CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

23 de maio de 2018

Homem Comum: Philip Roth (2/2)


Bryan Zanisnik,
“Philip Roth Presidential Library” (2016)
(detail)

Comentários dos Leitores do Clube pós Encontro #114

Gente, que noite maravilhosa a de ontem, hein? Começando pelo debate sobre o Homem Comum, excelente, e, após, a reunião de dezoito na Tratoria. Foi demais! Reacendeu  a alma meio apagada dessa quase octogenária.
Evandro, Rita, Newton e Elô, agradeço, de verdade, os comentários elogiosos e incentivadores ao meu texto no blog.

Bom fim de semana para todos. Beijos.
Elenir

* * *
 
Eis o poema de Ferreira Gullar declamado de memória (que memória!) pelo Antonio na Reunião:

Homem Comum

Sou um homem comum
     de carne e de memória
     de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
     pânica
     feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
     cessar.

Sou como você
     feito de coisas lembradas
     e esquecidas
     rostos e
     mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
     em Pastos-Bons
     defuntas alegrias flores passarinhos
     facho de tarde luminosa
     nomes que já nem sei 

bocas bafos bacias 
     bandejas bandeiras bananeiras
             tudo
     misturado
        essa lenha perfumada
     que se acende
     e me faz caminhar
Sou um homem comum
     brasileiro, maior, casado, reservista,
     e não vejo na vida, amigo,
     nenhum sentido, senão
     lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
     Quero, por isso, falar com você,
     de homem para homem,
     apoiar-me em você
     oferecer-lhe o meu braço
        que o tempo é pouco
        e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
     Homem comum, igual
     a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
     A sombra do latifúndio
     mancha a paisagem
     turva as águas do mar
     e a infância nos volta
     à boca, amarga,
     suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
     comuns
     e podemos formar uma muralha
     com nossos corpos de sonho e margaridas.

                    (Brasília, 1963)


De Ferreira Gullar para todos os seus leitores:  "Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos  é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens".

 * * *


Últimos Comentários dos Leitores do Clube antes do Encontro #114

* * *

Querida Joana:

Algumas pessoas têm certa capacidade de revirar a vida e não se culpar tanto, ou sentirem que estão quites com a vida e se perdoam de tudo!

No entanto, outras, deixam a vida levar e serem como podem. 

Ambas as maneiras, são formas de nos adaptarmos ao INEXORÁVEL. 

Veja, ele deixou de ser um pintor, e mesmo assim era bem visto nas exposições, para fazer publicidade! Não é uma crítica a ele, pelo contrário, ele  deixou de olhar para si e formar uma família, que aliás o detestava. OS HOMENS, JOANA, SOFREM MUITO COM A QUESTÃO DE SE SENTIREM OS PROVEDORES, DE TER QUE CUMPRIR O PAPEL.

Não estou defendendo, são opções, inclusive as mulheres se cobram em dobro!

Veja como nós mulheres abdicamos com mais flexibilidade, quase tudo, pela nossa família e filhos............ Etc. etc. etc.

Suas colocações são pertinentes e fico feliz de ter mais uma que adorou o livro.

Sobretudo, eu adoro sua capacidade de achar a poesia!

Rose, querida, sua análise , quanto a posição dele de não tomar as rédeas de sua vida, eu achei perfeita.

Concordo que viver para ele foi pior que morrer, quem sabe?


Beijos
Fátima

* * *

Que legal essa troca toda, onde cada mensagem traz uma nova abordagem, uma nova reflexão.

Joana,
Achei linda sua mensagem.  Essa frase (tomar as rédeas...) não é muito boa não.  Dá a entender uma onipotência inexistente.  De qqr forma, pra mim ela está relacionada com sonhar e perseguir, lutar pelos seus sonhos mas, como você disse, a Roda Viva está aí pra você ir revendo seus sonhos continuamente. E de novo lutar.  Quem foi que disse que a “vida é luta renhida, viver é lutar”?

