CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

3 de julho de 2018

Antologia para comemorar os 20 anos do CLIc





Olá queridos!

Como já estou divulgando nas redes sociais do Clube, faremos uma antologia de poemas, crônicas e contos para comemorar os 20 anos de Clube de Leitura Icaraí.


Essa data merece uma comemoração especial.

Já temos vinte pessoas interessadas em participar.

Os interessados em participar da antologia, seja apenas contribuindo financeiramente, seja enviando o seu texto e contribuindo financeiramente, entre em contato com a gente. Pode deixar um comentário aqui, nas redes sociais, whatsapp, ou e-mail do CLIc. Mas peço para que, quem entrar em contato para fazer parte, realmente se comprometa com o projeto.

Como não temos apoio de nenhuma Editora, iremos ratear todos os custos da publicação igualmente entre os participantes. A contrapartida será a divisão dos exemplares publicados entre os contribuintes.

O objetivo não é de lucro, embora possamos eventualmente vender alguns exemplares no dia do lançamento (o que ainda será deliberado), mas de comemorar o aniversário do nosso querido Clube que tão bem promove  a literatura e, também, incentivar os leitores a escreverem.

Já estou ansiosa por essa Antologia.

2018 já começou bem!

Feliz ano novo!

Rolam e gritam em cima da cama... - dupla-de-sushi 7 - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa



"Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto eles se estorcem, diz o doente:

- Ué?! Já fiquei bom!”

tradução de Machado de Assis (aqui ligeiramente modificada por Fernando Costa)

OS TRABALHADORES DO MAR


"Alors ils se roulent sur leur lit en poussant des cris. Pendant qu' ils se tordent ! Vous dites ?
Tiens, je n'ai plus rien.."

Victor Hugo

LES TRAVAILLEURS DE LA MER"


26 de junho de 2018

Subjugados à Espada e ao Fogo

Por Wagner Medeiros Junior
A ordem religiosa dos Jesuítas, nominada Companhia de Jesus por seus fundadores, nasceu na Universidade de Paris no ano de 1534, sob a liderança do cavaleiro espanhol Inácio de Loyola, com o objetivo de avigorar o ensino religioso e expandir o catolicismo, em oposição à Reforma Protestante principiada por João Calvino e Lutero. A orientação da ordem baseava-se em ensinamentos práticos, que se espalharam rapidamente pela Europa com a publicação de um pequeno compêndio de nome “Exercícios Espirituais”, escrito por Loyola.
Por conseguinte, não demorou para que a Companhia de Jesus viesse a conquistar um importante espaço no arcabouço da Igreja, pela determinação de seus membros em atuar em qualquer parte do mundo como “fiéis soldados” do catolicismo. Não por outra razão, em 27 de setembro de 1540, o Papa Paulo III reconheceu oficialmente a Congregação, através da bula Regimini Militaris Ecclesiae. É nesse mesmo ano que o jesuíta espanhol Francisco Xavier aporta em Portugal, a pedido do rei D. João III, com a missão de evangelizar o domínio português nas Índias.
É também no reinado de D. João III que a primeira missão da Companhia de Jesus chegou ao Brasil, em março de 1549, sob o comando de Manuel da Nóbrega, junto à armada que trazia o primeiro governador-geral, Tomé de Souza. O sistema de Capitanias Hereditárias não progredira e era preciso colonizar o Brasil para evitar sua invasão por outras nações europeias. Então, entre outras construções ainda rudimentares, é erigido o primeiro colégio jesuíta na recém criada capital da colônia, São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Nesse colégio os Jesuítas dão início à catequese dos índios.
Se por um lado esse processo de aculturação pode ensejar muitos questionamentos contrários, por outro é inegável o afinco dos Jesuítas em evitar que muitas tribos fossem dizimadas. Além de proliferar epidemias, os colonos utilizavam-se das desavenças tribais para estabelecer alianças e aprisionar os inimigos para vendê-los como escravos, quando eram submetidos a todo tipo de maus-tratos. Neste aspecto, os bandeirantes paulistas fizeram um trabalho implacável, pois depois que os índios bravios se tornaram escassos, nem os nativos aculturados nas Missões Jesuíticas foram poupados.
Não se pode olvidar, entretanto, a importância dos povos indígenas no reconhecimento do território pelos imigrantes, como também na efetiva participação na formação dos primeiros núcleos de colonização, seja ao lado da Igreja ou do colono. No entanto, a rivalidade entre ambos, quer pelo aspecto da catequese ou da própria exploração econômica, seria marcada por acirradas disputas que se estenderiam até junho de 1759, quando os Jesuítas foram expulsos do território português, no reinado de D. José I, por interveniência do Marquês de Pombal.
Um dos fatores para a expulsão dos Jesuítas foi a exploração das chamadas “drogas do sertão” no Grão-Pará e Maranhão, que compreendia então quase toda região amazônica. Como os Jesuítas exerciam uma grande influência sobre os índios, sua coleta e produção eram facilitadas. Por outro lado, o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, julgava que a recém-criada Companhia Geral de Comércio estava sendo prejudicada, fazendo chegar a Portugal pesadas críticas aos Jesuítas.
Já no sul do Brasil, os Jesuítas para proteger os Guaranis relutavam em desocupar os Setes Povos das Missões, em cumprimento ao tratado de Madrid. Após tenaz resistência acabou por explodir a guerra Guaranítica, que resultou na morte de mais de 1500 índios. Daí o relatório do comandante das forças luso-espanholas, Gomes Freire, ao governo central, afirmando que “se esses ‘santos padres’ não forem expulsos, não encontraremos senão rebeliões, insolências e desventuras”. Assim, com a expulsão dos jesuítas dos Brasil, os indígenas acabaram à própria sorte.

