CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

24 de fevereiro de 2019

O homem que amava os cachorros: Leonardo Padura


Uma pedra jamais o será simplesmente
enquanto a boca sedenta do eterno
ungir com seu beijo a superfície da esperança.
O gosto do calcáreo-mármore-granito
toca o fluido-semente
troca o símbolo da vida
líquido e sólido
atmosfera em simbiose.

(Rita Magnago)




"...É então que o aparecimento de uma árvore, o perfil de uma montanha, a corrente gelada de um rio ou uma simples rocha no meio da estepe se transmutam em algo de tal forma notável que se tornam objeto de veneração. Os nativos daqueles desertos longínquos glorificavam as pedras porque asseguravam que na sua capacidade de resistência se expressava  uma força, presa para sempre em seu interior, que era fruto de uma vontade eterna".  

Que busquemos em nosso interior o belo e a paz da natureza e a força e resistência da pedra. Transcrevo, a seguir, uma estrofe do meu poema Fraternidade:

                                                 Se a tua alma se enternece
                                                com o céu, a pedra e o mar,
                                                as flores e os passarinhos,
                                                pois, pertencendo ao universo
                                               tu os abraças como irmãos:
                                               Isto é Fraternidade.

Se mesmo sem conheceres
teus iguais de outras plagas
com eles te preocupas
elevando o pensamento
em prece e meditação:

isto é Fraternidade.

(Elenir)

* * *


Embora tenha tentado evitar, e tenha me agitado e negado, enquanto lia fui sentindo como era invadido pela compaixão. Mas só por Iván, só pelo meu amigo, porque ele sim a merece e muita: merece-a como todas as vítimas, como todas as trágicas criaturas cujo destino é dirigido por forças superiores que as ultrapassam e as manipulam até as transformarem em merda. Essa foi a nossa sina coletiva, e que Trotski vá para a puta que o pariu se, com seu fanatismo de obcecado e seu complexo de ser histórico, não acreditava que existissem as tragédias pessoais, mas apenas as mudanças de etapas sociais e supra-humanas. E as pessoas? Algum deles pensou alguma vez nas pessoas? Perguntaram-me, perguntaram a Iván, se concordávamos em adiar sonhos, vida e todo o resto até que se evaporassem (sonhos, vida e o raio que o parta) no cansaço histórico e na utopia pervertida?


A atriz espanhola teria visitado o assassino na prisão no México



– Se sou uma comunista defeituosa, Ramón, é por tudo isso – continuou Caridad, depois de servir um terceiro copo ao filho e de, ela própria, beber um quarto (quinto, sexto?). – Meu ódio nunca me permitirá trabalhar para construir a nova sociedade. Mas é a melhor arma para destruir esta outra sociedade, e por isso os transformei, a todos vocês, meus filhos, naquilo que são: os filhos do ódio. Amanhã, depois de amanhã, dentro de dois dias, quando estiver diante do homem que tem de matar, lembre-se de que ele é meu inimigo e também seu. De que tudo o que diz sobre a igualdade e o proletariado é pura mentira e de que a única coisa que ele quer é o poder. O poder para degradar as pessoas, para dominá-las, para fazer com que rastejem e sintam medo, para meter no cu delas, que é como mais gozam os donos do poder. E, quando você estourar a cabeça daquele filho da puta, pense que o seu braço é também o meu: estarei lá, te apoiando, e somos fortes porque o ódio é invencível. Beba esse copo, porra! Agarre o mundo pelos colhões e ponha-o de joelhos. E meta isto na cabeça: não tenha piedade, porque ninguém a terá de você. Nunca. E, quando estiver fodido, não aceite compaixão. Ninguém precisa se compadecer de você! Você é mais forte, você é invencível, você é meu filho, collons !


La societé c'est moi!

