CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

1 de agosto de 2017

Revivendo leituras passadas - A chave de casa: Tatiana Salem Levy


 A Chave de Casa

Abrir a porta de casa,
expulsar os meus fantasmas,
sem disfarce, expor-me inteira
a todos e a mim também.
Apresentar essa estranha,
que um dia, sob os escombros,
os silêncios e segredos,
tentou, em vão, se esconder.

E, agora, livre dos medos,
das amarras do passado,
quer fazer a caminhada
gozando o seu renascer.

(Elenir)




Oi Clube

Sei que já estão iniciando a discussão do livro do Padura, mas, como prometido, registro aqui algumas impressões sobre "A chave de casa".

Na minha leitura, a riqueza do livro encontra-se justamente no intervalo: é uma viagem real ou imaginada? Uma busca do avô ou dela própria? Deseja realmente encontrar a casa e a história dos antepassados ou não? É melhor prosseguir na busca ou desistir? Entregar-se ao amor ou reconhecê-lo como dor?  

Outros fragmentos da literatura revelam este campo tenso do diálogo dos opostos...

"Sou entre mim e mim o intervalo." Fernando Pessoa

"Hesito, logo existo." Lena Jesus Ponte

"Gostaríamos de ver e temos medo de ver. Eis o limiar sensível de todo o conhecimento. Nesse limiar, o interesse ondula, perturba-se, volta. [...] Como aumentam as ondulações de medo e curiosidade quando a realidade não está presente para moderá-las, quando se imagina." Bachelard

"Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida." Clarice Lispector

O desconforto da dúvida, da angústia nos faz dar passos, convida-nos (ou joga-nos) ao movimento. Suportar e ouvir a voz do conflito que habita o intervalo é sinal de vida em transformação.

A própria busca da casa é algo muito simbólico.  No livro A poética do espaço de Bachelard, há praticamente 2 capítulos que falam sobre a casa, vejam alguns trechos:

"Porque a casa é o nosso canto do mundo [...], o nosso primeiro universo.[...] A casa natal é um centro de sonhos. Cada um de seus redutos foi um abrigo de devaneios."

"É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas; e quando a casa se complica um pouco, quando tem um porão e um sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. A eles regressamos toda a vida em nossos devaneios."

A chave igualmente é um poderoso símbolo, relacionado ao duplo papel de abertura e fechamento, de permitir ou não o fluxo, a passagem, do mistério de penetrar, do enigma a resolver, da coragem de empreender etapas que conduzem à descoberta.

Uma história de uma buscadora, de local (fora e dentro de si) que pudesse florescer e renascer.
Neste sentido, cada palavra do livro equivale a um passo neste caminho.

--
Cristiana Seixas
Biblioterapeuta





Santa Sofia
A Mesquita do Sultão Ahmet
A mesquita azul do anjo

Olá Cliceanos, vamos visitar a Mesquita Azul? Tatiana Salem instigou-me a conhecê-la. 

Conhecer a Turquia, vocês já conhecem? Combinar literatura e viagem, do erotismo ao sacro, percorrendo o centro histórico de Istambul. Ainda não cheguei à metade do livro e já encontrei bastante erotismo na Salem, ao descrever sua relação com o amado. 




Caros amigos do Clic

sempre que leio um livro e a obra apresenta uma ambientação geográfica, tento me situar,  ler/ver outras obras onde eu possa estabelecer novas relações. A chave da casa lembrou-me um filme que assisti cerca de 05 anos e hoje corri atrás para revê-lo.

O TEMPERO DA VIDA - a estória inicia em Istambul, cidade onde a família se sente super ambientada e de repente por questões religiosas,sociais e políticas são deportados para a Grécia. Há uma forte relação do neto com o avô e um grande lirismo permeando toda a trama. Há inclusive uma cena onde o neto volta à casa do avô. Vale a pena ver. Penso que encontrarão com facilidade nas locadoras ou baixando na Internet.

grande abraço,  Joana


Fonte

"Nenhuma palavra dói mais do que a ausência de palavras. Você não é tolo e sabe muito bem disso. Você me impunha um silêncio devastador. Sumia, não dava notícias, fazia de propósito, queria me ver chegar perto da morte, paralisada, sem forças. Eu esperava o telefone tocar, ele não tocava.. E se porventura tocasse, não era a sua voz que eu escutava. Esperava o apito do meu computador avisando a chegada de um novo e-mail, ele não apitava. Esperava uma carta, um sinal de fumaça, uma mensagem no celular, esperava que você aparecesse e trouxesse consigo alguma palavra. Esperava e esperava e esperava. E você não vinha. Você me deixava a sós com esse silêncio que dói mais do que um grito arranhado, do que um corte profundo na carne, que dói mais do que a palavra dor”.