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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior




19 de junho de 2018

ZÉ DAS VERDURAS: Hélio Penna




Foi uma bala perdida que pegou o Zé das Verduras. O Diabo estava solto. O aço dos bandidos e da polícia atingiu a creche, a igreja, o ponto do bicho e o bar do Zito, onde a rapaziada do samba se reunia. Quem era de versar, não versava; até a força da imaginação se encolhia. O som dos tiros era uma música dos infernos que arrebentava os ouvidos. A Morte viajava ligeira e barulhenta a procura de uma vida qualquer.

Só depois do corre-corre, do se joga no chão, do pega pra capar é que se acudiu o Zé das Verduras, pois ninguém podia ser socorrido no meio dos balaços grossos que furavam paredes. Com Satanás livre comandando os seus demônios, quem enfrentou a praga foi Maria Antonia para salvar os filhos da Maria Isabel. As duas eram inimigas. Saíam na porrada por causa do mesmo homem. Maria Antonia não pensou em nada quando viu as crianças da outra em meio à desgraça. Catou os pretinhos da inimiga e com eles se abrigou debaixo da sua cama.

Colado no chão, o bicheiro Vantuil viu quando o Zé das Verduras tombou. Mas o velho filho da puta não se abrigou por quê, porra? O Zé estava gesticulando e gritando para o Chocolate, o eletricista do morro, que, pendurado no alto da escada, consertava os fios da casa da Rezadeira, atingidos em outro tiroteio. Zé das Verduras queria que Chocolate se protegesse.

Quando veio aquele silêncio amargo, aquela calma desconfiada, aquela paz triste é que se pode dar conta dos velhos, dos doentes, das crianças, do Chocolate, que passou mal na escada, e do Zé das Verduras que agora exigia vela e um lençol apenas.

O corpo ficou ali o dia todo. Talvez ele não quisesse ir embora, tão acostumado com o seu povo e a sua barraca. O morro era a sua família. Ele não tinha ninguém e não acreditava que encontraria os seus parentes depois da morte como pregavam o Pastor e a Rezadeira, cada um ao seu jeito. Os moradores se revezavam acendendo as velas e arrumando o lençol que algum descuidado desarrumava, deixando o rosto preto do Zé das Verduras exposto ao sol quente.

Quando anoiteceu, apenas a Rezadeira, o Pastor, o Chocolate, a Maria Antonia e a Maria Isabel permaneceram na vigília e guarda do corpo. O morro estava na escuridão, os tiros atingiram o transformador. Só o Zé das Verduras tinha luz própria.



Hélio Penna
 Escritor participou do Livro
"15 anos do Clube de Leitura Icaraí"



9 de junho de 2018

O Outro Pé da Sereia: Mia Couto


Com braços abertos,
o mundo quer abraçar.
Mulher bela e ousada!
(Elenir)




Ao sabor do vento,
lençóis bailam nos varais.
Me trazem a infância

O livro é um barco.
Ao outro lado do mundo
me leva, e a mim própria.

(Elenir)





A costa indiana é agora uma linha flutuando no horizonte. A nau tornou-se no último lugar do mundo. À volta tudo é água, transbordação de rios e mares. O navio é uma ilhota habitada por homens e os seus fantasmas.