"Embora ainda não tivesse começado a acompanhar Ana à igreja, Dany, Frank e os outros poucos amigos que via diziam que eu parecia estar trabalhando para minha candidatura à beatificação e minha ascensão incorpórea aos céus. A verdade era que, lendo e escrevendo sobre como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da mão fora pervertida, mergulhando nas catacumbas de uma história que mais parecia um castigo divino que obra de homens ébrios de poder, de ânsias de controle e de pretensões de transcendência histórica, tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada têm não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até doer, e não fazer política nem pretender prerrogativas com essa ação, muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar nossos conceitos do bem e da verdade por (acreditarmos) serem os únicos possíveis e por, além disso, deverem estar agradecidos pelo que lhes demos, mesmo que não o tivessem pedido. E, embora soubesse que a minha cosmogonia era de todo impraticável (e que merda fazemos com a economia, com o dinheiro, com a propriedade, para que tudo isso funcione? e que porra fazemos com os espíritos predestinados e com os filhos da puta de nascença?), satisfazia-me pensar que talvez um dia o ser humano pudesse cultivar essa filosofia, que me parecia tão elementar, sem sofrer as dores de um parto ou os traumas da obrigatoriedade, por pura e livre escolha, por necessidade ética de ser solidário e democrático. Masturbações mentais minhas…" (p. 419)


Túmulo de Trotsky no México


“É terrível verificar que um sistema nascido para resgatar a dignidade humana tenha recorrido à recompensa, à glorificação, ao estímulo da denúncia, e que se apoie em tudo o que é humanamente vil. A náusea sobe-me pela garganta quando ouço as pessoas dizerem: fuzilaram M., fuzilaram P., fuzilaram, fuzilaram, fuzilaram. As palavras, de tanto as ouvirmos, perdem seu sentido. As pessoas repetem-nas com a maior tranquilidade, como se estivessem dizendo: vamos ao teatro. Eu, que vivi esses anos no medo e senti a compulsão de denunciar (confesso com pavor, mas sem sentimento de culpa), deixei de sentir na minha mente a brutalidade semântica do verbo fuzilar… Sinto que chegamos ao fim da justiça na Terra, ao limite da indignidade humana. Que morreram demasiadas pessoas em nome daquela que, prometeram-nos, seria uma sociedade melhor”…





Só a inocência absoluta pode salvar e, mesmo assim, muitos inocentes são capazes de confessar que mataram Cristo para que os deixem em paz e os matem o mais depressa possível. (p. 254)


Fonte: Época

"Nada mais próximo da moral comunista do que os preceitos católicos" (p. 93)

Olha, tem uma coisa muito importante que me ensinaram...: o homem é irrelevante, substituível. O indivíduo não é uma unidade excepcional, mas um conceito que se soma e forma a massa, esta sim real. Mas o homem enquanto indivíduo não é sagrado e, portanto, prescindível. Por isso arremetemos contra todas as religiões, especialmente o Cristianismo, que diz essa tolice de o homem ter sido criado à semelhança de Deus. Isso nos permite ser ímpios, desfazer-nos da compaixão que gera a piedade: o pecado não existe. Sabe o que isso significa?... É tudo a mesma merda, é nada. Nomina odiosa sunt. Importa o sonho, não o homem... (p.298)


"Ninguém escolhe o tempo de viver, morrer ou matar" (Pavel Sudoplatov)


Oración al Glorioso San Luis Beltrán

Criatura de Dios, yo té curo, ensalmo y bendigo en nombre de la Santísima Trinidad Padre, Hijo y Espíritu Santo, tres personas y una esencia verdadera; y de la Virgen María, Nuestra Señora concebida sin mancha de pecado original, Virgen antes del parto, en el parto y después del parto y por la gloriosa Santa Gertrudis, tu querida y regalada esposa, once mil vírgenes, Señor San José, San Roque y San Sebastián y por todos los Santos y Santas de tu Corte Celestial; por tu gloriosísima Encarnación, gloriosísimo Nacimiento, Santísima Pasión, gloriosísima Resurrección, Ascensión; por tan altos y Santísimos meritos que creo y con verdad; suplico a tu Divina Majestad poniendo por intercesora a tu Santísima Madre y abogada nuestra, libres, sanes a esta criatura de esta enfermedad. Amén, Jesús. No mirando a la indigna persona que refiere tan sacrosantos misterios con tan buena fé, te suplico, Señor, para más honra tuya, y devoción de los presentes, te sirvas por tu piedad y misericordia de sanar y librar de esta herida, llaga o dolor, humor, enfermedad. Y no permita tu Divina Majestad, le sobrevenga accidente, corrupción ni daño, dándole salud para que con ella te sirva y cumpla tu santísima voluntad. Amén, Jesús. Yo te curo y ensalmo y jesuscristo Nuestro Señor Redentor te sane; bendiga y haga en todo su divina voluntad. Amén. (Esta oración se hace contra todo tipo enfermedades)