Estávamos na cama quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz grossa e firme perguntava se eu estava bem e dizia que tinha conseguido o meu número com uma amiga e comum, a dona da festa onde tínhamos nos encontrado havia cerca de uma semana. Como quem não quer conversar, mas precisa falar alguma coisa, ele disse: adorei nosso papo, apesar de rápido, e queria conhecê-la melhor. Só respondi com interjeições, mas nem por isso ele se apressou em desligar. Quando começou a falar dos meus olhos, dos meus cabelos, fiquei sem graça, afinal, você estava do meu lado. Como se não o conhecesse, levei um susto quando você, em vez de me pedir para arranjar uma desculpa e me livrar do telefonema, sussurrou baixinho: não desligue, continue falando. Nem tive tempo de esboçar resposta, de me opor à sua decisão. Quando me dei conta, você já tinha tirado a minha roupa e , olhando para o meu sexo, era a sua caeça que eu via. Tentei afastá-la. Você me fixou com um olhar de quem diz para não impedi-lo, um olhar que me afirmava com segurança que eu não me arrependeria. Então me deixei levar. Enquanto ouvia a voz de um estranho, sentia sua língua me umedecendo. Eu tinha o sexo todo depilado, e você passeava livremente por ele, como se agora, que estava descoberto, à mostra, ele escondesse ainda mais segredos. Não foi nada fácil controlar o tom da conversa, prestar atenção ao que ele dizia, para ao menos poder lhe responder: claro, vamos combinar alguma coisa, sim. Você não quer anotar meu e-mail? Minhas pernas se contorciam enquanto eu falava. Temi que ele desconfiasse de alguma peculiaridade na minha voz e me pus a falar como se estivesse com pressa. Você reparou e me repreendeu. Queria ir até o fim. Então, tive de inventar histórias, iventar assuntos, perguntei-lhe de onde conhecia a nossa amiga em comum, o que fazia da vida, entre outras coisas que não me interessavam absolutamente em nada. Enquanto isso, a sua língua ia ganhando mais intimidade com o meu sexo, e os dois se encaixavam de tal maneira que pareciam duas bocas se beijando, um beijo longo e molhado. Eu tinha a sensação de que os lábios de baixo eram comos os lábios de cima, decididos, independentes e, o que era mais inusitado, tinham paladar. Eu sentia o gosto da sua língua, o gosto que tanto conhecia, mas que sentido ali, naquele lugar e naquele momento inesperados, era completamente diferente. Quando, finalmente, resolvi desligar o aparelho, foi porque a minha boca estava entre as minhas pernas, e seria estranho continuar falando, se meus lábios estavam tomados pelos seus."


by Sara Augusto

[Você nunca pensa em coisas boas? Não tem sonhos?] Tenho, claro que tenho. Sonho que um dia um príncipe chegará montado num cavalo branco para me buscar.Não precisarei fazer esforço algum, ele saberá que sou a mulher por quem ele procura. Bastará nos olharmos para saber que fomos feitos um para o outro. Ele me pegará pela mão e me levará, a cavalo, para um lugar lindo, onde haverá uma grande festa, onde encontrarei todos que já partiram deste mundo e todos que nele ainda estão. Lá viveremos felizes, numa terra que não conhece a morte, não conhece tempo, não conhece a dor. [Então você sonha?] Sonho, claro. Tenho ainda outros sonho, que nunca contei a ninguém. [E o que é?] É tenho esse sonho impossível: escrever escrever escrever.






PRÊMIO SÃO PAULO DE LITERATURA

MELHOR LIVRO DE AUTOR ESTREANTE 2008


Eu sabia que ao tocar pela primeira vez a campainha da sua casa estava assinando um contrato sem vencimento. Se existisse alguma possibilidade de desistência, ela deveria ser fincada ali, naquele momento, antes de atravessar a porta. Mas como não atravessá-la? Por que não atravessá-la? Meu corpo ainda não estava paralisado, eu queria caminhar, queria ir ao encontro do que tinha me pego na esquina, descobrir o que me aguardava do outro lado da rua. Naquele início, a paixão se manifestava como fome - de novidades, conversas, toques, sexo -, eu queria engolir tudo o que estivesse à minha frente, tudo o que viesse de você. E assim foi. Toquei a campainha. Suava. Minha camiseta molhada se colova ao busto, marcando levemente os seios. Quando você abriu a porta, eu não podia esconder o desejo de pular em cima do seu corpo, ali, no corredor de entrada da sua casa. Tenho certeza que você sentiu meu cheiro de sexo prestes. Deslizou delicadamente a mão direita sobre meu rosto, demorando-se atrás da orelha, no pescoço. Arrumou meu cabelo e com a outra mão segurou minha nuca. Você me exigia demais naquele momento: exigia-me paciência. Deixei-me ser levada, controlando minha fúria e meu desejo de controlar. E nisso estava o meu prazer, em ser surpreendida, em ser guiada numa direção inusitada. A cada toque seu, a cada dedo, lábio, nariz, a cada extremidade sua esbarrando na minha pele, sentia os poros se eriçando, se antenando numa velocidade simetricamente oposta à de seus movimentos. Você demorou a me beijar, a enroscar sua língua na minha até quase a garganta. Antes disso, ficou me acariciando, aproveitando todo o deleite que eu estava disposta a lhe dar. Você me olhava - nos olhos, no queixo, nos seios, no ventre - como se quisesse me tirar toda a estabilidade, como se quisesse tirar meus pés do chão. E conseguiu. Naquele instante, eu já não pisava em lugar algum. Já não tinha os pés na terra, Não sabia onde estava, mas ao mesmo tempo tinha toda a certeza de que era ali que queria estar. Você não tinha dúvida, eu já era sua. E, como se quizesse me mostrar que estava ciente disso, me segurou com força, apertou meus braços e colou a boca à minha, sua língua à minha. Deslizou suavemente a mão pelo meu corpo. Quanto mais seus dedos descobriam o caminho, mais vulnerável eu me sentia. Nesse momento sabia que não haveria volta, já estávamos amarrados. Sua língua estava em meus seios - um e outro -, contornando os mamilos, deixando-os quase tão encharcados quanto meu sexo, ainda à espera. Não por muito tempo, é verdade, pois não demorou para você colocar, certeiramente, a mão por debaixo da minha saia. A calcinha abafada, úmida. As pernas se abrindo ligeiramente, o convite já feito. E, como pude confirmar tantas outras vezes, poucas coisas me excitavam tanto quanto seus dedos afastando a parte de baixo da calcinha para um lado só, deixando meu sexo descoberto. Para logo cobri-lo de novo, com seus dedos. Leve-me para a cama, eu disse. Você fingiu não ouvir. com as duas mão, levantou minha saia, arrancou minha calcinha e se abaixou aos poucos. Continuei de pé, enquanto você, ajoelhado, implorava não sei o que entre as minhas pernas, numa língua que só vocês dois entendiam, o meu sexo e a sua boca.



23 de julho de 2017

Novos Títulos na Estante do Concierge



A ESTANTE TAMBÉM ESTÁ DE VOLTA! 


