CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

6 de abril de 2017

"O Tempo entre Costuras" - María Dueñas


Quando estou entre costuras
não sinto o tempo passar.
Os sofrimentos e agruras
vão pousar noutro lugar.



Semana de reunião, os comentários sobre o livro começam a pipocar na caixa de entrada de emails dos participantes do clube de leitura, feito mísseis então inexistentes durante a guerra civil espanhola, cenário do romance do mês. É verdade que a segunda guerra mundial também surge como pano de fundo da estória, pela intensa participação nazista nas forças de apoio ao generalíssimo Franco. Sira Quiroga, a protagonista do romance, dublê de espiã e costureira, transita entre diversos personagens históricos desse período e sua vida reflete bem a conturbação da Europa em geral e da Espanha em particular. Estende sua aventura ainda pelo Marrocos e Portugal de Salazar, contando com uma intensa interferência inglesa no decorrer dos acontecimentos, uma vez que suas ações passaram a ser comandadas pelo serviço secreto britânico a partir de um certo momento. María Dueñas constrói uma trama interessante que sugere que os fatos históricos, em última instância, podem ser determinados por pessoas anônimas que não chegam a ter seus nomes registrados na história, que embora invisíveis, enquanto trabalham em suas atividades rotineiras, influenciam ativamente aqueles que decidem de fato os destinos do mundo.

Como sempre, as opiniões entre os participantes do clube têm sido bastante díspares, havendo desde aqueles que acham que Sira não passa de uma Sabrina espanholada a aqueles mais apaixonados que atribuem a Sira um destino bem melhor, sugerindo que nossa heroína representa a verdadeira essência feminina: “elegante, corajosa, inteligente, audaciosa, sedutora, leal, amorosa, Mulher.”

Não perdemos por esperar a próxima sexta-feira!

E ela veio! Duas horas entre costuras de pequenos retalhos de ideias e conceitos diversos que nos permitem seguir a confecção de nossa bagagem de leituras. Na reunião, as opiniões sobre o livro foram bastante antagônicas e divergiram de modo quase equilibrado (50 a 50%). De modo geral, o conteúdo de 'O Tempo entre Costuras' foi elogiado por proporcionar aprendizado em termos de costumes e história. A autora expôs estes temas de forma abrangente e agradável, o que nos levou a especular se este não seria seu 'carro chefe', ou seja, o livro parece ter sido construído a partir de uma pesquisa, onde as personagens são elementos introduzidos a fim de preencher a trama.


Na era do ipad, relembramos nossas antigas aulas de datilografia (para quem as teve) através da italiana Hispano-Olivetti Lettera 35, pretexto para a sentença de morte de um futuro em comum entre Sira e Ignacio.


Quanto a Sira, alguns leitores a acharam uma personagem vazia, imatura, simplória, facilmente manipulada, enquanto outros a leram como uma mulher corajosa, decidida e à frente de seu tempo. O final do livro, também variou de “horrível!” a “um grande barato!” ou “Dez!” 'O Tempo entre Costuras' foi uma leitura de altos e baixos.

A mudança abrupta na estória a partir da segunda metade do livro (ou pouco mais adiante para alguns) deu pano para manga. Esta mudança foi dita ter transparecido uma sensação de súbita desumanização da personagem principal, não compatível com a narrativa da primeira parte do romance, passando a sensação de haver dois livros em um só. Uma leitora descreveu o desconforto como 'não conseguindo acompanhar a personagem e não querendo que ela a acompanhasse!'. Em defesa de 'O Tempo entre Costuras', comentou-se sobre um processo de amadurecimento pelo qual passa a personagem principal, o que explica a mudança natural de caminhos na estória. A construção deste processo de amadurecimento parece ter sido o problema.

A linguagem e estilo de escrita foram vieses à parte. Ao ceder a narrativa em primeira pessoa à personagem principal, María Dueñas, segue a 'escola dos estilistas', utilizando-se de frases longas e descrições detalhadas de ambientes, vestimentas e outros pormenores, o que resulta em um estilo de leitura requintado (a modo Proustiano). A autora, porém, não é sempre feliz ao utilizar esta ferramenta, que às vezes se mostra excessiva e repetida. Como resultado, o que deveria revelar o bom gosto da personagem (com ares de sofisticação e elegância), ocasionalmente, acaba por retirar a fluidez da leitura lembrando-nos sobre sua existência e revelando-nos suas intenções.






