CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

26 de maio de 2017

Relembrando: Entrevistamos Chico Lopes

O CLIc tem o prazer de abrir passagem aos passos que já ouve bem próximos: os de Chico Lopes. Bem-vindo à primeira entrevista do CLIc no Facebook, à semelhança do que já foi feito no Orkut. Que todos nos alimentemos de seus saberes e experiencias na arte de escrever, criticar cinema, literatura, pintura. Todos poderão participar. Chico é membro do CLIc. Autor premiado pelo Jabuti 2012, com a novela O estranho no corredor, escreve em muitos sites artigos de grande riqueza cultural. Sua obra expressa a humanidade em seu mais alto estágio, aquela que busca a libertação (por Helena Martins Rodrigues)
(Apenas perguntas expressamente autorizadas pelos autores serão transcritas do Facebook)


Chico Lopes nasceu em Novo Horizonte, SP, em 1952. É escritor, pintor, crítico de cinema e literatura. Em 1992, mudou-se para Poços de Caldas, MG, e desde 1994 trabalha no Instituto Moreira Nó de sombras (2000), Dobras da noite (2004) e Hóspedes do vento (2010). Escreve regularmente nos sites Verdes Trigos, Verbo 21 e Germina. O estranho no corredor é sua primeira novela.
Salles como programador e apresentador de filmes. Como escritor, publicou os livros de contos





Chico Lopes Pois é, cá estou, aberto a quem quiser conversar comigo sobre O ESTRANHO NO CORREDOR. Devo revelar, de início, que essa história foi longamente elaborada, passei praticamente uma década reescrevendo-a e mudando de títulos várias vezes, porque a queria enxuta, e sabia que seria minha estréia em narrativas longas. Demorou muito, muito pra que eu pudesse publicá-la (tenho uma verdadeira história de suplício de passagens por inúmeros editoras, cuja única coisa que dizem hoje em dia para obras mais sérias é NÃO, "não tem apelo comercial" e ponto final). Mas, podem começar a conversar comigo que terei prazer em ir respondendo tudo...

Roberto Terra Olá, Chico! Parabéns pela vitória, que é "parir" um livro no Brasil. Chico, hoje o mercado é voltado para "o mais vendido" isso é frustrante para quem escreve?

Chico Lopes É frustrante sim, Roberto, como disse pra Helena logo acima. Porque um escritor não tem que estar voltado pra vendas, ou, sem perceber, lentamente, começará a tornar-se um comerciante, só querendo produzir um livro pra aquele público certo que já adquiriu outros seus. Ou seja, correrá o risco de cair numa fórmula. E isso é fatal para a literatura, que tem que ter sempre gosto de aventura e risco...Mas as editoras, atualmente, só querem o garantido, e o garantido, infelizmente, é de baixíssima qualidade...

Helena: Nossa, Chico.Essa de telenovela é de deixar qualquer um desanimado, qualquer um que não traga o sonho bem forte, a vocação de escrever, não é?

Chico Lopes Pois é, Helena, é de desanimar mesmo. Uma vez (já é outra história) um editor, ao receber um pacote dos meus originais, levou um susto. Começara a vida de editor (eles sofrem também) e tivera uma série de adversidades, falindo e sofrendo um enfarte! Pensou que meu pacote trazia cobranças de bancos! Eu não sabia se ria ou chorava dessa história...

Helena: Por falar nisso, vc poderia ajudar nosso leitores a entenderem a diferença ,ou diferenças, entre novela e romance.Afinal seu livro é mesmo uma novela ou um romance?

Chico Lopes A diferença básica que se estabeleceu, na teoria literária, é que a novela seria uma narrativa longa, mas não longa o suficiente para ser definida como romance, e, no entanto, não curta o bastante para ser vista como conto. Ficaria aí num estado intermediário. Mas esta definição, grosso modo, pode ser contestada. Porque alguns preferem achar que a novela é mesmo um romance, só que curto. Eu preferiria chamar O ESTRANHO... de novela...

Roberto Terra Chico de que se trata "O Estranho no Corredor"? O livro foi escrito ao longo de 10 anos. Ele foi sofrendo influência ao longo do tempo ou se manteve fiel a roupagem inicial?

Chico Lopes Caro Roberto: O ESTRANHO NO CORREDOR é uma daquelas histórias que não podem ser resumidas, têm que ser lidas. Trata de uma perseguição, mas claro que não é só isso. É a história de um homem esmagado por uma educação puritana e por uma vida de pobreza e migalhas que um dia acha que está sendo perseguido por um desconhecido misterioso. Por isso, foge da cidade onde mora, grande, pra pequena cidade onde nasceu e viveu com uma tia. Nos dez anos em que foi escrita, as mudanças de trama foram pequenas, ocorreram mais foram mudanças de linguagem, enfoque, diálogos...

Helena: Coitado! Risos para a história do falido. Estou percebendo que vc poderia escrever um livro de grande sucesso, mesmo, ao narrar sua aventuras rsrs Daria até entrevistas ao Jô Soares. 

Chico Lopes Acho que sim, daria um livro, só não sei se não seria como você viu aí, um caso de humor negro...rs

Helena: Diz-se que o escritor tem uma visão , com justa razão, e nós leitores temos outras. O título de seu livro já é uma riqueza. Ele dá margem a interpretações diversas.O mundo pode ser um corredor. Muitas vezes nos sentimos estranhos e não sabemos definir isso. Adorei o trecho em que o personagem manifesta ternura pela prostituta e não ousa manifestá-la , por exemplo.Isso seria estranho para ela também.

Chico Lopes Ah, sim, e eu sou daqueles homens que sempre se afastaram das prostitutas, pois elas me inspiram forte piedade. Aquele trecho eu o fiz com o coração mesmo. É interessante você interpretar o corredor como o mundo. Um outro amigo interpretou o corredor como a metáfora da própria vida errante do personagem, que se divide entre o interior e a capital, a pequena cidade e a metrópole, corredor este no qual surge o estranho. Mas, para mim, esse título deriva de uma coisa que sempre me deu medo - o de me encontrar com algum fantasma hostil em corredores de hotéis. Talvez porque tenha ficado assombrado pelo filme O ILUMINADO, em que, baseado em Stephen King, um escritor enlouquece num gigantesco hotel isolado nas montanhas geladas do Colorado. Dizem que PSICOSE, de Hitchcock, fez baixar as vendas, violentamente, das cortinas de boxes de banheiro na América. No meu caso, O ILUMINADO me infundiu pavor à solidão impessoal e soturna dos hotéis em que a gente, às vezes por força de viagens, se hospeda sozinho... 

Helena: História interessante essa das cortinas.Confesso que fiquei ,um tempo, abrindo a cortina do box devagar rsrsr e sempre me lembrando de Psicose.
O Grito - Edvard Munch (1893)

Chico Lopes: Creio que foi um terror que afetou principalmente as mulheres. O ator que fez o psicótico Norman Bates, Tony Perkins, jamais se libertou do papel. Ninguém dava muito crédito a ele quanto interpretava outros personagens. Foi uma espécie de maldição... 

Helena: Seu livro é cheio de referencias musicais, de artes variadas. Vamos ter um grande ganho fazendo as pesquisas delas. Costumamos apresentar esse mundo aos leitores interessados. Quando vc escreve, essas referencias vão surgindo naturalmente? Ou é suado, pesquisado?

Chico Lopes Não, Helena, são lembranças que vão me surgindo naturalmente, e, em geral, ajudam a compor o personagem, aproximando suas predileções musicais e outras da vida que ele leva e introduzindo, a partir destas, um comentário às vezes irônico (principalmente quando a situação não é romântica, mas uma canção romântica a acompanha; eu gosto desses contrastes...) sobre a sua vida. Como sou pintor e um grande apreciador de música e cinema, e tenho uma memória de elefante pra letras de música, filmes, referências da história da arte etc, estas coisas vão recheando minhas narrativas com naturalidade.

Novaes/ Oi Chico Lopes, boa noite. Ainda não terminei de ler, mas estou gostando do seu estilo e dos personagens que você criou. Esse Russo é uma figuraça, hein? Você já conheceu alguém como ele?

Chico Lopes Ah, Novaes, conheci sim. Me inspirei em vários amigos meus que eram bastante debochados e botequeiros e noctívagos. Creio que Russo, apesar de sua falta de caráter, é uma figura interessante, porque paralelo a isso tem uma dose de generosidade e de loucura que atrai o personagem principal, que é muito travado, reprimido...Quis ali criar um contraponto entre um homem cheio de escrúpulos, penitências e recalques com um outro todo desinibido e doidão...