Veja - Peça (conciergeclic@gmail.com) Livros da Estante

                                 Leia a opinião de quem leu alguns dos livros da estante clicando aqui


16 de julho de 2017

Como Ler "Ulisses"

Leituras associadas - Ulisses: James Joyce --- Homem comum enfim: Anthony Burgess (uma introdução a James Joyce para o leitor comum)



Criado por Revisões wikiHow

Vamos lá! É Ulisses. Considerado por muitos o segundo livro mais difícil escrito em língua inglesa (em especial porque o primeiro da lista requer bons conhecimentos de outros oito idiomas), ler Ulisses é uma tarefa divertida e provocativa. Apesar de sua reputação, esse romance não é penoso de ser lido.




Passos

1
Entenda Ulisses. Antes de aprender como lê-lo, é preciso reconhecer o terreno.Ulisses é composto por 18 episódios (ou capítulos). Cada um destes episódios foi seriado separadamente, sendo particulares e diferentes dos outros. Por exemplo: O episódio 14 é uma paródia dos grandes autores da língua inglesa, de Chaucer a Dickens, e o episódio 18 é um extenso monólogo de cerca de 10.000 palavras que engloba duas imensas orações coordenadas. Cada episódio aparenta pertencer a um livro completamente diferente, e é aí onde reside a beleza da obra.

2
Não use um guia de leitura. Ao realizar um estudo acadêmico formal de Ulisses, você precisará comprar um tipo de guia de leitura. Eles têm cerca de 400 páginas e esmiúçam Ulisses. Isso é muito bom, dado que esse romance é repleto de trocadilhos e referências esotéricas, e os guias de leitura explicam tudo. Entretanto, pular de guia em guia é bastante enfadonho. A melhor maneira de ler Ulisses, se a intenção é ter uma leitura agradável, é pular de cabeça, poupando todos os guias de leitura para um curso universitário.

3
Entenda que é um texto engraçado. Não, sério... são 700 páginas hilárias. A ideia central do romance é a de que Joyce pega os heróis épicos de Odisseia e os transforma nos patéticos Dublinenses. O final do episódio 4 destaca uma piada escatológica de 10 páginas na mesma linguagem erudita presente em Odisseia. Compreender que cada frase possui um substrato cômico implícito, seja uma referência esotérica à literatura ou um trocadilho sutil, transforma Ulisses numa comédia muito inteligente.

4
Você não entenderá tudo. Em especial porque foi assim mesmo que Joyce arquitetou seu livro. Não entender tudo é parte da piada, e há humor nisso. Ria sempre que você não captar algo, pois você acabou de participar de uma das mais brilhantes pegadinhas da literatura.

5
Não tenha pressa com cada capítulo. Dado que cada episódio é escrito de modo diferente, leva algumas páginas até acostumar-se com o ritmo.

6
Conheça o episódio. Visto que eles são divergentes em estilo, saber o que esperar logo de início pode ser de grande valia. Assim sendo, aqui vai uma lista de todos os episódios e seu traço cômico.
  • Episódio 1: Romance normal.
  • Episódio 2: Um catecismo informal.
  • Episódio 3: Monólogo masculino elitista.
  • Episódio 4: Provocações cômicas de grandes heróis do passado.
  • Episódio 5: A natureza hipnótica da religião.
  • Episódio 6: Morte.
  • Episódio 7: Caçoada ao jornalismo (é escrito como um jornal, preste atenção às manchetes).
  • Episódio 8: Trocadilhos com comidas. Tudo pode ser comido e tudo come neste capítulo.
  • Episódio 9: Zombaria a Hamlet e aos elitistas que debatem peças obscuras da literatura (também caçoando de alguns eruditos que posteriormente analisariam Ulisses).
  • Episódio 10: Esse capítulo em nada tem a ver com as personagens principais. É, ao contrário, um monte de contos acerca das personagens secundárias. O humor provém da falta de propósito e de que a maior parte das personagens secundárias fazem graça das principais.
  • Episódio 11: Tudo é um trocadilho musical. Muitas onomatopeias são usadas.
  • Episódio 12: Há dois narradores: um é muitíssimo coloquial, chegando ao ponto de não fazer sentido, e o outro é super científico, também beirando a falta de nexo. A competição entre ambos gera a comédia.
  • Episódio 13: Narrado por uma jovem menina, e tudo é uma piada sexual.
  • Episódio 14: Uma paródia bem elaborada de todos os figurões da literatura inglesa.
  • Episódio 15: Escrito como uma peça alucinógena no distrito da luz vermelha.
  • Episódio 16: Esse capítulo é bastante ambíguo, e a comédia surge da confusão de personagens por outras personagens.
  • Episódio 17: Escrito como um catecismo, o riso é provocado pela questão super científica e a resposta aplicada ao trivial.
  • Episódio 18: Fluxo de consciência da esposa de Bloom.
7
Use um esquema. Joyce escreveu dois organizadores gráficos, chamados de esquemas. Eles podem ser encontrados (em inglês) aqui:http://en.wikipedia.org/wiki/Linati_schema_for_Ulysses e aqui:http://en.wikipedia.org/wiki/Gilbert_schema_for_Ulysses


8
Leia em voz alta. Muitos trocadilhos fazem mais sentido quando escutados em voz alta.


9
Defina um cronograma. Ler esse romance é difícil, e por isso ter um cronograma planejado ajuda a não desistir da leitura.

10
Leia outras obras de James Joyce antes. Uma boa parte de Ulisses zomba de Dublinenses e Retrato do Artista quando Jovem, portanto lê-los antes lhe permitirá fazer contato com o estilo de Joyce e ter o conhecimento prévio necessário para algumas piadas do autor.

