CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

6 de julho de 2018

O idiota: Dostoiévski

Haicais de Elenir inspirada no livro "O idiota"

Mulher e poesia.  
Também, beleza e cultura.

Comunhões felizes.

O homem é mais feliz
enquanto aguarda a chegada
do que ao realizá-la

Coisas inefáveis:
O rosto de uma criança,
o nascer do sol...





...O Catolicismo é o mesmo que uma fé não cristã! – acrescentou de repente [o príncipe], com os olhos brilhando, olhando à sua frente e ao mesmo tempo correndo a vista por todos.
-- Ora, isso é demais – proferiu o velhote e olhou surpreso para Ivan Fiódorovitch.
-- Então como é que o Catolicismo é uma fé não cristã?— virou-se na cadeira Ivan Petróvitch. – Então, que fé é?
-- Uma fé não cristã, em primeiro lugar – tornou a falar o príncipe com uma inquietação extraordinária e com uma nitidez fora da medida. – Isso em primeiro lugar; em segundo, o Catolicismo romano é até pior do que o próprio ateísmo, é essa a minha opinião! Sim! É essa a minha opinião! O ateísmo também prega o nada, mas o Catolicismo vai além: prega um Cristo deformado, que ele mesmo denegriu e profanou, um Cristo oposto! Ele prega o anticristo, eu lhe juro, lhe asseguro! Esta é uma convicção minha e antiga, e ela me atormentou... O Catolicismo romano acredita que sem um poder estatal mundial a Igreja não se sustenta na Terra e grita: “Non possumus!” A meu ver, o Catolicismo romano não é nem uma fé mas, terminantemente, uma continuação do Império Romano do Ocidente, e nele tudo está subordinado a esse pensamento, a começar pela fé. O papa apoderou-se da Terra, do trono terrestre e pegou a espada; desde então não tem feito outra coisa, só que à espada acrescentou a mentira, a esperteza, o embuste, o fanatismo, a superstição, o crime, brincou com os próprios santos, com os sentimentos verdadeiros, simples e fervorosos do povo, trocou tudo, tudo por dinheiro, pelo vil e poderoso poder terrestre. Isso não é uma doutrina anticristã?! Como o ateísmo não iria descender deles? O ateísmo derivou deles, do próprio Catolicismo romano! (...)
-- O senhor e-xa-gera muito – arrastou Ivan Petróvitch com um certo tédio e até como que meio envergonhado por algo – na Igreja de lá também há representantes dignos de qualquer respeito e be-ne-méritos...
--Eu nunca falei de representantes isolados da Igreja. Estou falando do Catolicismo romano em sua essência, estou falando de Roma. Por acaso a Igreja pode desaparecer totalmente? Eu nunca disse isso!
-- Concordo, mas tudo isso é sabido e inclusive – desnecessário e... pertence à teologia.
-- Oh, não, oh, não! Não só à teologia, eu lhe asseguro, lhe asseguro que não! Isto nos afeta muito mais de perto do que o senhor imagina. Todo o nosso equívoco está aí, em ainda não conseguirmos perceber que essa questão não é só e exclusivamente teológica! Porque o socialismo é criação do Catolicismo e da essência católica! Ele, como seu irmão o ateísmo, também foi gerado pelo desespero, em contraposição ao Catolicismo no sentido moral, para substituir o poder moral perdido da religião, para saciar a sede espiritual da humanidade sequiosa e salvá-la não por intermédio de Cristo, mas igualmente da violência! (...)

(p. 607)


A senhora leu um número exagerado de poemas e é instruída demais para a sua condição; a senhora é uma mulher livresca e boa vida. (p.633)


Nastácia Filíppovna

"Quem quiser poderá enganá-lo, e quem quer que o engane ele depois perdoará, a todo e qualquer um, e foi por isso que eu o amei." (p. 633)





Nada de ficar perturbado também com o fato de que somos ridículos, não é verdade? Porque é realmente assim, nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos, e tanto os senhores quanto eu, quanto eles! (..) Sabem, eu não compreendo como se pode passar ao lado de uma árvore e não ficar feliz por vê-la! Conversar com uma pessoa e não se sentir feliz por amá-la! Oh, eu apenas não sei exprimir... mas, a cada passo, quantas coisas maravilhosas existem, que até o mais desconcertado dos homens as acha belas? Olhem para uma criança, olhem para a alvorada de Deus, olhem para a relva do jeito que cresce, olhem para os olhos que os olham e os amam..."