 "O tempo, entre costuras,

alinhava seus recados;


faz de n
ós, entre molduras,


mosaicos desengon
çados."

3 de abril de 2017

Livro: Germinal, de Émile Zola

Olá queridos!
Segue o post que fiz no meu blog Mar de Variedade. 
Esse foi o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí. Eu fiquei o mês todo lendo, pois é um calhamaço de mais de 500 páginas. Mas posso falar que vale muito a pena!

Sinopse da Livraria Cultura: "Germinal' é o nome do primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa. Ao usar essa palavra como título de seu livro, Zola associa as sementes das novas plantas à possibilidade de transformação social- por mais que se arranquem os brotos das mudanças, eles sempre voltarão a germinar. Um dos grandes romances do século XIX, expressão máxima do naturalismo literário, Germinal baseia-se em acontecimentos verídicos. É um espelho da realidade. Para escrevê-lo, Émile Zola trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Atuando como repórter, adotando uma linguagem rápida e crua, Zola pintou a vida política e social da época como nenhum outro escritor. Denunciou as péssimas condições de trabalho dos operários, a fome, a miséria, a promiscuidade, a falta de higiene. Mostrou, como jamais havia sido feito, que o ambiente social exerce efeitos sobre os laços de família, sobre os vínculos de amizade, sobre as relações entre os apaixonados. 'Germinal' é o primeiro romance a enfocar a luta de classes no momento de sua eclosão. A história se passa na segunda metade do século XIX, mas os sofrimentos que Zola descreve continuam presentes em nosso tempo. É uma obra em tons escuros. Termina ensolarada, com a esperança de uma nova ordem social para o mundo."


Essa Sinopse da Cultura dá uma boa ideia do que seja o livro, mas devemos lê-lo, pois ele é um livro muito importante para a humanidade de uma forma geral. Digo isso, pois acho que precisamos nos sensibilizar com a miséria alheia e também temos que lutar por respeito aos direitos sociais. 
Como é baseado em fatos reais, temos o retrato social de uma classe de trabalhadores, a dos mineiros, que à época não tinha seus direitos sociais respeitados. Eles não ganhavam nem o mínimo essencial para se alimentarem. Não tinham a chamada "dignidade da pessoa humana", pois trabalhavam em condições deploráveis de segurança, não conseguindo ganhar o mínimo essencial para a sua subsistência. 
Logo no início do livro, temos a chegada de Etienne a Montsou. Ele se diz operador de máquinas e está à procura de trabalho. E conhece Boa-Morte, que descobre que é apelido daquele senhor que já fora retirado da mina por três vezes, em pedaços. Ele consegue trabalho na mina de Montsou ( Voreux) e logo conhece Catherine, por quem se interessa. 
Aos poucos vamos conhecendo toda a família de Boa-Morte, como Maheu, sua esposa e filhos, além das outras famílias do conjunto habitacional. 
Uma curiosidade é que podemos observar o machismo da época, quando muitas mulheres eram chamadas de "mulher de" fulano. Não sabemos seu nome, dando uma certa invisibilidade. Além de ser "normal" que apanhassem de seus maridos, por questões como a sopa não estar pronta. 
De um lado, temos os mineiros vivendo na miséria e de outro, temos os burgueses vivendo abastados. 
Aos poucos, Etienne começa a discutir com os mineiros sobre o desrespeito aos direitos sociais por parte dos donos das minas e sobre a importância de uma greve para que fossem valorizados. Ele vira um líder na organização da greve. 
O livro nos leva a muitas reflexões, pois é difícil julgarmos alguém que está no limite da fome e da miséria. A greve acaba sendo violenta de ambos os lados. 
O livro também relata conflitos entre os próprios mineiros, até por ser uma obra muito real, onde é mostrado que o ser humano é muito complexo, com erros e acertos, e cada um com suas motivações. 
Segue um trecho da conversa entre Etienne e Catherine que me emocionou. Ela repartindo o seu pão com ele, que nada tinha em seu primeiro dia de trabalho:
"- Não vais comer? - perguntou ela de boca cheia, sanduíche na mão.
Em seguida lembrou que encontrara esse rapaz vagando na noite, talvez sem vintém ou um pedaço de pão...
- Vamos repartir?
E, como ele não aceitasse, jurando que não tinha fome, mas com a voz trêmula de desejo, ela continuou alegremente:
-Ah! estás com nojo... Eu só mordi deste lado, vou te dar do outro, está bem?"
Apesar do machismo que eu relatei acima, o livro consegue mostrar a importância das mulheres, que sabiam lutar pelo seu pão:
"A mulher de Maheu saiu arrastando os filhos pela estrada, não enxergando mais os campos desertos, a lama negra, o vasto céu lívido que girava. Ao passar novamente por Montsou, entrou resolutamente na loja de Maigrat e suplicou com tal veemência que conseguiu arrancar dois pães, café, manteiga e até sua moeda de cem soldos; "
Não vou conseguir expor aqui todas as camadas contidas na história, até mesmo pois não quero dar spoiler. 
Portanto, achei o livro fantástico, com um ótimo relato sobre as condições de trabalho dos mineiros de carvão na França, na segunda metade do Século XIX, bem como a sua luta por melhores condições de vida. Leitura muito importante!
Recomendo! 