Ramón é um homem de outra época, de um tempo muito fodido, quando nem sequer a dúvida era permitida... pertenceu a uma geração de crédulos por obrigação. 

Karl Marx




Leia aqui "O homem que amava os cachorros" de Leonardo Padura!


21 de fevereiro de 2019

Desonra - J. M. Coetzee (prêmio Nobel 2003)

Aos companheiros de Clube uma pergunta básica sobre o livro do mês, rabiscada assim:

Afinal
a desonra é qual?
A do professor com a aluna?
A da aluna com o professor?
Ou a da punição-arranjo
para que se passe uma borracha
às custas de uma desculpa
na qual não acredita
nem quem pede, nem quem dá?

Ou a desonra é a da filha
que absorve a violência
e se submete ao arranjo-punição?

Ou, afinal, é de todo o mal arranjado
esboço de nação
que Desonra nos fala?

A aluna, calada, que diz sim.
O professor falante que se recusa a negar a coisa feita.
E a filha 
que se interioriza 
e aceita.

Cada qual com sua honra.
Em cada uma, um preço a pagar.
Afinal
a desonra é qual?

- - - - - -
Abs,

Newton




Aquele que vai ensinar acaba aprendendo a melhor lição, enquanto os que vão aprender não aprendem nada. p. 11




O Clube da Sete leu Desonra de J. M. Coetzee. Leia a análise feita pelo coordenador Roberto Pedretti:

"... há alguns anos duas senhoras de Ipanema trocavam indicações literárias mútuas à frente da seção de Literatura Estrangeira, com muito entusiasmo, quando pululou nas mãos de uma delas um exemplar de "Desonra", casualmente. A outra reagiu com um gritinho de ansiedade e êxtase: "Amiga, leva esse!, leva!, pode levar que é ma-ra-vi-lho-so!!". 

Eu estava apenas na audiência, a meia distância, mas caso elas tivessem me pedido qualquer opinião, eu certamente não teria considerado o adjetivo ma-ra-vi-lho-so como uma possibilidade. Soberbo, sem dúvida; incrivelmente bem construido; impossível de largar etc. Ma-ra-vi-lhoso, no entanto, estava fora da minha palheta. Afinal, "Desonra" é desagradável, melancólico, indigesto e pode fazer com que você conclua a leitura com um pouco menos de esperança na humanidade. 


Um dos temas recorrentes de Coetzee, a tirar pelos seis livros que tive a oportunidade de ler, é a degradação - quão baixo um ser humano é capaz de chegar sem misturar-se aos demais bichos da Criação. Do outro extremo, também recorre muito à questão do reconhecimento da vida animal como legítima, digna de proteção e respeito ("A Vida dos Animais", "Elizabeth Costello" e o próprio "Desonra" são exemplos. Mas não usa como militância crua, "real", mas antes como alegoria da própria degradação. Queda e ascensão fazem com que as espécies se encontrem em algum ponto do caminho, e que nós, como humanos, perguntemos: o que podemos afinal arguir a nosso favor? 



Alguns dos livros mais duros que li de Coetzee, como "O Mestre de Petersburgo" e "À Espera dos Bárbaros", tinham um quê de fantasia que amortecia essa descida ao inferno (Dostoievsky como protagonista no primeiro, ou o país inventado do segundo). A questão com “Desonra” é que ele é plausível demais, a história muito corriqueira, tanto que quase podemos jurar que já deve ter acontecido igualzinho em algum lugar. Esse realismo é que deve tornar o livro o mais impactante de todos. 



