CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de maio de 2018

Quarto de despejo: Carolina Maria de Jesus


Audálio Dantas: 9/7/1929 - 30/5/2018











Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.

Nelson Mandela "Long Walk to Freedom", Nelson Mandela, (1995).





"Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” (Simone de Beauvoir) 


Morro da favela









O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo





Muito bem, Carolina!




Eu ouvi dizer que o General Teixeira Lot não vai enviar tropas para o Oriente Medio. Se for assim creio que devemos considerar e venerar nosso general que já demonstrou seu desvelo pelo povo e o paíz.

Amarelo é a cor da fome

a voz dos que não têm a palavra


Carolina Maria de Jesus - foto: Arquivo Audálio Dantas

A Bíblia não manda ninguém casar.

Manda crescer e multiplicar.






25 de maio de 2018

Indignation - Philip Roth



Nihao Laowai!

É Indignação o livro do mês de dezembro no Clube de Leitura Icaraí. Indignação conta a estória de Marcus Messner, um destemido e bem intencionado estudante universitário, seus encontros com a vida, e os caminhos que definem seu destino. A obra é de Philip Roth. A estória começa quando Messner vai para a Universidade e seu pai, se transforma em uma ‘máquina de preocupação’, como se tivesse uma premonição, como se subitamente acordasse de um conto de fadas e tivesse consciência do mundo e de todas as maneiras que um jovem rapaz pode ser destruído por ele. Fugindo da proteção opressora de seu pai, o jovem Messner decide realizar seus estudos distante de casa. Messner só desejava fazer tudo certo. Tirar seus A´s, trabalhar, dormir, e não brigar com o pai que tanto amava. Tentava assim, por um bom caminho, evitar a mediocridade, e alcançar o sucesso do qual sua família tanto se orgulharia.

E, nos subterrâneos da relação familiar dedicada e apaixonada, também as obsessões são transmitidas e atingem em cheio o jovem Marcus, dotado de uma perigosíssima ingenuidade e de uma rigidez ética e pessoal que não cabem no mundo.
(Júlio Pimentel Pinto, em Paisagens da Crítica)

Vejo Marcus, mesmo sendo ainda um homem imaturo, procurando através de suas incertezas, ser sujeito, e não sujeitado."

Despreparado para a vida o jovem é vítima de seu senso de ética super desenvolvido, de sua racionalidade (ou irracionalidade) exacerbada, vítima do mundo, dos caprichos da história.

A trama se passa em 1951-52, e tem como pano de fundo a Guerra da Coréia. Em entrevista, o autor comenta que, em Indignação, não teve interesse em escrever alegorias ou metáforas, mas trazer à vida algum momento do passado. Roth diz que ao iniciar o livro não havia estória alguma, mas um período somente em mente, o da Guerra da Coréia:

Qual estória posso contar que possa dar uma idéia deste momento e torná-lo dramático?
(Philip Roth)

Em Indignação, Philip Roth retrata as normas sociais, culturais e sexuais da América da década de 50. Regras tão fortes comparadas às da atualidade, que causam indignação ao jovem herói.