... Inclinado na cesta da gávea, o marinheiro anunciava que a viagem já não teria mais retorno.

- Daqui em diante, nenhuma ave mais haverá.

Um vazio pesou sobre o estômago do sacerdote português. Quando saíra de Goa, ainda na proteção do estuário, a viagem surgia como um caminho dócil. Mas quando o mar se desdobrou em oceano e o horizonte todo se liquefez, lhe veio uma espécie de tontura, a certeza de que o chão lhe fugira e a nau voava sobre um abismo. Silveira não tinha dúvida: chegara ao irreversível momento em que a água perde o pé e o mar abandona o suave maneirar dos rios. Dali em diante, o mundo se resumiria àquela nau, rompendo caminho entre domínios que eram mais do Diabo que de Deus.

Em “O Outro Pé da Sereia”, o moçambicano Mia Couto, alterna entre passado e presente para nos apresentar Moçambique. Em 1560, revivemos a colonização portuguesa, acompanhando a expedição do jesuíta D. Gonçalo da Silveira (personagem histórico), da saída de Goa, na Índia, até a fronteira entre Zimbabwe e Moçambique, nas terras do chamado reino Monomotapa, da África do século XVI. A partir do resgate de fontes históricas, o autor romanceia a história do jesuíta em sua missão de conversão e moralização do reino e de seu imperador. Em 2002, nos deparamos com o retrato de uma Moçambique que, após a independência em 1975, foi assolada por quase 16 anos de guerra civil (1977 - 1992) e que luta para se erguer.




Escrevo na penumbra quase total do porão onde me aprisionaram. O escuro até me ajuda: afinal, esta carta é um adeus. Ou, quem sabe, um agradecer aos deuses? Navegamos entre perigos e incertezas. Salvamo-nos de fogos e tempestades. Contudo, esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós. Quem conduz o barco, porém, não é o timoneiro. Quem guia o leme é a Kianda, a deusa das águas.

Kianda, Mama Wati ou Nzuzu é a deusa que mora em águas limpas. “... no leito do rio havia um lugar sem fundo, onde a propria água se afundava, afogada nos abismos. Nessas profundezas morava Nzuzu, a divindade do rio. De quando em vez, uma moça desaparecia nas águas. Não morria. Apenas permanecia residindo nos fundos lodosos, aprendendo a arte de ser peixe e os sortilégios da adivinhação. Ficava anos nessa submersa moradia até que, um dia, reemergia e se apresentava às famílias para exercer então, a profissão de curandeira.” “... Ela vive com a nyoka, a serpente. Quando a água fica suja, a serpente sai a espalhar maldades e feitiços”. (Acima: Mami Wata, de Moyo Ogundipe, 1999).

Quem nos leva nesta viagem é a personagem que tem “corpo de rio e nome de canoa”, Mwadia Malunga. Através dela, somos apresentados às personagens da atualidade: Zero Madzero, o pastor de burros e cabritos, que vive em Antigamente, e carrega em si a ambigüidade da presença e da ausência, do ser vivente e de um fantasma; Constança Malunga, a matriarca que revela a ligação de Mwadia com Nzuzu, a deusa das águas límpidas; Lázaro Vivo, o adivinho que faz a ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre o universo sagrado da tradição e o da modernidade; Benjamin, o afro-americano que busca sua origem ancestral; e outros.

Nesses últimos dias, Mwadia fechava-se no sótão e espreitava a velha documentação colonial. Agora, ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma.

... Disto tudo sabia Constança quando pediu o seguinte a sua filha mais nova:

- Agora, leia para mim. Eu também quero ir nessa viagem ...

Mwadia aproxima culturas, religiões, momentos históricos, como uma embarcação capaz de ligar culturas e viajantes que entrecruzam fronteiras temporais, geográficas e interiores às personagens.

A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores” .