P.S.: Parece que do Nobel para cá todo mundo tem que colocar uma foto do senhor Coetzee com jeito de durão, de quem comeu um limão inteiro no café. Optei por ilustrar o texto aqui com uma mais amena, provavelmente da década de ’90, quando ele já era uma celebridade especificamente sul-africana.







Nas malhas do devaneio: Dília Gouveia (Autor CLIc)




Dília Gouveia instiga leitor a desbravar sua própria existencia através da palavra de Fernando Pessoa (Por: Roberto Santos 24/09/2013)


“(...) Por isso ele concebia a vida como um sonho do qual ele nâo queria despertar. (...) E nessa atitude devaneante forjou uma nova realidade: a da vida como ficção”. (Pág. 57)

A autora é filósofa, ensaísta, professora de Literatura e excepcional declamadora. Apaixonada por textos pessoanos nos brinda com um livro que é encantador do princípio ao fim. Tanto que, com aguçado olhar, Cristiana Seixas registra na orelha do volume: “ (...) esta  obra instiga o leitor a desembrulhar sua própria existência”. E tudo começa com mágico encontro entre um eu da autora e um convidado, à roda de um caldeirão de cobre sobre estrutura de pedra, com fogo contínuo, ao lado de taças de vinho.

O convidado, que a um só tempo é semelhante e diferente do Fernando, começa a contar sobre momentos em que esteve ao lado de Fernando Pessoa e dos seus principais heterônimos, isto é, das figuras que ele criou literariamente , com destaque para Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. O interessante , e bastante inteligente, é como Dília Gouveia anima a conversa, com oportunas citações filosóficas e interlocuções construídas em torno de versos e ditos de múltiplos personagens pessoanos.

A tese central do livro é mostrar como Fernando Pessoa nos reinventou como seres humanos. Em tal instância deve ter sido influenciado por Shakespeare, que, segundo Harold Bloom, criou nossas ideias “sobre o que constitui o humano autêntico”. O evoluir da narrativa de Dília lembra,  um pouco, o livro Fernando Pessoa Textualizado, de Paul Human, “ a tentar entrar na linha de pensamento” desse constelado poeta português, considerado por tantos críticos como um gênio que abriga outros gênios. É livro para ler em ritmo de fogo crepitante, com estalidos de reflexões e de análises.


O dia em que Fernando Pessoa nos reinventou
Seu livro, Dília, é simplesmente FANTÁSTICO. Gostaria de ter o dom de me expressar com belas palavras para externar todo o meu encanto, o meu arrebatador interesse e uma absurda admiração que experimentei ao ler sua preciosa obra literária. Você, minha amiga, soube de maneira magistral nos apresentar Fernando Pessoa e seus principais heterônimos (os “amigos de FP”) da maneira mais criativa que uma mente privilegiada pode ter: sob a forma de “Diálogo em volta da fogueira”.
Você e seu convidado nos contaram coisas muito legais do “Fernando”, do “Alberto Caeiro”, do Álvaro de Campos, do Ricardo Reis e do Bernardo Soares. Ao ler seu livro, Dília, fica a certeza que FP, muito mais que um maravilhoso escritor e poeta, foi um profundo pensador/filósofo que deixou como legado a importância do sonho que nos impulsiona na vida, a pluralidade de eus,  as armadilhas a que nos expomos quando nos entregamos ao amor, entre tantas outras coisas ligadas à nossa existência. Acredito que a mente do FP era tão fecunda de ideias  que precisava daqueles “amigos” que o ajudassem a disseminar todas as questões que lhe transbordavam da mente e do coração.
Quando soube que você, Dília,  ia lançar um livro sobre FP, imaginava algo como  transcrições de poesias ou textos dele com os respectivos comentários e interpretações. Nunca imaginei que você fugiria de todas as formas previsíveis, para falar tão-somente da essência desse ser prodigioso que foi FP, como também de seus heterônimos, que passaram a ser pessoas REAIS, nesse “seu devaneio”.  Afinal, ficção e realidade andam tão próximas que por vezes se misturam e se confundem.