读书俱乐部
Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45) as forças Aliadas libertaram a Coréia do domínio japonês. Colônia japonesa de 1910 a 1945, a Coréia passou a ser alvo de outro conflito, a Guerra Fria, que levou a divisão da península Han ao longo do paralelo 38 e à formação de dois Estados separados: o do Sul, com administração americana sob direção do general Douglas MacArthur; e do Norte, com ocupação pela, na época, União Soviética, que estabeleceu um regime Stalinista sob o controle de Kim Il-sung. Após anos de incidentes na fronteira, em junho de 1950, a República da Coréia no Sul foi invadida pelas forças armadas do Norte. As primeiras tropas americanas foram então enviadas afim de fortalecer a resistência contra os invasores. Fortemente equipados com tanques russos e artilharia, os norte coreanos avançaram rapidamente em direção ao Sul, com o objetivo de ocupar o estratégico porto de Busan (Pusan). Com o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que enviou reforços de diversas nações dentre britânicos, australianos e milhares de reservistas chamados à ativa, a resistência se manteve forte. Em outubro de 1950, MacArthur encontrou o presidente americano Harry Truman, com a promessa de que a Guerra chegaria ao fim até o Natal. Contudo, após conflito no território norte coreano com vitória das forças das Nações Unidas, lideradas por MacArthur, próxima a fronteira da Manchúria (extremo oeste da China), Pequim (Beijing) deu sinais de que a China comunista interviria em defesa de seu território. Em novembro de 1950, os chineses se uniram ao conflito. Nos dois anos seguintes a região do paralelo 38 foi marcada por violento combate, com os dois lados fortemente armados para impedir o avanço do inimigo e a ocupação de pontos estratégicos. (Acima: Bandeira da República Popular da China em desfile militar no Dia Nacional).

O título, Indignação, refere-se a vários dos personagem, sendo a palavra em si representada por uma canção: o Hino Nacional da República Popular da China: Marcha dos Voluntários (a China foi membro da Aliança Militar dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que incluía também União Soviética, Estados Unidos, Império Britânico, Polônia, França, e outros países, incluindo o Brasil). Marcus Messner havia aprendido o hino ainda no colégio, na época da Segunda Guerra. O jovem costumava recitar sua letra silenciosamente, sempre que se sentia zangado, em protesto a atitudes indignantes de opressão e intrusão, tentando, assim, evitar passos em falso, construindo uma ‘grande muralha’ que pudesse protegê-lo. Para ele era a canção do inimigo.



IN - DIG - NA - TION ! ! !
(a mais bela palavra da lingua inglesa para Marcus Messner)

Acima: memorial dos veteranos da Guerra da Coréia - Washington DC, EUA. A placa diz: "Our nation honors her sons and daughters who answered the call to defend a country they never knew and a people they never met." (Nossa nação honra seus filhos e filhas que atenderam ao chamado para defender um país que nunca conheceram e um povo que nunca encontraram). O conflito entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte teve fim com o cessar fogo em julho de 1953, quando uma zona desmilitarizada foi estabelecida na fronteira entre os dois Estados. Ambos os lados abandonaram suas posições e uma comissão das Nações Unidas foi estabelecida afim de supervisionar o armistício. Não há um número oficial de quantos morreram nesta guerra. Dentre americanos, britânicos, chineses, sul e norte coreanos, estima-se mais de 700 mil soldados mortos em combate, 890 mil feridos e mais de 120 mil prisioneiros ou desaparecidos. Ao fim da Guerra, o povo coreano, uma das mais notáveis culturas da Ásia tinha sua dignidade abalada, com duas Coréias em ruínas, uma população desmoralizada levada a mendicância. Desde 1953, as Coréias têm trabalhado na reconstrução de seus territórios. A Coréia do Sul é, hoje, um Estado moderno. A Coréia do Norte tornou-se um dos países mais fechados ao mundo, e grande parte da população é pobre.

Acima, ao fundo: mapa mundial mostrando a superfície da Terra à noite. As luzes revelam áreas urbanizadas, o que possibilita a identificação de países, cidades, e até mesmo alguns rios ou estradas em torno das quais a urbanização ocorre (ex. Nilo e Trans-siberiana). No mapa sobreposto (à direita) vemos com mais detalhes a Península Han. A distinção entre as duas Coréias é marcante à noite. Enquanto a Coréia do Sul é altamente iluminada, o território da Coréia do Norte se encontra às escuras, a exceção da capital PyongYang, e outras poucas cidades. Esta diferença torna nítidas as fronteiras com a China, ao norte, e com a Coréia do Sul, no paralelo 38. A história continua e, ao longo das últimas seis décadas, conflitos de pequena escala, tanto terrestres quanto navais, têm ocorrido repetidas vezes (1999, 2002, 2009 e 2010) ao longo da linha demarcatória entre as duas Coréias. À medida que cada Estado ambiciona re-unificar a Península de acordo com seus próprios termos e sistema de governo, o Mundo lembra a delicada relação entre os dois países e a Guerra, terminou com uma trégua.