Agora, vocês, meninas do grupo, não acharam que no livro as mulheres são tratadas de forma pouco admirável? A primeira mulher mal aparece, e é traída pelo personagem com a segunda.  A segunda é traída com a mocinha do escritório e a modelo loura.  A do escritório, coitada, só aparece se abaixando no escritório.  A loura é carente, dependente e pouco inteligente.  A senhora que passa mal demonstra sensibilidade e total dependência do marido, tanto que comete suicídio.  Só sobram a mãe e a filha do personagem. Mas mãe e filha já é outro departamento, principalmente na família judaica. 

Por que será que o autor faz isso?  Tem aí um viés da tradição judaica (patriarcal, onde a mulher é pura submissão e procriação)? É machismo do autor ou vocês têm outra visão? 

Beijos a todos,
Rose


* * *

Rose e amigos, bom dia!

Vc tem toda razão... Adorei também o que nos diz a Joana. Quanto à questão das mulheres, Rose, o autor nâo pode falsear o que foi a vida do personagem, não é mesmo? Considere a época, as décadas... E hoje ainda há mulheres e homens assim, embora muita coisa tenha mudado.

Alguns versos da música cantada por Sinatra servem para o livro do mês.


Bjs
Eloisa

* * *


Também achei muito rica nossa reunião;  A impressão inicial de um certo descontentamento com o livro, a angustia pelo tema da finitude, a vida na morte, foi  aos poucos, com a diversidade de pontos de visao sb o livro, a singularidade pessoal de cada um com suas proprias experiencias pessoais, senti uma expansão na compreensão do tema, e um ápice (para mim) muito prazeiroso com a pesquisa do Benites e os versos do Gullar na apresentaçao do Antonio.
Realmente nosso grupo é capaz de manter um encontro no "encontro"
                              
     Ceci


* * *


Gostei, Ceci, do encontro no "encontro". 


Realmente, nosso encontro é muito mais do que um simples encontro. Os comentários do livro leva-nos a encontrarmo-nos a nós mesmos, bem como a encontrar o outro. Que belo encontro!  E, falando em belo, foi belo e emocionante ouvir Antonio dizer o Homem Comum, de Ferreira Gullar. A reunião fechou com chave de ouro.

Abraços para todos.
Elenir

Obs. Fico falando, falando, porque não me canso de falar com vocês. Evandro me desculpe! Se o Homem Comum, sem nome, participasse de um grupo assim, não sentiria, certamente, a angústia e a melancolia da velhice.
Mais abraços. Elenir

* * * 

Parceiros da escrita, é maravilhoso nos encontrarmos numa reunião destas porque pessoas que antes nem sabíamos das suas existências estão falando das suas vidas como se estivéssemos passado a infância juntas, e, apenas nos relembrássemos.  A liberdade de se falar em assuntos, às vezes, tão pessoais nos aproximam cada vez mais. Beijos esperando a próxima. Sissa Schultz.

* * * 

Caríssimos, boa noite

Elenir, com sua presença qualquer reunião ou bate-papo na pizza se torna memorável.

Rita, o Evandro já incluiu o poema na postagem do livro, no blog do Clube. 

E no mais, gostaria de dizer que gostei muito da reunião, e da forma como cada um expôs suas impressões sobre o livro, um riqueza enorme. 

Sds,
Antonio 

* * * 

Prezados amigos,

A noite foi realmente maravilhosa. Apesar do tema do livro envolto em doenças e morte, mostramos que estamos bem vivos e capazes de tirar, de tudo, o melhor proveito. Todas as análises feitas mais uma vez nos enriqueceram a visão do mundo e da vida. Como disse a Dília, a morte não existe, é uma ficção (não sei por que, adorei essa perspectiva!...). E Antonio fechou com chave de ouro. O "Homem Comum" do Ferreira Gullar é aquele que nós somos, que sofre, luta e vive.