Certo excesso de frases de efeito, e elementos temáticos (silêncio e palavras, realidade e delírio; lucidez e loucura; razão e emoção; vida e morte; passado e presente; tradição e modernidade, escravidão, servidão feminina, simbolismos, mitificação, mestiçagem, incesto, aids) por vezes quebram a fluidez da leitura e nos lembram da presença do autor e de sua própria viagem. Porém, não há dúvidas de que Mia Couto domina os mistérios da contação, e na maior parte do tempo consegue nos envolver e nos prender nos meandros da trama. A cada momento somos surpreendidos por segredos e questões para as quais não são dadas respostas. E os elementos metafóricos são interpretados pelas personagens de maneira quase sempre tão duvidosa que exigem do leitor sua própria interpretação da obra. A minha, ainda não a tenho, mas penso que viver ausências, seja as de Antigamente ou as de Vila Longe, não seja viver. Nada simples se erguer, mas prefiro seguir o rio da vida e plagiar a personagem Rosie: como se diz lá no Brasil, “Sacode a poeira e dá a volta por cima”, pois, bom é “viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

3 de junho de 2018

Frankenstein: Mary Shelley


Besides, I had a contempt for the uses of modern natural philosophy. It was very different when the masters of the science sought immortality and power; such views, although futile, were grand; but now the scene was changed. The ambition of the inquirer seemed to limit itself to the annihilation of those visions on which my interest in science was chiefly founded. I was required to exchange chimeras of boundless grandeur for realities of little worth.



Traces of Human Folly in the Alpine Landscapes that Inspired Frankenstein






 I was now about to form another being, of whose dispositions I was alike ignorant; she might become ten thousand times more malignant than her mate, and delight, for its own sake, in murder and wretchedness. He had sworn to quit the neighbourhood of man, and hide himself in deserts; but she had not; and she, who in all probability was to become a thinking and reasoning animal, might refuse to comply with a compact made before her creation. They might even hate each other; the creature who already lived loathed his own deformity, and might he not conceive a greater abhorrence for it when it came before his eyes in the female form? She also might turn with disgust from him to the superior beauty of man; she might quit him, and he be again alone, exasperated by the fresh provocation of being deserted by one of his own species.

The Aiguille du Midi 3842m peak in the Mont Blanc massif of the French Alps - Chamonix

Sir Isaac Newton is said to have avowed that he felt like a child picking up shells beside the great and unexplored ocean of truth. 



If, instead of this remark, my father had taken the pains to explain to me that the principles of Agrippa had been entirely exploded and that a modern system of science had been introduced which possessed much greater powers than the ancient, because the powers of the latter were chimerical, while those of the former were real and practical, under such circumstances I should certainly have thrown Agrippa aside and have contented my imagination, warmed as it was, by returning with greater ardour to my former studies. It is even possible that the train of my ideas would never have received the fatal impulse that led to my ruin. But the cursory glance my father had taken of my volume by no means assured me that he was acquainted with its contents, and I continued to read with the greatest avidity. When I returned home my first care was to procure the whole works of this author, and afterwards of Paracelsus and Albertus Magnus. I read and studied the wild fancies of these writers with delight; they appeared to me treasures known to few besides myself. I have described myself as always having been imbued with a fervent longing to penetrate the secrets of nature. In spite of the intense labour and wonderful discoveries of modern philosophers, I always came from my studies discontented and unsatisfied. Sir Isaac Newton is said to have avowed that he felt like a child picking up shells beside the great and unexplored ocean of truth. Those of his successors in each branch of natural philosophy with whom I was acquainted appeared even to my boy's apprehensions as tyros engaged in the same pursuit.
The untaught peasant beheld the elements around him and was acquainted with their practical uses. The most learned philosopher knew little more. He had partially unveiled the face of Nature, but her immortal lineaments were still a wonder and a mystery. He might dissect, anatomize, and give names; but, not to speak of a final cause, causes in their secondary and tertiary grades were utterly unknown to him. I had gazed upon the fortifications and impediments that seemed to keep human beings from entering the citadel of nature, and rashly and ignorantly I had repined.




soul-subduing music




 "Oh! stars, and clouds, and winds, ye are all about to mock me: if ye really pity me, crush sensation and memory; let me become as nought; but if not, depart, depart, and leave me in darkness."



31 de maio de 2018

Quarto de despejo: Carolina Maria de Jesus


Audálio Dantas: 9/7/1929 - 30/5/2018











Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.

Nelson Mandela "Long Walk to Freedom", Nelson Mandela, (1995).





"Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” (Simone de Beauvoir) 


Morro da favela









O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo





Muito bem, Carolina!




Eu ouvi dizer que o General Teixeira Lot não vai enviar tropas para o Oriente Medio. Se for assim creio que devemos considerar e venerar nosso general que já demonstrou seu desvelo pelo povo e o paíz.

Amarelo é a cor da fome

a voz dos que não têm a palavra


Carolina Maria de Jesus - foto: Arquivo Audálio Dantas

A Bíblia não manda ninguém casar.

