CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

15 de fevereiro de 2014

Uma noite memorável

CLIc 15 anos: entre livros e amigos


by Rita Magnago


Sempre adoro estar com o Clube em nossas reuniões mensais, mas ontem foi hipersuperespecial, uma noite para ficar registrada no sempre da memória. Sorrisos, boas conversas, abraços, beijos, livros, autógrafos, vinho, brincadeiras, declamações, música, poesia, leituras, apresentações, fotos, champagne, simpatia por todo o lado. 





Principais destaques

Gracinda nos brindou com uma de suas maravilhosas dinâmicas, planejada para a ocasião com carinho e delicadeza. Dez leitores citaram personagens marcantes de livros lidos pelo CLIc que gostariam de encontrar, em que local e o que perguntariam. Em breve você vai conferir aqui mais detalhes da dinâmica.


Em seguida Ilnéa leu para nós seu “Pequeno poema para a Lua do Espreitador”, dedicando-o aos 15 anos do Clube. Lindo, lindo, lindo, também em breve será disponibilizado aqui.


Depois, Elenir declamou alguns de seus belos haicais, explicando que haicai, na verdade, é para ser lido e sentido, mas ela não se furtou a atender ao pedido da amiga. Obrigada, querida. Aguarde para breve os haicais de Elenir.


Chegamos então ao mini café-concerto, gentil e ardorosamente preparado por Dília e Cristiana. Elas se esmeraram em selecionar trechos de textos poéticos dos autores do CLIc, os quais ganhamos um verdadeiro upgrade em suas vozes possantes.




Dando um brilho todo especial à noite, de lua cheia, por sinal, a voz de Zezé nos fez balançar corpo e coração, acompanhada pelo violão do músico contratado por Dília para a ocasião festiva.


Aplausos para a apresentação maravilhosa das meninas

Fechando o café-concerto, Sr. Antonio, dono da Guttemberg, fez sua já famosa e sempre perfeita performance de "Cântico negro".


Chegada a hora da foto dos autores presentes. Todos felizes e envaidecidos com o sucesso do Clube e do lançamento.

Sentimos falta dos presenciais Benito, Eloisa, Rose P.,
Fernando e dos virtuais Hélio, Luzia, Rose T. e Sonia.
Luiz Gravi, cadê você? 


Norma, a fundadora do CLIc, Evandro, nosso concièrge e membro desde os primórdios, e Emmanuel, o responsável por levar o clube para a UFF, posam para a posteridade.

Cintia, faltou você nesta foto, a grande e incessante arquiteta do livro

Casa cheia, leitores do CLIc, inúmeros convidados, possíveis novos membros do Clube, alguns já se apresentando à galera, Terezinha nos acolhendo, hum, tudo maravilha. 

  
 


Saímos ainda com disposição para esticar a comemoração, desta vez no Espaço 29, sugestão da Marlie. Foram necessárias duas mesas compridas e depois dos comes e bebes de praxe, o ‘Parabéns para o Clube’, regado a discursos de Norma, Evandro e Rita.

  



Ah, já estou com saudades!


14 de fevereiro de 2014

Autores participantes do 'Texto Coletivo' no livro do CLIc


São eles: 


Luzia, Carlos, Evandro, Benites, novaes/, Rita, Gracinda, Sonia, Vera, Rose P, Rose T, Eloisa, Elenir




Texto Coletivo do livro do CLIc: Meu carnaval preferido

Prezados participantes do CLIc,

Terminamos hoje nossa primeira produção conjunta, o conto Meu Carnaval preferido. Foram 290 acessos ao post “Brincadeira de Carnaval” até às 12h de 01/02/2013, com 28 comentários e muitas risadas. Agradecemos a todos que colaboraram, escrevendo ou lendo, e transformando a ideia num sucesso.

Na reunião de hoje haverá o sorteio de dois livros aos autores participantes: Benites, Carlos Rosa, Elenir, Eloisa, Evandro, Gracinda, Luzia, novaes/, Rita, Rosangela, Rosemary, Rose Pinto, Sonia e Vera Freire.

Abaixo, o conto final. 