24 de março de 2017

Brás Cubas & Virgília: Hilário





BRÁS CUBAS: "Meu Deus, se eu broxar?... Desculpe, Pai!"



VIRGÍLIA : "Mas que sujeito sem prática..."




BRÁS CUBAS: "Não vou tirar toda a roupa... Preciso agir rápido..."




VIRGÍLIA : "Não acredito, ele não tirou a camiseta... Nem as meias!"




BRÁS CUBAS: "Ela precisa me ajudar, não acho o lugar certo, meu Deus... Desculpe, Pai".




VIRGÍLIA : "Mas o sujeito não conhece anatomia?... Pronto, desgraçado, viu?"




BRÁS CUBAS: "Consegui! Ô, coisa boa! Agora ela vai ver!...




VIRGÍLIA : "Será que ele tem mais alguma coisa, ou... é só isso?"




BRÁS CUBAS: "Calma, Brasinha, calma... Meu Deus, eu já gozei! Desculpe, Pai... 




VIRGÍLIA : "Filho da puta!..."



BRÁS CUBAS & VIRGÍLIA: Mariney K.






Brás Cubas: Huuummm...que lábios



Virgília: Ahhhhhhh...que mãos!



Brás Cubas: Tocar tua pele põe-me extasiado...



Virgília: Deliciosas palavras ...huummmm



Brás Cubas: Teu corpo aqui....ahhhh



Virgília: Estou sonhando,amado senhor?Insano delírio!


Brás Cubas: Minha senhora!Meu amor!
Quanto regozijo!


Virgília: Em que pensas?


Brás Cubas: Finalmente,minha!


Virgília: Finalmente...sempre!

21 de março de 2017

Brás Cubas & Virgília: Andreia





Brás Cubas: Linda Virgília, posso beijá-la?


Virgília: Toma-me nos teus braços.



Brás Cubas: É o que eu mais quero e desejo.



Virgília: Ande logo com isso!



Brás Cubas: Esperei muito para ter você aqui comigo. 



Virgília: Por que demorou tanto a me procurar? Sabe que eu te amo. 



Brás Cubas: Eu também! Amo-te! Como é bom te amar!



Virgília: Sonhava comigo?



Brás Cubas: Sempre!



Virgília: Mentiroso!



20 de março de 2017

Dialogo de Brás Cubas e Virgilia: Machado de Assis

O texto abaixo é uma das memoráveis criações de Machado de Assis, aludida à primeira relação sexual entre Brás Cubas e Vírgilia


Brás Cubas …………………….? 


Virgília ………………………….. 


Brás Cubas ……………………..

…………………………………… 


Virgília …………………………! 


Brás Cubas ……………………. 


Virgília …………………………

………………..? ……………….

…………………………………..


Brás Cubas …………………

………………….! ……………

………………………….! ……

………………………………………! 


Virgília ……………………..? 