Novaes/ Ficou muito bom, parabéns. Estou no início do livro, mas a existência desses 2 polos (um travado e outro meio escrachado) dá uma movimentação interessante na história. Lendo acima sobre o título do livro, achei interessante porque se o personagem foge pra sua cidade natal (não cheguei nessa parte), então podemos considerar que ele é um "corredor" (pois correu, fugiu) e talvez haja "um estranho" dentro dele mesmo... Será? (Deixo essas obs. mas terei que me afastar do micro agora - vou buscar uma filha num cursinho - volto depois) Abs!

Helena: Gostei de ver o Russo filósofo tb.Bem interessante mesmo. Chico, sei que já fez isso, mas poderá repetir?Onde adquirir seu livro O estranho no corredor?O Concièrge ainda terá para vender?Tem alguém me dizendo que vai adquiri-lo.

Chico Lopes Atualmente, ele pode ser comprado nas redes Saraiva e Cultura em S.Paulo. Também pode ser adquirido na própria editora 34 com eliete@editora34.com.br e, no Rio de Janeiro, creio que algumas livrarias (como a Travessa) terão. Pode ser encontrado com facilidade em indicações de livrarias na Internet, pelo que tenho reparado.

Novaes, tua interpretação aí do corredor é interessante e enriqueceu a visão do livro. Ótimo. Sem dúvida, há um estranho dentro dele mesmo, como há um estranho dentro de todos nós. Basta lembrar o brado do poeta Rimbaud, efetivo para a modernidade literária de um modo decisivo - EU É UM OUTRO...

Roberto Terra Vejo corredor como uma ligação, túnel do tempo, um "religare" que dependendo do sentindo gera muito medo pela quantidade de portas que poderão existir ao longo desse percurso... Pior medo seria se deparar com a imagem de si mesmo no meio do corredor. Vou comprar o livro, Chico, depois voltarei com substância rs

Chico Lopes De fato, Roberto, o sentido de ligação do corredor é bastante forte, na narrativa. É uma passagem, estreita, difícil, penosa mesmo, como metáfora, e também a figura do estranho permite que você veja a história sob múltiplos ângulos, creio. Mas é claro que vou querer que você leia primeiro pra fixar teu ponto de vista...

Novaes/ Sim, Chico Lopes, percebi que o Russo também guarda um "estranho" dentro dele, quase explícito, com aquelas "brincadeiras" estranhas dentro do banheiro masculino... Um personagem interior que parece beirar a realidade, reprimido apenas por uma fina película de censura consciente... Ou seja, ele também vive uma forma de tensão interior, como o personagem principal. Legal essa dinâmica!


Nighthawks - Edward Hopper
Evandro: A interpretação que fiz cá com meus botões foi que o estranho é o próprio protagonista e que sua verdadeira, digamos assim, alma, é o estranho que o persegue, que foi banida do seu corpo pelos recalques, pela educação puritana rigorosa, etc. Essa sombra que o persegue é ele mesmo e enquanto ela não é restaurada ele foge de tudo e de todos, buscando refúgio na bebida, por exemplo. Quando enfim decide enfrentar sua própria sombra, aí eu não sei se ele se liberta e se encontra ou se enlouquece de vez. A interpretação do final fica a cargo de cada leitor. 

Chico Lopes Evandro, acho muito boa a tua interpretação, mas eu não fecho com interpretação alguma, porque gosto da multiplicidade das leituras e de ficções que oferecem camadas e mais camadas de significados possíveis. Neste ponto, tomo o partido da realidade, que, a meu ver, nunca é tão sólida e unívoca quanto se pensa, e um de meus mestres literários maiores é Henry James (até traduzi A volta do parafuso para a Landmark, editora, em 2004), que pregava essa ambiguidade, essa polissemia. Também sou adepto dos finais em aberto, porque penso que a vida real nunca nos apresenta finais e sim desfechos provisórios, porque tudo continua e tudo é entretecido de ilusões e delírios. 

Evandro: Por isso e pela qualidade da escrita é que achei teu livro esplendidamente literário! 

Chico Lopes Exato, foi exatamente isso que procurei: a força da linguagem, acima de tudo. A linguagem, mais que o enredo, tornou-se a pedra fundamental da literatura contemporânea. Eu gosto de ler uma história bem contada, como todo mundo, mas o avanço da literatura modificou muito tudo isso - conta-se uma história, arma-se uma trama, mas o interesse é sobretudo o estilo, que é capaz de engendrar um mundo autônomo, pertencente só a um dado escritor, como uma marca de identidade intransferível. 

Helena:  Adorei A volta do parafuso e acho mesmo que a grande virtude do livro está nessas todas possibilidades, Chico, que ele oferece. Chico, se seu livro fosse um quadro famoso, qual seria ele?rsrs 

Chico Lopes Puxa vida, Helena, pergunta difícil de responder. Mas, como sou pintor e admiro muito certos grandes pintores, eu não diria que escolheria um quadro apenas, mas sim obras de, por exemplo, Edward Hopper, hiper-realista que mostra muito a solidão das pessoas em cenários metropolitanos americanos, bares, quartos de apartamentos etc., ou de alguns pintores expressionistas como Ensor, Kirschner, Munch. Creio que, se uma escola estética me influenciou muito, esta foi o expressionismo, e em seguida o surrealismo, na pintura. E isso tem reflexos em minha literatura. Gosto de seguir o preceito de Kafka, que dizia que "o que faz o monstruoso é a naturalidade com que é apresentado". Você conta uma história fantástica como se realista fosse, em resumo...O plano em que ela ocorre é o da realidade, mas exacerbada de tal modo que chega ao delírio e à desfiguração, alterada pela visão paranóica ou sofrida dos personagens... 

Helena:  Munch...é desse que falo! Muito bom!! 

Chico Lopes De fato, "O grito" me atrai muito, mas é a obra toda dele que é impressionante, viu, Helena? Sugiro que você adquira o livro EDVARD MUNCH, de Ulrich Bischoff, que existe nas livrarias pela editora Taschen. Traz o GRITO na capa e é magnífico... 

Helena: Esse quadro é o final do livro!rsrsr 

Chico Lopes Sabe que lembra mesmo, Helena? (risos) 

Evandro: Chico, confesso que senti um certo estranhamento lendo teu livro. Minha avó tinha sobrenome Lopes e meu avô era Paiva e se tornou alcóolatra, morrendo em consequência disso. A certa altura do livro me perguntei: será que o Chico Lopes conhece a história da minha família? Adicione-se a isso o choque civilizacional sofrido pelo protagonista que não se adapta na cidade grande e volta para o interior, onde também não encontra mais espaço para levar sua vida a contento, experiência que vivi, voltando para o interior e depois retornando. As viagens noturnas de ônibus, as estações rodoviárias, os pés-sujos onde fazemos amizades de conversa fiada e birita, a relação provinciana com os conhecidos que não são amigos propriamente ditos, mas compartilham uma enorme quantidade de vida comum, já que no interior todos parecem saber da vida de todos, etc. Em suma, quando peguei teu livro para ler pensei: vou ler rápido este livrinho, e o livrinho virou um livrão que me atordoou. Mas no meio de toda esta identificação com a história, me pegava às vezes flutuando em algum trecho de puro valor literário, de musicalidade da escrita. Noutras partes você pegou pesado, usando de linguagem de casa da luz vermelha, de baixo calão. Acho que teu livro vai bombar na nossa reunião de Maio. Bem, e pra não deixar de fazer uma pergunta, aí vai: você se sente um estranho no nosso clube de leitura ou os estranhos somos nós? 

Helena: O quadro é o ápice perfeito! Olhando o que diz Evandro, ainda acrescento, sua descrição da cidadezinha na chegada foi uma das partes de que mais gostei.Um primor. 