Manda crescer e multiplicar.






25 de maio de 2018

Indignation - Philip Roth



Nihao Laowai!

É Indignação o livro do mês de dezembro no Clube de Leitura Icaraí. Indignação conta a estória de Marcus Messner, um destemido e bem intencionado estudante universitário, seus encontros com a vida, e os caminhos que definem seu destino. A obra é de Philip Roth. A estória começa quando Messner vai para a Universidade e seu pai, se transforma em uma ‘máquina de preocupação’, como se tivesse uma premonição, como se subitamente acordasse de um conto de fadas e tivesse consciência do mundo e de todas as maneiras que um jovem rapaz pode ser destruído por ele. Fugindo da proteção opressora de seu pai, o jovem Messner decide realizar seus estudos distante de casa. Messner só desejava fazer tudo certo. Tirar seus A´s, trabalhar, dormir, e não brigar com o pai que tanto amava. Tentava assim, por um bom caminho, evitar a mediocridade, e alcançar o sucesso do qual sua família tanto se orgulharia.

E, nos subterrâneos da relação familiar dedicada e apaixonada, também as obsessões são transmitidas e atingem em cheio o jovem Marcus, dotado de uma perigosíssima ingenuidade e de uma rigidez ética e pessoal que não cabem no mundo.
(Júlio Pimentel Pinto, em Paisagens da Crítica)

Vejo Marcus, mesmo sendo ainda um homem imaturo, procurando através de suas incertezas, ser sujeito, e não sujeitado."

Despreparado para a vida o jovem é vítima de seu senso de ética super desenvolvido, de sua racionalidade (ou irracionalidade) exacerbada, vítima do mundo, dos caprichos da história.

A trama se passa em 1951-52, e tem como pano de fundo a Guerra da Coréia. Em entrevista, o autor comenta que, em Indignação, não teve interesse em escrever alegorias ou metáforas, mas trazer à vida algum momento do passado. Roth diz que ao iniciar o livro não havia estória alguma, mas um período somente em mente, o da Guerra da Coréia:

Qual estória posso contar que possa dar uma idéia deste momento e torná-lo dramático?
(Philip Roth)

Em Indignação, Philip Roth retrata as normas sociais, culturais e sexuais da América da década de 50. Regras tão fortes comparadas às da atualidade, que causam indignação ao jovem herói.



读书俱乐部
Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45) as forças Aliadas libertaram a Coréia do domínio japonês. Colônia japonesa de 1910 a 1945, a Coréia passou a ser alvo de outro conflito, a Guerra Fria, que levou a divisão da península Han ao longo do paralelo 38 e à formação de dois Estados separados: o do Sul, com administração americana sob direção do general Douglas MacArthur; e do Norte, com ocupação pela, na época, União Soviética, que estabeleceu um regime Stalinista sob o controle de Kim Il-sung. Após anos de incidentes na fronteira, em junho de 1950, a República da Coréia no Sul foi invadida pelas forças armadas do Norte. As primeiras tropas americanas foram então enviadas afim de fortalecer a resistência contra os invasores. Fortemente equipados com tanques russos e artilharia, os norte coreanos avançaram rapidamente em direção ao Sul, com o objetivo de ocupar o estratégico porto de Busan (Pusan). Com o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que enviou reforços de diversas nações dentre britânicos, australianos e milhares de reservistas chamados à ativa, a resistência se manteve forte. Em outubro de 1950, MacArthur encontrou o presidente americano Harry Truman, com a promessa de que a Guerra chegaria ao fim até o Natal. Contudo, após conflito no território norte coreano com vitória das forças das Nações Unidas, lideradas por MacArthur, próxima a fronteira da Manchúria (extremo oeste da China), Pequim (Beijing) deu sinais de que a China comunista interviria em defesa de seu território. Em novembro de 1950, os chineses se uniram ao conflito. Nos dois anos seguintes a região do paralelo 38 foi marcada por violento combate, com os dois lados fortemente armados para impedir o avanço do inimigo e a ocupação de pontos estratégicos. (Acima: Bandeira da República Popular da China em desfile militar no Dia Nacional).

O título, Indignação, refere-se a vários dos personagem, sendo a palavra em si representada por uma canção: o Hino Nacional da República Popular da China: Marcha dos Voluntários (a China foi membro da Aliança Militar dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que incluía também União Soviética, Estados Unidos, Império Britânico, Polônia, França, e outros países, incluindo o Brasil). Marcus Messner havia aprendido o hino ainda no colégio, na época da Segunda Guerra. O jovem costumava recitar sua letra silenciosamente, sempre que se sentia zangado, em protesto a atitudes indignantes de opressão e intrusão, tentando, assim, evitar passos em falso, construindo uma ‘grande muralha’ que pudesse protegê-lo. Para ele era a canção do inimigo.