Indignação chama atenção pelos pequenos incidentes (familiares, ou do cotidiano) que alcançam conseqüências despropositadas.
.... a forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais”.
E nos faz refletir, dentre outras coisas, sobre nossas escolhas (ou a falta delas). Afinal, até que ponto somos donos de nosso destino ou joguetes do tempo e espaço em que vivemos?

Recomendadíssimo!


23 de maio de 2018

Homem Comum: Philip Roth (2/2)


Bryan Zanisnik,
“Philip Roth Presidential Library” (2016)
(detail)

Comentários dos Leitores do Clube pós Encontro #114

Gente, que noite maravilhosa a de ontem, hein? Começando pelo debate sobre o Homem Comum, excelente, e, após, a reunião de dezoito na Tratoria. Foi demais! Reacendeu  a alma meio apagada dessa quase octogenária.
Evandro, Rita, Newton e Elô, agradeço, de verdade, os comentários elogiosos e incentivadores ao meu texto no blog.

Bom fim de semana para todos. Beijos.
Elenir

* * *
 
Eis o poema de Ferreira Gullar declamado de memória (que memória!) pelo Antonio na Reunião:

Homem Comum

Sou um homem comum
     de carne e de memória
     de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
     pânica
     feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
     cessar.

Sou como você
     feito de coisas lembradas
     e esquecidas
     rostos e
     mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
     em Pastos-Bons
     defuntas alegrias flores passarinhos
     facho de tarde luminosa
     nomes que já nem sei 

bocas bafos bacias 
     bandejas bandeiras bananeiras
             tudo
     misturado
        essa lenha perfumada
     que se acende
     e me faz caminhar
Sou um homem comum
     brasileiro, maior, casado, reservista,
     e não vejo na vida, amigo,
     nenhum sentido, senão
     lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
     Quero, por isso, falar com você,
     de homem para homem,
     apoiar-me em você
     oferecer-lhe o meu braço
        que o tempo é pouco
        e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
     Homem comum, igual
     a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
     A sombra do latifúndio
     mancha a paisagem
     turva as águas do mar
     e a infância nos volta
     à boca, amarga,
     suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
     comuns
     e podemos formar uma muralha
     com nossos corpos de sonho e margaridas.

                    (Brasília, 1963)


De Ferreira Gullar para todos os seus leitores:  "Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos  é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens".

 * * *


Últimos Comentários dos Leitores do Clube antes do Encontro #114

* * *

Querida Joana:

Algumas pessoas têm certa capacidade de revirar a vida e não se culpar tanto, ou sentirem que estão quites com a vida e se perdoam de tudo!

No entanto, outras, deixam a vida levar e serem como podem. 

Ambas as maneiras, são formas de nos adaptarmos ao INEXORÁVEL. 

Veja, ele deixou de ser um pintor, e mesmo assim era bem visto nas exposições, para fazer publicidade! Não é uma crítica a ele, pelo contrário, ele  deixou de olhar para si e formar uma família, que aliás o detestava. OS HOMENS, JOANA, SOFREM MUITO COM A QUESTÃO DE SE SENTIREM OS PROVEDORES, DE TER QUE CUMPRIR O PAPEL.

Não estou defendendo, são opções, inclusive as mulheres se cobram em dobro!

Veja como nós mulheres abdicamos com mais flexibilidade, quase tudo, pela nossa família e filhos............ Etc. etc. etc.

Suas colocações são pertinentes e fico feliz de ter mais uma que adorou o livro.

Sobretudo, eu adoro sua capacidade de achar a poesia!

Rose, querida, sua análise , quanto a posição dele de não tomar as rédeas de sua vida, eu achei perfeita.