MEU CARNAVAL PREFERIDO





Eram seis horas da tarde. O sol seguia ainda brilhante por conta do horário de verão. Eu espiava pela cortina a moça do apartamento de frente experimentando sua roupa de Carnaval. Ela era destaque da Unidos da Viradouro e usava um biquininho, ó...
Contemplei seu corpo, temeroso de ser descoberto em minha travessura de homem-menino, e mais que seu corpo admirava-me a alegria em seu rosto, como se aquela fantasia resumisse a vida, uma felicidade inteira concentrada naquele momento, naquele desfile, alguns minutos de êxtase na passarela. Ela experimentava a fantasia... e, confesso, eu também. Claro, a fantasia que eu experimentava estava apenas em minha mente, era a fantasia de um amor de Carnaval. Sim, é verdade, o biquini minúsculo e o corpo convidativo em muito contribuíam para isso. Mas espiar aquele momento mágico, o instante do encontro da artista com seus aparatos de corpo - as sandálias enfeitadas, a tanguinha, as plumas, os seios em purpurina e, por fim, o adereço de cabeça com mais plumas - observar esse momento e o brilho dos seus olhos, puxa, isso sim me levava à paixão, claro, claro, sem jamais desconsiderar o tônus de sua pele e suas formas apetitosas... Embora eu me escondesse aqui, no outro bloco deste prédio, vizinho oculto, perguntava-me até onde iria a coragem dessa minha paixão. Como faria para abordá-la? O que eu poderia dizer?
Seu corpo era escultural. Depois de vestir as duas peças,que eram recobertas de paetês coloridos, ela se contemplou no espelho do armário, virando de um lado e de outro para melhor apreciar a linda imagem ali refletida. Talvez já impulsionada pelos momentos carnavalescos que a esperavam, ensaiou uns passos que deveriam seguir o ritmo do samba-enredo de sua escola.
“Tou me guardando pra quando o carnaval chegar...”, foi o verso que lembrei, a música que sempre me pareceu anunciar o Carnaval como o ápice da alegria, da felicidade, do amor. "To me guardando pra quando o Carnaval chegar...", chego a ouvir o Chico, o MPB4, e agora o objeto do meu desejo estava ali, sambando para o espelho do armário, sem saber que me guardava atrás da cortina e, afinal, o Carnaval estava chegando.
Ah, tesão! Se ela sonhasse que tenho a maior fissura nela! O máximo que consegui chamar sua atenção foi quando fiz de conta que não a via e cruzei a sua frente, naquele dia à saida da farmácia, sem tempo para que ela se desviasse de mim, tropeçasse e sem se desculpar me fuzilasse, ah seus olhos!, lascando um depreciativo “MENINO!”. Injustiça! Ela que pensa, sou grande já, e ela gostaria bem de mim se soubesse como sou. Fiquei com o perfume dela nas ventas. Respirei fundo e prendi o ar, andando um tanto de olhos fechados, pra sentir bem como ela era. “Um dia vou ter uma mulher assim”, me prometi. Enquanto isso, já nesse Carnaval vou tentar alguma coisa, vou azarar. Ah, que vou! Mulher que gosta de ser destaque aprecia ousadia.


Enquanto era observada sem saber ser objeto do desejo, começou a ensaiar uns passos em frente ao espelho. Seria o espelho meu único observador e crítico...Será que na avenida, alguém irá notar os descompassos do meu coração?...
A moça de corpo escultural pensando estar sozinha em seus pensamentos, sonhava encontrar a felicidade que já espreitava com grandes olhos pela fresta da janela. Na verdade não era a almejada felicidade, mas a obsessão dele pelo corpo já que o coração não interessava nem no compasso do samba na avenida. Amor de carnaval...
Lá está ele, de novo me olhando através da transparente cortina de pequenas e delicadas flores. Hoje de manhã esbarrou em mim, na porta da farmácia e eu fingi não reconhecê-lo. De tão surpresa quase não contive minha alegria e gritei: “MENINO!”. Sim, sempre ele, povoando meus sonhos, aquecendo meu corpo mesmo tão distante... tão menino, tão ardente, tão transparente e ao mesmo tempo tão simulado. E tão desejado... Ele não sabe que é pra ele que eu me visto e me dispo...
No entanto, não posso desistir agora, finalmente serei destaque na avenida e o Jorge que me deu esta oportunidade, não pode descobrir que meus pensamentos não são dele. Nem quero imaginar o que pode acontecer, Jorge é violento, já me avisou que está com a barba de molho e seria uma tragédia uma barba ensopada de sangue
Ela estava ansiosa para entrar na Avenida, portando a bandeira da Escola, dançando e requebrando-se ao rítmo do samba-enredo. Faltavam poucas horas para realizar o sonho que a acompanhava desde menina. Mas, sob os cílios postiços, o rímel, as pálpebras coloridas, seu olhar trazia, quase imperceptível, uma sombra de preocupação. Joca, seu companheiro de alguns anos..Ele não aceitava ver a mulher que era sua, como dizia, exibir-se para outros homens. O corpo quase nu, os seios à mostra, as pernas bem torneadas, o exíguo biquini que mais realçava, do que cobria, seu trazeiro roliço e bem fornido, e, ainda por cima, seus requebros voluptuosos. Era demais para ele. Machista, orgulhoso e possessivo. Características que já a estavam cansando. Entretanto, ela pediu, implorou, disse-lhe que, na Avenida, era para ele que dançaria. Que a deixasse viver seu sonho. Que esta seria a primeira e última vez, prometia.Tanto fez, e tanto falou, e tanto chorou, que o convenceu. Mas... Joca estaria, realmente, convencido?