Chico Lopes Evandro, legal isso que você disse, pois tudo ali é ficção, Paiva foi só um sobrenome comum que me ocorreu e que me pareceu verossímil para a narrativa, e sou Lopes, que é um sobrenome bastante corriqueiro, não? Mas é curioso como a gente, no processo de fantasiar, acaba atingindo o particular de muitas pessoas. Também morei (na verdade, tentei morar) em SPaulo uma época e, desesperado, acabei voltando pra minha terra natal, no interior de SP, a pequena Novo Horizonte. Mas eu sou bem pouco daquele professor (ela, pra começar, é um sujeito magro, e eu sou gorducho rs rs) Eu sempre faço ficção com alguns elementos de realidade, mas encontro gente que, lendo tal ou qual conto meu, jura que eu me baseei em fulano ou sicrano conhecido etc e tal. Acho que, quando você mergulha com força na realidade da criação, acaba atingindo o inconsciente coletivo, de certo modo. Não me sinto um estranho no clube de vocês, não (acho uma iniciativa muito interessante isso, propiciando um debate com os escritores que é necessário e sadio existir). E nem acho que vocês sejam estranhos. Ou, grosso modo, somos estranhos, bizarros, todos os que gostamos de literatura num país tão iletrado... 

Chico Lopes Helena, me esmerei muito naquela chegada à cidadezinha. Na verdade, ele já a conhecia, mas a revia, e ela estava sendo apresentada ao leitor - portanto, era necessário captar, por assim dizer, a cor local não apenas no sentido físico, mas também psicológico...

Novaes, de fato, há uma ambiguidade sexual nem tão velada no Russo. E, se você prestar atenção mais à frente, é muito ambígua a atitude dele dando Carla de presente, por assim dizer, ao professor. Outra coisa: quando naquele bordel, ele brinca dizendo ao professor que podiam ter feito um menáge etc e tal. Ele não é um homossexual, mas, como muitos machões, reprime essa faceta através de gozações e escárnios que são, em parte, reveladores de uma fantasia reprimida.

Helena: Vou destacar um dos trechos mais perfeitos , quando fizermos as fotos dessa reunião.

Chico Lopes A respeito desta observação de Novaes Barra, aliás, quero acrescentar que um personagem literário só é satisfatório quando não é chapado, isto é, quando tem várias camadas e pode ser visto sob vários ângulos, tal como uma pessoa real, coisa que nunca, a rigor, chegamos a conhecer direito nesta vida. Aprendi isso em Dostoiévski, que faz com que um mesmo personagem seja adorável, palhaço, assassino, incestuoso e tudo que se possa imaginar, mas não perde a grandeza humana, o mistério múltiplo que cada ser carrega...E em Dosto. a gente vê como um personagem se derrama, se confessa e, no entanto, jamais deixa de nos seduzir, mesmo confessando as coisas mais miseráveis...

Helena: Pois é, já falamos sobre isso, em outra oportunidade, esse perseguidor,lembra o perseguidor do personagem principal de Crime e castigo. Aproveitando mais ainda de seus saberes , Chico, fale de seus autores preferidos, que lhe inspiram, acordam a vontade de escrever, por favor.

Chico Lopes Ah, Helena, eu tenho muitos autores que vivo relendo. O elenco começa com Proust, meu favorito, e depois Dostoiévski, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Henry James, Julien Green, Carson McCullers, Truman Capote...Também faço muitas leituras de autores policiais ou de terror como Stephen King, Ruth Rendell, Patricia Highsmith, H.P Lovecraft. E tenho mania de livros sobre cinema (é o tipo de presente que mais gosto de ganhar, filmes sobre filmes, astros e cineastas). Também curto ensaios literários como os reunidos no livro UM DEUS SELVAGEM, de A.Alvarez (que versa sobre suicídios na literatura) ou ensaios e palestras do grande Jorge Luis Borges. Recentemente, descobri escritores italianos que estão me deixando de queixo caído como o Dino Buzzati, o Italo Svevo...Mas, pra dizer a verdade, sempre fui um leitor muito eclético. Só que, quando a gente quer ficar em companhia realmente valiosa, sempre volta aos grandes, né?...

Helena: Esqueceu dela, da grande....rsrsr

Chico Lopes Quem seria? Virginia Woolf, Clarice Lispector? Bem, eu gosto das duas... rs

Chico Lopes O curioso é que comecei escrevendo poesia, mas hoje em dia quase não leio mais poesia (o que considero uma certa perda). Mas, sempre me lembro de trechos de Pessoa, Drummond, Quintana, e me encanto novamente com eles. Mas não tenho muita paciência pra ler poetas que não conheço. Também considero isso uma falha minha. Parece que a prosa me pegou pra todo sempre, e, no entanto, não gosto de prosa desprovida de poesia...

Helena: O Clube leu faz tempo(minha indicação) ITALO SVEVO: A consciência de Zeno.

Chico Lopes Helena, é um clássico, um livro maravilhoso (o pretexto tão simples, de procurar um psicanalista pra deixar de fumar, puxa aquela investigação psicológica de um homem medíocre tão completa)...Mas, agora, como disse, estou me retirando. Boa Noite pra todos! Good night/sleep tight...

Rosemary: Livro comprado. Preciso aguardar 6 dias úteis. Será uma experiência nova esta de ler e poder conversar com o autor. Santa tecnologia.

Chico Lopes Rosemary - Gosto do facebook porque me põe em contato com um monte de gente e me permite esse acesso ao que os leitores pensam e sentem. É uma experiência tremendamente enriquecedora. Pensemos apenas no passado,quando escritores de geografias diferentes e distantes tinham a maior dificuldade de saber a mera existência uns dos outros e tinham que, no máximo, esperar cartas pelo Correio que podiam durar meses pra manter um diálogo. A tecnologia é fascinante por essas coisas...

Chico Lopes Oito e vinte e cinco da manhã e já estou disponível pra perguntas da turma daqui do Clube ao longo do dia. Podem me abordar, os que quiserem. Abraços 

O escritor Chico Lopes, que residiu por 18 anos em Poços de Caldas, onde se destacou como escritor, jornalista e comentarista de cinema no Inst. Moreira Salles - Casa da Cultura, estará de volta à cidade para uma palestra no dia 3 de maio, na Feira do Livro de 2013, no Complexo Cultural da Urca. 

A palestra versa sobre PRAZERES E DESCOBERTAS DA LEITURA DE CONTOS E ROMANCES e nela o escritor falará de sua experiência como contista já veterano e romancista estreante. Vindo de uma carreira de três livros de contos bem saudados pela crítica, o escritor estreou em 2011 com o romance O ESTRANHO NO CORREDOR, que lhe valeu um lugar entre os dez finalistas do Prêmio S.Paulo e um Jabuti na categoria romance em 2012. Chico falará com o público sobre sua passagem de um gênero para outro e dará seu ponto de vista sobre os prazeres dos diversos gêneros literários. 

A palestra será às 14, 30 do dia 3 e o autor sorteará livros de sua autoria entre o público participante.





Evandro: Chico, bom dia! Em relação ao que você mencionou anteriormente, sobre a força da linguagem, o estilo de cada escritor, pertencente só a ele, como uma marca de identidade intransferível. Isso é algo adquirido ao longo da formação do escritor e que permanece posteriormente ou se transforma incessantemente ao longo de sua vida? Fale um pouco dos ingredientes que atuam nesse fiat lux de um escritor, por favor. Existe algum grande escritor que tenha transformado essa assinatura ao longo da vida de forma a não ser possível reconhecê-lo se não soubermos a priori que ele é o autor de determinado livro?

Chico Lopes Evandro, eu acredito que todo escritor padece muito para encontrar a sua própria voz (quer dizer, seu estilo) em meio às muitas vozes (influências) que vai recebendo ao longo de sua vida. Na minha experiência pessoal, rasguei tentativas e mais tentativas de contos e novelas até que, aos 48 anos (e aí somente), reuni um livro de contos, incentivado pelo Inst. Moreira Salles de Poços de Caldas, que foi publicado (Nó de sombras, IMS/SP, esgotado). Tive a chamada estréia tardia, que é melhor,nesse caso. Hoje em dia, a pressa domina e os escritores estreiam rápido, mal terminam um texto já vão desovando-o na Internet ou transformando-o em livro. Acho isso prejudicial. Porque um estilo se faz de muita tentativa e erro, muitas relutâncias e escolhas, marchas e contramarchas. E, assim que ele é obtido, não pode ser dado como absoluto, já que o aperfeiçoamento natural que a gente busca pode modificá-lo num ou outro aspecto, mas eu diria que não substancialmente (o estilo é um pouco fatídico, ele é o próprio homem, dizem alguns). Há escritores que, com um talento múltiplo, sim, se comprazem em despistar o leitor de seu verdadeiro estilo - basta citar o caso de heterônimos de Fernando Pessoa. Mas creio que, por mais que a forma possa mudar e o escritor manipulá-la a seu bel prazer, quando o talento se une à versatilidade, o conteúdo dificilmente muda - as escolhas psicológicas, temáticas, que fazemos, nos definem melhor que a forma adotada.