Concordo que viver para ele foi pior que morrer, quem sabe?


Beijos
Fátima

* * *

Que legal essa troca toda, onde cada mensagem traz uma nova abordagem, uma nova reflexão.

Joana,
Achei linda sua mensagem.  Essa frase (tomar as rédeas...) não é muito boa não.  Dá a entender uma onipotência inexistente.  De qqr forma, pra mim ela está relacionada com sonhar e perseguir, lutar pelos seus sonhos mas, como você disse, a Roda Viva está aí pra você ir revendo seus sonhos continuamente. E de novo lutar.  Quem foi que disse que a “vida é luta renhida, viver é lutar”?

Agora, vocês, meninas do grupo, não acharam que no livro as mulheres são tratadas de forma pouco admirável? A primeira mulher mal aparece, e é traída pelo personagem com a segunda.  A segunda é traída com a mocinha do escritório e a modelo loura.  A do escritório, coitada, só aparece se abaixando no escritório.  A loura é carente, dependente e pouco inteligente.  A senhora que passa mal demonstra sensibilidade e total dependência do marido, tanto que comete suicídio.  Só sobram a mãe e a filha do personagem. Mas mãe e filha já é outro departamento, principalmente na família judaica. 

Por que será que o autor faz isso?  Tem aí um viés da tradição judaica (patriarcal, onde a mulher é pura submissão e procriação)? É machismo do autor ou vocês têm outra visão? 

Beijos a todos,
Rose


* * *

Rose e amigos, bom dia!

Vc tem toda razão... Adorei também o que nos diz a Joana. Quanto à questão das mulheres, Rose, o autor nâo pode falsear o que foi a vida do personagem, não é mesmo? Considere a época, as décadas... E hoje ainda há mulheres e homens assim, embora muita coisa tenha mudado.

Alguns versos da música cantada por Sinatra servem para o livro do mês.


Bjs
Eloisa

* * *


Também achei muito rica nossa reunião;  A impressão inicial de um certo descontentamento com o livro, a angustia pelo tema da finitude, a vida na morte, foi  aos poucos, com a diversidade de pontos de visao sb o livro, a singularidade pessoal de cada um com suas proprias experiencias pessoais, senti uma expansão na compreensão do tema, e um ápice (para mim) muito prazeiroso com a pesquisa do Benites e os versos do Gullar na apresentaçao do Antonio.
Realmente nosso grupo é capaz de manter um encontro no "encontro"
                              
     Ceci


* * *


Gostei, Ceci, do encontro no "encontro". 


Realmente, nosso encontro é muito mais do que um simples encontro. Os comentários do livro leva-nos a encontrarmo-nos a nós mesmos, bem como a encontrar o outro. Que belo encontro!  E, falando em belo, foi belo e emocionante ouvir Antonio dizer o Homem Comum, de Ferreira Gullar. A reunião fechou com chave de ouro.

Abraços para todos.
Elenir

Obs. Fico falando, falando, porque não me canso de falar com vocês. Evandro me desculpe! Se o Homem Comum, sem nome, participasse de um grupo assim, não sentiria, certamente, a angústia e a melancolia da velhice.
Mais abraços. Elenir

* * * 

Parceiros da escrita, é maravilhoso nos encontrarmos numa reunião destas porque pessoas que antes nem sabíamos das suas existências estão falando das suas vidas como se estivéssemos passado a infância juntas, e, apenas nos relembrássemos.  A liberdade de se falar em assuntos, às vezes, tão pessoais nos aproximam cada vez mais. Beijos esperando a próxima. Sissa Schultz.

* * * 

Caríssimos, boa noite

Elenir, com sua presença qualquer reunião ou bate-papo na pizza se torna memorável.

Rita, o Evandro já incluiu o poema na postagem do livro, no blog do Clube. 

E no mais, gostaria de dizer que gostei muito da reunião, e da forma como cada um expôs suas impressões sobre o livro, um riqueza enorme. 