11
Anote. Ao entender uma piada, anote nas margens. Isso o auxiliará com outras piadas similares.


12
Ria. Essa é uma obra de ficção cômica. Ria alto. Ria de tudo. É divertido.



Dicas

  • Não desanime! Não é tarefa simples, mas é exequível.
  • Forme um grupo de amigos para ler com você. Duas cabeças pensam melhor que uma, em particular na tentativa de desvendar os trocadilhos complexos que James Joyce emprega.
  • Eu tinha 16 anos quando li Ulisses pela primeira vez. Se um adolescente consegue, você também pode.

Avisos

  • Ao começar a ler Ulisses, você começará a falar sobre Ulisses; ao falar sobreUlisses, você estará a um passo de perder amigos.

Materiais necessários

  • Uma cópia de Ulisses (de preferência uma com margens grandes).
  • Tempo.
  • Uma caneta para anotações.



13 de julho de 2017

Utopia Selvagem: Darcy Ribeiro







A ninguém é lícito viver impreterivelmente. 




Converteu, assim, a simples leitura na suprema forma de rezar. (p.81)







Preâmbulo da Introdução à Constituição Utópica




11 de julho de 2017

O Mundo de Vidro - livro de William Lial



O Mundo de Vidro, do poeta, ensaísta literário e cronista, William Lial, é um livro de poemas belíssimo que encanta o leitor desde as páginas iniciais até o final, deixando uma sensação muito boa, a de não querer que termine a leitura.

O sol, o vento, as nuvens, o céu, a lua, permeiam as páginas suavizando as letras árduas, assim como as lágrimas, a solidão e o silêncio passam dilacerando a alma. Até a ignorância, o não saber, não passaram despercebidos, mas em oposição ao conhecimento que “pode” ser muito bom como também, tirar a tranqüilidade do homem ao trazer questionamentos acerca da vida cotidiana, do mundo.

William Lial, utilizando-se de “papel e caneta” é um “escriba” que dribla as letras, contorce as palavras para o nosso deleite.

Encontramos também entre os poemas um “deserto” que nos inspira a dor, a sequidão, a lágrima e a luta diária.

A amizade – Ah! Esta o poeta conserva, lapida dia após dia como pedra preciosa.

A chuva convida o poeta a bailar com os seus encantos, mas ele parece esconder-se entre os livros a procura de palavras tristes, melodiosas...

Os versos do poeta nos levam a uma trilha de êxtase, contemplação, mesmo quando a aridez sufoca a garganta.

Assim, “O Mundo de Vidro” nos coloca diante da fragilidade humana, dos paradoxos que tiram ou dão sentido à vida.

                                         Sonia Salim


William Lial é escritor (poeta, cronista, contista, romancista de um romance ainda não publicado), ensaísta literário, e mestre em Literatura Comparada. Autor de três livros de poemas, Sombras (2001), Noturno (2003) e O mundo de vidro (2005). Além de colaborar com jornais e revistas do país. Para saber mais sobre o autor e seus livros basta acessar e/ou seguir seu blog: http://williamlial.blogspot.com/, curtir sua página no Facebook: https://www.facebook.com/WilliamLialEscritor ou contatá-lo por e-mail: wlial1208@gmail.com.




8 de julho de 2017

Frases que não devemos esquecer


Cada um de nós deve ter aquelas frases que norteiam nossas ações no dia a dia ou que servem de referências em várias situações. Alguns gostam de rituais e simbolismos que utilizam para dar cor e tempero as suas decisões e passos na vida, etc. Elenir nos enviou quatro frases recomendadas por um psiquiatra que funcionariam como regras básicas para  melhor  convivermos com o outro, estimulando o Amor Próprio e a Interdependência Emocional.


1-Aprender a não se cobrar tanto;

2-Aprender a dizer não sem culpa;

3-Aprender a dar limites;

4-Aprender a  não ter muitas expectativas sobre as pessoas.


Não ter expectativas sobre as pessoas é pedra no sapato de muita gente. Mais difícil ainda  é dar limites, mas sem ferir o outro, ou pelo menos ferindo-o o mínimo possível.  Algumas pessoas dizem que precisam aprender a puxar o freio da primeira, que é a mais difícil (ou dificílima) para elas. Elenir acredita, no entanto, que essas quatro regras não ajudam, apenas, a convivência com o outro, mas, também, e  principalmente, com nós mesmos.


E você, quais são as suas frases?


  • "O inevitável é sempre o melhor" (provérbio chinês). - Evandro



7 de julho de 2017

O luzir e a cobiça do ouro

Por Wagner Medeiros Junior                                      
Resultado de imagem para Extração de ouro em Minas Gerais