Ao iniciar a leitura, percebi que se tratava de uma entrevista que iria acontecer entre a narradora/autora vivendo na mesma época que os protagonistas do livro e  seu convidado, ambos admiradores dos mesmos. O gravador foi ligado no início da entrevista que depois se transformou em diálogo, já que ambos complementavam as informações sobre os protagonistas. Ao final do livro, surpreendentemente, esse mesmo gravador não reproduziu som algum do longo diálogo que se passara. Afinal, tudo se resumia a um devaneio da narradora/autora. E por isso mesmo, ela presenteia o leitor com um texto muito lindo. Ei-lo: 
“Levantei-me. Quis escutar o que acabava de gravar. Nenhum som, nenhuma voz.  Apenas silêncio ... E é, precisamente entre silêncios, que se costuram as palavras que dançam significados à existência, que colorem afetos por entre os desertos, que respiram sentido sobre a aridez ...  Afinal, o que ficou gravado e agora vos comunico, foi tão só o que ficou gravado em mim. Fragmentos de um devaneio onde dificilmente se pode discernir a realidade do sonho, a vida da ficção. É então que tudo acontece.”
Meu livro está todo marcado à lápis com trechos que eu considerei belíssimos e dignos de reflexões. Não vou poder transcrevê-los todos pois seria quase transcrever todas as páginas do livro. Para não me estender mais, vou apenas destacar um trecho nas palavras do “convidado”.  A propósito, esse “convidado” era onipresente na vida desses protagonistas.  Diz o “convidado” que ele e FP nasceram no mesmo dia, no mesmo mês,  no mesmo ano. Ah, como essa autora nos provoca a pensar sobre essas coincidências. Ei-lo:
“ O Fernando era uma dessas pessoas que sabiam transformar as emoções, os sentimentos, em pensamentos. Muitas vezes ele me dizia: ‘O que em mim sente está pensando’. ”
Dília, parabéns pelo seu “NAS MALHAS DO DEVANEIO”. Eu me apaixonei.  Agora entendo quando você diz que foi reinventada por FP. Você provou esse fato ao escrever esse INCRÍVEL livro.    
            Saiba que ganhastes uma fã, viu?
            Beijos ......................... Angela Ellias.

19 de fevereiro de 2019

1934: Alberto Moravia


  "Você está pensando em se matar?"
Getty Images

 Os sinais do suicídio



Champignon - músico do Charlie Brown Jr.


"É possível viver no desespero sem desejar a morte?"


"... a juventude não vê as coisas que a circundam no presente imediato, mas quer ver o que a espera no futuro longínquo. Mas no futuro não há nada, não pode haver, tudo aquilo que nos diz respeito está no presente. Com o passar dos anos, pensa-se sempre menos no futuro e sempre mais no presente. Ou talvez no passado, ..."




Eu dormia, dormia,
De um sono profundo acordei:
Profundo é o mundo,
E mais profundo que nos pensamentos do dia.

Profunda é sua dor,
Prazer - mais profunda ainda que o sofrimento:
Diz a dor: morre!

Mas cada prazer quer a eternidade,
- Quer profunda, profunda eternidade.

(Nietzsche)



"No meu lugar, sentia-me mais uma vez no estado de espírito desconcertante, e que para mim não era novo, de estar desesperado por não estar desesperado. Isto é: o desespero estava incubado no fundo de minha alma, como para sempre; mas isso não me impedia de apreciar o lindo dia, a paisagem magnífica, a boa comida e, naturalmente, a beleza áspera e ambígua de Trude. Poderia ser a chamada estabilização (do desespero) que eu perseguia há tanto tempo? Seria o desespero estável e normal que permite gozarmos o próprio prazer da vida, aliás gozá-lo ainda mais, já que não esperamos mais nada? Mas, em lugar da estabilização, tudo isso não ameaçava levar-me a uma espécie de hipocrisia? A sentir-me desesperado e, ao mesmo tempo, a comer e beber à vontade, a fazer amor sem remorsos e a exaltar-me liricamente com a natureza?"



Heinrich Kleist & Henriqueta Vogel
by 

kar2nist


Duplo suicídio?

