CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

21 de janeiro de 2017

Dois irmãos

Dois Irmãos: Milton Hatoum - 24/4/2009



















Divulgação preparada pela EdUFF para a reunião do mês de abril.


(estofando)

20 de janeiro de 2017

A tradutora: Cristóvão Tezza

Ela guardou o conselho na memória. O sexo, finalmente, perdeu o mistério e o segredo, ela poderia dizer agora, eu estou madura, o sexo é apenas mais uma variável da vida e não está necessariamente atrelado a nada - apenas ao desejo, esta coisa volátil, venenosa e infiel.




As coisas enfim desabando, eis você.


Parque Tanguá


A arma da sedução é sua lisonja implícita, o que desperta a esgrima do afeto, o querer e o não querer abraçados.


Ópera de Arame


As pessoas pegam e absorvem na alma, no jeito e no gesto, o espírito dos outros, como vírus de comportamento. A diferença é que sou alguém de substância leve. Algumas pessoas são como alguém condenado à prisão perpétua de si mesma. 




O romance capta a personagem na casa dos 30 anos e à beira de uma crise pessoal. Com poucos amigos, envolvida em um relacionamento amoroso que está se esfacelando e com uma vida econômica apertada e sem perspectiva de melhora, Beatriz mergulha em seu trabalho de tradutora como uma forma de escapar da realidade. Ela traduz para o português um livro do fictício escritor catalão Felip T. Xavaste, um filósofo com inclinação conservadora que critica conceitos como a microfísica do poder de Michel Foucault.



15 de janeiro de 2017

Revivendo leituras passadas - O Filho Eterno: Cristovão Tezza




Livros disponíveis na barraquinha da Joana no Campo de São Bento nos finais de semana 

Rio da Flores: Miguel de Souza Tavares - 02 exemplares
Lolita: Nabokov - 10 exemplares
Na praia: Ian McEwan - 01 exemplar
A desumanização: Valter Hugo Mãe - 01 exemplar
O clube da Felicidade e da Sorte: Amy Tan - 01 exemplar
O arroz de Palma: Francisco Azevedo - 01 exemplar
O dia do Curinga: Jostein Gaarder - 01 exemplar
Cemitério dos vivos: Lima Barreto - 02 exemplares
Incidente em Antares: Érico Veríssimo - 02 exemplares
O livro das Ilusões: Paul Auster - 01 exemplar




Visitei a banquinha de livros usados da APAE que fica localizada logo na entrada do Campo de São Bento, à direita,  pelo portão da Rua Gavião Peixoto,  e fiquei muito bem impressionado com a organização e variedade de títulos. Livros usados super bem conservados, alguns pode-se dizer novos, e num local muito agradável, onde conhecemos pessoas interessantes para uma boa conversa. A barraquinha é um charme comandada pela vibrante Cliceana Joana Darc Lapa que está de parabéns pelo belíssimo trabalho.






 

02/04 -Dia de Conscientização do Autismo




21 de Março - Dia Internacional da Síndrome de Down

Movimento Down

Nossa musa do "CLIc na Beleza" - Niterói Down

Joana em ação




  

O Filho Eterno: Cristovão Tezza 

 

 

Debatido no CLIc em 30/10/2009





Divulgação da EdUFF para a reunião de outubro 2009


Pai em idade avançada tem neto com maior risco de autismo, diz estudo


14 de janeiro de 2017

Clube da Lua: sobre voos e fases Cecília Meireles


VOO

Alheias e nossas
as palavras voam.
Bando de borboletas multicolores,
as palavras voam.
Voam as palavras
como águias imensas,
como escuros morcegos,
como negros abutres,
as palavras voam.
Oh! Alto e baixo
em círculos e retas
acima de nós, em redor de nós,
as palavras voam.

E às vezes pousam...

Cecília Meireles – Obra Poética




Lua Adversa
(Cecília Meireles)

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu... 




10 de janeiro de 2017

Livro: A Tradutora, de Cristovão Tezza

Olá queridos!
Reproduzo a resenha que fiz no meu blog Mar de Variedade.
Esse é o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí, cuja reunião será na quinta-feira.
É o primeiro livro que leio do autor, que escreveu o premiado "O Filho Eterno".