Ao contrário dos espanhóis, que na metade do século XVI já haviam dizimado boa parte do ouro dos Impérios Maias, Incas e Astecas, e começavam a explorar as imensas minas de prata encontradas em Potosi, na atual Bolívia, os portugueses só acharam ouro no Brasil, pelas mãos dos bandeirantes paulistas, ao final do século XVII. Até então, a riqueza extraída da terra exigia muito trabalho e resumia-se quase que exclusivamente a exploração do Paubrasil e ao plantio da cana de açúcar para os engenhos.
Nessa época, o comércio das especiarias na rota do Atlântico para as Índias já se encontrava em pleno declínio e Portugal regressava a condição de um reino pobre, quase falido. Então, o rei D. Pedro II (1648-1706), de Portugal, para incentivar a descoberta de pedras e metais preciosos aboliu o monopólio da Coroa e decretou que “descobrindo uma mina rica, esta caberá ao interventor, ficando este obrigado a pagar apenas uma quinta parte”, o Quinto, o que incentivou a corrida em busca de minerais preciosos no Brasil.
A notícia da descoberta do ouro de aluvião em farta quantidade na região que viria a ser a capitania de Minas Gerais - criada em 1720 - como também depois em Goiás e no Mato Grosso, espalhou-se rapidamente. Isto motivou um ciclo migratório para as regiões auríferas e fomentou um período de grande prosperidade econômica. Consecutivamente, no reinado de D. João V (1706-1750) a Coroa portuguesa passou a depender cada vez mais do ouro extraído da América, como atestou o duque de Cadaval, em 1715, ao dizer que “do Brasil depende hoje absolutamente muita parte da conservação de Portugal”.
Entretanto, a cobrança do Quinto e dos demais impostos pela Fazenda Real engendrou a insatisfação dos mineradores e comerciantes locais, em razão da rigidez dos controles instituídos para evitar o descaminho. Em 1720, por exemplo, Vila Rica se levantou contra a criação das casas de fundições, que para inibir a circulação do ouro em pó e evitar o contrabando, obrigou que todo o metal fosse fundido. Nesse processo a Fazenda Real retirava o Quinto no momento em que legalizava o ouro em barra, carimbando-o para livre circulação.
Todo o Quinto era de propriedade do rei, que bem podia fazer dele o que quisesse, sem prestar obediência a ninguém. Os outros impostos estabelecidos pela Coroa eram o Dízimo, que se destinava a manutenção da igreja, e as Entradas, cujo produto servia a manutenção da máquina de governo, da mesma forma que a taxa de Passagens. Com freqüência a Coroa ainda lançava outras taxas para a execução das obras públicas, que não contavam com orçamento específico.
Exceto o Quinto, a arrecadação dos demais impostos e taxas, inclusive do Dízimo, era terceirizada pela Fazenda Real aos Contratadores, através de leilões. Aquele que oferecesse o melhor lance ganhava o contrato, que geralmente valia por três anos. Ao final desse prazo o Contratador ficava obrigado a repassar à Fazenda Real o valor combinado, independente de obter lucro ou não. Tal prática visava evitar o desvio na cobrança dos impostos por agente corruptos.
O imposto das Entradas era cobrado pelo peso das mercadorias. Desta forma, as mais valiosas tais como joias e tecidos de luxo pagavam poucos impostos, enquanto alimentos, ferramentas e utensílios de ferros para a exploração das minas ficavam demasiadamente majorados. Já o imposto de Passagem incidia sobre cada pessoa ou animal que transitasse pelos postos fiscais de cobrança. Em cada um desses pontos a Fazenda Real mantinha a sua fiscalização, para evitar o descaminho.
Contudo, não obstante ao policiamento, a pesada burocracia e ao controle ferrenho da produção do ouro, o contrabando nunca era contido. Os contrabandistas usavam da criatividade e encontravam sempre um modo de escapar da fiscalização por trilhas e caminhos alternativos adentrando pelas montanhas mineiras. 

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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior























28 de junho de 2017

Relembrando leituras passadas do Clube Jovem - O Continente, vol.1: Érico Veríssimo





Ops! ATENÇÃO!

Excepcionalmente este mês, o Clube de Leitura Jovem ocorrerá QUARTA-FEIRA AGORA, dia 22 de julho!

Vocês já sabem que o Clube de Leitura Jovem ocorre a toda penúltima quinta-feira do mês na Livraria Icaraí. Contudo, só dessa vez, tivemos de rearranjar datas.

É com grande prazer que convidamos vocês para o debate do livro "O Continente", de Erico Verissimo, quarta-feira agora (22) às 18h na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9). 


O romance nos ensina sobre os processos de formação do Rio Grande do Sul e do Brasil; uma das obras mais importantes da história do país.


Vem também, tchê! Vai ser ótimo. 





"Uma geração vai, e outra vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos." O Continente, livro do dia 22/07.


Quem anda cego de amor não sabe se é noite ou se é dia






"Nenhum homem é uma ilha, 
mas um pedaço do Continente… 
a morte de qualquer homem me diminui, 
porque eu estou envolvido na Humanidade…"




Aventura, guerra e romance são elementos presentes na história dos Terra e dos Cambará, famílias fictícias que conduzem "O continente", de Erico Verissimo. O romance dá início à saga "O tempo e o vento", cujo pano de fundo são os acontecimentos principais da formação do Rio Grande do Sul.

Apaixone-se pelo povoado de Santa Fé, prepare um mate quentinho e venha compor essa discussão no próximo Clube de Leitura Jovem, dia 23 de julho, às 18h na Livraria Icaraí! wink emoticon Aguarde por mais informações e até lá, tchê!






A Salamanca do Jarau

No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia.

Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.

Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.

Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre. Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.

Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.

No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.

Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.

No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.

Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois. Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau.

Quem tivesse coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o resto da vida.

Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul.


Ah, ali vive também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.





Dona Picucha Terra Fagundes, toda vestida de preto, pele de marfim, olhos de noz moscada, buço cerrado, verruga no queixo, xale xadrez e chinelas de ourelo. 
Dona Picucha Fagundes, uma coisa vou dizer: quem um dia entrou em vossa casa nunca mais há de esquecer 
seu cheiro de flor e pão quente 
o pintassilgo da gaiola 
os manjericões da janela 
os ratos que espiam nos buracos dos rodapés e que vós tratais como pessoas da família. 
Quem passou pela vossa casa, ainda que viva cem anos, há de sempre recordar vossas mãos ágeis que fazem renda de bilro 
vossas mãos frescas e secas, boas para espremer queijo 
vossas belas mãos afeitas a acariciar cabeças de filhos, netos e gatos 
vossas ligeiras mãos que sabem curar feridas de gentes e bichos 
vossas rapadurinhas de leite 
vossos lençóis cheirando a alfazema 
vossos chás caseiros 
vossos óculos na ponta do nariz 
vossas cantigas 
vosso oratório onde sempre há velas acesas 
e a vela solitária que às vezes acendeis no meio do pátio para o Negrinho do Pastoreio. 
Quem um dia passou pela vossa casa há de guardar para sempre na memória 
os causos que contais de Carlos Magno e os Doze Pares de França 
os vossos fabulosos causos de assombrações e mistérios, princesas e fadas, lagoas brabas e salamancas. 
Dona Picucha Terra Fagundes: 
Quem vos ensinou essas histórias e rezas e receitas, essas cantigas antigas e essas estranhas simpatias que tudo podem curar?