O CLIc, na verdade, supera a todos os livros, faz deles obras mais completas.

Abs,
Newton

* * * 

Caros colegas de leituras,


Os nossos encontros realmente são muito prazerosos. Em verdade vos digo que sou uma criatura muito matuta e brucutu e, por isso mesmo, levo muito tempo para me entrosar com as pessoas. Mas gostaria de dizer que o Clube tem um peso considerável para mim. Não sou muito boa na internet, mas entrando nesses menus, links ou seja lá o que for, encontrei o depoimento de Rita sobre o clube com o qual me identifiquei bastante. 



Em principio achei que encontraria pessoas esnobes, arrogantes por conta de suas formações, e eu acostumada a enxada e a pessoas do povão, fiquei ressabiada. O primeiro contato foi tenso, mas depois ficou mais leve e a medida em que conheço um tiquinho mais dos participantes, solto aos poucos o ar, porque nas falas de alguns encontros ecos em mim mesma. 



Não li o livro, mas mesmo assim vou a reunião porque me dão prazer. Falou-se sobre a ausencia de declaração de sentimentos e emoções do homem comum de Roth, pois bem, não quero morrer sem dizer que ouvir os depoimentos de Fred, de Elenir (tamanha emoção ao ler fragmentos que mais gostou do livro), do senhor que falou sobre a mulher que depois que o marido morreu não mais saiu de casa, da moça que falou das dores de seu familiar no hospital e que isso obscurece todo o resto e o que mais se deseja é o fim, Benito com sua analise meticulosa, a Gracinha com seu eterno jeitinho de menina que me faz querer voltar a infancia e tentar ser menos brusca, Evandro tentando por ordem, cadeiras extras, círculos fechado e outra fila, o Newton gravando, o barulho da cafeteira, as conversas paralelas, a amabilidade de Rita e a sempre gentileza de Elo para comigo, a agitação de Dília (contagia), a contribuição de Lílian (mesmo distante), a declamação de Antonio (caramba que memória - senti uma baita inveja - nunca decorei nada, o tico e o teco nunca se entendem e quase sempre dão pane) ficarão marcados em mim para sempre. E não estou me referindo apenas a essa reunião, mas a todas em que já estive presente. Finalizando a votação corporal foi de arrasar (quem votava em um livro de um lado e quem votava no outro do outro lado). Quer prazer maior que toda essa movimentação?

Neide

* * *



17 de maio de 2018

A Ilha sob o Mar: Isabel Allende

Zarité, a escrava,
dançando ao som dos tambores,
sentia-se livre.
(Elenir)




Tendo como pano de fundo o Haiti do século XVIII, A ilha sob o mar, da escritora chilena Isabel Allende, entra em discussão no encontro do Clube de Leitura Icaraí do dia 5 de abril, das 19h às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9 –Icaraí – Niterói). A entrada é franca.
O romance narra a história de Zarité, uma escrava vendida aos nove anos para um dos maiores produtores de cana-de-açúcar das Antilhas e de quem mais tarde se torna amante. Mesmo sem sofrer maus-tratos, Zarité acompanha de perto o sofrimento de seu povo. Quando a revolução haitiana explode contra os colonizadores franceses, ela tem a oportunidade de fugir e recomeçar a vida em outro país.


Sobre a autora- Isabel Allende nasceu no Peru, mas considera o Chile a sua terra natal. É considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Seu livro A casa dos espíritos (1982) foi adaptado para o cinema americano. A ilha sob o mar é o 16º romance publicado de Isabel Allende.

Erzuli me deu como céu
a ilha sob o mar
lá guardo meus mortos
lá meus mortos me aguardam
justos sonhos de ser gente
germinam e florescem
longe do açúcar vermelho.
Nossos pés sem calos se acariciam
numa eterna dança de pássaros
que voam no chão da terra
invertidos
livres
prontos para o amor.