Sinopse da Saraiva: "O novo romance do autor de O filho eterno. Beatriz é uma tradutora de 30 e poucos anos às voltas com o desafio de traduzir o espanhol barroco do catalão Felip T. Xaveste. Em seu apartamento, depara-se com uma sucessão de acontecimentos que entrelaça a urgência do instante presente com a memória: um envelope em branco deixado misteriosamente sob a porta da sala; as pequenas e grandes dúvidas que envolvem a tradução e os desdobramentos que projeta para a sua carreira; a conversa ao telefone com o namorado escritor, que a assedia intelectualmente; e uma ligação inesperada propondo-lhe um trabalho como intérprete de um executivo da FIFA em visita a Curitiba para os preparativos da Copa do Mundo no Brasil. Sob a força do puro prazer narrativo, nossa curiosidade é sequestrada pelo cruzamento sutil de pontos de vista ao longo de três dias intensos. Lembranças, argumentos e percepções da personagem se desdobram em múltiplas combinações. Neste romance sofisticado, conduzido por um fio de leveza, humor fino e autoironia, encontramos Cristovão Tezza em pleno vigor de seu domínio narrativo – um livro que nos dá a sensação de vislumbrar a metade mais fascinante, complexa e misteriosa do universo humano: a feminina."


Essa é minha primeira leitura do ano. Confesso que não é o tipo de livro que está entre os meus favoritos.
A protagonista é a Beatriz, uma tradutora, que mora em Curitiba, e tem um namorado escritor, que mora em São Paulo, o Donetti, com quem tem uma relação conturbada. 
O livro vai mostrar a Beatriz traduzindo um livro do fictício escritor catalão Felip T. Xaveste, trabalho enviado pelo editor paulista Chaves, que pediu o término da tradução antes da Copa do mundo.
A narrativa é, na maior parte do tempo, em terceira pessoa. A Beatriz traduz, ao mesmo tempo que imagina situações com o namorado ou com a Bernadete, sua amiga. Algumas situações ela vivenciou, outras ela imagina. 
Sinceramente, eu achei um pouco confusa a narrativa. Tive que voltar algumas vezes para conseguir acompanhar a leitura. 
A Beatriz, nessas conversas com a amiga, ou quando está pensando, mostra um namorado ciumento e dominador:
"Eu não suporto mais o teu controle. Eu não aguento mais o teu ciúme psicopata mal reprimido que você deixa escapar até pela mínima entonação da voz, como alguém que quer dominar simultaneamente tudo e todos e principalmente a mim, oculto em si mesmo, no duplo da máscara..."
A protagonista recebe uma proposta para trabalhar como intérprete de um executivo da FIFA, o Erik, e acompanhá-lo durante três dias, em Curitiba, e prontamente aceita, já que ganhará um bom dinheiro. 
Ele pede para que ela vá aos pontos turísticos de Curitiba com ele e também em um terreiro de umbanda. 
No livro, os personagens acabam falando de política e, por conseguinte, tocando em nomes importantes. 
Ela acaba recebendo um envelope branco misterioso, com uma frase escrita  com letras recortadas de um papel (prestem atenção nessa parte, pois no final temos a explicação).
Em vários momentos, a Beatriz imagina o que o Donetti diria se estivesse com ela. 
"Para o aeroporto, por favor - e Beatriz fechou a porta do táxi vivendo a aflição antecipatória dos diálogos inexistentes que atormentavam a vida, esta maldita imaginação, os duplos mentais."
Conforme vai lendo Xaveste, vai pensando em sua vida e fazendo um paralelo.
"- a retórica do Xaveste começa a me influenciar, ainda que o amor não seja a matéria dele, embora a condição feminina seja. "
Aos poucos, a Beatriz vai conhecendo melhor o Erik e passa a analisar o seu jeito.
"Havia uma graça no método de Erik Höwes, ela percebeu imediatamente, quase um jeito de mestre-escola, vamos fazer tudo direitinho, deixar tudo resolvido, e em seguida vamos nos divertir!" 
A Beatriz também começou a fazer comparações do Donetti com o Erik e tenta, através deste, viver dias leves. O Erik, por sua vez, por ser estrangeiro, acaba mostrando uma outra Curitiba para ela, através de seu olhar. 
Achei interessante quando o autor utilizou, através da fala da Beatriz, a expressão "padrão FIFA", muito utilizada na época da Copa do Mundo. 
A narrativa não é linear, talvez por isso necessite de maior atenção do leitor, eis que a Beatriz intercala a tradução com falas e pensamentos. 
Assim, de uma forma geral, a Beatriz é essa pessoa com um turbilhão de pensamentos e devaneios, que, através do seu trabalho de tradutora, também tenta interpretar e "traduzir" as suas complexas relações de amizade e de amor.
Como falei, nem todos se identificam com esse tipo de narrativa, porém, reconheço o mérito do autor, por se tratar de uma personagem bem difícil de criar e de desenvolver. 


