CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

21 de março de 2018

Indignação







CARTA ABERTA DE REPÚDIO À MANIFESTAÇÃO

DA DESEMBARGADORA MARÍLIA CASTRO NEVES, DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO DE JANEIRO, EM RELAÇÃO ÀS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down vem tornar público seu repúdio à demonstração de preconceito manifestado por uma autoridade pública, a desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em relação às pessoas com síndrome de Down.

Na luta empreendida pela sociedade e pelo estado brasileiro pela garantia dos direitos das pessoas com deficiência, destacamos a aprovação do texto da Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, introduzindo no ordenamento jurídico, com força de emenda constitucional, normas com o propósito de promover, proteger e assegurar o exercício pleno e qualitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais pelas pessoas com deficiência.

Após milênios de exclusão, nos últimos 70 anos, a sociedade em todo o mundo vem aperfeiçoando-se em seu processo civilizatório ao reconhecer os direitos e propor melhoria das condições de vida da pessoa com deficiência.

Não obstante essa árdua luta que visa mudar os paradigmas sociais e culturais mediante novos valores que reconhecem a dignidade humana, nos deparamos com comentários feitos por pessoa cujo exercício da nobre função de magistrada, desce ao mais baixo nível, tornando público em perfil do Facebook seu preconceito contra as pessoas com deficiência.

A Desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro postou em sua página virtual: “Voltando para a casa e, porque vivemos em uma democracia, no rádio a única opção é a Voz do Brasil...Well, eis que senão quando, ouço que o Brasil é o primeiro em algumas coisas!!! Apuro os ouvidos e ouço a pérola: o Brasil é o primeiro país a ter uma professora portadora de síndrome de down!!!. Poxa, pensei, legal, são os programas de inclusão social...Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem??? Esperem um momento que eu fui ali me matar e já volto, tá?”.

Sabemos que os juízes também têm a liberdade de se expressar como cidadãos, mas a atividade que escolheram lhes impõe uma série de limitações, de natureza normativa, presentes no Código de Ética da Magistratura, dentre as quais o dever de manter a integridade de sua conduta e o de comportar-se em sua vida privada de modo a dignificar a função de magistrado.

A FBASD considera que mensagem carregada de preconceito, ofende, definitivamente, os ditames impostos aos juízes por seu Código de Ética. Textos dessa natureza claramente denigrem a magistratura e, assim, devem ser rigorosamente apurados pelos órgãos competentes, tais quais a Corregedoria do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e o Conselho Nacional de Justiça.

Assim vimos tornar público nosso repúdio contra a manifestação de preconceito expressado pela Desembargadora Marília Castro Neves. 

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE SÍNDROME DE DOWN


17 de março de 2018

Revivendo - Mosaico Vivo: Cristiana Seixas

Cris,

Acabo de ler seu livro e preciso dizer a esse pedacinho do mundo que é nosso Clube o quanto gostei. Seu livro é lindo e super sensível, delicado e profundo sendo extremamente simples. Uma
combinação mágica de entender a vida, a si, ao outro e de admitir imperfeições ao mesmo tempo em que se luta pela liberdade de alçar voos próprios e superar-se.

Emocionei-me em cada página, triste com a luta da criança com o urubu, alegre com o beijo na trave, reflexiva com a noção do tempo, dor e amor. Fiquei com uma vontade danada de conhecer a Chapada dos Guimarães e me deitar à beira do precipício. Cada árvore ganhou um sentido novo, a dimensão da paciência mudou. Uma lição de viver bem, aproveitar os momentos, eternamente efêmeros, de ficar em paz comigo, de me permitir receber a beleza e a felicidade e transbordar meu amor pela vida. Sabedoria para aceitação também e para o enfrentamento dos meus medos.