IN - DIG - NA - TION ! ! !
(a mais bela palavra da lingua inglesa para Marcus Messner)

Acima: memorial dos veteranos da Guerra da Coréia - Washington DC, EUA. A placa diz: "Our nation honors her sons and daughters who answered the call to defend a country they never knew and a people they never met." (Nossa nação honra seus filhos e filhas que atenderam ao chamado para defender um país que nunca conheceram e um povo que nunca encontraram). O conflito entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte teve fim com o cessar fogo em julho de 1953, quando uma zona desmilitarizada foi estabelecida na fronteira entre os dois Estados. Ambos os lados abandonaram suas posições e uma comissão das Nações Unidas foi estabelecida afim de supervisionar o armistício. Não há um número oficial de quantos morreram nesta guerra. Dentre americanos, britânicos, chineses, sul e norte coreanos, estima-se mais de 700 mil soldados mortos em combate, 890 mil feridos e mais de 120 mil prisioneiros ou desaparecidos. Ao fim da Guerra, o povo coreano, uma das mais notáveis culturas da Ásia tinha sua dignidade abalada, com duas Coréias em ruínas, uma população desmoralizada levada a mendicância. Desde 1953, as Coréias têm trabalhado na reconstrução de seus territórios. A Coréia do Sul é, hoje, um Estado moderno. A Coréia do Norte tornou-se um dos países mais fechados ao mundo, e grande parte da população é pobre.

Acima, ao fundo: mapa mundial mostrando a superfície da Terra à noite. As luzes revelam áreas urbanizadas, o que possibilita a identificação de países, cidades, e até mesmo alguns rios ou estradas em torno das quais a urbanização ocorre (ex. Nilo e Trans-siberiana). No mapa sobreposto (à direita) vemos com mais detalhes a Península Han. A distinção entre as duas Coréias é marcante à noite. Enquanto a Coréia do Sul é altamente iluminada, o território da Coréia do Norte se encontra às escuras, a exceção da capital PyongYang, e outras poucas cidades. Esta diferença torna nítidas as fronteiras com a China, ao norte, e com a Coréia do Sul, no paralelo 38. A história continua e, ao longo das últimas seis décadas, conflitos de pequena escala, tanto terrestres quanto navais, têm ocorrido repetidas vezes (1999, 2002, 2009 e 2010) ao longo da linha demarcatória entre as duas Coréias. À medida que cada Estado ambiciona re-unificar a Península de acordo com seus próprios termos e sistema de governo, o Mundo lembra a delicada relação entre os dois países e a Guerra, terminou com uma trégua.


Indignação chama atenção pelos pequenos incidentes (familiares, ou do cotidiano) que alcançam conseqüências despropositadas.
.... a forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais”.
E nos faz refletir, dentre outras coisas, sobre nossas escolhas (ou a falta delas). Afinal, até que ponto somos donos de nosso destino ou joguetes do tempo e espaço em que vivemos?

Recomendadíssimo!


23 de maio de 2018

Homem Comum: Philip Roth (2/2)


Bryan Zanisnik,
“Philip Roth Presidential Library” (2016)
(detail)

Comentários dos Leitores do Clube pós Encontro #114

Gente, que noite maravilhosa a de ontem, hein? Começando pelo debate sobre o Homem Comum, excelente, e, após, a reunião de dezoito na Tratoria. Foi demais! Reacendeu  a alma meio apagada dessa quase octogenária.
Evandro, Rita, Newton e Elô, agradeço, de verdade, os comentários elogiosos e incentivadores ao meu texto no blog.

Bom fim de semana para todos. Beijos.
Elenir

* * *
 
Eis o poema de Ferreira Gullar declamado de memória (que memória!) pelo Antonio na Reunião:

Homem Comum

Sou um homem comum
     de carne e de memória
     de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
     pânica
     feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
     cessar.