Boa leitura!

8 de janeiro de 2017

Sinopse de "A tradutora: Cristóvão Tezza" por Evandro





“A tradutora” de Cristóvão Tezza é uma história que se passa em três dias. Três dias tem uma simbologia interessante, pode significar um tempo insuportavelmente longo, agônico, e parece que é isso que acontece com Beatriz, balzaquiana à beira de um ataque de nervos, que mostra viver uma eternidade nesses três dias de experiências pessoais: um namorado a assedia moralmente, ela paquera um outro que lhe pediu um trabalho de tradução que sinaliza a nova onda conservadora mundial e fica com um alemão que a tinha contratado profissionalmente como intérprete durante sua estada em Curitiba para fiscalizar as obras da Arena da Baixada para a Copa do Mundo do Brasil. Ou seja, três amantes cada qual com seus tormentos específicos. E ainda, ela anda dura de grana e de onde vem a grana pode vir também o envolvimento pessoal, por que não?

“O sexo, finalmente, perdeu o mistério e o segredo, ela poderia dizer agora, eu estou madura, o sexo é apenas mais uma variável da vida e não está necessariamente atrelado a nada - apenas ao desejo, esta coisa volátil, venenosa e infiel.”

Sob pressão, é nessa hora que conhecemos as pessoas e, se for possível, brandimos a afiada arma da sedução nas entrelinhas das interações sociais, “o querer e o não querer abraçados” para ver o que acontece, que mal há nisso? Se no fim todos os relacionamentos estão fadados ao fracasso, por que não escapar de si mesmo, flanar baudelarianamente em seu próprio desejo e experimentar o sabor variado que vem dos prazeres desconhecidos e oportunos que se nos apresentam como por uma Abluftöffnung, porque ninguém é de ferro, não é mesmo?

Pero no hay coartada para la vida, Beatriz precisa pagar as contas e cada novo trabalho também lhe oferece a possibilidade de encontrar o anjo priápico da vez, tendo sempre o cuidado de nunca dar aquele pequeno passo que torna as coisas irreversíveis. Dies ist wichtig! Jantares aconchegantes, atenção a todas as pessoas do círculo social do alemão sem, contudo, deter-se em nenhuma em particular para cumprir profissionalmente seu trabalho, ao menos nesse quesito, guardando pra si mesmo a perversidade secreta de todo cerimonial do mundo dos negócios.

Não foi a primeira vez que li Cristóvão Tezza no Clube de Leitura Icaraí. Também lemos “O filho eterno” e lembro-me que fiquei chocado com o contundente relato do pai da criança com trissomia do cromossomo 21. Sete anos depois estou de volta com a leitura deste escritor que me revelou o significado da lumpem paternidade, dessa vez com a expectativa de que a leitura fosse mais light, uma umbanda literária, porque chega de querer brigar com as forças do mundo. Mas não foi isso que aconteceu. O mundo mergulhou num conservadorismo que não se via desde há muito. Parece mais uma premonição do escritor que traduziu na época o que viria a ser o Brasil e o mundo depois da Copa: impeachment, ministros desastrados, massacres, atropelamentos, Donald Trump, e vitória da direita partout. Mais tempos sombrios à vista. Ça y est!

7 de janeiro de 2017

Alvo Noturno: Ricardo Piglia (Prêmio Casa de las Américas 2012)



Sonhos noturnos (e diurnos) alvejados pela realidade 

Um ponto de vista (novaes/)

Achei este, de certa forma, um livro de paradoxos. Pelo menos, aparentes.

Apresenta-se como um "romance policial", pelo simples fato de girar em torno de um crime ocorrido logo ao início da história, mas na verdade mostra-se um livro revelador de uma estrutura social e econômica arcaica no campo argentino, o poder das famílias rurais inclusive historicamente explicado. Mas também não para por aí, e imiscui-se no psicológico, com maestria na construção do personagem Luca Belladona, mas também nas irmãs incestuosas e no comissário Croce, que esmagado pelo sistema poderoso e corrupto refugia-se entre os loucos para recompor sua sanidade, reconhecer-se são naquele ambiente hostil.