Eu me identifiquei com tantos pensamentos, palavras, sentimentos e me surpreendi com outros que me diziam o que na verdade eu já deveria saber, mas é sempre preciso que nos digam com a força da pureza que você sabe transmitir. Você faz uma metáfora da natureza com o homem que é maravilhosa. Tudo se pode aprender se se sabe olhar. Seu livro é poesia para os olhos, os ouvidos, as mãos, o coração, o corpo todo. Há frases sublimes que marquei para reler e reler e reler para ver se entram por osmose. Preciso de uma cabeceira maior.

Obrigada por escrever,


Eu vou aceitar o convite do vento
e me deixar levar pelas trilhas,
para dentro, para dentro, para dentro


Rita Magnago





À venda na Estante do Concierge (conciergeclic@gmail.com): R$ 25,00




Amigos

Enfim, convido-os para o lançamento de meu primeiro livro:  Mosaico Vivo.

Será dia 19 de abril de 2012, às 19h, no Centro Cultural Pascoal Carlos Magno.

Será inefável compartilhar esta emoção com vocês.

Até breve!
Cristiana



15 de março de 2018

Revivendo leituras passadas - "The Picture of Dorian Gray" - Oscar Wilde

As folhas farfalham,
andorinhas esvoaçam,
festa no jardim.

Florezinhas murcham,
revivem depois. E o homem
só uma vez é jovem.


(inspirados  Oscar Wilde-O Retrato de Dorian Gray)
(L-nir)



Beware of your pictures, dear reader! I highly recommend you check out all your pictures to guarantee that nothing wrong is going on.

There have been some comparisons made by some Book Club's participants  between “The Picture of Dorian Gray” and “Death in Venice” by Thomas Mann. Both books approach the subjects of Beauty and Youth. One says that the same fascination provoked by the beauty of Dorian Gray on Basil and Henry, has striked Gustav Aschenbach regarding the beauty of Tadzio. In a passage from the movie, Gustav awakes startled from a nightmare in which he was booed after a concert, and comes to the conclusion that "in all the world, there is no impurity so impure as old age". For this reader, Gustav plays Lorde Henry's role while Tadzio would be Dorian. I would rather say that Tadzio looks much more as Fonchito from "O Elogio da Madrasta" by Mario Vargas Llosa which we have also read in the Club.

Another participant sent us some poetry after reading “The Picture of Dorian Gray” and we would like to share it with everybody:



“Sonhei que nosso rosto era espelho de nossa beleza interior
Recolhi lençóis e andei de olhos fechados cobrindo espelhos
Não fui à rua, com medo de olhares alheios
Como seria o julgamento exterior?

Passei em revista os anos vividos
Ouvidos fechados, língua ferina, nariz empinado
Cabelo prosa, olhar soberbo, sorrisos contidos
E agora, o que restará do encanto forjado?”



Beauty and Youth are coming out from "de profundis" this month in the Book Club.


Na reunião,... cada vez melhor! Ao contrário do retrato de Dorian Gray, a imagem do Clube se torna mais bela. Será nossa consciência?

There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written, or badly written. That is all” (Oscar Wilde)

Seguindo a linha da famosa frase de Oscar Wilde, descobrimos que para apreciar ou compreender completamente uma obra como “O Retrato de Dorian Gray”, é preciso ler tal obra de forma amoral, ou seja, é necessário deixar de lado os conceitos de bem e mal, de certo e errado, de moral e imoral e sentir. Assumir nossas confusões, conflitos e sensações mais íntimos. A partir daí, é possível entender Literatura como arte que nos retorna um universo de sensações. Porém, tal ato nos leva a entender Literatura como um mundo à parte? Uma vez que somos "leitores voluntários que complementam sua experiência de vida com e pela literatura", é necessário nos despirmos de nosso senso crítico? Ou, ao contrário, devemos sempre mantê-lo em nossa companhia?

Em prática, “O Retrato de Dorian Gray” poder ser compreendido a partir de dois pontos de vistas: o da arte (onde não se julga, mas se sente) e um ponto de vista mais 'realista', onde não nos desligamos de nossa bagagem de vida.