Sds,
Antonio 

* * * 

Prezados amigos,

A noite foi realmente maravilhosa. Apesar do tema do livro envolto em doenças e morte, mostramos que estamos bem vivos e capazes de tirar, de tudo, o melhor proveito. Todas as análises feitas mais uma vez nos enriqueceram a visão do mundo e da vida. Como disse a Dília, a morte não existe, é uma ficção (não sei por que, adorei essa perspectiva!...). E Antonio fechou com chave de ouro. O "Homem Comum" do Ferreira Gullar é aquele que nós somos, que sofre, luta e vive.

O CLIc, na verdade, supera a todos os livros, faz deles obras mais completas.

Abs,
Newton

* * * 

Caros colegas de leituras,


Os nossos encontros realmente são muito prazerosos. Em verdade vos digo que sou uma criatura muito matuta e brucutu e, por isso mesmo, levo muito tempo para me entrosar com as pessoas. Mas gostaria de dizer que o Clube tem um peso considerável para mim. Não sou muito boa na internet, mas entrando nesses menus, links ou seja lá o que for, encontrei o depoimento de Rita sobre o clube com o qual me identifiquei bastante. 



Em principio achei que encontraria pessoas esnobes, arrogantes por conta de suas formações, e eu acostumada a enxada e a pessoas do povão, fiquei ressabiada. O primeiro contato foi tenso, mas depois ficou mais leve e a medida em que conheço um tiquinho mais dos participantes, solto aos poucos o ar, porque nas falas de alguns encontros ecos em mim mesma. 



Não li o livro, mas mesmo assim vou a reunião porque me dão prazer. Falou-se sobre a ausencia de declaração de sentimentos e emoções do homem comum de Roth, pois bem, não quero morrer sem dizer que ouvir os depoimentos de Fred, de Elenir (tamanha emoção ao ler fragmentos que mais gostou do livro), do senhor que falou sobre a mulher que depois que o marido morreu não mais saiu de casa, da moça que falou das dores de seu familiar no hospital e que isso obscurece todo o resto e o que mais se deseja é o fim, Benito com sua analise meticulosa, a Gracinha com seu eterno jeitinho de menina que me faz querer voltar a infancia e tentar ser menos brusca, Evandro tentando por ordem, cadeiras extras, círculos fechado e outra fila, o Newton gravando, o barulho da cafeteira, as conversas paralelas, a amabilidade de Rita e a sempre gentileza de Elo para comigo, a agitação de Dília (contagia), a contribuição de Lílian (mesmo distante), a declamação de Antonio (caramba que memória - senti uma baita inveja - nunca decorei nada, o tico e o teco nunca se entendem e quase sempre dão pane) ficarão marcados em mim para sempre. E não estou me referindo apenas a essa reunião, mas a todas em que já estive presente. Finalizando a votação corporal foi de arrasar (quem votava em um livro de um lado e quem votava no outro do outro lado). Quer prazer maior que toda essa movimentação?

Neide

* * *



17 de maio de 2018

A Ilha sob o Mar: Isabel Allende

Zarité, a escrava,
dançando ao som dos tambores,
sentia-se livre.
(Elenir)




Tendo como pano de fundo o Haiti do século XVIII, A ilha sob o mar, da escritora chilena Isabel Allende, entra em discussão no encontro do Clube de Leitura Icaraí do dia 5 de abril, das 19h às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9 –Icaraí – Niterói). A entrada é franca.
O romance narra a história de Zarité, uma escrava vendida aos nove anos para um dos maiores produtores de cana-de-açúcar das Antilhas e de quem mais tarde se torna amante. Mesmo sem sofrer maus-tratos, Zarité acompanha de perto o sofrimento de seu povo. Quando a revolução haitiana explode contra os colonizadores franceses, ela tem a oportunidade de fugir e recomeçar a vida em outro país.