Ricardo Piglia, em seu "Alvo Noturno", usa um pensamento do personagem Renzi, na página 243, para resumir seu próprio livro:

A história continua, pode continuar. há várias conjecturas possíveis, fica aberta, só se interrompe. A investigação não tem fim, não pode terminar. Seria preciso inventar um novo gênero policial, a ficção paranoica. Todos são suspeitos, todos se sentem perseguidos. O criminoso não é mais um indivíduo isolado, mas uma quadrilha com poder absoluto. Ninguém entende o que está acontecendo; as pistas e os testemunhos são contraditórios e mantêm as suspeitas em aberto, como se mudassem a cada interpretação.

O autor argentino nos oferece um livro que usa o gênero policial como se fosse um mero disfarce, ou uma isca, como se pretendesse fisgar os ávidos e assíduos leitores desse gênero, para na verdade construir uma história bem diferente do que esperariam esses hipotéticos leitores, acostumados com a fórmula "crime-mistério-solução-castigo". Como a passagem destacada acima explica, em Alvo Noturno nada é tão simples. Termina o livro sem desvendar as motivações do crime e quem foram os criminosos. Um tanto frustrante, não?


Não. Não quando se percebe que a última coisa que interessa a Piglia é reduzir sua história a um conflito banal entre bandidos e mocinhos. Embora o livro gire o tempo todo em torno de um crime, por incrível que pareça o crime, em si, não é o centro da história. Ele não passa de um pretexto e por isso desvendá-lo não tem a menor importância para o autor. Pelo contrário, sua não-solução é exatamente a única solução que o autor vê como realista naquele vilarejo nos pampas argentinos. E, cá pra nós, não é mesmo assim também por aqui, em nossos grotões ou mesmo em nossas grandes cidades? Quantos crimes são desvendados? No Brasil este índice estava em 2%. No interior do país, quantas oligarquias não eliminam os que incomodam (sindicalistas rurais, sem-terra, indígenas, opositores políticos...) na base do assassinato, acobertados por um aparato local - policial, político e judicial - que efetivamente controlam com mãos de ferro?  Não há, afinal, diferença significativa entre nossos "coronéis" do interior e o Velho Belladona. Em Alvo Noturno, a solução realista, que é a não-solução do crime, é o recurso usado para denunciar essa triste realidade. Ricardo Piglia transforma, portanto, seu romance "policial" em algo mais, com pitadas políticas, sociais e econômicas que acabam servindo como um questionamento, talvez uma denúncia, de aspectos injustos da sociedade argentina (nos quais nos enxergamos integralmente, por sinal). 


Em meio a esse realismo cru, demonstrado naquilo que nos incomoda na leitura, ou seja, na sucessão de fatos e detalhes que aparentemente para nada servem, já que não desvendam o crime de fato - porque ocorreu e quem foram os envolvidos - em meio a essa realidade perdida, confusa, misteriosa, Piglia insere um Luca surreal que constrói sua "Nautilus", um "veículo imóvel que traz o mundo até nós". Parece-me uma alegoria ao livro, esse "veículo" que também traz o mundo até nós.


Está aí, a meu ver, o ingrediente mais interessante de Alvo Noturno, aquele que realmente acrescentou uma novidade à história, que me trouxe uma reflexão nova: o dado psicológico. Especialmente em Luca, o personagem que mergulhara em seus ilusórios projetos com uma determinação tão bela quanto doentia. A cena em que Luca está perante a Justiça e é obrigado a decidir-se, a chocar seus sonhos com a realidade nada agradável daquela região e seus podres poderes, parece-me o momento mais revelador e crucial do livro. 


Luca tinha força para defender sua utopia porque julgava-se certo em sua luta, julgava-se injustiçado, enfim, acreditava (literalmente, por sinal) em seus sonhos, acreditava que representava o Bem (digamos assim) em luta contra o Mal (do qual fazia parte o canalha Cueto). Quando, na audiência judicial, Luca é posto na encruzilhada e opta por manter sua ilusão a custa de uma injustiça, quando ele aceita compor com os interesses de Cueto, ceder a ele, submeter-se, e faz isso pelo dinheiro que garantiria a continuidade de seus sonhos e projetos, ali Luca, sem perceber, quebrou toda a força de sua alma. Não pôde viver em paz com aquilo, enfraqueceu sua determinação, corrompeu-se, perdeu as razões morais que sustentavam sua luta. E acabou como acabou - e aqui tanto faz se se matou mesmo ou foi vítima de "queima de arquivo". 