Um "belo" suicídio a dois, à moda de Kleist: Lucio flerta com o suicídio por desespero, enquanto Beate por razões estéticas.

"Aquele que ama a vida com prudência, já está moralmente morto, pois sua mais intensa força vital, que é de podê-la sacrificar, atrofia-se, quando ele cerca-se de cuidados". (Heinrich Von Kleist)

Camus inicia sua obra "O mito de Sísifo" afirmando: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”;

Emil Cioran flerta com o suicídio e se indaga: "Por que eu não me mato?” Em outro momento ele responde: “faz bem pensar que a gente vai se matar”;

Assim falava Nietzsche:  “A ideia do suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim”;

Para os estóicos “o suicídio é visto como um ato de razão";

Para Tomás de Aquino "o suicídio é sempre pecado mortal, porque vai contra à caridade e à lei natural”.

Dante lança ao fogo do inferno todos os suicidas;

Para Kierkegaard, "o suicídio é o sinal mais claro de que o indivíduo deixou-se vencer pela doença mortal, o Desespero";

Lucio, protagonista do livro do mês de Outubro no CLIc quer estabilizar o desespero, seja porque o considera a condição normal da existência humana, seja porque se sente fascinado pela questão, sobretudo, do duplo suicídio como um possível ato de amor. O desespero do personagem é um tanto superficial, não se comparando ao sentimento expresso nas citações filosóficas de acima. Longe disso! A trama se desenrola num espírito totalmente diverso, divertida. Ele chega ao ridículo de se desesperar por estar se sentindo maravilhosamente bem em usufruir das delicias de um banho de mar na ensolarada Piccola Marina. Sem dúvida que se trata de uma narrativa bem humorada e irreverente, seu desespero sendo, talvez, uma forma de atrair a cumplicidade do leitor em sua aventura bizarra de intelectual burguês. O desespero para Lucio me parece apenas um conceito. A suposta vontade de cometer um suicídio duplo é puro jogo de cena, resulta de uma mescla de desejo erótico e fascinação mórbida. Não garanto, no entanto, que seja isso que o leitor vá encontrar nas páginas de "1934". Prepare-se para o inesperado. "Profundo é o mundo, e mais profundo que nos pensamentos do dia".




Vamos debater a psicologia do suicida em outubro no Clube de Leitura Icaraí sob a batuta do psicólogo e escritor Mike Sullivan, autor de "Terapia das almas suicidas", para quem a literatura o tem salvado do aniquilamento total. 

Capri




"Assim, iniciou-se uma espécie de diálogo entre os nossos olhos, que durou até o momento em que o vapor entrou no porto de Capri. Eu a olhava e ela me olhava. Com surpresa, descobria qualquer coisa que sempre soube, mas nunca experimentei, isto é, que com os olhos se pode não apenas comunicar, mas também falar de maneira particular e distinta... "








A obra "Melancolia I (1514), de Albrecht Dürer (© Trustees of the British Museum), autorizada sua publicação no livro comemorativo de 15 anos do Clube de Leitura Icaraí, estará em evidência, também, por ocasião do debate de 1934, do italiano Alberto Moravia.



"Amo-o e sei que você também me ama, mas entre nós dois não existirá nada mais do que olhares. Uma verdadeira e completa relação entre nós é impossível."







Alberto Moravia
Birth: Nov. 28, 1907
Death: Sep. 26, 1990
Writer. Born Alberto Pincherle, he was a major figure in the 20th-century Italian literature. In the 1930s he worked as a foreign correspondent for several major Italian newspapers and he travelled in the U.S., Poland, China, Mexico, and other countries. His works were censored by Mussolini's government, and placed by the Vatican on the 'Index librorum prohibitarum' (Index of Forbidden Books). Several of his books have been filmed, among them "Two Women" by Vittorio De Sica, "A Ghost at Noon" by Jean-Luc Godard" and "The Conformist" by Bernardo Bertolucci. Later in life, he entered the world of politics and represented Italy in the European Parliament from 1984 until his death. (bio by: MC) 


Sinuca de bico: Emmanuel




Dois dias foram suficientes pra devorar Malagueta, Perus e Bacanaço. A fome era grande. Muito tempo de leitura técnica seguida. Saudade do Clic! E o que eu fiz de descoberta no retorno, não tá no gibi! Dá vontade da gente sair escrevendo joãoantoniamente. Entendi e gostei do poema da Rita Magnago.

