CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de abril de 2018

Club Moon



Do we really need the Moon?
I do think it's controverse...
but for me, just keeping tuned,
she is the night queen of my verse.

(I, 20/06/2012)


"A Voyager 1, a sonda que foi enviada ao espaço pela Nasa em 1977, tornou-se recentemente o primeiro objeto construído pelo homem a alcançar a fronteira do sistema solar. A Agência Espacial Norte-Americana anunciou que segue recebendo dados da sonda e confirmou um aumento do recebimento de partículas carregadas, provenientes de fora do sistema solar. É possível que em um futuro próximo, a sonda comece a testemunhar mudanças nas forças magnéticas e gravitacionais.

Esta nave robô é o objeto mais distante da Terra e encontra-se atualmente a 18 bilhões de quilômetros do Sol, viajando a uma velocidade de 17 quilômetros por segundo. A informação enviada por ela leva 16 horas para chegar até as antenas receptoras na Terra. A Voyager 1 leva no seu interior uma mensagem de humanidade escrita por Carl Sagan, destinada a uma cultura extraterrestre que possa decodificá-la." (Grupo Astronomia - Facebook)



29 de abril de 2018

A resistência: Julián Fuks

Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência. Talvez a afirmação da continuidade da vida fosse mais um imperativo ético a ser seguido, mais um modo de se opor à brutalidade do mundo" 
(Cap. 13 - pg. 42)





“Resistir: quanto em resistir é aceitar impávido a desgraça, transigir com a destruição cotidiana, tolerar a ruína dos próximos? Resistir será aguentar em pé a queda dos outros, e até quando, até que as pernas próprias desabem? Resistir será lutar apesar da óbvia derrota, gritar apesar da rouquidão da voz, agir apesar da rouquidão da vontade? É preciso aprender a resistir, mas resistir nunca será se entregar a uma sorte já lançada, nunca será se curvar a um futuro inevitável. Quanto do aprender a resistir não será aprender a perguntar-se?”
Cap. 26 - pg. 79





Na dor, o silêncio...
Não da falta de palavras,
mas da própria ausência.

Gente brasileira!
De sua invejada alegria
fizeram o quê?

(Elenir)

Foi assim!

Só podemos nos apoiar no que resiste.
(Talleyrand)


Quinta-feira - 12/4/2018
Varanda lateral esquerda do Teatro da UFF
Centro de Artes UFF
Rua Miguel de Frías, 9 - Icaraí - Niterói - RJ
19:00 h

27 de abril de 2018

A Resistência, de Julián Fuks

Olá queridos!
Esse foi o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí.

Sinopse do site da Saraiva:  “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”, escreve, logo na primeira linha, Sebastián, narrador deste romance. Como em diversas obras que tematizam a Guerra Suja — o regime de terror inaugurado em 1976 na Argentina —, A resistência envereda pela memória pessoal e nacional. Sebastién é o filho mais novo, e seu irmão adotado, o primogênito de um casal de psicanalistas argentinos que logo buscarão exílio no Brasil. Os pais conhecem bem as teorias sobre filhos adotados e biológicos (Winnicott, em especial), mas a vida é diferente da bibliografia especializada. Cabe então ao narrador o exame desse passado violento e a reescritura do enredo familiar. O resultado, uma prosa a um só tempo lírica e ensaística, lembra belos filmes platinos como O segredo dos seus olhos."


No clube, alguns de nós achamos que o livro é autoficção, já que o autor também é filho de pais argentinos. Nem todos concordaram.
O livro, apesar de fino, é denso. Não é o tipo de livro para se ler rapidamente.
O narrador, a toda hora, volta no tempo, com suas lembranças sobre a família. 
Ele, que é o caçula, fala bastante do seu irmão adotivo que, com o tempo, tem dificuldade de se sentir inserido na família. 
A resistência se trata não só do irmão adotivo do narrador, mas também da resistência de seus pais, que sobreviveram ao regime político da Argentina. 
No final do livro, achei que a história ficou um pouco repetitiva, o que não tira o brilho desse livro, vencedor do Prêmio Jabuti de 2016, na categoria Romance.


Recomendo!