Ao fugir da realidade e não encará-la quando foi posto à prova, Luca foi engolido por ela. Talvez tenha sido esse o "recado" de Ricardo Piglia em Alvo Noturno. Depois de nos deixar naufragar naquela realidade inconclusa do crime, depois de nos mostrar como se deu a expulsão de índios, a ocupação e conquista de grandes glebas de terra no interior da Argentina, depois de nos mostrar as relações de poder (e sexo) entre os Belladona e polícia (Ada-Cueto) e imprensa (Sofía-Renzi), o autor parece nos dizer com Luca que não é possível iludir-se perante estes contextos bem reais. Todos ali estão muito conscientes do que fazem, inclusive as belas irmãs, e viver no mundo da Lua, inebriado por sua brancura noturna, não levará ninguém à redenção. Reparem que, caso Luca decidisse pelo oposto, ou seja, não incriminar um inocente e perder a fábrica aos credores, haveria sim o sofrimento, mas seria pela perda de uma ilusão. E perder ilusões, mesmo que isso doa muito, sempre traz benefícios, pois poderemos depois disso trilhar caminhos mais reais, verdadeiros e, agora sim, felizes.


novaes/


5 de janeiro de 2017

Participe e ganhe o livro "O desaparecimento" de Rudolf Bickel

Publique aqui no Blog suas impressões sobre o livro do mês no Clube de Leitura de Icaraí 

A tradutora: Cristóvão Tezza






e ganhe um exemplar do livro 

O desaparecimento: Rudolf Bickel






Escreva uma resenha do livro do mês do CLIc (A tradutora: Cristóvão Tezza) com pelo menos 500 palavras para postagem no blog do Clube de Leitura Icaraí e concorra ao livro "O desaparecimento" de Rudolf Bickel. Envie-nos sua resenha para grupo-de-leitura-agora-na-uff@googlegroups.com ou conciergeclic@gmail.com até 3 dias antes do debate do dia 12/01/2017.

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Exemplar gentilmente cedido pelo autor. Será entregue no dia do debate de Janeiro, no dia 12, às 19:00 h, na Varanda do Centro de Artes UFF.



Outras obras de Rudolf Bickel: 


























4 de janeiro de 2017

2016, um Ano Bom! para o Clube de Leitura Icaraí

Olá, Cliceanos!




Foi um ano importante para nós do Clube: lemos 4 autores brasileiros, 7 autores de língua portuguesa, 5 mulheres (viu, Clube Leia Mulheres?), um livro de poesias pela primeira vez em nossa história com grande sucesso (apesar de uma certa resistência da facção ortodoxa do Clube 😁), não aceitamos que decidissem por nós o horário de nossas Reuniões e mudamos para a Varanda do Centro de Artes da UFF, outro sucesso! Amadurecemos  nos renovando ainda mais e ampliamos bastante o Clube, com novos e entusiasmados participantes, interagindo harmoniosamente com outros clubes de leituras, reencontrando antigos Cliceanos que, pelas voltas que o mundo dá, precisaram se afastar por algum tempo sem contudo perderem o contato pela Grande Rede (Gmail, Facebook, Blog, Whatsapp e Twitter), retornando ao nosso convívio, criando novos amigos ou reforçando antigos laços de amizade.

Completamos 18 anos de existência com 167 livros lidos, contando com a presença de 13 autores nos debates literários, 186 participantes no grupo de mensagens do gmail, 653 participantes no grupo do Facebook, 26 participantes no grupo do Whatsapp, 46 seguidores e 347580 visualizações no Blog, oriundas de 2019 cidades diferentes mundo afora e com 564 seguidores no Twitter. Em 2017 queremos continuar a ser assim, um Clube aberto a todos que queiram compartilhar suas leituras, trocar ideias sobre livros, escritores, novos ou clássicos, com novos Encontros, novas descobertas e com a certeza de estarmos escrevendo uma bela história, não apenas pelas mãos dos diversos escritores , poetas e contistas que nos frequentam, mas porque estamos também construindo uma das belas histórias de nossa vida, inspiradas nos grandes livros e regadas na amizade que nutrimos em nosso Clube. 

Feliz 2017, Cliceanos!