Eu diria que um estilo é fruto do tempo sim, e, assim que conquistado, é tolice não ser fiel a ele.

Helena Martins: Chicoooo, rsrs Aqui no Clube, costumamos classificar os livros em femininos e masculinos. Obviamente, constato ser seu livro voltado para o masculino, o que muito me agrada, pois tão poucos homens manifestam coisas desses mundo de forma tão sincera.Claro que ele não se limita ao universo masculino.Vemos até o quanto pesa sobre ele a influencia da mulher (mãe, mulher, irmã), em geral manipuladora dos sentimentos masculinos. Vc aborda em seu livro questões que poucos homens ousam declarar:preocupaçãocom tamanho do membro, fantasias, cobranças de amigos, um mundo masculino erguido em cima de padrões. Ser diferente deles, não querer prostitutas, por exemplo, faz do homem um estranho. Uma das coisas que mais agradou em A Ilha sob o mar, foi um dos personagens não querer relação artiificial com a prostituta(coitado foi enganado!). SER SENSÍVEL, em geral , é algo rejeitado pelo macho. Como vc vê essa questão nos dias de hoje? As coisas mudaram? A literatura tem colaborado como para isso?

Chico Lopes Helena, não sei se a evolução masculina foi grande. Percebo quase sempre os mesmos problemas de afirmação, tamanho de membro, fantasias de onipotência, estupidez crassa, coisas bem características da couraça masculina. Mas me sinto um desses homens que pouco se importam em se afirmar como machões, não tenho pejo em lavar louça e fazer outras tantas coisas pra minha mulher, tenho uma filha que foi criada pra ser independente e não ficar deslumbrada por homens e que está se revelando uma intelectual - em suma, minha família é bem pouco típica, no quadro brasileiro. Acredito que todos os homens que se dedicam à arte têm uma sensibilidade mais livre, permitem-se mais nuances de emotividade, o que não significa necessariamente que tenham que ser homossexuais. Mas, tanto na questão da libertação das mulheres quanto na libertação masculina (porque o machismo parece privilégio, mas pode ser um senhor fardo também), acho que a sociedade brasileira vai a passos de tartaruga - avança um pouco e logo vem com contramarchas. Eu quis pintar o personagem do ESTRANHO NO CORREDOR como um homem colhido entre essas contradições, ele não se sente bem com o mundo masculino de modo algum, mas é sensível ao encanto das mulheres (só não as quer submetidas e avacalhadas) e, no entanto, sofreu uma formação puritana e rígida demais, donde suas inibições (creio que a cena em que mantém relação sexual com Carla é bem reveladora disso). A sua homossexualidade, se existe, é muito reprimida. Ele me parece mais um homem com medo de sexo, qualquer sexo, porque teme abrir as comportas de sua intimidade.

Chico Lopes Helena, complementando, quero dizer que não aceito bem essa divisão rígida entre livros masculinos e livros femininos. Será tão visível a fronteira? Como analisar, p. ex, Madame Bovary e Ana Karenina, clássicos escritos por homens e no entanto tão sensíveis às questões femininas? Orlando, de Virginia Woolf, é genial, porque o personagem vai virando homem e mulher com o passar do tempo, uma criatura fluida, e ela ironiza muito essas divisões de sexo (ao menos do ponto de vista psicológico, parece haver muita arbitrariedade nessas dicotomias). Enfim, isso me parece dúbio...

Helena: Gostei, claro, Chico.Sobre essa questão da divisão dos livros srsrré mais uma brincadeira, uma tentativa, mas percebemos que quando falamos dos homens também falamos da mulher.Nada muito rígido, viu? É mais uma provocação, uma chamada para essas divisões.Alguns acham que tal escritor tem alma feminina, outros alma masculina. Eu diria que vc tem alma humana.Ah, estou amando Orlando.

Chico Lopes É verdade, Helena, creio que a questão que se coloca é até onde somos humanos, não até onde somos masculinos e femininos. Isso é sexismo, e não nos leva a lugar algum. Precisamos de mais GENTE e menos classificações rígidas. Quase sempre os militantes disto ou daquilo, gay ou woman lib, acabam caindo em extremismos e simplificando e enrijecendo as questões. A liberdade humana, o amor humano, é o que conta.

Helena: "A liberdade humana, o amor humano, é o que conta."Viva!!

Chico Lopes Viva! Temos que afirmar esta liberdade, este amor, este humor, esta tolerância, esta abertura, o tempo todo...

Chico Lopes Bem, mas passei da hora e estou indo dormir. Boa noite pra todos...

Helena: Obrigada por nos disponibilizar seu tempo, por mais este dia. Boa noite!

Helena: "Em entrevista, o autor (Autran Dourado) certa vez declarou: 

Meus personagens se parecem muito comigo. Eu os conheço muito bem e sofro a angústia que eles sofrem. Não tenho nenhum prazer em escrever. Depois de pronta a obra, aí me dá uma certa satisfação, mas a mesma que dá quando se descarrega dos ombros um fardo pesado. [...] (Escrever é) também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você. [5] "E para Chico Lopes, o que é escrever?

Chico Lopes Concordo em grande parte com o Autran Dourado. Livros verdadeiros têm muito de auto-exorcismo, a gente os escreve para entender melhor os próprios demônios, mas não é certo que, ao fim, entenda-os melhor que os não-escritores. Há, porém, um grande prazer em escrever, o prazer de encontrar palavras certas para sensações, coisas, situações, almas, e um toque de libertação (moderada, mas essencial). E acrescentaria a essa questão de destino que há na atividade literária, uma frase célebre de Dostoiévski: "A gente não possui o tema, o tema é que nos possui".

Helena: Amigos, nosso querido Chico estará por aqui respondendo sempre, à medida que perguntarmos, até o fim do mês.Quem ainda não leu o livro fique tranquilo.Haverá tempo.

Evandro: Olá Chico Lopes, boa noite! Gostaria de saber o que sente um autor ao se encontrar com seus leitores? Há diferença se a interação é virtual, como está sendo aqui no Facebook com os leitores do CLIc, ou se a interação se dá tête-à-tête, como seria no dia da Reunião com cerca de 30 leitores?

Chico Lopes: Para mim, é nova esta experiência de encontro com leitores pelo facebook, e vem me parecendo bem interessante. Porque sinto que penso melhor escrevendo do que falando...Evidente, perde-se muita coisa com a comunicação sem olho no olho, mas ganha-se outro tanto. Acho que vocês têm feito observações enriquecedoras sobre o livro e me sinto muito com isso...Infelizmente, não poderei estar na reunião, mas espero que esse encontro pelo facebook possa compensar minha ausência.

Helena: Chico , boa tarde. Trago a pergunta de um amigo comum(ele, como vc sabe, não tem Facebook).Carlos M Rosa pergunta:Chico, tirando as questões mundanas, que afetam todos nós, o que te persegue?

Ceci: gostaria de saber um pouco sobre o que te "moveu" a escrever o livro

Chico Lopes: Oi, Carlos, grande cara, não sei se entendi bem tua pergunta. Creio que as questões mundanas, se compreendi por coisas do cotidiano e da sobrevivência, são as que mais ferram um escritor sim, roubando-lhe o tempo que poderia dedicar à literatura e impedindo-o, aliás, de fazer isso, principalmente se ele não for um daqueles herdeiros folgados que o Machado de Assis tornou personagens de seus romances...É preciso lutar pela sobrevivência, e isso já nos mutila muito. Não sei se sou perseguido por nada além disso. Posso falar não do que me persegue, mas do que persigo: edições de maior penetração, com mais leitores e mais atenção dos críticos que importam e a possibilidade de relançar meus três livros de contos, que apresentaram vários defeitos de revisão e eu quero reescrever em muitos pontos...

Chico Lopes: Ceci Lohmann: Escrevi o livro O ESTRANHO NO CORREDOR meio que movido por um sentimento de paranóia (tenho cisma medrosa com corredores, elevadores e lugares fechados em geral) e um desejo de recontar meu passado através de um personagem fictício. Parcialmente, até que realizei isso, mas a ficção tem uma maneira sorrateira de se colocar à frente da gente e nos ludibriar, porque o livro foi ganhando forma própria e o personagem começou a deixar de se parecer comigo...Também queria mostrar como não há muita saída para certas pessoas oprimidas, seja na cidade grande, seja na pequena, e como é preciso romper com tudo que nos formou. O livro é um brado contra um atavismo infeliz...