Sobre a autora- Isabel Allende nasceu no Peru, mas considera o Chile a sua terra natal. É considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Seu livro A casa dos espíritos (1982) foi adaptado para o cinema americano. A ilha sob o mar é o 16º romance publicado de Isabel Allende.

Erzuli me deu como céu
a ilha sob o mar
lá guardo meus mortos
lá meus mortos me aguardam
justos sonhos de ser gente
germinam e florescem
longe do açúcar vermelho.
Nossos pés sem calos se acariciam
numa eterna dança de pássaros
que voam no chão da terra
invertidos
livres
prontos para o amor.


Rita Magnago


* * *


E nos dias de hoje, mais de dois séculos após as histórias contadas no romance, e de cerca de 150 anos do assassinato de Lincoln ...

* * *

"Sobre esse livro A Ilha Sob o Mar... hummmmmm... Meu resumo é o seguinte: é um "Leque Secreto" afro-centroamericano... Só não tem pézinho quebrado pra caber no sapatinho mínimo, mas tem todo o resto, até a guerra que mata aos montes, as doenças que dizimam, os casamentos arranjados, o sofrimento feminino, a brutalidade masculina... Apenas sai o velho Oriente e entra o "Novo Mundo". Saem os olhos puxados e entram os negros. Sai a Flor da Neve e entra a Cana do Sol" (novaes /)


* * *

"Sentia que sua vida era uma navegação sem timão nem bússola, encontrava-se à deriva, esperando algo que não sabia nomear"


E se um dia se acabar

minha sacola de sonhos

vou ter que "costumizar"


meus pesadelos medonhos.


Ilnéa





* * *

"A Ilha Sob o Mar, dentre os de Isabel é o que eu gosto muito. Fiz a resenha no meu blog. Quem quiser dá uma olhada. Eu o li e confesso que já não acho tão legal, mas vale como ensejo para discussão." (Roberto)


* * *


Louisiana

* * *

"É uma leitura que nos envolve desde as primeiras páginas até as finais com um gosto enorme por saber mais e mais da história." (Sonia)



1 de maio de 2018

Astronomia Literária com Saramago




Estão sentados, felizmente numa sombra de árvores, ele perguntou, Que foi então que a trouxe a Lisboa, por que razão veio procurar-nos, e ela disse, Porque deve ser verdade que você e os seus amigos têm parte no que está a acontecer, A acontecer, a quem, Bem sabe a que me refiro, a península, o arrancamento dos Pirenéus, esta viagem como nunca se viu outra, Às vezes também eu penso que sim, que é por nossa causa, outras vezes acho que estamos todos doidos, Um planeta que anda à volta duma estrela, a girar, a girar, ora dia, ora noite, ora frio, ora calor, e um espaço quase vazio onde há coisas gigantescas que não têm outro nome a não ser o que lhe damos, e um tempo que ninguém sabe verdadeiramente o que seja, isto tudo também tem de ser coisa de doidos, Você é astrónoma, perguntou José Anaiço, nesse momento lembrado de Maria Dolores, antropóloga de Granada, Astrónoma não sou, nem parva, Desculpe-me a impertinência, andamos todos nervosos, as palavras não dizem o que deveriam, são de mais, são de menos, peço-lhe que me desculpe, Está desculpado, Provavelmente pareço-lhe céptico porque a mim não me aconteceu nada a não ser os estorninhos, ainda que, Ainda que, Há pouco, no hotel, quando a vi na sala, senti-me como se estivesse sobre um barco no mar, foi a primeira vez, Pois eu vi-o como se estivesse a aproximar-se de muito longe, E eram só três ou quatro passos. Vindos de todas as partes do horizonte, os estorninhos desceram subitamente sobre as árvores do jardim.


(A jangada de pedra - p.106)

30 de abril de 2018

Club Moon



Do we really need the Moon?
I do think it's controverse...
but for me, just keeping tuned,
she is the night queen of my verse.