É fato, que, uma vez que leitores levam consigo capacidade de interpretação crítica, é possível que vejam um mesmo livro de modos completamente distintos. Como dito anteriormente, ao longo do mês de discussão, diversos participantes discutiram semelhança entre “O Retrato de Dorian Gray” e “Morte em Veneza”, de Thomas Mann. Em “Morte em Veneza” exaltou-se poesia, sensualidade e beleza (que de fato existem!), porém todo esse sentimento prazeroso não poderia ser sufocado por um desconforto trazido pela personalidade aparentemente pedófila do maestro Gustav de Aschenbach? Analogamente, em “Todos os Nomes”, de José Saramago, muitos se emocionaram e viram beleza na parte em que a personagem Sr. José chega aos aposentos da mulher desconhecida. Contudo, é também possível enxergar uma personalidade doentia em alguém que invade os aposentos de uma morta desconhecida, cheira suas roupas, pensa em dormir em sua cama e ter sonhos agradáveis com a mesma. Desta forma, Dorian Gray pode ser visto tanto como um jovem que só almejava o prazer da vida (do ponto de vista amoral) quanto uma 'pessoa ruim', com certo desvio de caráter.

Dorian Gray, o dândi (homem elegante e bem vestido), foi identificado como dono de uma personalidade narcisista, que nos é revelada quando este se depara com seu retrato pela primeira vez. A ausência de uma estrutura familiar também foi exaltada como componente que certamente teria enfraquecido sua capacidade de julgamento e resistência às seduções e influências negativas.


Concluímos que o retrato de Dorian simbolizava sua consciência e nos perguntamos se a imagem no retrato "congelaria" ou voltaria a ficar bela, caso Dorian Gray se tornasse uma pessoa melhor. Reafirmamos que o feio e o belo nada tem a ver com maldade ou bondade (imagem esta provavelmente inserida em nossos subconscientes pela literatura do tipo Contos de Fadas).

Os muitos aforismos (em vários romances, utilizados perigosamente, revelando-se como frases de efeito, completamente ocas), são genialmente utilizados por Oscar Wilde na construção de Henry. Apesar de extremamente danoso, Henry, seduziu os leitores com sua sagacidade e frases imorais (porém sempre verdadeiras, se vistas de certo ponto de vista, ou seja, se encaradas amoralmente). Uma personagem genial!

A opinião sobre Oscar Wilde foi unânime: excelente escritor, que foge as estórias corriqueiras. O autor mudou a visão de vida de alguns leitores (boa parte já havia lido há uns trinta anos atrás, ou mais). Para a maioria, as três personalidades distintas, existentes em Henry, Basil e Dorian eram claramente Oscar Wilde.

Recomendadíssimo!

12 de março de 2018

Hibisco roxo: Chimamanda Ngozi Adichie


Pela primeira vez
ela sorriu e correu.
Estaria amando?

(L-nir)

ENCONTRO


No Dia Internacional da Mulher!





"Veja o que Deus fez com seu fiel servo Jó, e até com o Seu próprio filho. Mas você já se perguntou por quê? Por que Ele tinha de assassinar o próprio filho para nos salvar? Por que ele simplesmente não nos salvou de uma vez?"




"Expor o cabelo na igreja é pecado"



Não sei se vocês sabem, 
mas dizem que se a gente atirar as crianças bem lá no alto, 
elas podem aprender a voar. 




"Que Deus tire o poder do demônio!"




8 de março de 2018

Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

Olá queridos!
Reproduzo o post do meu blog Mar de Variedade. Li o livro em 2016.
É o livro do mês do CLIc. 
Essa foi a leitura de dois clubes, em novembro: O Leia Mulheres Niterói e o Clube do livro virtual. 
Já queria muito ler algo da Chimamanda, então, tive a oportunidade de ler esse ótimo livro para esses dois clubes. 

Sinopse que está no site da Amazon: "Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. 
Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente."


