CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de fevereiro de 2017

A chave de casa, de Tatiana Salem Levy

Olá queridos!
Compartilho com vocês um post que fiz no meu blog Mar de Variedade, pois se trata de um livro já lido pelo clube.
Nesse domingo, teve reunião do Clube Leia mulheres Niterói-RJ.
Os encontros estão acontecendo no Bizu bizu, no Reserva Cultural em Niterói, no último domingo do mês, às 19h. No mês de fevereiro, por causa do carnaval, excepcionalmente, a reunião será no penúltimo domingo. 
O livro do mês foi indicado por mim e ganhou na votação. 
Gostei muito da escrita da Tatiana, desde que li seu conto inspirado na música de Legião Urbana, Tempo Perdido. Falei sobre o conto aqui.
O debate foi muito bom! O livro agradou a todos!

Sinopse da Livraria Cultura: "Passando por temas como a morte da mãe, a relação com um homem violento, viagem, raízes, herança, entre outros, a autora procura tecer um romance de vozes diversas. Neta de judeus da Turquia e filha de comunistas do Brasil, a narradora recebe do avô a chave que abriria a porta da casa de Esmirna, para onde os avós fugiram durante a Inquisição."


Esse livro é composto por várias histórias, vários fragmentos e, ao longo da leitura, vamos interpretando e fazendo uma ligação entre as histórias. 
O avô da protagonista dá a chave de uma casa onde morou, em Esmirna, na Turquia, para que ela vá atrás de lembranças de sua família.

"Sem me levantar, pego a caixinha na mesa de cabeceira. Dentro dela, em meio a pó, bilhetes velhos, moedas e brincos, descansa a chave que ganhei do meu avô. Tome, ele disse, essa é a chave da casa onde morei na Turquia."
Cada capítulo, embora curto, é cheio de sentimento e muito rico. E cada pequena história é aberta a interpretações pelo leitor. 
Concluímos no clube que não é uma obra fechada. Cada um poderá interpretar a narrativa de um jeito.
O livro vai retratar não apenas a chegada do avô, de família judia, ao Brasil, quando teve que deixar um amor na Turquia, como também o período da ditadura, enfrentado pelos pais da protagonista no Brasil.
Além disso, vai retratar o amor de mãe e filha. E, também, um relacionamento abusivo vivido pela narradora. 
Esse livro se trata de uma autoficção, que é uma autobiografia ficcional, pois a autora é "descendente de judeus turcos, Tatiana Salem Levy nasceu durante a Ditadura Militar, quando a família estava exilada em Portugal. Nove meses depois do nascimento, voltaram para o Brasil, beneficiados pela Lei da Anistia brasileira." Fonte Wikipédia. 
O livro vai retratar a sua viagem para a Turquia e também para Portugal. O próximo comentário contém um spoiler: essa questão da viagem dependerá da interpretação do leitor, pois não sabemos se a viagem realmente existiu, ou se os fatos foram imaginados ou escritos, já que a protagonista gostava tanto de escrever. Mas, isso não importa na obra e sim toda a narrativa, muito bem feita pela Tatiana, sobre a cultura da Turquia e também de Portugal. 
Gostei muito da obra e da forma como a autora retratou tantos assuntos distintos, fazendo uma conexão entre eles.
Recomendo!

27 de janeiro de 2017

Far and Wide

Em tempos de Australian Open, os amantes do tênis também podem se deliciar com poesia. Infelizmente a tradução do grande poeta E. J. Brady não é boa e nem dá pra entender bem, a acústica do anúncio é péssima, mas o poema original é lindo.

From book: Bells and Hobbles 

FAR AND WIDE

I'll call you to the Beaches,
And you shall bide with me, 
Along the river reaches
And by the open Sea.
Far and wide I have to wander, 
Far and wide and to and fro;
'Cross the Seas and o'er and under
Everywhere the Rovers go.
“Rolling stones no mosses gather,” 
Let the careful critic moan; 
In my heart I know, I'd rather
Be a restless rolling stone.
When I feel the soul-relieving
Comfort of the cradling sea,
When the giant hills upheaving 
Into God's blue sky I see;
When the brown plains spread before me,
And I slacken out the rein, 
With a noon sun burning o'er me,
Then I know my loss is gain.
Let me watch the sea-rain falling,
Smell the salt, deck-driven spray;
Let me hear the bush-birds calling
At the dawning of the day.
Let me see the sun-bars streaming
Down the valleys, ere the night  
Fills the world with pleasant dreaming,
Love and coolness and delight.


25 de janeiro de 2017

Eldorado: Milton Hatoum

Hoje, 27/02/09, foi dia de reunião do Clube de Leitura que se encontra para conversar na Livraria da UFF toda última sexta-feira de cada mes. O livro discutido foi "Órfãos do Eldorado", de Milton Hatoum, publicado pela Companhia das Letras em 2008.