(I, 20/06/2012)


"A Voyager 1, a sonda que foi enviada ao espaço pela Nasa em 1977, tornou-se recentemente o primeiro objeto construído pelo homem a alcançar a fronteira do sistema solar. A Agência Espacial Norte-Americana anunciou que segue recebendo dados da sonda e confirmou um aumento do recebimento de partículas carregadas, provenientes de fora do sistema solar. É possível que em um futuro próximo, a sonda comece a testemunhar mudanças nas forças magnéticas e gravitacionais.

Esta nave robô é o objeto mais distante da Terra e encontra-se atualmente a 18 bilhões de quilômetros do Sol, viajando a uma velocidade de 17 quilômetros por segundo. A informação enviada por ela leva 16 horas para chegar até as antenas receptoras na Terra. A Voyager 1 leva no seu interior uma mensagem de humanidade escrita por Carl Sagan, destinada a uma cultura extraterrestre que possa decodificá-la." (Grupo Astronomia - Facebook)



29 de abril de 2018

A resistência: Julián Fuks

Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência. Talvez a afirmação da continuidade da vida fosse mais um imperativo ético a ser seguido, mais um modo de se opor à brutalidade do mundo" 
(Cap. 13 - pg. 42)





“Resistir: quanto em resistir é aceitar impávido a desgraça, transigir com a destruição cotidiana, tolerar a ruína dos próximos? Resistir será aguentar em pé a queda dos outros, e até quando, até que as pernas próprias desabem? Resistir será lutar apesar da óbvia derrota, gritar apesar da rouquidão da voz, agir apesar da rouquidão da vontade? É preciso aprender a resistir, mas resistir nunca será se entregar a uma sorte já lançada, nunca será se curvar a um futuro inevitável. Quanto do aprender a resistir não será aprender a perguntar-se?”
Cap. 26 - pg. 79





Na dor, o silêncio...
Não da falta de palavras,
mas da própria ausência.

Gente brasileira!
De sua invejada alegria
fizeram o quê?

(Elenir)

Foi assim!

Só podemos nos apoiar no que resiste.
(Talleyrand)


Quinta-feira - 12/4/2018
Varanda lateral esquerda do Teatro da UFF
Centro de Artes UFF
Rua Miguel de Frías, 9 - Icaraí - Niterói - RJ
19:00 h

27 de abril de 2018

A Resistência, de Julián Fuks

Olá queridos!
Esse foi o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí.

Sinopse do site da Saraiva:  “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”, escreve, logo na primeira linha, Sebastián, narrador deste romance. Como em diversas obras que tematizam a Guerra Suja — o regime de terror inaugurado em 1976 na Argentina —, A resistência envereda pela memória pessoal e nacional. Sebastién é o filho mais novo, e seu irmão adotado, o primogênito de um casal de psicanalistas argentinos que logo buscarão exílio no Brasil. Os pais conhecem bem as teorias sobre filhos adotados e biológicos (Winnicott, em especial), mas a vida é diferente da bibliografia especializada. Cabe então ao narrador o exame desse passado violento e a reescritura do enredo familiar. O resultado, uma prosa a um só tempo lírica e ensaística, lembra belos filmes platinos como O segredo dos seus olhos."


No clube, alguns de nós achamos que o livro é autoficção, já que o autor também é filho de pais argentinos. Nem todos concordaram.
O livro, apesar de fino, é denso. Não é o tipo de livro para se ler rapidamente.
O narrador, a toda hora, volta no tempo, com suas lembranças sobre a família. 
Ele, que é o caçula, fala bastante do seu irmão adotivo que, com o tempo, tem dificuldade de se sentir inserido na família. 
A resistência se trata não só do irmão adotivo do narrador, mas também da resistência de seus pais, que sobreviveram ao regime político da Argentina. 
No final do livro, achei que a história ficou um pouco repetitiva, o que não tira o brilho desse livro, vencedor do Prêmio Jabuti de 2016, na categoria Romance.


Recomendo!