26 de abril de 2018

Astronomia Literária com W.G. Sebald

"Somente no observatório astronômico octogonal acima da residência do antigo astrônomo da corte, onde Austerlitz e eu reatamos gradualmente nossa conversa interrompida, apareceu, se bem me recordo, um solitário turista japonês que, depois de surgir silencioso e repentino na soleira da porta, fez uma volta no octógono vazio e logo tornou a desaparecer, seguindo a seta verde que indicava a direção. Nesse recinto, como Austerlitz observou, ideal para o seu propósito, fiquei surpreso com a beleza simples das tábuas corridas de diversas larguras e com as janelas excepcionalmente altas, cada qual dividida em cento e vinte e duas vidraças quadradas emolduras por chumbo, pelas quais antigamente longos telescópios eram assestados contra eclipses do sol e da lua, contra as interseções das órbitas das estrelas com a linha do meridiano, contra a chuva de meteoritos das Leônidas e os cometas de cauda longa que voavam pelo espaço. Como era seu costume, Austerlitz bateu algumas fotografias, em parte das rosas de estuque no friso de flores que corria ao redor do teto, em parte também do panorama da cidade que se estendia a norte e a noroeste para além do parque, tiradas através dos quadrados de vidro chumbado e, enquanto ainda manejava a câmera, iniciou uma longa perquirição sobre o tempo, boa parte da qual retive claramente na memória. O tempo, disse Austerlitz no observatório astronômico de Greenwich, era de todas as nossas invenções de longe a mais artificial e, por estar vinculada aos planetas que giram em torno do próprio eixo, não menos arbitrária do que seria, digamos, um cálculo baseado no crescimento das árvores ou na duração necessária para uma pedra calcária se desintegrar, sem falar que o dia solar pelo qual nos orientamos não fornece uma medida precisa, de modo que para calcular o tempo temos de inventar um sol imaginário médio, cuja velocidade de movimento não varia e que não se inclina para o equador em sua órbita. Se Newton supunha, disse Austerlitz apontando pela janela para o cotovelo do rio que abraçava a chamada ilha dos Cães e que rebrilhava no último reflexo do dia, se Newton realmente supunha que o tempo era uma corrente como o Tâmisa, então onde está a fonte do tempo e em que mar ele por fim deságua? Todo o rio, como sabemos, tem necessariamente limites dos dois lados. Mas quais seriam, nessa perspectiva, as margens do tempo? Quais seriam as suas qualidades específicas que corresponderiam talvez àquelas da água, que é fluida, bastante pesada e translúcida? De que modo diferem as coisas imersas no tempo daquelas que jamais foram por ele tocadas? Por que razão as horas da luz e da escuridão são mostradas na mesma circunferência? Por que o tempo fica eternamente parado em um lugar e voa e se precipita em outro? Não se poderia dizer, disse Austerlitz, que o tempo ao longo dos séculos e dos milênios foi ele próprio pouco contemporâneo? Afinal de contas, não faz muito que ele começou a se difundir por toda parte. E não é verdade que até hoje a vida das pessoas em muitas regiões da Terra é regida menos pelo tempo que pelas condições climáticas e, portanto, por uma grandeza não quantificável que não conhece a regularidade linear, não avança de forma constante, mas se move em redemoinhos, é marcada por estagnações e irrupções, repete-se de forma alterada e evolui sabe-se lá em que direção? Mesmo em uma metrópole regida pelo tempo como Londres,  disse Austerlitz, ainda é possível como antes estar fora do tempo, coisa que até recentemente era tão comum em regiões atrasadas e esquecidas no nosso próprio país quanto costumava ser em continentes ainda inexplorados no além-mar. Os mortos estão fora do tempo, os moribundos e todos os doentes nos leitos das suas casas ou dos hospitais, e não só eles, pois um tanto de infelicidade pessoal já basta para nos cortar de todo o passado e de todo futuro. De fato,  disse Austerlitz,  eu nunca tive nenhum tipo de relógio, nem um relógio de pêndulo, nem um despertador, nem um relógio de bolso, muito menos um relógio de pulso.  Um relógio sempre me pareceu algo ridículo, algo absolutamente mendaz, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo em virtude de um impulso interno que eu mesmo nunca entendi, excluindo-me dos chamados acontecimentos atuais, na esperança, como penso hoje,  disse Austerlitz, de que o tempo não passasse, não tivesse passado, de que eu pudesse me virar e correr atrás dele, de que lá tudo fosse como antes, ou melhor, de que todos os momentos do tempo existissem simultaneamente uns ao lado dos outros, ou seja, de que nada do que nos conta a história seja verdade, o acontecido ainda não aconteceu, mas só acontece no momento em que pensamos nele, o que por outro lado, é claro, abre a perspectiva desoladora de uma tristeza eterna e de um sofrimento sem fim. - Eram quase três e meia da tarde e já começava a escurecer quando deixei o observatório com Austerlitz." (p. 102)