"Passe ao largo da gente e nos perdoe pela nossa felicidade"




by MelloRocks
Crianças e pássaros
o mundo enfeitam e alegram,

igualmente; ao príncipe.

Cultura, beleza
e educação ornamentam

a sociedade.

Mulher e poesia
uma feliz comunhão.

Sem falar em dote.

(Elenir)




Você não tem ternura: só verdade, portanto, é injusto.

Aí só há verdade, é até injusto. 




Entretanto a intranquilidade do príncipe crescia de minuto a minuto. Ele andava pelo parque olhando distraído ao redor e parou surpreso quando se aproximou da pista diante da estação e avistou uma série de bancos vazios e as estantes para a orquestra. Ficou admirado com o lugar e algo o fez achá-lo horrível. Tomou o caminho de volta e, seguindo direto por onde passara na véspera com as Iepántchin rumo à estação, chegou ao banco verde que lhe haviam designado para o encontro, sentou-se e súbito deu uma gargalhada, o que de imediato o deixou sumamente indignado. Sua melancolia continuava; estava com vontade de ir a algum lugar... não sabia para onde. Numa árvore, acima dele, cantava um pássaro, e ele ficou a procurá-lo entre as folhas com a vista; súbito o pássaro levantou voo da árvore, e por alguma razão no mesmo instante veio-lhe à lembrança a “mosca” na “réstia quente do sol”, sobre a qual Hippolit escrevera que até “ela conhece o seu lugar e é uma participante do coro geral, ao passo que ele é apenas um aborto”. Essa frase o deixara estupefato ainda há pouco, agora ele a memorizava. Uma lembrança há muito esquecida mexeu-se dentro dele e súbito se esclareceu de uma vez.
Isso havia acontecido na Suíça, no primeiro ano do seu tratamento, até mesmo nos primeiros meses. Naquela época ele ainda era inteiramente como um idiota, não era capaz nem de falar direito, às vezes não conseguia entender o que estavam querendo dele. Uma vez subiu às montanhas em um claro dia de sol, e andou demoradamente com um pensamento angustiante que, todavia, de modo algum se materializou. Diante dele havia um céu brilhante, embaixo um lago, ao redor um horizonte claro a não acabar mais. Ficou muito tempo a olhar e atormentar-se. Agora recordava que havia estendido as mãos naquele azul-claro e sem fim e chorado. Atormentava-o o fato de que ele era totalmente estranho àquilo tudo. Que festim é esse, que grande e sempiterna festa é essa que não tem fim e que há muito o vem arrastando, sempre, desde a infância, e à qual ele não encontra meio de juntar-se. Toda manhã nasce esse mesmo sol claro; toda manhã há arco-íris na cachoeira; toda tarde a montanha nevada, a mais alta de lá, ao longe, nos confins do céu, arde em chama purpúrea; cada “pequena mosca, que zune ao seu lado na réstia quente do sol é uma participante de todo esse coro: conhece o seu lugar, gosta dele e é feliz”; cada pé de relva cresce e é feliz! E tudo tem o seu caminho, e tudo conhece o seu caminho, sai cantando e chega cantando; só ele não sabe de nada, não compreende nada, nem as pessoas, nem os sons, é estranho a tudo e é um aborto. Oh, ele, é claro, não pôde falar naquele momento com essas palavras e externar a sua pergunta; atormentava-se de forma surda e muda; mas agora lhe parecia que dissera tudo e naquela ocasião, todas essas mesmas palavras, e que a respeito daquela “mosca” Hippolit falara com palavras dele mesmo, de suas palavras e lágrimas naquele momento. Ele estava certo disso e, sabe lá, seu coração batia movido por esse pensamento...
Caiu no sono no banco mas a sua inquietação continuou até em sonho. Bem antes de adormecer lembrou-se de que Hippolit iria matar dez pessoas e riu do absurdo da suposição. Ao seu lado fazia um silêncio maravilhoso, sereno, apenas com um farfalhar de folhas que, parece, provoca ainda mais silêncio e solidão ao redor. Teve muitos sonhos e todos sobressaltados, que o fizeram estremecer a cada instante. Por fim uma mulher veio ter com ele; ela a conhecia, e a conhecia a ponto de sofrer; ele sempre foi capaz de dizer seu nome e apontá-la mas - coisa estranha - agora era como se o rosto dela não tivesse nada daquele rosto que ele sempre conhecera, e era com angústia que ele se negava a reconhecer nela aquela mulher. Neste rosto havia tanto arrependimento e horror que, parecia, era uma assassina terrível e acabava de cometer um crime horrendo. Uma lágrima lhe tremia na face pálida; ela o chamou com um aceno de mão e pôs um dedo nos lábios como se o prevenisse para que a acompanhasse em silêncio. O coração dele parou; por nada, por nada ele queria reconhecer nela a criminosa; mas ele sentia que agora mesmo ia acontecer alguma coisa terrível para toda a sua vida. Parecia que ela queria lhe mostrar alguma coisa, ali mesmo perto do parque. Ele se levantou a fim de segui-la, e de súbito ouviu-se ao seu lado um riso radiante e fresco de alguém; súbito a mão de alguém se viu entre as mãos dele; ele agarrou essa mão, apertou-a com força e acordou. Aglaia estava à sua frente e ria alto.



