Aos companheiros de Clube uma pergunta básica sobre o livro do mês, rabiscada assim:
Afinal
a desonra é qual?
A do professor com a aluna?
A da aluna com o professor?
Ou a da punição-arranjo
para que se passe uma borracha
às custas de uma desculpa
na qual não acredita
nem quem pede, nem quem dá?
Ou a desonra é a da filha
que absorve a violência
e se submete ao arranjo-punição?
Ou, afinal, é de todo o mal arranjado
esboço de nação
que Desonra nos fala?
A aluna, calada, que diz sim.
O professor falante que se recusa a negar a coisa feita.
E a filha
que se interioriza
e aceita.
Cada qual com sua honra.
Em cada uma, um preço a pagar.
Afinal
a desonra é qual?
- - - - - -
Abs,
Newton
Aquele que vai ensinar acaba aprendendo a melhor lição, enquanto os que vão aprender não aprendem nada. p. 11
O Clube da Sete leu Desonra de J. M. Coetzee. Leia a análise feita pelo coordenador Roberto Pedretti:
"... há alguns anos duas senhoras de Ipanema trocavam indicações literárias mútuas à frente da seção de Literatura Estrangeira, com muito entusiasmo, quando pululou nas mãos de uma delas um exemplar de "Desonra", casualmente. A outra reagiu com um gritinho de ansiedade e êxtase: "Amiga, leva esse!, leva!, pode levar que é ma-ra-vi-lho-so!!".
Eu estava apenas na audiência, a meia distância, mas caso elas tivessem me pedido qualquer opinião, eu certamente não teria considerado o adjetivo ma-ra-vi-lho-so como uma possibilidade. Soberbo, sem dúvida; incrivelmente bem construido; impossível de largar etc. Ma-ra-vi-lhoso, no entanto, estava fora da minha palheta. Afinal, "Desonra" é desagradável, melancólico, indigesto e pode fazer com que você conclua a leitura com um pouco menos de esperança na humanidade.
Um dos temas recorrentes de Coetzee, a tirar pelos seis livros que tive a oportunidade de ler, é a degradação - quão baixo um ser humano é capaz de chegar sem misturar-se aos demais bichos da Criação. Do outro extremo, também recorre muito à questão do reconhecimento da vida animal como legítima, digna de proteção e respeito ("A Vida dos Animais", "Elizabeth Costello" e o próprio "Desonra" são exemplos. Mas não usa como militância crua, "real", mas antes como alegoria da própria degradação. Queda e ascensão fazem com que as espécies se encontrem em algum ponto do caminho, e que nós, como humanos, perguntemos: o que podemos afinal arguir a nosso favor?
Alguns dos livros mais duros que li de Coetzee, como "O Mestre de Petersburgo" e "À Espera dos Bárbaros", tinham um quê de fantasia que amortecia essa descida ao inferno (Dostoievsky como protagonista no primeiro, ou o país inventado do segundo). A questão com “Desonra” é que ele é plausível demais, a história muito corriqueira, tanto que quase podemos jurar que já deve ter acontecido igualzinho em algum lugar. Esse realismo é que deve tornar o livro o mais impactante de todos.
P.S.: Parece que do Nobel para cá todo mundo tem que colocar uma foto do senhor Coetzee com jeito de durão, de quem comeu um limão inteiro no café. Optei por ilustrar o texto aqui com uma mais amena, provavelmente da década de ’90, quando ele já era uma celebridade especificamente sul-africana.





