O pe. Lara sabia como era custoso obter informações certas. As pessoas dificilmente contavam as coisas direito. Mentiam por vício, por prazer ou então alteravam os fatos por causa de suas paixões. Cenas da vida cotidiana que se tinham passado sob o seu nariz, ali mesmo na praça de Santa Fé, eram depois relatadas na venda do Nicolau duma maneira completamente diferente. Como era então que a gente podia ter confiança na história? Passou-lhe, então, pela mente a lembrança da importância que tinha para a Igreja Católica a tradição oral... Ora, estava claro que com a Igreja, que era divina, a coisa era diferente. Mas seria mesmo diferente? 





O mundo do capitão Rodrigo

Rodrigo não podia esconder seu orgulho e sua satisfação por ter um filho macho. Brincava com a criança como uma menina brinca com sua boneca e às vezes não podia deixar de dar voz à sua impaciência diante do fato irremediável de que a criança levaria anos para crescer, fazer-se homem e poder chegar à idade de botar pistola e espada na cintura e sair a burlequear pelo Continente. 

— O mundo está errado! — disse ele um dia ao vigário, quando ambos conversavam na frente da venda, após o jantar. — Por que é que cavalo cresce tão depressa e gente leva tanto tempo? 

O padre, que palitava os dentes com um espinho de laranjeira, encolheu os ombros e respondeu, meio vago: 

— Deve ser porque cavalo vive menos. 

— Também está errado. Um cavalo devia viver tanto como uma pessoa. 

O pe. Lara olhou para o capitão longamente antes de falar. Fazia meses que vinha notando mudanças nele. O homem simplesmente andava desinquieto, irritadiço. Tudo indicava que aquela vida sedentária, atrás dum balcão, começava a entediá-lo. Não fora feito para aquilo. Para falar a verdade, também não fora feito para o matrimônio, ou melhor, para ter uma mulher só. E o vigário se inquietava, pois de certo modo se sentia responsável perante Pedro e Arminda Terra por aquele casamento, do qual era uma espécie de fiador. Se o signatário da letra de que ele era avalista fugisse e ele fosse chamado a pagar a dívida, que poderia fazer ou dizer? Soltou um suspiro e perguntou: 

— Se vosmecê fosse o criador do mundo, como é que fazia as coisas e as pessoas? 

Rodrigo apanhou um seixo, fez pontaria numa árvore e arremessou-o, errando o alvo. 

— Se eu fosse dono do mundo, fazia algumas mudanças... 
— Por exemplo... — pediu o padre. 

— Acabava com essa história de trabalhar... 

— Sim, e depois? 

— Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho. 

O vigário sorria. Aquelas palavras, partidas dum egoísta, não deixavam de ter seu valor. 

— E depois? 

— Dividia essas grandes sesmarias de homens como o coronel Amaral. 

— Dividia? Como? Pra quê? 

— Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada índio, pra cada negro. 

— Não vá me dizer que ia libertar os escravos... 

— E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente. 

O padre ria, e o riso encatarroado que o sacudia todo depois se transformou num acesso de tosse que acabou por deixá-lo ofegante e cansado. 

— Vosmecê é das arábias, capitão. Mas continue com o seu mundo... Que mais? 

Dentro da casa Bolívar chorava. E Bibiana, ninando-o, cantava as cantigas de Ana Terra. 

— Ah! Eu ia m’esquecendo. Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo. 

— E como é que vosmecê ia se arranjar, indo dum país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua? 

— Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes... 

Rodrigo fez uma pausa e ficou pensativo. 

— Que mais? 

— Acabava também com a velhice. 

— Acabava? 

— Quero dizer, ninguém envelhecia mais... 

— Nem morria? 

— Morrer... morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras. 

O vigário mordeu o palito, fez avançar a cabeça na direção do outro: 

— Vosmecê não ia também acabar com as guerras? 

Rodrigo por um instante pareceu confuso. Depois respondeu, lento: 

— Bom...Acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando ficava tudo muito enjoado. 

— Ia ser um mundo bem esquisito... 

— Mas não mais esquisito que este nosso, padre. 

— Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito. 

— Mas hai muita coisa torta por aí. 

— Que há, há... 

Rodrigo abafou um bocejo. Depois, olhando para os lados como para ver se ninguém o escutava, cochichou: 

— Outra coisa, padre. No meu mundo não ia haver casamento. Um homem podia ter quantas mulheres quisesse. Dez, quinze, vinte, mil... 

— E se dois homens desejassem a mesma mulher? 

Rodrigo respondeu indiretamente com uma pergunta: 

— Pra que é que serve a espada? Pra que é que serve a adaga? E a pistola? 

O vigário procurou resumir as aspirações do amigo através do que ouvira e do que sabia dele por observação direta durante aquele ano: 

— Noutras palavras, capitão, seu desejo mesmo é andar correndo mundo, sem pouso certo, sem obrigação marcada, agarrando aqui e ali uma mulher como quem apanha fruta em árvore de beira de estrada... De vez em quando uma partidinha de truco ou de solo, um joguinho de osso, umas carreiras e, para variar, uma peleia... Não é isso? 

Rodrigo sacudiu a cabeça lentamente. 

— Mais ou menos. 

O choro do menino cessara, mas Bibiana ainda cantava baixinho. Um cão ladrou para os lados da casa dos Amarais. Por longo tempo os dois amigos ficaram em silêncio, olhando o céu estrelado. Rodrigo pensava na mulher com quem dormira todas as noites que passara no Rio Pardo: era uma mulata clara, de olhos verdes, com uma voz doce como arroz de leite e um corpo que cheirava a fruta madura quente de sol. O pe. Lara pensava na noite que iria passar... horas de aflição, sem ar e sem sono. A solidão de seu quarto era tão grande que ele às vezes ia para a capela e lá ficava orando e meditando, olhando para a imagem de Nossa Senhora, como que a buscar-lhe a companhia. Quase ao amanhecer caía no sono e dormia no chão, sobre as tábuas duras. 