Pobre Joca! Que vida é essa? Era preciso parar de se enganar. Seu envolvimento com vários homens ainda iria lhe prejudicar. E muito! Poderia acabar em tragédia! Joca não imaginava que ela tinha um amante. Joca e Jorge certamente se envolveriam em violenta briga se soubessem da existência um do outro. Arranjaria uma forma de se afastar de Jorge após o Carnaval. Seu envolvimento com ele era recente e sabia que não era nada sério. Também tinha que parar com as doentias fantasias exibicionistas com o homem da janela. Era preciso parar de ser leviana. Isso só a vulgarizava! Não pensaria nisso naquele momento. Seu sonho de entrar na passarela estava prestes a se realizar.
Jurei para o Jorge que essa seria última vez. Joca também acretida nisso. Mal sabem eles... Pedrão prometeu que no próximo ano serei Madrinha da Bateria.
Ai que estresse que é todos esses homens babando na sola de meu sapato. Nenhum deles pode me dar o que eu quero. Quero brilhar, fazer sucesso, conquistar meu lugar no mundo. Um bando de carcamanos que acham que vou empatar meu futuro em pouca coisa. Daqui quero ir pro BBB, pro Metropolitan, chega de miserê. Quero sair desse cortiço infestado de voyeurs, de marmanjo que acha que é dono da gente, só porque um dia nos enganamos e fizemos algumas concessões, dispensando um sorriso ou uma palavra de cumprimento na portaria. Que venha a virada com esse destaque na Viradouro. Deus que me livre da sina de minha mãe que não conseguiu nada na vida. Os homens de minha mãe só lhe legaram desgosto, deixando-a na rua da amargura. Chega de Jocas, Zecas, Jorges, agora quero Johns, Winstons, Newtons.
A linda cabrocha estava tão preocupada com suas formas e imagem que nem percebeu que Jorge estava enfeitiçado pela beleza da filha do diretor da Escola, uma loura fenomenal que havia se preparado para ocupar lugares de destaque na Escola e se submeteu a implantes de seios, de nádegas, panturrilha e até na sola do pé, para poder sambar em saltos altíssimos que precisa de certificação em equilibrismo para se manter em pé, que dirá sambando com esplendor pesado nas costas e sempre sorrindo de felicidade.
E ela continuava a viajar em seus pensamentos. Vou desfilar a frente de 200 ritmistas, que estarão obedecendo ao Mestre, mas é a mim que eles estarão reverenciando. Terei também não só os olhos do menino do olhar peralta, mas de toda uma arquibancada. Vou brilhar! Vou brilhar!
Sim, o menino do outro lado me encanta, pela doçura de sua timidez, mas quem já tem Jorge e tem Joca, que em breve dispensarei, não precisa de um menino tímido e apaixonado. Preciso de Pedrão, do futuro que ele pode me dar, pelo menos do futuro imediato. Depois, sim, fora Pedrão e que venha a Globo, as capas de revista, quem sabe novelas. Corpo pra isso eu tenho. Por que desperdiçaria minhas oportunidades com esse garoto olhudo e mudo? Ele é bonitinho, com seu jeito envergonhado, mas a vida não é um conto de fadas.
Ela sambou diante do espelho... estaria a se mostrar para mim? Sinto que ela me quer. Vive cercada desses brutamontes; nenhum deles tem o sentimento que eu tenho por ela. Sinto uma intensa atração, sim, mas ela mexe com meu coração, eu poderia amá-la de verdade, eu a faria feliz, eu me casaria e me esforçaria por ela. Ela não faz ideia... Eu sou o que ela precisa. Um cara sensível. Ela saiu da janela... está se trocando... está saindo... Vou descer correndo, vou falar com ela lá embaixo. Adeus janela, adeus cortina. Espero encontrá-la na rua.
Na rua, ele viu, minutos depois, a sua paixão que encontrara um homem.Discretamente ele se aproxima e ouve:
– Mas é verdade que sua fantasia tem preocupações ecológicas, que trata de temas politicamente corretos?
– É claro, represento as biodiversidades.
– E o que vai usar para isso? Ouvi dizer que usa plumas de diversas aves, couro de jacaré? É verdade?
– É... um pouco, afinal meu biquini é mínimo!
– Não tem medo de que as pessoas se revoltem e façam uma manifestação durante o seu desfile?
Aquele chato a estava importunando. Resolveu se aproximar mais.
E então o menino se fez homem, estufou o peito, lembrou da recente leitura da biografia de Marighella e se animou, ganhou brio, e chamou com voz de macho, sem saber que era Joca, apelido valente, seu rival de momento: “Ei, você aí, deixa a moça em paz que ela está comigo!”.
E estava formada a confusão...
Porém, a magia do carnaval falou mais alto ao som de uma marchinha. Embriagado de lança perfume e amor, ele desapareceu com sua eleita em meio ao bloco pré carnavalesco que desfilava na rua naquele exato momento.
Mas ele não estava embriagado, apenas, de amor e lança perfume. Havia tomado umas "bagaceiras" e começava a cruzar as pernas para andar. Aquilo não era dança, pensava ela, aflita.
E na multidão, ele a perdeu. Um momento de descuido, uma olhada para o lado e... ela se foi! Joca virava a cabeça, olhando por cima de ombros, entre milhares de cabeças, máscaras, perucas, sorrisos, onde, onde? Salta para procurar melhor, é empurrado, esbarra em corpos suados, agora desagradáveis, que o conduzem para onde não quer ir. E lá vai Joca, levado pela corrente humana que pula, ri, berra. Ele também empurra, tentando se livrar daquela enchente de povo, aquele irresistível fluxo infame que parece afastá-lo de sua amada, sua amada... Quem a levou? Ou ela se perdeu, indefesa e quase nua, a mercê de algum bruto? Joca esmurra a carantonha pintada que parece lhe sorrir, soca as costas negras e luzidias que lhe impede o caminho, grita, torna-se um aríete enlouquecido, desesperado para livrar-se daquele inferno. O pensamento não para, ele a vê forçada, violentada, possuída por algum caubói, ou por um palhaço como aquele que urina atrás da árvore. Joca bate, empurra, e também é agredido. Toma um chute, um soco, leva safanões, agarram-no pelo braço e o arremessam na sarjeta. Tonto,ferido, ensanguentado, Joca olha aquilo tudo, a multidão sem sentido, a alegria insana; por quê? Para quê? Onde, Meu Deus...? 


