-coronel de artilharia, comandara a guarnição, Madeleine fizera duas declarações peremptórias: a) todos os tenentes-coronéis nascem com irrevogável vocação para corno-manso, nem a mais pateta da esposas pode impedir que cumpram seu destino; b)os negros, em matéria de cama, são absolutamente insuperáveis. Não havia melhor prova da primeira afirmativa do que o próprio esposo de Madeleine: fora ele que trouxera para casa, na qualidade de ordenança, o negro Dodum, exatamente a melhor prova, a mais esplêndida da segunda revelação. 



"Depois de liderar uma tocaia sangrenta contra um inimigo de seu patrão, o jagunço Natário da Fonseca recebe alguns alqueires próximos ao palco da matança. Ali, passa a cultivar cacau. Agora proprietário de terras, Natário encomenda no Rio de Janeiro, então capital do país, patente de capitão. Assim, nos moldes de um coronel nordestino, começa a ampliar seus domínios e a impor sua autoridade.


O Lugar da Tocaia Grande cresce e de local de pernoite passa a lugarejo, depois a arraial. Recebe prostitutas, tropeiros, jagunços, ciganos e trabalhadores que perderam emprego nos latifúndios. Vários personagens compõem a história do povoado: Bernarda, afilhada e amante de Natário; Venturinha, filho do coronel Boaventura e bacharel em direito; a cafetina Jacinta Coroca; a feiticeira Epifânia; o negro Castor Abduim, conhecido como Tição, e o comerciante libanês Fadul Abdala. Aos poucos, de terra sem lei o povoado amplia-se até alcançar estatuto de cidade e receber o nome de Irisópolis.



Em Tocaia Grande, Jorge Amado descreve o processo de formação de uma cidade nordestina nascida sob o signo da violência e da disputa de terras. Romance caudaloso e panorâmico, revela a “face obscura” de um lugar em que a lei não vigora nem há presença formal do governo.



Na região cacaueira, a pequena cidade de Irisópolis é o microcosmo de uma sociedade de funcionamento tradicional e arcaico, que recebe os ventos da modernização sem perder a herança perversa. Apesar do progresso, da emancipação e dos elementos civilizatórios, o lugar vai conservar seus traços originais: o sangue derramado, a marca do pecado e a memória da morte."


Tiago Hoisel



Publicado em 1984, Tocaia Grande descreve o processo de formação de uma cidade nordestina, nascida sob o signo da violência e da disputa de terras, em inícios do século XX.Depois de liderar uma tocaia contra o oponente de seu patrão, o jagunço Natário da Fonseca recebe alguns alqueires próximos ao palco da matança, onde passa a cultivar cacau. A chegada de comerciantes, prostitutas, tropeiros e ex-escravos ao local dá vida e contornos ao arraial.Personagens fortes, independentes e solitários - como a cafetina Jacinta Coroca; o negro Castor Abduim, conhecido como Tição Aceso, e o comerciante libanês Fadul Abdala -, encontram em Tocaia Grande um refúgio e o conforto da amizade.Com a prosa leve e bem-humorada de sempre, Jorge Amado relata a união profunda e os laços de afeto que se desenvolvem entre os habitantes de Tocaia Grande, e que serão responsáveis pelo crescimento do povoado e por sua resistência à pressão da Igreja e do poder político-econômico para se enquadrar no sistema coronelista.Este e-book não contém as imagens presentes na edição impressa.



Bang bang dos bons em Tocaia Grande

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Opção


27 de fevereiro de 2019

A CHAVE DA CASA - poema de Rita Magnago inspirado na leitura do livro




Saio de dentro dessa vida-piscina
quando a falta de ar já me levava ao desmaio
aí abro a boca em desespero
e bebo toda a atmosfera que há para beber.
Acalmo meu coração
a hora chegou, mas já se foi
e eu ainda estou aqui
essa chance...

Todo começo é o meio
o caminho, a procura
os desencontros do encontro
o eu estar aqui e você não
o você e eu estarmos
e não estarmos
só você ficar.

Dos instantes intensos e eternos
é curiosa a contagem do tempo
sou só eu que estou comigo 24 horas
mas é a você que dou o crédito de perdurar.

Na minha memória
a fotografia se esvai
rachaduras trincam a imagem perfeita
e lapsos cobrem de nuvens as cores do passado.
Eu preencho com a dor
- ela sempre dá conta -
reinvento contornos
reconto a história da vida
construo o presente
que vai me permitir abrir portas
mesmo as das casas que não existem.

Derrubo o silêncio
atravesso as fronteiras
desenterrando raízes
daí sairão meus frutos
acres e doces
daí sairei eu
como quem renasce de si.