Esse livro é o tipo que incomoda. Em mim trouxe sensações de raiva, ódio, revolta, com relação ao Eugene, pai da protagonista Kambili.
Ele é pai também de um rapaz um pouco mais velho, o Jaja, um personagem muito querido, que tenta defender a irmã e a mãe dos castigos do pai. 
O Eugene é um empresário rico, dono de rede de lojas de biscoitos e de um Jornal.  Ele é um católico fanático. 
Infelizmente, ele tenta impor a religião à família a qualquer custo. Inclusive cortou relações com o pai, por ele não seguir a mesma religião.
A minha revolta no decorrer do livro foi por causa dos castigos cruéis que seus filhos sofriam quando faziam qualquer coisa que ele considerasse pecado.
Eugene fazia uma agenda com as atividades dos filhos para cada dia da semana. Havia horário para tudo. Era regime militar. 
Não só seus filhos eram punidos, como a sua esposa, que era uma mulher extremamente passiva e submissa. 
Um personagem que me encantou muito foi a Tia Ifeoma, irmã do Eugene: guerreira, batalhadora, independente. Viúva com três filhos e com uma situação financeira pouco favorável, não se deixava abater. Acho que, no livro, ela faz um contraponto com a mãe de Kambili, que é tão submissa. 

"Mama balançou a cabeça.
-Conversa de universidade de novo. Um marido coroa a vida de uma mulher, Ifeoma. É o que elas querem.
-É o que elas pensam que querem. Mas como posso culpá-las?" (trecho do livro)

No clube do livro, conversamos sobre como o Eugene foi um personagem muito bem construído pela autora, pois, ao mesmo tempo em que ele dava castigos cruéis aos filhos e à esposa, ele era bondoso com o necessitado e era dono de um jornal progressista também.
Acho que a autora quis apresentar um personagem com várias contradições, para ser mais verossímil, pois não somos só bons ou maus, somos muito complexos. E o personagem Eugene confunde o leitor. 
O livro mostra a Kambili desabrochando, pois ela se apaixona pelo padre de uma paróquia onde mora sua Tia Ifeoma. 
Então o livro vai mostrar um pouco da Nigéria, vai tratar ainda de diferenças sociais, de machismo, de fanatismo religioso, entre outras coisas. 
O desfecho da história é bem surpreendente. Não vou dar spoiler, mas o que posso dizer é que foi um final necessário. 
Recomendo!
Feliz dia internacional das mulheres!

2 de fevereiro de 2018

A Jangada de Pedra, de José Saramago

Olá queridos!
Vou reproduzir o post do meu blog Mar de Variedade.
Vou falar minhas impressões sobre o livro A Jangada de Pedra, do José Saramago, lido no Clube de Leitura Icaraí.



Sinopse da Companhia das Letras:
"Racham os Pirineus, a Península Ibérica se desgarra da Europa. Transformada em ilha - Jangada de Pedra -, navega à deriva pelo oceano Atlântico.
A esse espetacular acidente geológico somam-se outros insólitos que unem os quatro personagens principais do romance numa viagem apocalíptica e utópica pelos caminhos da linguagem e, por meio dela, pelos da arte e da cultura peninsulares.
A ínsula ibérica vagueia ao acaso de um mar tecido de muitos mitos e história.
A história dos povos ibéricos, José Saramago a conta e reconta pela memória de um narrador, múltiplo de si mesmo e dos personagens cujas andanças acompanha.
Os mitos se costuram nas pedras da fratura de que se fez a jangada. Neles se recuperam as crônicas, peregrinações de heróis anônimos ou notórios da identidade ibérica, todos notáveis, D. Quixote entre uns, os peregrinos de Santiago de Compostela na Idade Média entre outros.
Narrativa perfeita na qual os fantasmas do inconsciente pousam familiarmente no cotidiano; surrealismo vigoroso que torna o incomum realidade, criando as condições oníricas para virar o mundo às avessas e, então, contar-lhe, com ironia e graça, os transtornos de erros e acertos, de enganos e desenganos.
Posto assim ao contrário de si mesmo e de suas aparentes e reais firmezas, o mundo abre-se para a aventura ficcional da desconstrução das certezas das palavras e dos objetos; deixa-se viajar no estranhamento que daí decorre; reencontra-se em signos velhos e cristalizados: signos novos contudo, nos enigmas em que se tornam, reveladores também nas fantásticas soluções narrativas que desencadeiam.
Carlos Vogt"