Brás Cubas …………………..! 


Virgília ……………………….! 



Imagine os pensamentos de Brás e Virgília preenchendo os vazios do diálogo. Envie seu diálogo imaginário pelo campo de comentários desta postagem.


19 de março de 2017

Germinal: impressões de um leitor - Leo




“Os mortos não têm fome – sentenciou Maheu.”



Livro-tese, livro-denúncia, marco literário, Germinal é um livro divisor de águas, tanto fundador de uma escola literária quanto modificador de pensamentos: Não há como manter a inocência após ler Germinal.

Décimo terceiro livro da série Les Rougon-Macquart, no qual Éttiene Lantier – um dos protagonistas do livro - está na quarta geração.

O artigo indefinido é necessário pois difícil marcar o que protagoniza o livro: a fome? As injustiças? O estado animalesco a que essa população paupérrima tem que se submeter? Éttiene e sua luta contra a vaidade e seu amor por Catherine? A luta e a greve por dignidade?

Esse livro, marco fundador do Naturalismo- que leva o Realismo ao seu ápice ao criar uma narrativa com vida própria e não apenas o retrato de uma vida de penúria e injustiças. As ações são desencadeadas de forma a mergulharmos e sermos nós os personagens, guiados pelo autor, por vezes aparente, por outras desaparecido. Somos ratos. Como disse Afrânio Coutinho, o romance naturalista tem “o caráter extravagante de uma experimentação científica, que teria como laboratório a imaginação disciplinada e o espírito de observação do romancista”. No Brasil, Aloísio de Azevedo é uma de suas figuras: O cortiço e suas mazelas descritas nos remete, e muito, a Germinal

Dessa forma, Germinal conclama mais do que a pensarmos sobre o capitalismo, sobre a religião ou sobre a burguesia; nos conclama a viver na pele dessas personagens ricas: Maheu e seu senso de trabalhador respeitado por todos, Étienne - figura forasteira que desestabiliza toda a comunidade com suas ideias, Suvarin e sua didática política extrema, Catherine - figura passiva da dominação masculina pela força, Hennebeau e sua vida burguesa, e tantos outros que Zola divinamente descreve, criando um mundo próprio nesse microcosmo/laboratório que é a região de Montsou. Não há como não reconhecermos os tipos humanos condensados em cada uma das personagens.

O impacto dessa obra, no mundo e em nós, é o de acordarmos e quase escolhermos de que lado estamos. Não à toa justificamos cada grupo antagonista no livro, não à toa somos burgueses, ou mineiros, ou forasteiros, ou políticos. Identificamo-nos muitas vezes, culpamo-nos em outras. A inocência é deixada de lado a cada parágrafo. Não há heróis românticos, mas há heróis e muitos.


Parafraseando Maheu: Até os mortos têm fome...


A Reunião de Germinal, por Mariney



Perdoem-me, desde já, se o resumo da reunião não for fiel mas não fiz anotações e minha memória é claudicante no sentido de lembrar tudo o que aconteceu, especialmente os nomes de quem participou.

Fiquei muito feliz pois este livro foi minha primeira indicação e todos gostaram (com exceção do Hélcio que se sentiu claustrofóbico nas cavernas...kkk).

Segue o resumo:

Depois da apresentação pessoal de cada um dos presentes, teve início o debate.

Mariney explicou que este livro foi utilizado, por ela,com seus alunos, no período em que dava aulas na UFF.

Livro cruento e denso resultou numa reunião leve com abordagens diversas sobre o conteúdo. O realismo no estilo de Émile Zola fez com que todos se sentissem “enterrados” nas cavernas das minas de carvão ao longo da leitura do romance.

Foi mencionada a posição submissa e resignada das mulheres, quanto à sua relação com o homem e seu papel procriador de mão de obra, além de sua invisibilidade quando seus nomes eram mencionados como...”esposa de fulano, filha de sicrano...”

Outro aspecto que foi lembrado (por uma pessoa que estava nos visitando pela primeira vez, creio  que Flávia) foi o paralelo traçado, pelo autor, em relação à descrição da realidade miserável dos mineiros e, em contrapartida a abastança  dos burgueses. Também, o trato diferenciado dado, por estas classes, aos seus filhos: exigências duras na primeira e benevolência, na segunda.