Rita Magnago


* * *


E nos dias de hoje, mais de dois séculos após as histórias contadas no romance, e de cerca de 150 anos do assassinato de Lincoln ...

* * *

"Sobre esse livro A Ilha Sob o Mar... hummmmmm... Meu resumo é o seguinte: é um "Leque Secreto" afro-centroamericano... Só não tem pézinho quebrado pra caber no sapatinho mínimo, mas tem todo o resto, até a guerra que mata aos montes, as doenças que dizimam, os casamentos arranjados, o sofrimento feminino, a brutalidade masculina... Apenas sai o velho Oriente e entra o "Novo Mundo". Saem os olhos puxados e entram os negros. Sai a Flor da Neve e entra a Cana do Sol" (novaes /)


* * *

"Sentia que sua vida era uma navegação sem timão nem bússola, encontrava-se à deriva, esperando algo que não sabia nomear"


E se um dia se acabar

minha sacola de sonhos

vou ter que "costumizar"


meus pesadelos medonhos.


Ilnéa





* * *

"A Ilha Sob o Mar, dentre os de Isabel é o que eu gosto muito. Fiz a resenha no meu blog. Quem quiser dá uma olhada. Eu o li e confesso que já não acho tão legal, mas vale como ensejo para discussão." (Roberto)


* * *


Louisiana

* * *

"É uma leitura que nos envolve desde as primeiras páginas até as finais com um gosto enorme por saber mais e mais da história." (Sonia)



15 de maio de 2018

Ode a Um Rouxinol: John Keats

Leitura de referência - Shalimar, o equilibrista: Salman Rushdie
Debate: 11 de setembro de 2015 - 19:00 h
Livraria Icaraí - Icaraí - Niterói




Doi-me o coração, e um torpor letárgico

Fere meu sentido, como se tomasse cicuta,

Ou ingerisse até o fim algum ópio
Instantes atrás, e ao Letes me precipitasse.
Não que inveje teu alegre destino
Mas por ser feliz com tua alegria - 
Que tu, Dríade das leves asas,
Num lugar melodioso
De faias verdes, e sombras incontáveis,
Celebras a plena voz teu canto de verão.



II



Oh! Gole farto de vinho velho!

Fresco há muito no profundo coração da terra,

Com sabor da Flora e verdes prados,
Dança e canção Provençal, alegria queimada de sol!
Oh! taça plena do quente Sul
Cheia da vera e rubra Hipocrene
Com borbulhas qual contas piscando nas bordas,
Boca tinta de púrpura;
Se pudesse beber, e sumir deste mundo,
E contigo desvanecer na escura floresta.



III



Desvanecer, dissolver e deslembrar

O que tu entre as folhas jamais conheceste

O fastio, a febre, e o frêmito
Aqui, onde os homens sentam e se escutam gemer;
Onde a paralisia agita os últimos parcos cabelos brancos,
Onde os jovens empalidecem, e morrem qual espectros;
Onde apenas pensar causa a dor
E o desespero dos olhos plúmbeos,
Onde a Beleza não pode suster seus olhos brilhantes,
Nem um novo Amor definhar mais um dia.



IV



Longe, Longe! A ti voarei,

Não na carruagem de Baco e seus leopardos,

Mas nas invisíveis asas da Poesia
Embora o turvo cérebro retarde e confunda.
Já contigo! Suave é a noite,
E talvez a Rainha Lua esteja em seu trono
Cercada por suas Fadas estelares;
Mas aqui não há luz,
Senão aquela que do céu com as brisas sopra
Pelas glaucas trevas e sendas sinuosas de musgo.



V



Não vejo que flores estão a meus pés,

Nem qual suave incenso dos ramos exala,

Mas, na treva embalsamada, desvelo o aroma
Que cada mês regala
A relva, a coifa, as frutíferas árvores silvestres;
Branco pilriteiro e madresilva pastoral;
As violetas que cedo murcham veladas sob as folhas;
E a primeira filha dos meados de maio,
A rosa de almiscar, no vinho de orvalho imersa,
Murmúrea paragem de moscas das tardes de verão.