2 de janeiro de 2017

O Destino estrangeiro segundo a Cliceana Maria Marlie



Maria Marlie
Não importa o tempo passado, após ler a dedicatória que você escreveu para mim, em que disse que o afeto era eterno. Digo que serei sua amiga para sempre, sem importar o passado, mas em razão do futuro, que nos fará ligados para sempre em afeto. Haverá o pacto firmado


Adorei o livro: primeiro, as lembranças de uma infância que já vai longe, figuras que se sobrepuseram ao ler seu livro, trazendo fatos e pessoas  de toda uma infância de amigos que frequentaram sempre o meu cotidiano e traziam em sua maioria, para a menina tão pequena que eu era, uma certa aura de encantamento. Seu Davi, um homem sempre vestido em ternos escuros, um chapéu e, pasmem, tinha um carro! De dentro desse carro, tiraria uma enorme mala, enorme para o meu tamanho de três anos e cheia de roupas e cheia de roupas lindas. Uma delícia” Lembro-me de minha mãe, usando um vestido bonito, para quando meu pai chegasse, à noite, e dissesse diante de seus filhos como a mãe deles estava deslumbrante. E outros nomes diferentes dos que eu tinha em minha família, como Moisés Tubenschlach, com quem fui ainda menina comprar a mobília de quarto, que tanto tempo sonhara em ter. Minha mãe queria pagar um preço – nove -, seu Tubenschlach dizia outro – dez –, e eu me desesperava, queria a minha mobília. Propus, então, nove e meio. O negócio foi fechado.

Seu livro  faz-me lembrar de um menino que morava perto de nossa rua e tinha o hábito de jogar futebol com meninas. Era certo que ele não tinha pressa para terminar o jogo. A mãe dele, na esquina, gritava: Maurício está ha hora"!  Os meus primos diziam: seu pai chegou,corre. É capaz do seu Shermann brigar com você. Corre!

Eu me lembro de outros cabelos ruivos que invejava. Regina e as outras meninas, duas ou três, que moravam na Visconde de Sepetiba. Lindas! Cabelos ruivos e crespos, diferentes dos meus quase castanhos e lisos.

Depois, veio a guerra. Acabou a guerra. Nos cinemas, eram mostrados horrores, os judeus eram os gringos, mas muito diferentes dos judeus amigos que conhecia. Tão diferentes dos filmes.

O tempo passou, cresci e passei a saber outras coisas. Eram judeus sim, os nossos amigos. Salomão e as irmãs, da família Rubens, os Grabier, os Grand, os dois nomes um pouco enrolados. Para melhor entendermos, ficaríamos muito tempo falando dessa gente que tão bem nos é apresentada e, ao crescer, vim a conhecê-los melhor. Na mocidade, já casada, seu Leon joalheiro, que trazia em casa fios de pérolas para eu usar. Eu era o que as pessoas chamavam de “mãe das pérolas”. Pérolas têm vida e morrem se não são usadas. E eu com o Dani fazia com que elas revivessem. Meu amigo Leon casou e teve duas lindas filhas. Um dia, partiu para Israel. Perdi de vista os amigos, mas não as suas lembranças. Toda vez que uso milhas pérolas, lembro-me do amigo por quem tenho um eterno afeto.

Seria capaz de contar muitas coisas que me ligam aos “gringos” em minha vida. Mas vamos aos feitos do seu livro, esse fazer diferente, capítulos curtos, com um título no final. Nunca tinha visto nada assim. As fases de fixação de uma família em terra diferente e, por causa disso, difícil. O tempo passou e foram se fixando. A mãe judia, hoje tão falada, me fez lembrar da minha, a família que formamos, o trabalho diário. Para isso, não há diferença na luta.

O tempo é curto, as reminiscências são muitas. Tentei falar da minha leitura na sua escrita. O comentário (se é que se pode chamar de comentário o que escrevi) foi feito com o coração. As lembranças desse povo que fazem do ventre materno a condição dos filhos serem judeus. Isso acho lindo e torna o povo judeu único e eterno.

Acho que tudo foi dito. Só me resta dizer obrigada por você ter escrito o livro.

                                                           Maria Marlie

(o nome é alemão, mas o nome do meu pai era Salomão, escolha do pai dele, que queria para o filho o nome de um grande homem)


Daniel Chutorianscy 
médico que sofreu AVC e fundou o Grupo AVC-PULANDO A CERCA