Eu achava que sabia tudo sobre paulistês. Só porque sabia dizer “um chopps e dois pastel” meu! Qual o que! Lendo o João Antonio é que fui ver, não sabia nada de nada. Eu achava que “malandragem” era carioca. Qual o que! Descubro que malandragem é universal e se manifesta em malandrês onde quer que aconteça. E malandrês é camaleônico. Toma a cor do lugar. Aliás, descobri, como a Ceci lembrou em seu e-mail comentando trecho de Antonio Cândido que prefacia o livro, que “uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de “dar voz”, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada” (p. 11).

Eu achava que “trouxas” eram os não-bruxos do Harry Potter. Qual o que! Bruxos são os malandros que conhecem tudo de um mundo diferente, romântico, com suas regras e ética próprias e trouxas são os que, do lado de cá do mundo, só enxergam até aonde a vista alcança.

Já estive atazanado muitas vezes na vida, mas só agora descubro que “atenazado, mergulho a cabeça na bacia” (p. 122). 

Descubro que velho acordado como Malagueta, é acordado porque é “sem aposentadoria, sem chinelos, sem pijama, sem quarto onde pousar e que tem de seu a cara e a vontade. Enfrentam as virações e a polícia porque têm fome. E vão como viradores, sofredores, pés-de-chinelo. E só”. Se não é a versão romântica do sujeito histórico que no seu esvaziamento é o agente da mudança, então não sei o que é o sujeito histórico!

“Boas, meus” (p. 174). Vivendo e aprendendo! 

Também lá, no mundo de Malagueta, Perus e Bacanaço, existem aquelas figuras estranhas, com palavras estranhas. Tinha aquele “velho gordo e estranho, conselheiro dos mais moços, naquelas bocas do inferno, e que usava palavras desusadas de quando em quando. – É uma veleidade. Só por um lance de um parceirinho que se arriscara numa bola cinco desnecessária”(p. 166). 

Ali também “... as minas, faziam a vida nas virações da hora... e os invertidos proliferavam, dois passaram agora, como casal em namoro aberto. [...] aqueles faziam São Paulo àquela hora” (p. 184).

E os da lei? Aprontavam como aprontam ainda. “Piranhas esperando comida. Pisando o menino, azucrinando, tentando surrupiar o menino... Os tais da lei. Encarou Silverinha, a raiva arranhava” (p. 193). Se eu fosse a Rita Magnago, faria um poema só dedicado a essa frase: “a raiva arranhava”. 

E para os que ainda se indignam, para os que a “raiva arranha” com tanta coisa esquisita nesse mundo esquisito que vivemos, onde heróis são construídos sem mais nem menos, surfando na onda de uma imprensa que de livre só tem o poder de impor a sua interpretação como se fora a interpretação, aprendo que“a gente fica até coisa, meus. Aquilo nem é cinismo; é cinidez” (p. 198). Piranhas esperando comida.

Enfim, é muito bom saber que mesmo não estando dentro, ou tendo estado temporariamente fora, quando a gente ensaia um mergulho de volta a esse lugar fantástico que é o Clic, o que nos recebe, além do calor humano, é claro, é essa riqueza de expressões e possibilidades que atravessaram os 15 anos do Clic e que, se Deus quiser, e os cliceanos também, ainda atravessarão muitos outros 15 anos. 

Abraço forte pra todos e um feliz 2014. Minha meta, além de diminuir a cerveja (na verdade, quero mesmo diminuir é o abdomen), é participar de 12 encontros do Clic em 2014. O primeiro já é!