VI



No escuro escuto; por várias vezes

Que tenho sido seduzido pela suave morte,

Lhe dando ternos nomes em versos refletidos,
Para que pegasse no ar meu sutil alento;
Nunca como agora me parece tão boa a morte,
Findar a meia-noite sem nenhuma dor,
Enquanto tu em torno desvanesces a alma
Neste êxtase!
Ainda cantarias, e de nada valeriam meus ouvidos - 
A teu alto réquiem em terra transformado.



VII



Não nasceste para a morte, Ave imortal!

As gerações famintas não pisam em ti;

A voz que escuto esta noite foi ouvida
Pelo palhaço e o imperador nos tempos remotos.
Talvez a mesma melodia que encontrou lugar
No triste coração de Rute, quando, saudosa do lar,
Chorou entre o trigo estrangeiro;
A mesma que várias vezes encantou
As mágicas janelas, abertas sobre a espuma
Dos mares perigosos, nas encantadas terras perdidas.



VIII



Perdidas! Esta palavra é como um sino

Que, dobrando, me faz voltar a mim mesmo!

Adeus! A fantasia não pode tanto iludir
Como parece, ó elfo ludibriador.
Adeus! Adeus! Teu hino pungente se esvai
Além dos prados vizinhos, sobre o tranquilo riacho,
Subindo o monte; é agora profundamente enterrado
Nas clareiras do vale ao lado.
Foi esta uma visão ou sonhei desperto?
A música se foi: - Estarei dormindo ou acordado? 






ODE A UM ROUXINOL

 A “Ode a um rouxinol”, uma das prediletas no grupo das grandes odes, trata da felicidade que é o canto do rouxinol, das tristezas do mundo e da sedução da morte; todavia o canto da avezinha transcende a mortalidade e é tão belo que o poeta, no fim, indaga se não terá sonhado. Jorge Luis Borges toma a ode como “fonte de inesgotável poesia”. Além do rouxinol que havia na casa de Hampstead, conta-se que uma noite da primavera de 1819, Keats se encontrava com Severn e outros companheiros na “Spaniard’s Inn”, em Hanpstead Heath; Severn percebeu de repente que Keats se havia eclipsado e deu com ele, sob um grupo de pinheiros, a ouvir um rouxinol. Keats seguiu a inovação de Coleridge, que foi o primeiro, diz-se, a fazer do canto do rouxinol um canto de alegria. Dias antes de escrever a ode, Keats conversara com Coleridge, e na palestra entraram rouxinóis. A ode foi publicada nos Annals of Fine Arts em julho de 1819, contendendo-se sobre se foi escrita no início ou em meados de maio, se antes ou depois da “Ode sobre uma urna grega”.


13 de maio de 2018

MÃE

Hoje o meu abraço bem apertado, vai para aquelas mães que trocaram o carrinho por cadeira de rodas. Que trocaram a pracinha pelo centro de fisioterapia. Que tiveram que substituir seus sonhos por uma dura realidade. Que nunca ouviram um “manhêêê!”, mas que se comunicam com os olhos e linguagem do amor.

Meu forte abraço vai para aquela que assim como eu, já passou muitas noites insones em um leito de hospital sem saber o dia de amanhã, apenas com a esperança como aliada. Às mães de UTI. Aquelas que apesar das dificuldades, lutam por dias melhores.

Meu imenso abraço àquelas que comemoram cada pequena vitória, por mais simples que possa parecer. Às mães incansáveis, guerreiras, que lutam diariamente por direitos básicos de cidadania. Àquelas que sabem o que é preconceito e viver sem respeito e dignidade por ter um filho fora dos padrões que a sociedade impõe.