Sou como você
     feito de coisas lembradas
     e esquecidas
     rostos e
     mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
     em Pastos-Bons
     defuntas alegrias flores passarinhos
     facho de tarde luminosa
     nomes que já nem sei 

bocas bafos bacias 
     bandejas bandeiras bananeiras
             tudo
     misturado
        essa lenha perfumada
     que se acende
     e me faz caminhar
Sou um homem comum
     brasileiro, maior, casado, reservista,
     e não vejo na vida, amigo,
     nenhum sentido, senão
     lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
     Quero, por isso, falar com você,
     de homem para homem,
     apoiar-me em você
     oferecer-lhe o meu braço
        que o tempo é pouco
        e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
     Homem comum, igual
     a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
     A sombra do latifúndio
     mancha a paisagem
     turva as águas do mar
     e a infância nos volta
     à boca, amarga,
     suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
     comuns
     e podemos formar uma muralha
     com nossos corpos de sonho e margaridas.

                    (Brasília, 1963)


De Ferreira Gullar para todos os seus leitores:  "Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos  é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens".

 * * *


Últimos Comentários dos Leitores do Clube antes do Encontro #114

* * *

Querida Joana:

Algumas pessoas têm certa capacidade de revirar a vida e não se culpar tanto, ou sentirem que estão quites com a vida e se perdoam de tudo!

No entanto, outras, deixam a vida levar e serem como podem. 

Ambas as maneiras, são formas de nos adaptarmos ao INEXORÁVEL. 

Veja, ele deixou de ser um pintor, e mesmo assim era bem visto nas exposições, para fazer publicidade! Não é uma crítica a ele, pelo contrário, ele  deixou de olhar para si e formar uma família, que aliás o detestava. OS HOMENS, JOANA, SOFREM MUITO COM A QUESTÃO DE SE SENTIREM OS PROVEDORES, DE TER QUE CUMPRIR O PAPEL.

Não estou defendendo, são opções, inclusive as mulheres se cobram em dobro!

Veja como nós mulheres abdicamos com mais flexibilidade, quase tudo, pela nossa família e filhos............ Etc. etc. etc.

Suas colocações são pertinentes e fico feliz de ter mais uma que adorou o livro.

Sobretudo, eu adoro sua capacidade de achar a poesia!

Rose, querida, sua análise , quanto a posição dele de não tomar as rédeas de sua vida, eu achei perfeita.

Concordo que viver para ele foi pior que morrer, quem sabe?


Beijos
Fátima

* * *

Que legal essa troca toda, onde cada mensagem traz uma nova abordagem, uma nova reflexão.

Joana,
Achei linda sua mensagem.  Essa frase (tomar as rédeas...) não é muito boa não.  Dá a entender uma onipotência inexistente.  De qqr forma, pra mim ela está relacionada com sonhar e perseguir, lutar pelos seus sonhos mas, como você disse, a Roda Viva está aí pra você ir revendo seus sonhos continuamente. E de novo lutar.  Quem foi que disse que a “vida é luta renhida, viver é lutar”?

Agora, vocês, meninas do grupo, não acharam que no livro as mulheres são tratadas de forma pouco admirável? A primeira mulher mal aparece, e é traída pelo personagem com a segunda.  A segunda é traída com a mocinha do escritório e a modelo loura.  A do escritório, coitada, só aparece se abaixando no escritório.  A loura é carente, dependente e pouco inteligente.  A senhora que passa mal demonstra sensibilidade e total dependência do marido, tanto que comete suicídio.  Só sobram a mãe e a filha do personagem. Mas mãe e filha já é outro departamento, principalmente na família judaica. 

Por que será que o autor faz isso?  Tem aí um viés da tradição judaica (patriarcal, onde a mulher é pura submissão e procriação)? É machismo do autor ou vocês têm outra visão? 

Beijos a todos,
Rose


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Rose e amigos, bom dia!

Vc tem toda razão... Adorei também o que nos diz a Joana. Quanto à questão das mulheres, Rose, o autor nâo pode falsear o que foi a vida do personagem, não é mesmo? Considere a época, as décadas... E hoje ainda há mulheres e homens assim, embora muita coisa tenha mudado.

Alguns versos da música cantada por Sinatra servem para o livro do mês.


Bjs
Eloisa

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Também achei muito rica nossa reunião;  A impressão inicial de um certo descontentamento com o livro, a angustia pelo tema da finitude, a vida na morte, foi  aos poucos, com a diversidade de pontos de visao sb o livro, a singularidade pessoal de cada um com suas proprias experiencias pessoais, senti uma expansão na compreensão do tema, e um ápice (para mim) muito prazeiroso com a pesquisa do Benites e os versos do Gullar na apresentaçao do Antonio.
Realmente nosso grupo é capaz de manter um encontro no "encontro"
                              
     Ceci


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Gostei, Ceci, do encontro no "encontro". 