Decididamente, este é um grupo bom de se pertencer. Seu traço mais marcante, se eu tivesse de escolher um, é a liberdade. Liberdade que permite que "leigos" e "ordenados" defendam seus pontos de vista com uma singeleza que, confesso, é rara, particularmente na academia, tão marcada pela mau humorada "meritocracia".

Enquanto isso, vai desfilando pela nossa frente a cegueira em ensaio de um Saramago, o emburrado Casmurro de Machado, a maluquinha da filha do escritor do Gustavo Bernardo (que brindou o grupo com uma participação riquíssima... a melhor oficina sobre como um escritor produtivo escreve de que eu já participei) e agora a rica contação de "causos" mitológicos, alinhavados em torno de uma estória de amor e sacanagem (no sentido político do termo, o mais usual evidentemente) que têm o horizonte do Eldorado (um navio que afunda, uma ilha que abriga leprosos e um lugar perdido no horizonte). Legal... muito legal...

Tudo isso acontecendo dentro de uma livraria universitária, com cafezinho, pãozinho de queijo e cachacinha especial da safra do diretor da EDUFF, o escritor Mauro Romero, que além de livros científicos na sua linha de pesquisa em DST (doenças sexualmente transmissíveis), também é um contador de "Casos e Causos Médicos".

O grupo já escolheu democrática e anárquicamente o que vai discutir nos próximos dois meses: no final de março "A elegância do ouriço" de Muriel Barbery e no final de abril "Dois irmãos", novamente do Milton Hatoum.
De fato... este é um grupo bom de pertencer... 





Divulgação preparada pela EdUFF para a reunião do clube em fevereiro.

Presságio: Fernando Pessoa





O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

21 de janeiro de 2017

Livro: Dois Irmãos, de Milton Hatoum e Minissérie da Globo

Olá queridos!
Estou reproduzindo o post do meu blog Mar de Variedade, pois sei que o clube já leu esse livro. 
Quando soube que a Globo iria passar essa minissérie baseada no livro Dois Irmãos, de Milton Hatoum, tratei logo de ler o livro. Na verdade, li concomitantemente à série. Terminei dois dias antes de a série acabar. Pude assistir fazendo a comparação com o livro. E posso dizer que a série da Globo foi bem fiel ao livro, teve muita qualidade. 

Sinopse do livro- da Livraria Cultura: "Dois irmãos' é a história de dois irmãos gêmeos - Yaqub e Omar - e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino - o filho da empregada - narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro - a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar."


Eu nunca havia lido nada do Milton Hatoum. Comecei por esse livro e adorei a leitura! 
Acho que o Milton soube construir os personagens principais de uma forma brilhante: deixando dúvidas no leitor sobre o caráter de cada um dos gêmeos. Claro que o caçula era o que "aprontava" todas, mas ainda assim o leitor ficava com algumas dúvidas sobre a motivação de cada um. 
Quando o livro começa, ainda não sabemos exatamente quem é o narrador. Com o decorrer da história, ficamos sabendo que o narrador é o Nael, filho da Domingas, empregada da família.
A história se passa em Manaus.
Nessa família de três filhos, tanto Halim quanto Zana sempre deram mais atenção aos gêmeos, em detrimento da filha Rânia.
A mãe sempre foi superprotetora com o caçula Omar, o que Halim não aprovava, mas acabava fazendo "vista grossa" por ser apaixonado pela esposa Zana. Na verdade, ele nem queria ter filhos. Queria viver o seu amor por Zana, apenas com ela, sem filhos. 
Quando os gêmeos tinham treze anos, após uma briga, em que Omar cortou o rosto do irmão, Yaqub foi mandado para o Líbano, a mãe não deixou Omar ir. 
"O que mais preocupava Halim era a separação dos gêmeos, 'porque nunca se sabe como vão reagir depois...'. Ele nuca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após a longa separação."
Após cinco anos, Yaqub retorna do Líbano, calado e estranho.
"Zana logo percebeu. Via o filho sorrir, suspirar e evitar as palavras, como se um silêncio paralisante o envolvesse."
Omar sempre foi forte e bom de briga. Já Yaqub começa a estudar muito e a gostar de matemática. Yaqub começa a fazer sucesso também com as meninas, o que gera uma rivalidade com o irmão. Omar, que é muito mimado pela mãe, não suporta ver o Yaqub crescer nos estudos e se destacar com as meninas. Então, a sua raiva pelo irmão só aumenta. Já Yaqub nunca esqueceu o corte que o seu irmão deu em seu rosto, rendendo-lhe uma cicatriz. 
Yaqub acabou indo morar em São Paulo e lá se formou em engenharia e cresceu profissionalmente.
Acho que não devo contar além daqui, embora muitos tenham assistido à minissérie e já saibam do desfecho da história. 
No livro há insinuações de incesto. Também aborda violência e estupro.
Como o livro retrata a vida dessa família durante muitos anos, ele é muito rico, cheio de reviravoltas.
O que achei bem interessante também foi a abordagem sobre Manaus, a descrição de como era há muitos anos, com o crescimento do comércio e, depois, com o progresso, quando a empresa de Halim precisou se modernizar um pouco, com a ajuda da filha Rânia.
A história do narrador também é interessante, pois cresce sem saber quem é o pai. 
Gostei muito da forma como Hatoum escreve e descreve os acontecimentos. É uma leitura boa de se fazer.
Acho que uma boa lição dessa história é o quanto a superproteção a um filho pode estragá-lo como pessoa.