Há muito tempo ela já me havia esclarecido a teu respeito, mas há pouco eu mesmo observei como tu estavas sentado com ela ouvindo música. Ela me jurou por Deus, ontem e hoje, que tu estás apaixonado como um gato por Aglaia Iepántchina. Para mim, príncipe, isso dá no mesmo, e além do mais não é da minha conta: se tu deixaste de amá-la, ela ainda não deixou de te amar. Tu mesmo sabes que ela está querendo te casar forçosamente com a outra, deu essa palavra, eh-eh! Diz ela para mim: “Sem isso eu não me caso contigo, eles na igreja, nós também na igreja”. O que existe aí não consigo compreender e nunca compreendi: ou ela te ama ilimitadamente ou... se ama, então como quer te casar com outra? Diz ela: “Quero vê-lo feliz” - logo, quer dizer que ama.




"Um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama"

x

"É possível anunciar a verdade de forma a convencer as pessoas em 15 minutos"


😑😑😑


"Teve um ataque de epilepsia, que há muito tempo o havia abandonado. Sabe-se que os ataques de epilepsia, a própria epilepsia, passam num instante. Nesse momento o rosto e particularmente o olhar sofre uma deformação instantânea e extraordinária. As convulsões e os tremores dominam todo o corpo e todos os traços do rosto. Um lamento terrível, inimaginável e sem semelhança desprende-se do peito; nesse lamento é como se desaparecesse de chofre tudo o que é humano, e é absolutamente impossível, ou pelo menos muito difícil, a um observador imaginar e admitir que esse grito venha do mesmo homem. Imagina-se inclusive que quem está gritando seria um outro qualquer, situado dentro desse homem. Pelo menos foi assim que muitas pessoas explicaram a sua impressão, em muitas pessoas a visão do homem tomado de ataque epiléptico provoca um horror decidido e insuportável, que traz em si até algo místico. [...]"


Hans Holbein “O Corpo de Cristo Morto na Tumba" (1521)

- De quê eu ri? É que me ocorreu que, se não tivesse havido essa desgraça contigo, não houvesse acontecido esse amor, pode ser que viesses a ser tal qual teu pai, e ademais muito em breve. Irias te enclausurar sozinho e em silêncio com a mulher, obediente e muda, falando raro e com severidade, sem confiar numa única pessoa, aliás sem precisar absolutamente disso, e limitando-se a amealhar dinheiro no silêncio e na penumbra. E quando viesses a elogiar livros esses seriam muito, muito velhos, e te interessaria pelos da antiga seita do sinal da cruz com dois dedos, e ainda assim pela antiguidade...


O terceiro selo do apocalipse


De que me serve toda essa beleza quando em cada minuto, em cada segundo eu devo e agora sou forçado a saber que até essa minúscula mosquinha ali, que está zunindo ao meu lado numa réstia de sol, até ela participa de todo esse banquete e desse coro, e conhece o seu lugar, ama-o e é feliz, enquanto eu sou um aborto e só por minha pusilanimidade eu não quis entender isso até hoje! (Dostoiévski, 2002, p. 464).


Perfeita é a tua beleza
Tudo em você é perfeição!

Não te amo por amor, mas por compaixão. 