Realmente, nosso encontro é muito mais do que um simples encontro. Os comentários do livro leva-nos a encontrarmo-nos a nós mesmos, bem como a encontrar o outro. Que belo encontro!  E, falando em belo, foi belo e emocionante ouvir Antonio dizer o Homem Comum, de Ferreira Gullar. A reunião fechou com chave de ouro.

Abraços para todos.
Elenir

Obs. Fico falando, falando, porque não me canso de falar com vocês. Evandro me desculpe! Se o Homem Comum, sem nome, participasse de um grupo assim, não sentiria, certamente, a angústia e a melancolia da velhice.
Mais abraços. Elenir

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Parceiros da escrita, é maravilhoso nos encontrarmos numa reunião destas porque pessoas que antes nem sabíamos das suas existências estão falando das suas vidas como se estivéssemos passado a infância juntas, e, apenas nos relembrássemos.  A liberdade de se falar em assuntos, às vezes, tão pessoais nos aproximam cada vez mais. Beijos esperando a próxima. Sissa Schultz.

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Caríssimos, boa noite

Elenir, com sua presença qualquer reunião ou bate-papo na pizza se torna memorável.

Rita, o Evandro já incluiu o poema na postagem do livro, no blog do Clube. 

E no mais, gostaria de dizer que gostei muito da reunião, e da forma como cada um expôs suas impressões sobre o livro, um riqueza enorme. 

Sds,
Antonio 

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Prezados amigos,

A noite foi realmente maravilhosa. Apesar do tema do livro envolto em doenças e morte, mostramos que estamos bem vivos e capazes de tirar, de tudo, o melhor proveito. Todas as análises feitas mais uma vez nos enriqueceram a visão do mundo e da vida. Como disse a Dília, a morte não existe, é uma ficção (não sei por que, adorei essa perspectiva!...). E Antonio fechou com chave de ouro. O "Homem Comum" do Ferreira Gullar é aquele que nós somos, que sofre, luta e vive.

O CLIc, na verdade, supera a todos os livros, faz deles obras mais completas.

Abs,
Newton

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Caros colegas de leituras,


Os nossos encontros realmente são muito prazerosos. Em verdade vos digo que sou uma criatura muito matuta e brucutu e, por isso mesmo, levo muito tempo para me entrosar com as pessoas. Mas gostaria de dizer que o Clube tem um peso considerável para mim. Não sou muito boa na internet, mas entrando nesses menus, links ou seja lá o que for, encontrei o depoimento de Rita sobre o clube com o qual me identifiquei bastante. 



Em principio achei que encontraria pessoas esnobes, arrogantes por conta de suas formações, e eu acostumada a enxada e a pessoas do povão, fiquei ressabiada. O primeiro contato foi tenso, mas depois ficou mais leve e a medida em que conheço um tiquinho mais dos participantes, solto aos poucos o ar, porque nas falas de alguns encontros ecos em mim mesma. 



Não li o livro, mas mesmo assim vou a reunião porque me dão prazer. Falou-se sobre a ausencia de declaração de sentimentos e emoções do homem comum de Roth, pois bem, não quero morrer sem dizer que ouvir os depoimentos de Fred, de Elenir (tamanha emoção ao ler fragmentos que mais gostou do livro), do senhor que falou sobre a mulher que depois que o marido morreu não mais saiu de casa, da moça que falou das dores de seu familiar no hospital e que isso obscurece todo o resto e o que mais se deseja é o fim, Benito com sua analise meticulosa, a Gracinha com seu eterno jeitinho de menina que me faz querer voltar a infancia e tentar ser menos brusca, Evandro tentando por ordem, cadeiras extras, círculos fechado e outra fila, o Newton gravando, o barulho da cafeteira, as conversas paralelas, a amabilidade de Rita e a sempre gentileza de Elo para comigo, a agitação de Dília (contagia), a contribuição de Lílian (mesmo distante), a declamação de Antonio (caramba que memória - senti uma baita inveja - nunca decorei nada, o tico e o teco nunca se entendem e quase sempre dão pane) ficarão marcados em mim para sempre. E não estou me referindo apenas a essa reunião, mas a todas em que já estive presente. Finalizando a votação corporal foi de arrasar (quem votava em um livro de um lado e quem votava no outro do outro lado). Quer prazer maior que toda essa movimentação?

Neide

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