Esclareceu-se que o livro não tem uma abordagem maniqueísta, e inaugura um novo estilo literário,o naturalismo.

Winter falou sobre os equívocos do autor em relação à menções feitas pelo personagem Suvarin sobre o anarquismo.

Este mesmo personagem, que permaneceu mudo por 2/3 do livro, aparece, no final, como autor do ato terrorista que aniquila uma das mineradoras e causa a morte de muitos, além de textualizar: ”esse ódio aos burgueses é apenas o desejo desesperado de serem burgueses, também”, em relação aos mineiros rebelados.

Mariney falou sobre a posição dos sindicatos e seu distanciamento em relação à realidade do trabalhador. Chegou mesmo a sugerir que os sindicalistas deveriam continuar trabalhando e dedicar tempo extra no sindicato. Falou, também, que numa disputa, o capital possui sempre mais gordura, para queimar, que o trabalhador, o que lhe dá vantagem nos resultados das negociações.

Creio que foi Marlie que falou que o Etiéne era o personagem sonhador que, ao longo do livro, vislumbra melhorias para os mineiros mas no final, vai embora, não criando raízes.

Alguém,também, se referiu à falta de consciência deste personagem, escondido nas ruínas de Requillard, se refestelando com os roubos de Jeanlin, enquanto os mineiros, em greve, não tinham nada para comer.

Elenir e mais alguém (desculpe não lembro) referiram-se ao lirismo do momento de amor entre Catherine e Etiene no fundo da caverna.

Outro momento, de texto emocionante, mencionado (acho que pelo Evandro e mais alguém) foi a morte do cavalo, na inundação.

Leo e Inês se referiram ao título do livro como uma sugestão de resultados históricos futuros a partir da germinação de ideias.

Evandro falou sobre a infelicidade do personagem Hennebeau que, apesar de possuir riquezas, não conseguia o que ele considerava mais importante na vida dele que era o amor da esposa. Ela possuía amantes mas não se deitava com ele. Ele trocaria toda a fortuna do mundo por uma noite de amor com ela. Comentou-se, então, que nem sempre a posse de  bens materiais trazem felicidade. Mariney também lembrou que AMOR só três personagens do livro vivem: Etiénne, Cathérine e Hennebeau.

Mais uma vez, peço desculpas se algo passou sem que eu me desse conta.

Gde abraço a todos e até ...”Brás Cubas”...


14 de março de 2017

Elenir é a ganhadora de "O homem que vendia ilusão" de Rudolf Bickel

Germinal segundo Elenir


"Germinal é um dos melhores livro que li no Clube de Leitura, reunindo densidade política e requinte literário. Uma verdadeira obra prima, inesquecível e atualíssima!"




Evandro, amigo, concordo plenamente. Livros como Germinal; Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov; O Homem que Amava os Cachorros; Indignação; O Estrangeiro... e tantos outros que agradeço ao CLIC tê-los lido. 

Gosto desse gênero literário. Profundo. Suavidade só na poesia. Romances fortes e densos me apaixonam.

Gostaria de acrescentar que não apenas,na poesia a suavidade me agrada. Gosto do escritor que sabe intercalar parágrafos tensos, profundos, com outros poéticos que nos levam a fechar os olhos e dar asas à imaginação. Ou um parágrafo de paixão. 

Pausa para descanso. 

Este é um grande escritor. 


Trecho de Germinal;  

"Eram quatro horas da manhã. A noite fresca de abril se acalentava com a chegada do dia. No céu límpido as estrelas cintilavam, enquanto a aurora tingia o oriente de púrpura. E os campos escuros, adormecidos, revelavam somente um frêmito, o vago rumor que precede o despertar." 

"E foi, enfim, sua noite de núpcias, no fundo daquele túmulo, sobre aquele leito de lama, a necessidade de não morrer antes de ter provado a felicidade, a  obstinada necessidade de viver, de fazer mais última vez a vida. Amaram-se no  desespero absoluto, se amaram na morte." 

Esta parte linda, não me acalmou. Emocionou-me e arrepiou-me.


2 de março de 2017

Tudo pode mudar… de repente!