Emmanuel,
07/01/2014

17 de fevereiro de 2019

Vermelho Amargo: Bartolomeu Campos de Queirós


"A vida é um fio, 
a memória é seu novelo.
Enrolo--no novelo da memória--
o vivido e o sonhado.
Se desenrolo o novelo da memória,
não sei se tudo foi real
ou não passou de fantasia."
( Bartolomeu Campos de Queirós)





O vermelho, cor tão quente,
é atribuído à paixâo.
E ao ódio, bem diferente,
se ele habita o coração.
(Elenir)

* * * 

Vermelho é paixão
e sangue também. Com ódio
fatiava o tomate.

Fatias que expunham
o ódio só tragado pelo
intruso ao amor.

Pontuando o céu,
uma virgula existia.
Leve passarinho.
(Elenir)




"A mãe partiu cedo — manhã seca e fria de maio — sem levar o amor que diziam eu ter por ela. Daí, veio me sobrar amor e sem ter a quem amar. Nas manhãs de maio o ar é frio e seco, assim como retruca o coração nos abandonos. Ela viajou indignada, por não ser consultada. Evadiu-se, sem suplicar um socorro. Nem murmurou um “com licença” — eu confirmo — para adentrar em outra vida, como nos era recomendado. Já não cantava, sobrevivia isenta, respirando o medo pelo desconhecido. A mão da morte soterrou até sua sombra. Foi um adeus inteiro, definitivo, rigoroso, sem escutar nosso pesar. Eu pronunciava, seguidamente, a palavra amor, amor, sem ter a presença amada."






O tempo ancora no corpo da gente!

Toda memória é fantasiosa!

O que não foi esquecido merece ser repensado...

Sempre que a gente escuta o silêncio, a poesia se manifesta!

 ...A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. 

"Eu suspeitava que o embaraço das letras amarrava segredos
que só o coração decifra. Mas uma certeza me vigiava: ler
era meu único sonho viável."

(Lilian)




VERMELHO DE PAIXÃO

O tomate diário
em finas fatias
indicava o quanto de fome
ali havia.

O vermelho alcoólatra,
cor da vergonha,
instigava a criança:
vai, garoto, sonha!

A família, a madrasta,
a faca e a fome
que diminui sua presença
a cada filho que some.

Há mais tomate no prato
a cada um que se vai,
mas o amor pela mãe, este
nunca se esvai.

(novaes/)


DOR

Ficou no peito um tipo de amargor

Talvez pelo grito contido da dor
A cada dia denunciado no olhar
Não sei, mas chorei sem lágrimas
Acho que o tempo frio e seco
Impediu que desprendessem
Há sentimentos, mas calados

De um amor assim isolado
Que mudo vive sufocado
Surgindo em prosa e verso
Solitário, contundente, cruel
Ensurdecedor

Sonia Salim




Janeiro... Vermelho Amargo,
seja lá isso o que for!
Quem sabe um sorriso largo
adoce o beijo... e a cor? 

(I)




O que há dentro de mim,
e dentro de mim esqueço,
sou eu, vestindo em carmim,
esse eu... que desconheço. 

( I )



Nascer é entrar em um trem,
sem se saber o destino.
Sem bilhete de viagem
e uma só baldeação.
(Elenir)



No vermelho do tomate
a degola diária do desamor
no cheiro desinfetante do ar
a omissão do sentimento
que eu não conhecia
fantasia de esperança
teimando em vestir-me
daquilo que me era maior
e não cabia.
Rubro espelho
onde não me reconhecia
memórias de aromas e amoras
furtadas em alheia menina dos olhos
quero ser o livro
quero ter o sonho
quero tecer rendas
em bifes espancados
e cheirar alecrim
sentir a comida leve
como os passos do gato
.



"Oh, anda, desanda a roda
deixa a roda desandar...
Evandro, vermelho é moda
com ele vamos trovar...

(Ilnéa)


Vermelho amargo, acridoce...
eu soube dentro de mim,
que o que era doce… acabou-se:

nunca mais amei assim. 

(I, 19/11/2012)


Preencher um dia é demasiado penoso se não me ocupo das mentiras.

Ser gente Vermelho Amargo,
ser gente triste ou contente,

é gente que "joga largo",

tantinho, assim... diferente!



(I... "gorinha")