Gosto do Saramago. Adorei As intermitências da morte.
Infelizmente, não gostei dessa leitura, embora se trate de uma prosa poética, muito bem descrita na sinopse da Companhia das Letras.
Como sabemos, a escrita do autor não tem muita pontuação, os parágrafos são grandes. Soma-se a isso, nesse livro, uma narrativa que mistura ficção e um pouco de história do mundo, onde há um grupo de amigos que viajam pelo mundo e vão contando sobre os principais acontecimentos da história, utilizando muitas metáforas. 
A narrativa ficou um pouco confusa e cansativa. Isso na minha modesta opinião. Sei que há muita gente que adorou esse livro. Saramago sempre é uma boa escolha. 
Quem quiser comentar ou discordar, fique à vontade. 



Boa leitura!

22 de janeiro de 2018

Livro: Quase Memória, de Carlos Heitor Cony

Olá queridos!
Reproduzo o post que fiz no meu blog Mar de Variedade.
Venho falar sobre esse ótimo livro de memórias sobre o pai do autor.


Sinopse da Amazon: " 'Para o jornalista Carlos Heitor Cony. Em mão.' A breve inscrição no envelope recebido num hotel do Rio de Janeiro desencadeia no autor uma série de conexões. Não havia dúvida: pelo arranjo do material, pela caligrafia, pelo nó do barbante, aquele embrulho — provavelmente um livro — era uma entrega enviada pelo próprio pai. O insólito é que, em 1995, ano em que se consumou a encomenda, o pai de Cony já estava morto havia uma década.

A partir daí, se descortinam acontecimentos, reminiscências dos anos 1940 e 1950 de um Rio de Janeiro nostálgico, que o pai também ajudou a abrilhantar. Volta à mente do escritor uma época com cheiros, visões e anedotas compartilhadas com o jornalista Ernesto Cony: um inventário de histórias que revela a vida de menino, os pequenos milagres no voo de balões, a beleza dos atos simples e, mais do que tudo, a cumplicidade entre pai e filho.

Publicado em 1995, Quase memória marcou a volta de Cony às grandes narrativas depois de mais vinte anos. Rompendo limites entre gêneros e situado em algum ponto entre a ficção e a memória, o livro rapidamente se tornou sucesso de crítica e público e ganhou, em 1996, o Jabuti de Melhor Romance e o Prêmio de Livro do Ano."



Na adolescência, havia lido um livro do autor "Uma história de amor", pelo qual me apaixonei.
Voltei a ter contato com sua escrita agora, através do Clube de Leitura Icaraí. Mais uma vez me apaixonei pela sua escrita. 
Infelizmente, o autor nos deixou esse mês.
É difícil um livro ser unanimidade no Clube, mas esse foi. Não é à toa que foi tão premiado.
O autor consegue escrever um livro de memórias sobre o seu pai, de forma muito interessante, relatando sua vida no Rio de Janeiro e em Niterói. 
Ele começa o livro dizendo que recebeu um embrulho, dez anos após o falecimento do seu pai, endereçado a ele. Ele tinha certeza que era de seu pai.
Cada vez que ele pega e olha o embrulho, ele vai se lembrando sobre o seu pai, sobre a educação que ele lhe deu e também aos seus irmãos e vai nos contando. 
Relata um pouco da época em que o autor foi seminarista. Fala ainda da vida do pai como jornalista e a sua, também. 
Há partes no livro em que a gente se emociona e há partes muito engraçadas, também, pois seu pai era uma "figura", do tipo que gostava de pegar manga do cemitério. 
Uma frase do seu pai que me marcou foi:
"Amanhã farei grandes coisas!"
Realmente, um livro marcante.
Recomendo!