À grandeza de uma alma

Ah! Sem dúvida não estava se sentindo bem, hoje, a bem dizer se achando quase no estado em que outrora se sentia quando estava para vir um dos ataques da sua antiga moléstia. Sabia que em tais ocasiões costumava pouco antes se sentir excepcionalmente “ausente” de tudo, e que então confundia coisas e pessoas, caso não se esforçasse por prestar bastante atenção nelas. E havia ainda um outro motivo especial para fazer com que desejasse realmente descobrir se antes tinha estado mesmo diante da tal loja. Entre os artigos expostos na vitrina havia um que ele admirara de modo particular, havendo até calculado que devia valer uns sessenta copeques de prata. Lembrava-se dessa particularidade, não obstante a agitação e seu estado mental. Portanto, se tal loja existisse, se tal artigo lá estivesse mesmo na vitrina, isso confirmava que de fato parara acolá, atraído simplesmente por aquele tal artigo. E por conseguinte tal artigo deveria interessá-lo muito, já que o atraíra messmo estando ele como estava, aborrecidíssimo e confuso por ter saído do trem e abandonado a estação. Enveredou para a direita, olhando para as lojas e eis que, quando mais batia seu coração tomado de impaciência, deu de súbito com a loja! Encontrara-a finalmente!
Estava a quinhentos passos dela, ainda agora, quando lhe veio a vontade irreprimível de voltar. E lá estava o artigo que devia valer uns sessenta copeques. Olhava-o e repetia: “Deve valer uns sessenta copeques, não mais”, e riu. Mas sua risada era histérica.
Sentiu-se indisposto, infeliz, zonzo. Lembrou-se claramente, então, de que quando ali estivera antes, ainda agora mesmo, repentinamente se tinha voltado da vitrina para a rua, como fizera aquela manhã ao descer do trem quando, já na rua, surpreendera os olhos de Rogójin sobre ele. Dando como certo que não se tinha enganado (muito embora antes soubesse que era verdade mesmo), afastou-se da loja e estugou o passo. Urgia dar tudo por acabado. Agora estava mais que ciente de que nem mesmo na estação aquilo fora imaginação sua.
Algo de verídico se passara com ele, ligado à sua inquietação anterior. Mas o subjugou uma intolerável repugnância; resolveu não pensar mais nessas coisas, e conseguiu dar um curso completamente outro às suas cogitações.
Lembrou-se, por exemplo, de que sempre um minuto antes do ataque epilético (quando lhe vinha ao estar acordado) lhe iluminava o cérebro, em meio à tristeza, ao abatimento e à treva espiritual, um jorro de luz e logo, com extraordinário ímpeto, todas as suas forças vitais se punham a trabalhar em altíssima tensão. A sensação de vivência, a consciência do eu decuplicavam naquele momento, que era como um relâmpago de fulguração. O seu espírito e o seu coração se inundavam com uma extraordinária luz. Todas as suas inquietações, todas as suas dúvidas, todas as suas ansiedades ficavam desagravadas imediatamente. Tudo imergia em uma calma suave. cheia de terna e harmoniosa alegria e esperança. Tal momento, tal relâmpago, era apenas o prelúdio desse único segundo (não era mais do que um segundo) com que o ataque começava. Esse segundo era naturalmente insuportável. Ao pensar depois naquele momento, quando outra vez bom, muitas vezes dissera a si próprio que aqueles relâmpagos e fulgores, lhe dando a mais alta percepção de autoconsciência e, por conseguinte, também de vida em sua mais alta forma. Não passavam de doença, isto é, de mera interrupção de uma condição normal. Portanto, não eram absolutamente a mais alta forma de existir e de ser, devendo muito ao contrário ser contada como a mais baixa. E acabava chegando, por último, a uma conclusão paradoxal. Que tem que seja doença? Que mal faz que seja uma intensidade anormal, se o resultado desse fragmento de segundo, recordado e analisado depois, na hora da saúde, assume o valor de síntese da harmonia e da beleza, visto proporcionar uma sensação desconhecida e não adivinhada antes? Um estado de ápice, de reconciliação, de inteireza e de êxtase devocional, fazendo a criatura ascender à mais alta escala da vivência?


Obrigado!

"O traço mais importante de minha vida é enganar-me constantemente com as pessoas" (Lisavieta Prokófievna)


Madona na família do burgomestre Jacob Meyer
Hans Holbein


Somos o virtual mais real do que nunca.

The beheading of John Baptiste


Todos sabem que só dizem a verdade aqueles que não são espirituosos.

Queria ponderar e decidir um passo a ser dado. Mas esse "passo" não era daqueles que se ponderam e sim daqueles que justamente não se ponderam e simplesmente se decide por ele. 



O Círculo Petrashevski foi um grupo de discussão literária
formado por intelectuais progressistas em São Petersburgo,
organizado por Mikhail Petrashevski,
um seguidor do socialista utópico francês Charles Fourier.





A vida é vida em qualquer lugar, a vida está em nós mesmos e não fora. Ao meu lado haverá pessoas, e ser homem entre elas e assim permanecer para sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem nem cair no desânimo - eis em que consiste a vida, em que consiste o seu objetivo.