Excelente livro do nosso colega cliceano Daniel. Narra a saga de uma família com suas lutas, a coragem e a tenacidade ao imigrar para o Brasil no tumultuado século passado. Exemplo que bem pode representar o caso de muita gente que precisou se adaptar às novas condições de vida em terras tropicais. São textos sensíveis e autônomos que vão nos envolvendo intensamente ao longo da leitura. Daniel faz um poema de cada situação da vida de uma família com fortes valores humanos.

Ser estrangeiro: a eterna questão do preconceito, da necessidade de discrição para não se fazer notar. Talvez uma das mais recorrentes lições da sábia família retratada no livro seja motivada pela história de perseguições do século XX, o que exigia dos imigrantes moderação e sobriedade no falar, vestir-se e comportar-se. Comedimento era palavra de ordem. Daniel apresenta um panorama esplêndido da formação do povo brasileiro a partir dos processos migratórios que ocorreram.

Na apresentação que faz do livro, o cineasta Sylvio Tendler constata a universalidade do drama humano abordado. Quando o narrador conta a história de seus pais, o faz a partir do que são os rituais do cotidiano de grande parte dos grupos de imigrantes que cruzaram os mares fugindo do horror das guerras do velho continente. A certa altura, suspeita-se que o segredo das famílias que venceram o desafio, em maior ou menor grau, é revelado: “rigor e afeto bem dosados”, cumplicidade e solidariedade no sofrimento. “O calar-se era o respeito de cada um ao perceber a dor do outro.”

Os rituais domésticos à mesa, as orações, as tarefas, a disciplina, a higiene, etc., proporcionam uma radiografia da família, a intimidade entre os membros fortalecida pela solidariedade, pela proteção e o afeto mútuos, pela educação para o mundo e para a vida. “O brilho nos olhos dos pais eram a memória de outros tempos vividos e eram, também, os tempos de agora, o eterno momento vivido agora”. O agora é o melhor momento da vida, sem igual, é preciso acreditar nisso.

O narrador reincide inúmeras vezes naquilo que parece caracterizar sua tradição pessoal, a figura da mãe reinando soberana nos domínios do lar, na educação dos filhos e nas relações familiares. O marido submetendo-se, como bom e fiel companheiro, ao seu protetorado doméstico. Ele afirma que a mãe sustenta a sua dignidade apesar da crueldade de oferecer a troca de qualquer um de seus outros quatro filhos pelo filho preferido, quando este é convocado para a guerra. “Pode sortear entre meus quatro outros filhos. O sorteado servirá à Pátria conforme o seu desejo”, ela diz para o major das forças armadas. Imagino o que passou pelo coração dessa mãe, uma terrível escolha.

A problemática do sexo, suas pulsões e inibições potencializada num ambiente coletivo, é abordada de maneira objetiva e nos remete ao intemporal embate entre o público e o privado. A masturbação se mostra uma via para o autoconhecimento. “A masturbação coletiva na calada da noite aumentava o brilho dos olhos na escuridão, assemelhando-se ao brilho do luar. Mantinham o silêncio e a privacidade como as batidas abafadas dos corações.”  

Realmente um texto com incrível poder literário, que nos seduz pelo ritmo poético das palavras, arrebatando-nos em seu fluxo melódico. A editoração é super caprichada, um projeto visual pensado e sentido nos mínimos detalhes. Simplesmente profundo, de uma leveza que nos sustenta em seu livre planar de emoções. Escrita musical gravada numa singela pauta que se desdobra “até o infinito em emoções harmônicas e desarmônicas, que mesmo um belo texto literário não poderia descrever. O coletivo inscrito nas individualidades de cada ser”. Uma maneira muito legal de se contar uma história, que na verdade retrata incontáveis histórias, atrelando pequenos trechos pela correlação de suas ideias chaves, em que um contexto vai se formando a partir das experiências pessoais de cada leitor, como num tecido formado a partir de seus retalhos.



O que se percebe, ao final do livro, é que o destino estrangeiro não é apenas o porto de chegada dos imigrantes. Ele é também o destino de todos nós, homens e mulheres peregrinos de nossa própria existência, cada qual a seu modo construindo sua própria história… de repente!