"Iver Grove fora construída por volta de 1780 por um antepassado de Ashman, disse Austerlitz, que sofria de insônia e se dedicou a diversos estudos astronômicos, em particular à chamada selenografia ou mensuração da Lua, em um observatório por ele montado no telhado da casa, razão pela qual, explicou Ashman, ele tivera contato frequente com John Russell de Guildford, um miniaturista e pintor de pastéis famoso além das fronteiras da Inglaterra, que na época trabalhou durante várias décadas em um mapa da Lua de um metro e meio por um metro e meio, que superava de longe em precisão e beleza todas as representações anteriores do satélite da Terra, as de Riccioli e Cassini, bem como as de Tobias Mayer e Helvelius. Nas noites em que a Lua não se erguia ou permanecia oculta atrás das nuvens, disse Ashman quando entramos no salão de bilhar ao término da volta que ele fez conosco pela casa, seu antepassado jogava uma partida atrás da outra contra si mesmo nesse recinto por ele mobiliado, até o raiar do dia." (p.106) 


CLIc na imagem

"Mais tarde, quando descrevemos um grande arco na escuridão sobre a Picardia e retomamos a rota para a Inglaterra, se erguêssemos os olhos dos instrumentos de bordo iluminados, víamos através dos vidros da cabine toda a abóbada celeste como eu nunca vira, aparentemente estática, mas na verdade girando lentamente, com as constelações do Cisne, de Cassiopeia, das Plêiades, do Auriga, da Coroa Boreal e tantas outras, quase perdidas na poeira cintilante, disseminada por toda parte, das miríades de estrelas anônimas. Foi no outono de 1965, prosseguiu Austerlitz depois de permanecer imerso por um instante em suas lembranças, que Gerald começou a desenvolver sua tese pioneira, hoje sabemos, sobre a chamada nebulosa da Águia na constelação da Serpente. Ele falava de regiões imensas de gás interstelar que, à maneira de nuvens de tempestade, se condensavam em formações distendidas no universo por vários anos-luz e nas quais novas estrelas nasciam em processo de condensação que se intensificava constantemente sob a influência da gravidade. Eu recordo Gerald dizendo que lá fora existiam verdadeiros jardins-de-infância de estrelas, uma afirmação que recentemente descobri confirmada num comentário de jornal sobre umas fotografias espetaculares que o telescópio Hubble nos enviou para a Terra em sua viagem pelo espaço. De todo modo, disse Austerlitz, Gerald se mudou então de Cambridge para dar sequência ao seu trabalho em um instituto de pesquisas astrofísicas em Genebra, onde o visitei várias vezes e fui testemunha, enquanto caminhávamos juntos para fora da cidade e ao longo das margens do lago, de como as suas ideias, como as próprias estrelas, emergiam gradualmente das ondulantes nebulosas das suas fantasias físicas." (p. 116)


Nebulosa da Águia

Não me parece, disse Austerlitz, que compreendemos as leis que governam o retorno ao passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que se imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os mortos e os vivos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mais me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos dos mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera.  (p.182)




25 de abril de 2018

A jangada de pedra: José Saramago

Alardear forças o forte diante do fraco é perversão moral


Se uma pessoa, para gostar doutra, estivesse á espera de conhecê-la, não lhe chegaria a vida inteira. Duvido que duas pessoas possam conhecer-se.


Platero

O mundo está cheio de coincidências e se uma coisa não coincide com outra que lhe está próxima, não neguemos por isso as coincidências, só quer dizer que a coisa coincidente não está à vista. 

Rocinante

- Aonde vais?
- Vou para o clube de leitura!
- De onde vens?
Venho do clube de leitura!











Para onde vai esta água?