Toda minha solidariedade às mães que tiveram que enterrar o filho idealizado, e aprender a viver com o inesperado. Às mães que precisam ressignificar sua dor. Para essas mulheres leoas, incansáveis, exemplos de humanidade e força unida a sensibilidade, recebam meu abraço e saibam que ESTAMOS JUNTAS! O mundo às vezes é cruel, injusto, e muitas vezes desumano. Mas o amor que nos move, é maior do que tudo!

Feliz dia das mães “especiais”! 

Por Mari Hart.



Mãe, teu nome pequenino 
trago no meu coração,   
com acordes de violino
e uma enorme gratidão.

Mãe, teu nome é símbolo
do amor incondicional
A ti, reverência.

(Elenir)





Elenir
Em homenagem ao seu dia, envio alguns Haicais, desejando a todas as mamães, aos filhos, às titias, aos papais e, também, ao nosso Clube, que nos traz o aconchego  e  carinho de mãe, muitas alegrias nesse dia.




Mãe! suavemente
norteastes minha vida.
 Saudade sofrida.

Maior que o oceano
infinito como o céu
é o teu amor Mãe!

Mãe, o teu silêncio
dizia mais que as palavras.
Escuto-o, ainda.


Às mamães do CLIC, aos pais-mães, às titias-mães, enfim, a todos os  que, mesmo não tendo gerado, abrigam  no coração o inigualável amor de mãe, meu carinhoso abraço. Parabéns! Um domingo muito feliz para vocês!



No brilho da estrela
e na doçura da brisa,
eu te encontro, Mãe!
                                  
Mãe, nome pequeno
que traduz sabedoria,
amor e coragem.

Flor de lis e luz
tu perfumas e iluminas
os teus filhos-Mãe!
                                    
Mãe, o teu amor
nosso caminho ilumina.
Evita os tropeços. 
                                
Beijos.
Elenir


Paula Modersohn-Becker


Ensinamento 

Minha mãe achava estudo 

a coisa mais fina do mundo. 

Não é. 

A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 



Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 

ela falou comigo: 

"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 



Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 

Não me falou em amor. 

Essa palavra de luxo.


Adélia Prado




Para Sempre 

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento. 


Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.




És tu, Mãe, o símbolo
do amor incondicional.
Sempre dá. Não cobra.


1 de maio de 2018

Astronomia Literária com Saramago




Estão sentados, felizmente numa sombra de árvores, ele perguntou, Que foi então que a trouxe a Lisboa, por que razão veio procurar-nos, e ela disse, Porque deve ser verdade que você e os seus amigos têm parte no que está a acontecer, A acontecer, a quem, Bem sabe a que me refiro, a península, o arrancamento dos Pirenéus, esta viagem como nunca se viu outra, Às vezes também eu penso que sim, que é por nossa causa, outras vezes acho que estamos todos doidos, Um planeta que anda à volta duma estrela, a girar, a girar, ora dia, ora noite, ora frio, ora calor, e um espaço quase vazio onde há coisas gigantescas que não têm outro nome a não ser o que lhe damos, e um tempo que ninguém sabe verdadeiramente o que seja, isto tudo também tem de ser coisa de doidos, Você é astrónoma, perguntou José Anaiço, nesse momento lembrado de Maria Dolores, antropóloga de Granada, Astrónoma não sou, nem parva, Desculpe-me a impertinência, andamos todos nervosos, as palavras não dizem o que deveriam, são de mais, são de menos, peço-lhe que me desculpe, Está desculpado, Provavelmente pareço-lhe céptico porque a mim não me aconteceu nada a não ser os estorninhos, ainda que, Ainda que, Há pouco, no hotel, quando a vi na sala, senti-me como se estivesse sobre um barco no mar, foi a primeira vez, Pois eu vi-o como se estivesse a aproximar-se de muito longe, E eram só três ou quatro passos. Vindos de todas as partes do horizonte, os estorninhos desceram subitamente sobre as árvores do jardim.


(A jangada de pedra - p.106)