Ceci: Oi Chico...obrigada por sua resposta..queria saber se vc nao viria para a Reunião..acho que seria muito importante para nós

Chico Lopes: Tenho no dia 3 um compromisso há longo tempo assumido com uma palestra na Feira do Livro em Poços de Caldas...Mas creio que ainda algum dia poderei aparecer em Niterói, mas de repente...

Ceci: Seria maravilhoso..Ah! Estive pensando em ir la...gostei muito de conhecer seu livro,ou seja sua criação bem como o autor

Concierge Clic: Bom dia, Chico Lopes! Uma honra e um prazer tê-lo aqui no CLIc interagindo conosco! Eu gostei do paivinha! Algumas leitoras, no entanto, me disseram que não gostaram dele, o acharam problemático, confuso, fraco, alguém que foge da vida, um anti-herói. Paivinha não parece ser o tipo de homem que agrada as mulheres! rsrsrs. Você acha que o fato de não se identificarem ou admirarem o protagonista pode fazer com que as pessoas digam que não gostaram do livro independente da qualidade literária do mesmo? De forma reversa acontece quando se gosta de livros de péssima qualidade literária mas que contam uma história que agrada as pessoas. Hmm, acho que acabei chegando à questão: o que é literatura?

Chico Lopes: Concierge: Não creio que um escritor sério, ao conceber um personagem, se preocupe muito com a questão de que ele será amado ou não pelos leitores. Isso cabe em geral aos escritores que querem cativar e adular o público e não são fiéis a si mesmos nem à arte literária. Um escritor cria seu personagem por uma necessidade interior impositiva, e não sabe o que o mundo pensará dele em nenhum momento, pois este é um julgamento que não lhe cabe. De fato, meu personagem é um anti-herói, e em geral prefiro gente assim, com um pé na realidade (personagens muito heróicos e idealizados não são mais que mentiras para entreter os desejos de compensação fantasiosa dos leitores). Controvérsias de leitores à parte, literatura é arte, e arte comprometida (no meu caso) com mergulhar profundamente na realidade. É possível que muita gente desgoste de Madame Bovary, por seu suicídio ou por outras razões, e do Brás Cubas, por sua ironia e cinismo, mas eles se impuseram por si mesmos acima e além disso. Claro que meu livro é bem menor que esses, mas eu procurei ser honesto. O resto não me cabe dizer, cada leitor reagirá do modo que achar melhor.

Helena: Chico, desculpe fazer vc ler isso primeiro:A Intimidade do EscritorHá quase um ano sozinho, na antiga vida de solteirão. Tem sido duro, mas útil. De vez em quando faz-me bem estar só e desamparado. É nessas horas que sinto mais profundamente a significação de uma mulher ao lado do artista. A história literária exibe prodigamente o cenário feminino e mundano que aconchega os criadores e lhes embeleza a vida. Mas diz-nos pouco das companheiras quotidianas, domésticas e anónimas, a verem nascer a obra, a aquecê-la com chávenas de chá, e a renunciarem à alegria de a conhecer na emoção virginal de um leitor apanhado de surpresa. E nada de mais significativo e decisivo do que essa ajuda e do que essa renúncia. As Récamiers são o estímulo de fora, higiénico e lisonjeiro; enquanto que as outras, íntimas e apagadas, empurram o carro trôpego da criação debaixo de todos os ventos, e sem aplausos no fim. O seu lema é a aceitação calma e confiante dos desânimos, dos rascunhos, das mil tentativas falhadas. E quando a obra, finalmente acabada, empolga o público, já tem atrás de si um tal cansaço, uma tal soma de horas desesperadas, que só com um grande amor a podem ainda olhar. 

Por esse amor não existir, é que a mulher de Tolstoi disse a conhecida barbaridade: «Vivi quarenta e oito anos com Lev Nicolaievitch sem chegar nunca a saber que homem ele era». De qualquer maneira, estou só, e sinto-me em penitência. Considero-me a cumprir a pena de usufruir um bem anos a fio, e só de vez em quando ter consciência dele.Miguel Torga, in "Diário (1947)"

Helena: A companheira de Chico Lopes o conhece enquanto escritor ? Que importância tem sua esposa para seu trabalho literário?Dizem sempre haver uma grande mulher atrás de um grande homem.

Chico Lopes: Oi, Helena: Minha mulher conhece sim, e acompanha meu trabalho com atenção. É uma boa leitora, aliás, e nós fazemos aquele casal que passa livros de um pro outro. Tem um trabalho nos Correios que em nada tem a ver com Literatura, mas admira muito arte em geral, e tem grande sensibilidade. Para mim, a importância dela, como esteio emotivo, é gigantesca, tanto que meu primeiro livro de contos, NÓ DE SOMBRAS, foi inteiramente dedicado a ela.

Evandro: Olá Chico, boa noite! Você poderia nos mostrar uma de suas criações pictóricas? Você conjuga suas criações literárias com as pictóricas?

Chico Lopes: Eu bem que tento, Evandro, e até comecei como pintor e desenhista, e a literatura foi vindo depois. Mas a Literatura engolfou minha atividade de pintor, e hoje pinto menos do que já pintei no passado, quando fazia exposições com certa regularidade. Vou ver um site (não me lembro agora o endereço) onde há imagens de quadro meus e passarei pra você por aqui, oportunamente. Creio que a pintura, aliás, está presente no que escrevo, contos e novelas. Eu sempre gosto de descrever, de pintar com palavras, por assim dizer, locais, pessoas, situações de muita vividez, muita cor.

Evandro: Aproveito, então, para pedir antecipadamente permissão para transportar a pintura lá pro blog do nosso clube. Sabe como é, a maioria não tem Facebook, e gostaria de acompanhar o que está sendo dito e mostrado aqui. Cinco pessoas me ligaram de ontem pra cá perguntando como adquirir teu livro. Disse a elas sobre a entrevista e que você informava aqui como comprar o livro, mas apenas uma tinha facebook. Cá pra nós, que ninguém nos leia, tem muita gente mimada no CLIc. Teu livro foi escolhido há quase 3 meses atrás. Apesar disso, são todas pessoas adoráveis!

Rosemary T: Bom dia Chico Lopes, comecei a ler o estranho no corredor e se não estivesse lendo com olhos de uma "clic ana" eu teria engolido seu livro, mas estou saboreando os personagens que são muito bem elaborados. Minha pergunta para o escritor é: você faz anotações diárias? Quando você tem um insight você anota imediatamente ou consegue reter na memória?

Chico Lopes Eu tenho confiado na minha memória pra essas coisas, Rosemary. E gosto de reler muito o que escrevo, sempre à procura de uma coisa que eu chamaria de naturalidade, que outros talvez chamassem de fluência. Imagino sempre que a leitura deva ser uma experiência agradável para o leitor, ainda que o tema do livro possa ser sombrio. Então, trabalho muito no sentido de aclarar as situações e ao mesmo tempo deixá-las mais sugestivas. Creio que grande parte do trabalho de criação só se completa é na cabeça do leitor - preciso da cumplicidade dele. Às vezes anoto uma boa ideia sim, mas em geral minhas ideias nascem muito no calor da escrita. Depois, releio tudo e faço as correções necessárias (não só as gramaticais, porque de repente dou uma nova característica a um personagem, mudo uma fala etc).

Rosemary T: É estou percebendo seu estilo e também, sinalizada pela Elô me chamou a atenção de que seu livro é masculino, é a voz do homem. Não gosto de personagens muito adocicados, todos nós temos o sombrio e encontrar isso em um personagem me faz elaborar as minhas sombras. Instigada por Rita De Cassia Magnago, tenho tido insights sobre os textos que ela está me estimulando a escrever mas não anoto e depois esqueço.

Helena: Adorando nossa entrevista!Obrigada ,Chico, por suas respostas prazerosas e elucidadtivas!Obrigada aos participantes interessados na leitura.Obrigada aos leitores dela.