Em "O Idiota", Fiódor Dostoiévski constrói um dos personagens mais marcantes da literatura universal. Aos 26 anos de idade, o príncipe Míchkin é um homem de grande bondade e inocência, que mescla traços de Jesus Cristo e Dom Quixote.


(Foto: Eduardo Matysiak)


Leonardo Boff, com 79 anos, teólogo, escritor e professor universitário brasileiro, expoente da Teologia da Libertação no Brasil e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluídos, impedido de visitar Lula, afirmou que não sairia até conseguir ver seu amigo, em Curitiba, em 2018.


Boff viajou a Curitiba para fazer um aconselhamento espiritual e entregar a Lula um cachecol vermelho que havia prometido para o ex-presidente, que está isolado em uma cela desde a prisão no dia 7 de abril, praticamente incomunicável.



Junto a ele, Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz, foi impedido. Há tratado internacional que garante aos detentores do Nobel da Paz o direito de inspecionar as condições de prisões. 



Hoje esse direito foi negado.






Pousados na grade, 
riscam, o silêncio, os pássaros.
Embalam meu sono.
(Elenir)





3 de julho de 2018

Antologia para comemorar os 20 anos do CLIc





Olá queridos!

Como já estou divulgando nas redes sociais do Clube, faremos uma antologia de poemas, crônicas e contos para comemorar os 20 anos de Clube de Leitura Icaraí.


Essa data merece uma comemoração especial.

Já temos vinte pessoas interessadas em participar.

Os interessados em participar da antologia, seja apenas contribuindo financeiramente, seja enviando o seu texto e contribuindo financeiramente, entre em contato com a gente. Pode deixar um comentário aqui, nas redes sociais, whatsapp, ou e-mail do CLIc. Mas peço para que, quem entrar em contato para fazer parte, realmente se comprometa com o projeto.

Como não temos apoio de nenhuma Editora, iremos ratear todos os custos da publicação igualmente entre os participantes. A contrapartida será a divisão dos exemplares publicados entre os contribuintes.

O objetivo não é de lucro, embora possamos eventualmente vender alguns exemplares no dia do lançamento (o que ainda será deliberado), mas de comemorar o aniversário do nosso querido Clube que tão bem promove  a literatura e, também, incentivar os leitores a escreverem.

Já estou ansiosa por essa Antologia.

2018 já começou bem!

Feliz ano novo!

Rolam e gritam em cima da cama... - dupla-de-sushi 7 - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa



"Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto eles se estorcem, diz o doente:

- Ué?! Já fiquei bom!”

tradução de Machado de Assis (aqui ligeiramente modificada por Fernando Costa)

OS TRABALHADORES DO MAR


"Alors ils se roulent sur leur lit en poussant des cris. Pendant qu' ils se tordent ! Vous dites ?
Tiens, je n'ai plus rien.."

Victor Hugo

LES TRAVAILLEURS DE LA MER"