— Mas o mundo não é o que a gente quer — disse ele, quebrando o silêncio. — É o que é. 

— Eu sei que ele é o que é. Mas a gente não deve se entregar. Deve lutar para conseguir as coisas que quer. Não há muita gente disposta a dar. Às vezes é preciso tirar à força. 

— Cada qual luta a seu modo, meu filho. Cada qual luta por um ideal. Houve homens que lutaram para libertar o Brasil dos portugueses. 

— Mas os galegos estão aí mesmo — retorquiu Rodrigo. — Nas tropas os oficiais portugueses mandam mais que os brasileiros. No fundo a independência não mudou nada. 

— Mas deixe-me terminar o pensamento. Uns lutam de arma na mão pela sua pátria. Eu luto pela minha fé. Vosmecê não acha que eu podia encontrar uma vida melhor se tivesse ficado em São Paulo e seguido o comércio como os meus irmãos fizeram? 

— Rodrigo sacudiu a cabeça. 

— Pois é. Estou aqui porque esta gente em geral vive sem Deus.Vosmecê sabe que um padre também é chamado um pastor. É porque os paroquianos são como ovelhas. É preciso proteger os rebanhos contra os guarás, os tigres, as onças-pintadas. Mas de que é que vosmecê está rindo? Ao luar ele via a cara do capitão, toda aberta num sorriso irônico. 

— Me lembrei do coronel Amaral. 

— E que é que ele tem a ver com a nossa conversa? 

— Tem muito. Ele é um leão baio. E dos grandes! E vosmecê parece ser mais do lado dele que do lado das ovelhas, padre. 

O pe. Lara empertigou-se sobre a banqueta. 

— Não compreendo — disse. Mas compreendia perfeitamente o que o outro insinuava. 

— Vosmecê sabe como ele trata os escravos... — continuou Rodrigo. — Para ele negro não merece ser considerado gente. Vosmecê sabe como ele trata os peões e os agregados. E vosmecê não ignora que ele tem mandado matar gente... 

O pe. Lara estava meio sufocado. Que conversa para depois do jantar! Seu ressentimento, sua confusão lhe tiravam a clareza das ideias e ao mesmo tempo lhe roubavam o fôlego. Passaram-se alguns momentos antes que ele pudesse falar. 

— Mas não há provas! — exclamou por fim. 

— Provas do quê? 

— De que foi o coronel Amaral que mandou matar aqueles homens. 

E ao dizer essas palavras ele baixou a voz e olhou a medo para os lados. 

Rodrigo soltou uma risada: 

— Ora, padre, todo mundo sabe! 

— E depois vosmecê deve saber que muitas vezes fui falar com o coronel para interceder por um escravo, por um peão. Ele me ouve muito. 

Rodrigo desabotoou a camisa e puxou-a para fora das bombachas. Sentia calor. Não havia a menor viração na noite cálida. 

— Conheci muitos padres por esse mundo velho que tenho corrido. Eles nunca estão contra o governo. 

— A Igreja não é revolucionária — exclamou o vigário. — A Igreja não é lugar de conspirações. Ela representa o poder espiritual, que está acima, muito acima do temporal. 

— Não me venha com essas palavras difíceis, padre, que eu não entendo. Fale claro. Temporal pra mim é mau tempo. Mas, falando sério, amigo Lara, cá pra nós no maior segredo, vosmecês nunca se arriscam a ir contra o governo, não é mesmo? 

O padre rosnou alguma coisa ininteligível. Depois sua voz se fez clara e ele murmurou: 

— Não é a Igreja que está com o governo. É o governo que está com a Igreja. 

— Ahá! — e a gargalhada de Rodrigo encheu aquele pedaço da noite que parecia envolver a casa. — Quando nós brigamos com os castelhanos, nossas bandeiras e nossas espadas eram benzidas aqui pelos padres católicos. E os padres católicos lá da Banda Oriental faziam o mesmo com as bandeiras e as espadas dos castelhanos. Como é que se explica isso? 

— Isso prova que a Igreja Católica é universal. Está acima das paixões e dos interesses dos homens, que são todos iguais perante Deus. 

— Iguais? Até os negros? 

O padre teve um levíssimo instante de hesitação — não porque considerasse os negros animais, mas porque lhe passou pela cabeça uma dúvida quanto à maneira como o outro podia usar sua resposta. 

— Até os negros, claro. 

...

— Meu filho, aprenda uma coisa. Por que é que a Igreja tem sobrevivido através de todos estes séculos?

 - Por quê?

- Passam os reis, os conquistadores, os generais, os filósofos... passa tudo. Mas a Igreja fica. Alguns pensam que é porque ela é de origem divina. — Piscou um olho e pegou na fralda da camisa do outro. — Mas eu acho, e Deus me perdoe a irreverência, que é um pouco porque nós os sacerdotes somos realistas. Realistas, está ouvindo? Vosmecê sabe o que é um realista?

— Um homem do lado do rei?

O pe. Lara sacudiu a cabeça numa ardorosa negativa.

— Não. Um realista é um homem que nunca dá murro em ponta de faca. Deixa que os outros deem... Boa noite, capitão, durma bem.

— Boa noite, vigário.

* * *

- Mas quem foi que lhe disse que a Bibiana gosta dele?

Só naquele instante é que o padre percebeu que os Terras quase sempre principiavam suas sentenças com um mas; era o sinal de que estavam sempre discordando do que os outros diziam. Era a gente mais cabeçuda, mais teimosa que ele conhecia.

...

- Ela pode gostar um pouco dele. Mas vai acabar esquecendo.

Arminda ergueu a cabeça.