Chico Lopes: Rosemary, creio que v. toca num ponto importante aí - é um livro masculino, mas elabora exatamente essa formação do masculino (feita de asperezas, repressões, dores, hostilidades) na alma de um homem de um modo crítico. Eu acho que tanto a feminilidade quanto a masculinidade são construções extremamente sofridas de nossa sociedade, elaboradas com muitas lacunas, contramarchas e penas. Meu personagem se sente desajustado no mundo masculino, porque a sensibilidade sua o leva ao escrúpulo (que em geral, entre machos, é sinal de fraqueza) e à compaixão. Mas também incluí uma visão negativa da feminilidade na figura da tia dele, que é terrivelmente puritana e repressiva e, de certa maneira, o "emasculou" inculcando nele seus temores e repressões. A sociedade da cidadezinha de V. é terrivelmente atrasada e preconceituosa e ela é uma encarnação daquele mundo mesquinho e negador dos prazeres. E ele precisa se libertar tanto do masculino quanto do feminino negativo.

Rosemary T: Mas ele também tem uma questão com o pai e com a mãe que ainda não foi explicada (até onde eu li) quando ele rasga a foto deles. Perfeita a leitura do perfil psicológico dos personagens. No entanto, quero acrescentar aqui, que nas grandes metrópoles e nos dias de hoje, é fácil encontrar pai/mãe que tiram o poder dos filhos mantendo eles para sempre sob seu domínio. Espero que ele consiga se libertar. Obrigada pelas respostas e pela atenção.

Chico Lopes: Rosemary (continuando) Os homens, em geral, na nossa sociedade machista, não colocam a masculinidade como um drama, mas como um dado natural - porque naturalmente se sentem favorecidos pelas permissividades injustas que recebem desde meninos. No entanto, pagam um preço muito alto por sua dureza, por sua macheza, perdendo muito em sensibilidade e não chegando nunca a entender a alma feminina (tantos são os casais sem o menor entendimento!). Com meu livro, quis mostrar que a masculinidade, no caso de um homem sensível, se desenvolve e evolui como um drama de identidade renovado a cada momento, um tormento e uma expiação que ele tem que transformar em algo positivo, num aprendizado bem sofrido. Esse drama pode até passar pela homossexualidade (porque há sempre um desejo velado, uma inveja e uma admiração dolorida entre homens que em geral zombam de si e se hostilizam), mas pode não se deter aí e se estender a toda uma série de dramas psicossociais.

Chico Lopes: Obrigado digo eu, Rosemary. Verdade que ele tem ressentimento do pai ausente e da mãe que cedo sumiu de sua vida (você entenderá melhor as coisas à medida que for avançando). Você verá que a tia acaba acumulando essas funções pai/mãe de modo bem sinistro, infelizmente...

Rosemary T: Perfeito, muito bom entrar na pele deste homem e sentir suas fraquezas.
...


Leia aqui o mais completo comentário que saiu na crítica literária até hoje sobre o livro "O estranho no corredor" de Chico Lopes, segundo o autor.



20 de maio de 2017

Nas nuvens: Vera Freire




Hoje não vejo o Cristo.
Abro, como sempre, minha janela.
Ele não está.
O dia amanheceu chorando...
As nuvens densas contornam as montanhas.
Elas O abraçam, 
Envolvendo, protegendo.
Existe no ar um convite ao recolhimento.
Gosto de dias chuvosos, eles nutrem minha melancolia.
Existe vida lá fora.
Aqui dentro apenas lembranças.
Na janela pingos de lágrimas brilham.


Vozes do CLIc


Não consigo me concentrar nas palavras
Ruídos intensos penetram na penumbra
Corpos se estendem e trazem seu gritos para a rua
O Caos se instala
Minha cabeça confusa se mescla ao cenário conturbado
Outro instante parado no ar
Outra cena submergindo da lama
Ah! Meu país.!..por onde andas?
Lama...só lama......treme  o temor de temer a treva

Luz????

(Ceci)




Caos se instalando. 
Cenário conturbado.
Lama. 
Trevas. 
Há luz no fim do túnel? 

(Elenir)

13 de maio de 2017

Livro: A filha perdida, de Elena Ferrante

Olá queridos!
Segue o post que fiz no meu blog Mar de Variedade sobre esse livro, que li recentemente no Clube Leia Mulheres Niterói, e que será o livro de junho do CLIc.

Já desejávamos ler algum livro da Elena Ferrante, que é uma das autoras mais comentadas do momento. Ela utiliza esse pseudônimo, mas não divulga a sua identidade. Até pode ser um homem.
Bem, escolhemos esse livro, pois não queríamos ler um livro que fizesse parte de uma série, como é o caso de A amiga genial. 
Então, escolhemos esse que é avulso, embora tenha um infantil (Uma noite na praia), que é meio como uma continuação desse. 


Sinopse da Amazon: "Da autora de A amiga genial e História do novo sobrenome, um romance feminino e arrebatador.
“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” Com essa afirmação ao mesmo tempo simples e desconcertante Elena Ferrante logo alerta os leitores: preparem-se, pois verdades dolorosas estão prestes a ser reveladas.
Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida — e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém.
No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Elena Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode ter na vida de diferentes gerações de mulheres.
Elena Ferrante se tornou especialmente conhecida pela série napolitana, cujos dois primeiros volumes, A amiga genial e História do novo sobrenome, já foram publicados com grande sucesso no Brasil.
Best-seller internacional, Ferrante tem livros lançados em mais de 30 países.
“A prosa de Ferrante é extraordinariamente franca, direta e inesquecível.” Publishers Weekly
“Um romance brutalmente sincero sobre a ambivalência da maternidade. ” The New Yorker
Outro livro da autora: Uma noite na praia."



Já começo dizendo que gostei muita da leitura e da forma fluida como essa autora escreve.
Embora a história pareça simples, pois utiliza o tema maternidade, não tem nada de simples. Rs. Os temas são abordados de forma profunda. 
A escrita da autora me lembrou a Clarice Lispector, pois, através de uma determinada situação, a personagem/narradora se lembra de situações do passado e isso desencadeia uma série de atitudes. 
A Leda, nossa personagem principal e narradora, vai passar as férias na praia, no sul da Itália. Suas filhas, já adultas, estão morando com o pai, em Toronto, no Canadá.
A Leda começa a narrar os seus dias na praia e, ao passar a observar uma família napolitana, entre elas uma mãe com sua filha com a boneca e a tia grávida da menina, ela começa a pensar nela como mãe.
O que pode chocar alguns é a coragem da escritora ao abordar a maternidade de uma forma muito sincera pela narradora da história. 
A forma da Leda se comportar, sem se preocupar com o que as pessoas à sua volta vão pensar, é muito interessante. Quando pediram para ela mudar de lugar na praia, ela se negou sem qualquer constrangimento.
"A senhora não vai mudar de lugar?-, respondi bruscamente, com uma seriedade hostil: não, estou bem aqui, lamento, mas não estou com vontade nenhuma de mudar de lugar." (trecho do livro)
Ela confessa para essa família em algum momento da história que abandonou as filhas com o pai. Não senti muita culpa nela.
O livro nos faz refletir: por que julgamos esse tipo de atitude? Por que achamos que as mães têm que ser heroínas? 
O livro desmistifica um pouco o papel de mãe. Vai mostrar uma mãe com erros e acertos, confessando coisas que muitas mães gostariam de confessar, mas não fazem por medo do julgamento da sociedade. É tapa na cara esse livro!
O tema central é a maternidade, mas o livro aborda outros assuntos, como relacionamento marido/mulher, comportamento, entre outras coisas. 
Essa é uma degustação do livro. Ele deve ser lido, pois há muitas questões a serem pensadas e debatidas. 
Quero muito ler outros livros dessa excelente autora.


Recomendo!

9 de maio de 2017

Literatura na Varanda festeja a sua 5ª edição homenageando Clarice Lispector




Um encontro que mescla literatura, música e performances poéticas. Assim será a quinta edição do projeto Literatura na Varanda que nasceu em agosto do ano passado. No evento deste sábado (20), a escritora Mariney Klecz vai analisar a obra de Clarice Lispector (1920 – 1977).

Perto do coração selvagem (1943); A paixão segundo G. H. (1964); Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969); Água viva (1973); Um sopro de vida (1978); A hora da estrela (1977); Laços de família (1960); Felicidade Clandestina (1971) e A Bela e a Fera (1979) integram a lista das produções literárias mais conhecidas da escritora Clarice Lispector, nascida na Ucrânia.

Mariney Klecz escreve poesias, contos e livros infantis. Autora do livro "SOS Floresta" em sua 2ª edição, participou de várias antologias. Pertence à Arcádia Brasílica de Artes e Ciências (no Rio de Janeiro), à Associação Niteroiense de Escritores e à Academia de Letras da Região Oceânica de Niterói. É cofundadora e diretora do Centro Literário e Artístico da Região Oceânica de Niterói (CLARON).