26 de junho de 2018

Subjugados à Espada e ao Fogo

Por Wagner Medeiros Junior
A ordem religiosa dos Jesuítas, nominada Companhia de Jesus por seus fundadores, nasceu na Universidade de Paris no ano de 1534, sob a liderança do cavaleiro espanhol Inácio de Loyola, com o objetivo de avigorar o ensino religioso e expandir o catolicismo, em oposição à Reforma Protestante principiada por João Calvino e Lutero. A orientação da ordem baseava-se em ensinamentos práticos, que se espalharam rapidamente pela Europa com a publicação de um pequeno compêndio de nome “Exercícios Espirituais”, escrito por Loyola.
Por conseguinte, não demorou para que a Companhia de Jesus viesse a conquistar um importante espaço no arcabouço da Igreja, pela determinação de seus membros em atuar em qualquer parte do mundo como “fiéis soldados” do catolicismo. Não por outra razão, em 27 de setembro de 1540, o Papa Paulo III reconheceu oficialmente a Congregação, através da bula Regimini Militaris Ecclesiae. É nesse mesmo ano que o jesuíta espanhol Francisco Xavier aporta em Portugal, a pedido do rei D. João III, com a missão de evangelizar o domínio português nas Índias.
É também no reinado de D. João III que a primeira missão da Companhia de Jesus chegou ao Brasil, em março de 1549, sob o comando de Manuel da Nóbrega, junto à armada que trazia o primeiro governador-geral, Tomé de Souza. O sistema de Capitanias Hereditárias não progredira e era preciso colonizar o Brasil para evitar sua invasão por outras nações europeias. Então, entre outras construções ainda rudimentares, é erigido o primeiro colégio jesuíta na recém criada capital da colônia, São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Nesse colégio os Jesuítas dão início à catequese dos índios.
Se por um lado esse processo de aculturação pode ensejar muitos questionamentos contrários, por outro é inegável o afinco dos Jesuítas em evitar que muitas tribos fossem dizimadas. Além de proliferar epidemias, os colonos utilizavam-se das desavenças tribais para estabelecer alianças e aprisionar os inimigos para vendê-los como escravos, quando eram submetidos a todo tipo de maus-tratos. Neste aspecto, os bandeirantes paulistas fizeram um trabalho implacável, pois depois que os índios bravios se tornaram escassos, nem os nativos aculturados nas Missões Jesuíticas foram poupados.
Não se pode olvidar, entretanto, a importância dos povos indígenas no reconhecimento do território pelos imigrantes, como também na efetiva participação na formação dos primeiros núcleos de colonização, seja ao lado da Igreja ou do colono. No entanto, a rivalidade entre ambos, quer pelo aspecto da catequese ou da própria exploração econômica, seria marcada por acirradas disputas que se estenderiam até junho de 1759, quando os Jesuítas foram expulsos do território português, no reinado de D. José I, por interveniência do Marquês de Pombal.
Um dos fatores para a expulsão dos Jesuítas foi a exploração das chamadas “drogas do sertão” no Grão-Pará e Maranhão, que compreendia então quase toda região amazônica. Como os Jesuítas exerciam uma grande influência sobre os índios, sua coleta e produção eram facilitadas. Por outro lado, o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, julgava que a recém-criada Companhia Geral de Comércio estava sendo prejudicada, fazendo chegar a Portugal pesadas críticas aos Jesuítas.
Já no sul do Brasil, os Jesuítas para proteger os Guaranis relutavam em desocupar os Setes Povos das Missões, em cumprimento ao tratado de Madrid. Após tenaz resistência acabou por explodir a guerra Guaranítica, que resultou na morte de mais de 1500 índios. Daí o relatório do comandante das forças luso-espanholas, Gomes Freire, ao governo central, afirmando que “se esses ‘santos padres’ não forem expulsos, não encontraremos senão rebeliões, insolências e desventuras”. Assim, com a expulsão dos jesuítas dos Brasil, os indígenas acabaram à própria sorte.

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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior




19 de junho de 2018

ZÉ DAS VERDURAS: Hélio Penna




Foi uma bala perdida que pegou o Zé das Verduras. O Diabo estava solto. O aço dos bandidos e da polícia atingiu a creche, a igreja, o ponto do bicho e o bar do Zito, onde a rapaziada do samba se reunia. Quem era de versar, não versava; até a força da imaginação se encolhia. O som dos tiros era uma música dos infernos que arrebentava os ouvidos. A Morte viajava ligeira e barulhenta a procura de uma vida qualquer.

Só depois do corre-corre, do se joga no chão, do pega pra capar é que se acudiu o Zé das Verduras, pois ninguém podia ser socorrido no meio dos balaços grossos que furavam paredes. Com Satanás livre comandando os seus demônios, quem enfrentou a praga foi Maria Antonia para salvar os filhos da Maria Isabel. As duas eram inimigas. Saíam na porrada por causa do mesmo homem. Maria Antonia não pensou em nada quando viu as crianças da outra em meio à desgraça. Catou os pretinhos da inimiga e com eles se abrigou debaixo da sua cama.

Colado no chão, o bicheiro Vantuil viu quando o Zé das Verduras tombou. Mas o velho filho da puta não se abrigou por quê, porra? O Zé estava gesticulando e gritando para o Chocolate, o eletricista do morro, que, pendurado no alto da escada, consertava os fios da casa da Rezadeira, atingidos em outro tiroteio. Zé das Verduras queria que Chocolate se protegesse.

Quando veio aquele silêncio amargo, aquela calma desconfiada, aquela paz triste é que se pode dar conta dos velhos, dos doentes, das crianças, do Chocolate, que passou mal na escada, e do Zé das Verduras que agora exigia vela e um lençol apenas.

O corpo ficou ali o dia todo. Talvez ele não quisesse ir embora, tão acostumado com o seu povo e a sua barraca. O morro era a sua família. Ele não tinha ninguém e não acreditava que encontraria os seus parentes depois da morte como pregavam o Pastor e a Rezadeira, cada um ao seu jeito. Os moradores se revezavam acendendo as velas e arrumando o lençol que algum descuidado desarrumava, deixando o rosto preto do Zé das Verduras exposto ao sol quente.