- Esquecendo? - repetiu. - A Bibiana é bem como a avó, dessas que só gostam dum homem em toda a vida. Essas nunca esquecem.

...

Pedro pôs-se de pé e gritou:

- Bibiana!

A moça apareceu.

- É verdade que vosmecê gosta deste tal Cap. Rodrigo?

Bibiana baixou os olhos. Viu as botas embarradas do pai, mas viu principalmente a face do Cap. Rodrigo. Tinha chegado a hora decisiva. Se mentisse, perderia o homem que amava. Se dissesse a verdade, poderia perdê-lo também, mas pelo menos ficaria, com o consolo de não ter mentido. Aconteça o que acontecer - resolveu - vou dizer a verdade. Sem erguer a cabeça, balbuciou:


- Gosto, papai.



- E vosmecê sabe que eu não gosto dele?



- Sei, sim senhor.



- E mesmo assim quer casar com ele?



- Eu não sei se ele quer casar comigo . . .



- Está visto que quer! Mas vosmecê está resolvida a arriscar a ser infeliz?



Ela ficou em silêncio por alguns segundos.



- Estou - disse, erguendo o rosto e encarando o pai.



O padre olhou para Pedro e sentiu um calafrio. O que via nos olhos, no rosto daquele homem era ciúme, um ciúme surdo, escondido, que ardia como brasa viva sob a cinza.



- Vosmecê alguma vez falou com esse homem? - tornou a perguntar Pedro Terra.



- Nunca, papai.



- E se eu lhe proibisse de falar com ele, que é que vosmecê fazia?



- Obedecia.



- E ficava triste?



- Ficava.



- Ficava com raiva de mim?



- Como é que a gente vai ficar com raiva do pai?

- Mas não acha que um dia vosmecê podia esquecer esse homem?

- Não acho, não senhor.

- Por quê?

- Porque sei o que sinto.

- Escute, minha filha. - A voz de Pedro ficou mais branda e ele chegou a dar um passo na direção da moça. O padre olhou para Arminda e viu que as mãos dela tremiam. - Vosmecê nunca se interessou por homem nenhum . . .

Bibiana meneou a cabeça afirmativamente.

- E vosmecê não sabe - continuou o pai - que esse homem não tem nada de seu a não ser um cavalo, um violão e uma espada? Que esse homem não tem nenhum ofício e nenhuma serventia? Não vê que vosmecê pode ser infeliz com ele, sempre com medo que ele possa abandonar a casa duma hora pra outra, e ir pra alguma aventura ou seguir outra mulher? Não sabe?

- Sei.

- E assim mesmo quer casar com ele?

- Se ele quiser, eu quero.

O padre agora via na moça a decisão de Ana Terra: o mesmo jeito de falar, quase a mesma voz. Teve saudade da velha, com quem costumava manter longas conversas ao pé do fogão, nas noites de inverno.







"E ao outro dia, como saíssem de Betânia, teve fome. E tendo visto ao longe uma figueira, foi lá a ver se acharia nela alguma coisa; e quando chegou a ela, nada achou, senão folhas, porque não era tempo de figos. E falando-lhe disse: Nunca jamais coma alguém fruto de ti para sempre; o que os discípulos ouviram. E no outro dia pela manhã, ao passarem pela figueira, viram que ela estava seca até as raízes." 

















"Noite de vento, noite dos mortos...”   






Observo que quanto mais simplicidade de maneiras e conversa imprimo a meus atos, menos deferência recebo. Os habitantes da Capitania do Rio Grande estão de tal modo habituados ao militarismo e ao ar carrancudo dos oficiais, que não acreditam em que uma pessoa simples e honesta possa ter importância.     


* * *


Sou valente com as armas,
sou guapo como um leão. 
Índio velho sem governo
Minha lei é o coração.

Fui soldado, sentei praça,
já servi numa guarita,
agora sou ordenança
de toda moça bonita.

Esta noite dormi fora,
na porta do meu amor;
deu o vento na roseira
me cobriu todo de flor.


Ana Terra & Pedro Missioneiro

Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando.
— Ana Terra


Noite medonha... Noite medonha... Rodrigo não se erguia. Não sabia que era que o prendia àquela cadeira. Uma teimosia, uma vontade de contrariar os outros, um medo de... Medo de quê? Escutou o vento. "Sua filhinha está muito mal..." Pois que esteja. Mulher não faz falta no mundo. Que morra! As mulheres são falsas. Helga Kunz é uma cadela. Que morra! Não sou curandeiro. Melhor é não ver nada. Não tem mais remédio. É questão de horas. Não me adianta nada ir. Não gosto de choro. Um dia a guerra vem. Tudo se resolve. A guerra e o tempo. Remédio pra tudo.


A Rosa Mística de Dali

— Nossa mente é como uma grande e misteriosa casa, cheia de corredores, alçapões, portas falsas, quartos secretos de todo o tamanho, uns bem, outros mal iluminados. No fundo desse casarão existe um cubículo, o mais secreto de todos, onde estão fechados os nossos pensamentos mais íntimos, nossos mais tenebrosos segredos, nossas lembranças mais temidas. Quando estamos acordados usamos apenas as salas principais, as que têm janelas para fora. Mas quando dormimos, o diabo nos entra na cabeça e vai exatamente abrir o cubículo misterioso para que as lembranças secretas saiam a assombrar o resto da casa.


Teiniaguá 
a malvada princesa moura que desgraça nossa vida

Eta mundo velho sem porteira!



Quais são teus inimigos?


Os bugres, as feras, as cobras, os castelhanos e o Regimento de Dragões.

E teus amigos?

Meu cavalo, meu mosquete, minhas garruchas, meu facão.




Não sou como quero-quer, que canta pra um lado e tem ninho pra outro.

Não só de pão vive o homem, mas só de carne pode viver. 




O Continente - Érico Veríssimo
O Continente - Érico Veríssimo