A poetisa Nathália Reina também colabora com o bate papo clariceano. Formada em Direito pela UFRJ, professora de francês, atriz e poeta, Nathália tem como uma das suas paixões a literatura. A imersão nas obras de Clarice se deu logo no início da adolescência, a partir do encantamento e afinidade pela subjetividade da autora. Em seu blogue Palavrinha (blog: http://nathaliareina.blogspot.com), criado há nove anos, são registrados pensamentos e questionamentos diversos.

Formada desde abril do ano passado, a banda niteroiense Sirius Beta apresenta um show acústico ao final da noite. Com influências musicais do rap, rock, MPB, jazz-samba e jazz funk, os músicos Larrubia (vocal), Fernando Malheiros (guitarra), Cícero Leitão (contrabaixo) e Felipe Soares (bateria) participaram recentemente da gravação do primeiro vídeo clipe do grupo.



Literatura na Varanda – 5ª edição:

Data: 20 de maio (sábado)
Horário: das 15 às 18 horas (3 horas de duração)
Entrada franca (Colabore doando um livro)
Local: Curso Animator
R. Visc. de Morais, 255 - Ingá - Niterói (próximo ao colégio público Aurelino Leal e em frente à academia de ginástica Paulo Menezes). 

Mais informações através do link do evento no Facebook:
https://www.facebook.com/events/1664488140527488/

7 de maio de 2017

Participe e ganhe o livro "A Experiência"

Publique aqui no Blog suas impressões sobre o livro do mês no Clube de Leitura de Icaraí 

Frankenstein




ou sobre os romances

O Desaparecimento: Rudolf Bickel


ou


               O homem que vendia ilusão: Rudolf Bickel






e concorra a um exemplar do livro 


                   "A Experiência" de Rudolf Bickel






Escreva uma resenha do livro do mês do CLIc (Frankenstein: Mary Shelley) ou sobre os romances "O desaparecimento" ou "O homem que vendia ilusões", ambos de Rudolf Bickel com pelo menos 350 palavras para postagem aqui, no blog do Clube de Leitura Icaraí, e concorra ao livro "A Experiência" de Rudolf Bickel. Envie sua resenha para grupo-de-leitura-agora-na-uff@googlegroups.com (se você é membro do Clube) ou conciergeclic@gmail.com até 9/5/2017, 2 dias antes do debate de "Frankenstein" que será no dia 11/05/2017.


(Exemplar gentilmente cedido pelo autor. Será entregue no dia do debate de Maio, no dia 11/5/17, às 19:00 h, na Varanda do Centro de Artes UFF.)



Outras obras de Rudolf Bickel: 







Rudolf Bickel – Nasceu no Rio de Janeiro, em 07/08/1942. Formado em Direito, pela Universidade Gama Filho (UGF/RJ) e em Contabilidade – Sindicato dos Contabilistas do Município do Rio de Janeiro. Atuou como auxiliar de contabilidade, oficial de diligências, escrivão de polícia e delegado estadual. Publicou os livros As Andanças de um Viajante e O Homem que Vendia Ilusão e A Experiência, entre outros.













6 de maio de 2017

Eventos marcantes que participamos


Teatro Nô no Clube da Felicidade:

CAEx: Clube das Almas Execráveis



Fantasma no CLOu:





 Em 'Fantasma', testemunha de crime é uma sem-teto frágil e sonhadora.

Novo livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza dá visibilidade a personagens habitualmente desprezados

 "O Sr. Garcia-Roza, como eu deveria ter esperado, não é exatamente 'o autor de romances policiais protocolar', mas um híbrido mais interessante entre a análise incessante de personagens e a pura movimentação narrativa." (R.)


Crepúsculo dos Ídolos: Friedrich Nietzsche, no "Filosofia em Casa":


Este livro, que serve de introdução à forma de pensar nietzschiana, é sobretudo, fruto da seguinte constatação do autor -'Há mais ídolos do que realidades no mundo'. A partir disso, Nietzsche põe-se a aniquilar tudo aquilo que julga serem ídolos falsos, ocos e decadentes. Ele parte do pensamento de Sócrates, destrói ídolos da sua época, como o sistema educacional alemão, escritores em voga, anarquistas, socialistas e progressistas, sem nunca deixar de atacar a metafísica.


Homem Comum: Philip Roth na Reunião Mensal do Clube




Clube da Lua: Baile do Bóson de Higgs

Baile da Lua
O Cão de Higgs

Para celebrar a descoberta da partícula de Deus, o clube da lua está planejando um tremendo baile.








Clássicos CLIc - Livro das Mil e Uma Noites: Tradução Jarouche

Degustação de doces distintos e estéticos, harmonizado com vinho branco, sobremesa gourmet, chef francês, com degustação literária, etc.



A fragrância é almíscar; as faces, o firmamento,
os dentes, estrelas; a saliva, vinho;
a esbelteza, celeste; os quadris, duna;
os cabelos, noite; o rosto, quarto crescente.


5 de maio de 2017

Infante D. Henrique – O navegador

Por Wagner Medeiros Junior

Resultado de imagem para Infante D. Henrique


Parte I

O Infante D. Henrique nasceu na cidade do Porto, em Portugal, no dia 4 de março de 1394. Quinto Filho do rei D. João I, primogênito da dinastia de Avis, e da rainha D. Felipa de Lencastre, nobre da casa régia da Inglaterra, o Infante não chegou a ser um navegador, senão o promotor das incursões portuguesas pelo Atlântico, na expectativa de encontrar outros povos, expandir o cristianismo e estabelecer novas rotas comerciais. Até então o sul do oceano Atlântico era conhecido como “Mar Tenebroso”, sendo muito temido pelos navegantes, que acreditavam existir em suas águas terríveis monstros marinhos, que o tornava impenetrável.

Conforme consenso da historiografia moderna, a expansão ultramarina portuguesa iniciou-se com a decisão de D. João I invadir a cidade de Ceuta, que monopolizava o comércio no norte da África e mantinha o controle do Estreito de Gibraltar em poder dos mouros. D. João I viu nessa oportunidade uma maneira de aumentar o prestígio de Portugal junto à Igreja e elevar seus filhos homens – D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique – à condição de cavaleiros da Coroa. Coube, então, ao Infante D. Henrique, aos 21 anos, a missão de organizar e comandar as frotas da região do Porto, que participariam da expedição a Ceuta.

Em agosto de 1415, sob a benção do Papa Gregório XII, a cidade de Ceuta caiu sob o domínio cristão português, sem grande reação dos “infiéis” muçulmanos. Seguiram-se depois os saques em busca de metais preciosos, joias e outras riquezas, em meio ao caos aberto entre mercadorias de todos os tipos espalhadas entre cadáveres de homens, mulheres e crianças. O comércio florescente daquela praça, que até então ostentava milhares de lojas com produtos das mais variadas procedências - da África, da Índia (pela concepção européia compreendia todo continente asiático), da Pérsia e mesmo de Veneza – foi aniquilado.

Isto fez com que as caravanas de comerciantes mudassem as suas rotas e que o abastecimento da cidade e das tropas portuguesas que permaneceram em terra, sob o comando do escudeiro Pedro de Menezes – cerca de 2.700 homens - ficasse comprometido, pela falta alimentos, principalmente de cereais. A manutenção de Ceuta, desta forma, tornou-se extremamente onerosa para as Cortes portuguesas. Mesmo assim, o Infante D. Henrique insistiu por fincar-se no norte da África, mesmo contra a vontade das Cortes.

Em 1418, quando os mouros investem sobre Ceuta na tentativa de resgatar o território conquistado são novamente vencidos. O Infante D. Henrique havia regressado para participar da defesa, mas sua chegada aconteceu após a vitória consumada. Mesmo assim, é nomeado por seu pai, D. João I, senhor defensor de Ceuta, ficando a partir daí responsável pela manutenção da cidade. Como recompensa D. João ainda o eleva a Grão-Mestre da Ordem de Cristo, detentora de imensa riqueza, e governador perpétuo do Algarves, do Lagos e de Sagres.