Quando anoiteceu, apenas a Rezadeira, o Pastor, o Chocolate, a Maria Antonia e a Maria Isabel permaneceram na vigília e guarda do corpo. O morro estava na escuridão, os tiros atingiram o transformador. Só o Zé das Verduras tinha luz própria.



Hélio Penna
 Escritor participou do Livro
"15 anos do Clube de Leitura Icaraí"



9 de junho de 2018

O Outro Pé da Sereia: Mia Couto


Com braços abertos,
o mundo quer abraçar.
Mulher bela e ousada!
(Elenir)




Ao sabor do vento,
lençóis bailam nos varais.
Me trazem a infância

O livro é um barco.
Ao outro lado do mundo
me leva, e a mim própria.

(Elenir)





A costa indiana é agora uma linha flutuando no horizonte. A nau tornou-se no último lugar do mundo. À volta tudo é água, transbordação de rios e mares. O navio é uma ilhota habitada por homens e os seus fantasmas.

... Inclinado na cesta da gávea, o marinheiro anunciava que a viagem já não teria mais retorno.

- Daqui em diante, nenhuma ave mais haverá.

Um vazio pesou sobre o estômago do sacerdote português. Quando saíra de Goa, ainda na proteção do estuário, a viagem surgia como um caminho dócil. Mas quando o mar se desdobrou em oceano e o horizonte todo se liquefez, lhe veio uma espécie de tontura, a certeza de que o chão lhe fugira e a nau voava sobre um abismo. Silveira não tinha dúvida: chegara ao irreversível momento em que a água perde o pé e o mar abandona o suave maneirar dos rios. Dali em diante, o mundo se resumiria àquela nau, rompendo caminho entre domínios que eram mais do Diabo que de Deus.

Em “O Outro Pé da Sereia”, o moçambicano Mia Couto, alterna entre passado e presente para nos apresentar Moçambique. Em 1560, revivemos a colonização portuguesa, acompanhando a expedição do jesuíta D. Gonçalo da Silveira (personagem histórico), da saída de Goa, na Índia, até a fronteira entre Zimbabwe e Moçambique, nas terras do chamado reino Monomotapa, da África do século XVI. A partir do resgate de fontes históricas, o autor romanceia a história do jesuíta em sua missão de conversão e moralização do reino e de seu imperador. Em 2002, nos deparamos com o retrato de uma Moçambique que, após a independência em 1975, foi assolada por quase 16 anos de guerra civil (1977 - 1992) e que luta para se erguer.




Escrevo na penumbra quase total do porão onde me aprisionaram. O escuro até me ajuda: afinal, esta carta é um adeus. Ou, quem sabe, um agradecer aos deuses? Navegamos entre perigos e incertezas. Salvamo-nos de fogos e tempestades. Contudo, esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós. Quem conduz o barco, porém, não é o timoneiro. Quem guia o leme é a Kianda, a deusa das águas.

Kianda, Mama Wati ou Nzuzu é a deusa que mora em águas limpas. “... no leito do rio havia um lugar sem fundo, onde a propria água se afundava, afogada nos abismos. Nessas profundezas morava Nzuzu, a divindade do rio. De quando em vez, uma moça desaparecia nas águas. Não morria. Apenas permanecia residindo nos fundos lodosos, aprendendo a arte de ser peixe e os sortilégios da adivinhação. Ficava anos nessa submersa moradia até que, um dia, reemergia e se apresentava às famílias para exercer então, a profissão de curandeira.” “... Ela vive com a nyoka, a serpente. Quando a água fica suja, a serpente sai a espalhar maldades e feitiços”. (Acima: Mami Wata, de Moyo Ogundipe, 1999).

Quem nos leva nesta viagem é a personagem que tem “corpo de rio e nome de canoa”, Mwadia Malunga. Através dela, somos apresentados às personagens da atualidade: Zero Madzero, o pastor de burros e cabritos, que vive em Antigamente, e carrega em si a ambigüidade da presença e da ausência, do ser vivente e de um fantasma; Constança Malunga, a matriarca que revela a ligação de Mwadia com Nzuzu, a deusa das águas límpidas; Lázaro Vivo, o adivinho que faz a ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre o universo sagrado da tradição e o da modernidade; Benjamin, o afro-americano que busca sua origem ancestral; e outros.

Nesses últimos dias, Mwadia fechava-se no sótão e espreitava a velha documentação colonial. Agora, ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma.

... Disto tudo sabia Constança quando pediu o seguinte a sua filha mais nova:

- Agora, leia para mim. Eu também quero ir nessa viagem ...