Intertextualidade

Citação do livro O ano da morte de Ricardo Reis (1984) sobre as andanças do heterônimo de Fernando Pessoa:

As mortas, porque tinham morrido, deixaram-se ficar, com aquela inabalável indiferença que as distingue da restante humanidade, se alguma vez disse o contrário, que Fernando visitou Ricardo, estando um morto e o outro vivo, foi imaginação insensata e nada mais...




Novas Contistas da Literatura Brasileira






Livro 

da 

Andreia 

vem 

aí !

,

A Contista no seu elemento, com as Cliceanas Elenir e Adriana



22 de abril de 2018

São Jorge Amado






Tocaia Grande: Jorge Amado
debatido no Clube de Leitura em 13/11/2015






Jorge de Capadócia foi um soldado cristão do Império Romano no século IV. Quando o imperador Diocleciano declarou perseguição aos adeptos do cristianismo, Jorge protestou e foi perseguido implacavelmente. Em uma de suas batalhas mais emblemática, ao lutar contra um dragão,  montou em cima dele para tentar atingi-lo no pescoço mas o dragão começou a voar. Em certo momento se deu conta de que estava muito alto e não poderia mais pular, e caso matasse o dragão ele também tombaria do firmamento. Jorge ainda não estava 100% certo de que os anjos o amparariam em sua queda. O dragão voou até a Lua e a batalha prossegue até os dias de hoje à luz do luar, o que não impede que São Jorge possa combater por seus fieis que estão na Terra,  estando sempre pronto para atender os que buscam sua proteção. Os que o avistam nas manchas da Lua, com seu fiel ginete e sua lança, se armam de coragem para superar seus próprios obstáculos na vida, pois a eles o santo guerreiro lhes estende suas poderosas armas.  

Em tempo: e o fiel ginete do santo, como chegou na Lua?







19 de abril de 2018

Saudade




 Saudade, O Quadro – 1899 Autor: José Ferraz de Almeida Júnior

Paisagem
(Florbela Espanca)


Uns bezerritos bebem lentamente

Na tranquila levada do moinho.
Perpassa nos seus olhos, vagamente,
A sombra duma alma cor do linho!

Junto deles um par. Naturalmente
Namorados ou noivos. De mansinho
Soltam frases d’amor... e docemente
Uma criança canta no caminho!

Um trecho de paisagem campesina,
Uma tela suave, pequenina,
Um pedaço de terra sem igual!

Oh, abre-me em teu seio a sepultura,
Minha terra d’amor e de ventura,
O meu amado e lindo Portugal!


10 de abril de 2018

Suor: Rita Magnago




Uma pequena ostra
uma pequena abertura na ostra pequena.
Vejo o macio
sinto o escuro, o sinistro
o oco e a possível, improvável pérola.

Não posso pensar em caçar se quero encontrar.
O encontro é um acaso
ocaso.
Quero a aurora.
Não sei nada
e isso é tudo.

Incognoscível é a palavra que escolho
porque todas são nenhuma.
Não há letra nem sílaba
nem combinação que traduza a palavra não dita
a palavra que não se sabe, mas está lá
latente, latindo, mordendo a ponta da ostra
cansada de ser osso
ansiosa da carne rósea e macia
do lábio que não se diz.
Ainda.
Pra dentro da boca me levo
me engulo, engasgo
regurgito a palavra trabalhada 
por dentro da alma condoída, corroída.

Não é fluxo, é re-fluxo.
Não é poema, é floema.
É na troca que me faço orgânica.
Desfaço pesticidas de pele.
Sem superfície. 
A endoderme à mostra
Amostra de dentro da ostra
da dor, do re-torcer, do re-fletir.

Quem vai parir a pérola?

7 de abril de 2018

O Rochedo de Tânios: Amin Maalouf






Fonte

" - Então, Tânios, refletimos com os pés?

. . .

- Eu também reflito com os pés. Forçosamente, não faço mais que percorrer as estradas. As ideias que forjas com os pés e que sobem para a cabeça te reconfortam e te estimulam, as que descem da cabeça para os pés te pesam e te desencorajam."






"Há os que escolhem um caminho em vez de outro, que decide trilhá-lo neste ou naquele momento, e os que aceitam - e cumprem - o que o seu destino lhe reserva em todas as circunstâncias da vida."


Amin Maalouf