Durante esse período, o Infante Dom Henrique permanece por quase um ano na cidade, onde toma conhecimento das rotas das caravanas de comerciantes e do ouro que chegavam a Ceuta. Ao retornar a Portugal, em 1419, o Infante decide-se por abandonar a Corte e instalar-se na vila de Lagos, cerca de cinco léguas de Sagres, onde passa a dedicar-se ao estudo da Matemática, da Cosmologia e à leitura de escritores antigos. É de lá que o Infante lançou as suas primeiras expedições marítimas em busca do desconhecido.

A fortuna recebida da Ordem de Cristo, herdeira da Ordem dos Templários, junto ao fervor religioso e a abnegação por encontrar e converter outros povos ao Cristianismo seriam determinantes para que D. Henrique reunisse na Vila de Lagos grandes mestres da ciência e exímios escudeiros deveras habilitados a desvendar os segredos das navegações. Daí que surge a hipotética Escola de Sagres, cuja existência não há provas científicas, mas que se fundamenta em um núcleo filosófico que reuniu grandes sábios, sem os quais não seriam possíveis as grandes descobertas e a expansão marítima portuguesa.


Parte II


A conquista de Ceuta, ao norte da África, foi para a nobreza portuguesa uma grande decepção, uma vez que a expectativa de obtenção de riquezas, pelo menos em médio prazo, não se viabilizou. Pelo contrário, a própria manutenção das tropas era muito onerosa, pois dependia de quase tudo de Portugal, haja vista que o estado permanente de guerra com os muçulmanos dificultava a preparação da terra para o cultivo agrícola e a criação de animais. Além disso, as rotas comerciais até então existentes foram desviadas para outros locais pelos árabes.

O alto custo para a permanência naquela praça tornou-se um problema a mais para o pequeno reino de Portugal, já bastante carente de recursos materiais e humanos, o que levou importantes setores da nobreza a pressionar a Coroa pelo abandono de Ceuta. O infante D. Henrique, no entanto, tornou-se não só um aguerrido defensor em manter o território conquistado, como também em estender o domínio português para outros pontos da África. Era de Ceuta que sua armada partia para a prática do corso pelo Estreito de Gibraltar.

Então, em 1433, as Cortes reunidas em Évora acabaram por aprovar, mesmo contra a vontade, uma incursão ao Tânger, ao norte do atual Marrocos. Tal iniciativa veio a se firmar como um grande fracasso, pois além de uma fragorosa derrota das tropas comandadas pelo Infante D. Henrique para os mouros, seu irmão mais novo, o Infante D. Fernando, foi capturado como refém. Como resgate os muçulmanos exigiram a retirada dos portugueses de Ceuta, o que não aconteceu. E D. Fernando acabou por falecer na prisão, em 1443, tornando-se mártir para o reino português.

Por ocasião do desastre de Tânger os intrépidos navegadores de D. Henrique já haviam desbravado uma imensa área da costa da África. Mas, o terrível cabo Bojador, até então uma grande obstáculo à navegação, só seria ultrapassado por Gil Eanes em 1434. Nenhum dos navegantes encontrou outro reino cristão, nem o almejado território de Prestes João, como há tempo era esperado pelo Infante. Porém, em 1441, a primeira centena de escravos negros era transportada da África para Portugal, iniciando o que viria a ser uma das mais lucrativas atividades da época.

Conforme Bernardo Vasconcelos e Souza, em História de Portugal, o corso de há muito praticado e as atividades comerciais, incluindo o tráfico de escravos, passaram a andar associados, numa conjugação que diversificava as possibilidades de obter rendimentos altamente compensatórios. Não é por outra razão que o príncipe regente D. Pedro, irmão do Infante D. Henrique, concedeu-lhe, em 1443, o monopólio de todo o comércio de escravos ao sul do cabo Bojador.

Outro benefício incorporado à imensa fortuna do Infante D. Henrique foi a mercê de Senhor das Ilhas do Atlântico, recebida do rei D. Duarte, também seu irmão, após a morte de D. João I. As ilhas de Porto Santo e Madeira foram concedidas por ele aos navegantes João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo (os primeiros a conquistá-las), na forma de Capitanias Hereditárias. Tais ilhas produziam resíduos para tinturaria, madeira, vinho e cereais, abastecendo a metrópole e Ceuta.

Mais tarde o próprio Infante introduziu na ilha da Madeira, em caráter experimental, a cana de açúcar, cuja plantio se estenderia ao arquipélago dos Açores, onde também viriam a ser montados engenhos para a produção do açúcar para exportação. Só as ilhas de Cabo Verde seriam alcançadas a expensas da Coroa portuguesa, em 1456, sem a interveniência do Infante D. Henrique.

Senhor de Covinhã, duque de Viseu e Grão-Mestre Perpétuo da Ordem de Cristo - herdeira da Ordem dos Templários – fiel defensor das cruzadas medievais, o Infante D. Henrique ainda detinha, entre outras mercês, o monopólio da pesca nos mares do Algarve, nas ilhas do Atlântico e na costa da África, quando morreu, em 13 de novembro de 1460,em Sagres, solteiro e supostamente casto.

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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

3 de maio de 2017

Ingrid Jonker, uma emocionante poetisa africana

Dia desses, uma grata surpresa: em um dos canais da TV por assinatura, assisti à "Borboleta negra", um filme sobre a vida de Ingrid Jonker, poetisa africana. Eu não a conhecia e fiquei realmente encantada com sua produção.

Na cena para mim mais marcante do filme, ela e seu amante estão seguindo de carro quando um bloqueio popular, uma manifestação pelo fim do apartheid, os impede. Os soldados, sem conseguir reprimir a multidão, começam a atirar e uma das balas mata  -como poderia ser diferente? -, uma inocente criança. Ingrid fez o poema abaixo, que anos depois foi lido por Nelson Mandela durante a abertura do primeiro parlamento democrático, em maio de 1994.

Seu fim foi trágico, como o de tantos talentosos artistas. Após ter sido internada em manicômios por duas vezes, ela se suicida atirando-se ao mar. Nunca conseguiu o reconhecimento do pai, um escritor direitista fdp que trabalhava para a censura. Ao saber de sua morte, ele declarou: "They can throw her back in the sea for all I care."




A criança não está morta!
Ela levanta os punhos junto à sua mãe.
Quem grita África ! brada o anseio da liberdade e da estepe,
dos corações entre cordões de isolamento.
A criança levanta os punhos junto ao seu pai.
Na marcha das gerações.
Quem grita África! brada o anseio da justiça e do sangue,
nas ruas, com o orgulho em prontidão para luta.
A criança não está morta!
Não em Langa, nem em Nyanga
Não em Orlando, nem em Sharpeville
Nem na delegacia de polícia em Filipos,
Onde jaz com uma bala no cérebro.
A criança é a sombra escura dos soldados
em prontidão com fuzis sarracenos e cassetetes
A criança está presente em todas as assembleias e tribunais
Surge aos pares, nas janelas das casas e nos corações das mães
Aquela criança, que só queria brincar sob o sol de Nyanga, está em toda parte!
Tornou-se um homem que marcha por toda a África
O filho crescido, um gigante que atravessa o mundo
Sem dar um só passo.
***

Em homenagem à Ingrid, fiz o poema abaixo:


Desmedida intensidade
adoeço no teu excesso
mas só por ele me escrevo
mais que isso: subscrevo-me
escavo, deixo à mostra
todos os buracos
que a hipocrisia não cobriu:
nunca, se me mato
ainda, se enlouqueço
já enlouqueci?

1 de maio de 2017

A Mulher Que Anda Na Rua: Maria Tereza Penna





SONETO À LUA

                                Vinícius de Morais

Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

Rio, 1938



Resposta de Mª Teresa ao poetinha



Eu declamei essa poesia hoje.
No final eu disse: Só não gostei de: Vagabunda, patética e indefesa.
Instinto feminino, ou seria feminista?
Não importa...

Não era a mulher que anda na rua...
Não era uma mulher branca ou pequenina...
E quem era essa adorável Vagabunda, Patética e Indefesa?
Quem?

Quem poeta?
A quem meus lábios defenderam ou ultrajaram?
-A Lua, mulher!
-A Lua!
-A tão famosa e tão brilhante Lua!

A Lua que, tão de todos, se tornou Vagabunda...
Que de tão fiel, tão leal e de uma só cara, se tornou Patética...

De tão desejada, tão cobiçada e tão falada,
Se torna Indefesa diante das imagens
Que se traduzem em letras
Que formam as palavras.

Que alimentam as mentes vagantes
De Filósofos,
De Amantes
e de Poetas...