Mwadia aproxima culturas, religiões, momentos históricos, como uma embarcação capaz de ligar culturas e viajantes que entrecruzam fronteiras temporais, geográficas e interiores às personagens.

A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores” .

Certo excesso de frases de efeito, e elementos temáticos (silêncio e palavras, realidade e delírio; lucidez e loucura; razão e emoção; vida e morte; passado e presente; tradição e modernidade, escravidão, servidão feminina, simbolismos, mitificação, mestiçagem, incesto, aids) por vezes quebram a fluidez da leitura e nos lembram da presença do autor e de sua própria viagem. Porém, não há dúvidas de que Mia Couto domina os mistérios da contação, e na maior parte do tempo consegue nos envolver e nos prender nos meandros da trama. A cada momento somos surpreendidos por segredos e questões para as quais não são dadas respostas. E os elementos metafóricos são interpretados pelas personagens de maneira quase sempre tão duvidosa que exigem do leitor sua própria interpretação da obra. A minha, ainda não a tenho, mas penso que viver ausências, seja as de Antigamente ou as de Vila Longe, não seja viver. Nada simples se erguer, mas prefiro seguir o rio da vida e plagiar a personagem Rosie: como se diz lá no Brasil, “Sacode a poeira e dá a volta por cima”, pois, bom é “viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

3 de junho de 2018

Frankenstein: Mary Shelley


Besides, I had a contempt for the uses of modern natural philosophy. It was very different when the masters of the science sought immortality and power; such views, although futile, were grand; but now the scene was changed. The ambition of the inquirer seemed to limit itself to the annihilation of those visions on which my interest in science was chiefly founded. I was required to exchange chimeras of boundless grandeur for realities of little worth.



Traces of Human Folly in the Alpine Landscapes that Inspired Frankenstein






 I was now about to form another being, of whose dispositions I was alike ignorant; she might become ten thousand times more malignant than her mate, and delight, for its own sake, in murder and wretchedness. He had sworn to quit the neighbourhood of man, and hide himself in deserts; but she had not; and she, who in all probability was to become a thinking and reasoning animal, might refuse to comply with a compact made before her creation. They might even hate each other; the creature who already lived loathed his own deformity, and might he not conceive a greater abhorrence for it when it came before his eyes in the female form? She also might turn with disgust from him to the superior beauty of man; she might quit him, and he be again alone, exasperated by the fresh provocation of being deserted by one of his own species.

The Aiguille du Midi 3842m peak in the Mont Blanc massif of the French Alps - Chamonix

Sir Isaac Newton is said to have avowed that he felt like a child picking up shells beside the great and unexplored ocean of truth. 



If, instead of this remark, my father had taken the pains to explain to me that the principles of Agrippa had been entirely exploded and that a modern system of science had been introduced which possessed much greater powers than the ancient, because the powers of the latter were chimerical, while those of the former were real and practical, under such circumstances I should certainly have thrown Agrippa aside and have contented my imagination, warmed as it was, by returning with greater ardour to my former studies. It is even possible that the train of my ideas would never have received the fatal impulse that led to my ruin. But the cursory glance my father had taken of my volume by no means assured me that he was acquainted with its contents, and I continued to read with the greatest avidity. When I returned home my first care was to procure the whole works of this author, and afterwards of Paracelsus and Albertus Magnus. I read and studied the wild fancies of these writers with delight; they appeared to me treasures known to few besides myself. I have described myself as always having been imbued with a fervent longing to penetrate the secrets of nature. In spite of the intense labour and wonderful discoveries of modern philosophers, I always came from my studies discontented and unsatisfied. Sir Isaac Newton is said to have avowed that he felt like a child picking up shells beside the great and unexplored ocean of truth. Those of his successors in each branch of natural philosophy with whom I was acquainted appeared even to my boy's apprehensions as tyros engaged in the same pursuit.
The untaught peasant beheld the elements around him and was acquainted with their practical uses. The most learned philosopher knew little more. He had partially unveiled the face of Nature, but her immortal lineaments were still a wonder and a mystery. He might dissect, anatomize, and give names; but, not to speak of a final cause, causes in their secondary and tertiary grades were utterly unknown to him. I had gazed upon the fortifications and impediments that seemed to keep human beings from entering the citadel of nature, and rashly and ignorantly I had repined.




soul-subduing music




 "Oh! stars, and clouds, and winds, ye are all about to mock me: if ye really pity me, crush sensation and memory; let me become as nought; but if not, depart, depart, and leave me in darkness."