Quanto à minissérie, como falei antes, achei bem fiel ao livro. Gostei mais do livro, pois me encantei pela forma como o autor escreve, mas a série foi muito bem produzida e com ótimas atuações. Destaque para Cauã Reymond e Eliane Giardini.



Recomendo!

Dois irmãos

Dois Irmãos: Milton Hatoum - 24/4/2009



















Divulgação preparada pela EdUFF para a reunião do mês de abril.


(estofando)

20 de janeiro de 2017

A tradutora: Cristóvão Tezza

Ela guardou o conselho na memória. O sexo, finalmente, perdeu o mistério e o segredo, ela poderia dizer agora, eu estou madura, o sexo é apenas mais uma variável da vida e não está necessariamente atrelado a nada - apenas ao desejo, esta coisa volátil, venenosa e infiel.




As coisas enfim desabando, eis você.


Parque Tanguá


A arma da sedução é sua lisonja implícita, o que desperta a esgrima do afeto, o querer e o não querer abraçados.


Ópera de Arame


As pessoas pegam e absorvem na alma, no jeito e no gesto, o espírito dos outros, como vírus de comportamento. A diferença é que sou alguém de substância leve. Algumas pessoas são como alguém condenado à prisão perpétua de si mesma. 




O romance capta a personagem na casa dos 30 anos e à beira de uma crise pessoal. Com poucos amigos, envolvida em um relacionamento amoroso que está se esfacelando e com uma vida econômica apertada e sem perspectiva de melhora, Beatriz mergulha em seu trabalho de tradutora como uma forma de escapar da realidade. Ela traduz para o português um livro do fictício escritor catalão Felip T. Xavaste, um filósofo com inclinação conservadora que critica conceitos como a microfísica do poder de Michel Foucault.



15 de janeiro de 2017

Revivendo leituras passadas - O Filho Eterno: Cristovão Tezza




Livros disponíveis na barraquinha da Joana no Campo de São Bento nos finais de semana 

Rio da Flores: Miguel de Souza Tavares - 02 exemplares
Lolita: Nabokov - 10 exemplares
Na praia: Ian McEwan - 01 exemplar
A desumanização: Valter Hugo Mãe - 01 exemplar
O clube da Felicidade e da Sorte: Amy Tan - 01 exemplar
O arroz de Palma: Francisco Azevedo - 01 exemplar
O dia do Curinga: Jostein Gaarder - 01 exemplar
Cemitério dos vivos: Lima Barreto - 02 exemplares
Incidente em Antares: Érico Veríssimo - 02 exemplares
O livro das Ilusões: Paul Auster - 01 exemplar




Visitei a banquinha de livros usados da APAE que fica localizada logo na entrada do Campo de São Bento, à direita,  pelo portão da Rua Gavião Peixoto,  e fiquei muito bem impressionado com a organização e variedade de títulos. Livros usados super bem conservados, alguns pode-se dizer novos, e num local muito agradável, onde conhecemos pessoas interessantes para uma boa conversa. A barraquinha é um charme comandada pela vibrante Cliceana Joana Darc Lapa que está de parabéns pelo belíssimo trabalho.






 

02/04 -Dia de Conscientização do Autismo




21 de Março - Dia Internacional da Síndrome de Down

Movimento Down

Nossa musa do "CLIc na Beleza" - Niterói Down

Joana em ação




  

O Filho Eterno: Cristovão Tezza 

 

 

Debatido no CLIc em 30/10/2009





Divulgação da EdUFF para a reunião de outubro 2009


Pai em idade avançada tem neto com maior risco de autismo, diz estudo


14 de janeiro de 2017

Clube da Lua: sobre voos e fases Cecília Meireles


VOO

Alheias e nossas
as palavras voam.
Bando de borboletas multicolores,
as palavras voam.
Voam as palavras
como águias imensas,
como escuros morcegos,
como negros abutres,
as palavras voam.
Oh! Alto e baixo
em círculos e retas
acima de nós, em redor de nós,
as palavras voam.

E às vezes pousam...

Cecília Meireles – Obra Poética




Lua Adversa
(Cecília Meireles)

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...