Seus olhos ainda procuram. Então ele vê, num canto de parede, um corpo escultural coberto pelas duas peças com paetês coloridos, uma beleza de mulher capaz de obscurecer qualquer beldade desses BBBs da vida. Ela, era ela. Envolta em braços alheios, uns braços peludos, mãos que penetravam pela calcinha, dedos que percorriam seus montes, planícies, florestas... Joca se esqueceu das dores, levanta-se furioso, de novo um aríete enlouquecido, mas dessa vez ainda mais endoidecido pelo ciúme, pela gana de tirar sua amada dos braços de outro. E Joca se mete no meio dos dois: "Larga ela! Larga seu f.. da p...!"
Ela se afasta, se encolhe. E diante de si Joca vê um homem assustado, um senhor de cabelos brancos, ainda forte, mas um idoso amedrontado e estático. Então, Joca também para diante do homem. Olha-o surpreso, pasmado, atarantado, seus lábios apenas balbuciam: "Papai... papai..."
Na concentração, envolta em dúvidas, temores e inseguranças, Ana volta a vislumbrar a figura do menino, dirigindo-se a ela em meio à multidão.  Seu menino, seu único e verdadeiro amor.  Quisera perder-se em seus braços, quisera não desejá-lo tanto, quisera não fosse tão menino...  Joca, Jorge e Pedrão, com suas fantasias machistas, suas alucinações, suas violências e suas brigas jamais terão um verdadeiro espaço em sua vida.   “Abro mão de tudo, abro mão de todos.  Que venha o meu menino, com sua pele clara, seu cabelo liso, seu jeito de príncipe. Grimaldi...  que sobrenome estranho que ele tem...”
Rolou sangue nessa noite. Jorge e Joca enfurecidos e loucos de ciúmes brigaram até a morte e, lá os dois corpos já estavam estendidos no chão.. Alguém os cobriu com a bandeira da Escola.
Ao longe, aquela morena escultural estava nos braços de Pedrão e faziam planos para a entrada triunfal da Madrinha da Bateria no próximo Carnaval.
– Mamãe, vem ver na televisão uma notícia extraordinária. Em todos os canais – minha filha chamava-me.
– Ataque terrorista põe fim ao Sambódromo, dizimando tudo e todos que ali estavam!
O destino não compartilhou dos planos de Pedrão e de sua morena fagueira. Não quis que ela ficasse com nenhum dos três, pensei.
As imagens de destruição do sambódromo foram manchetes dias seguidos e o Rio de Janeiro ficou de luto. Na charge do Chico, porém, além da morena boazuda com três homens a seus pés, ardendo em luta canina, tremulava a bandeira da Riotur com a faixa: Meu carnaval preferido.


Ilnéa Miranda está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros

Sem nome… como você




Eu te encontrei na rua
Pequena, frágil, delicada
Mas não estava só
E embora abandonada.

Dentre os irmãos: a mais bonita.
Me conquistate, olhar matreiro
De enormes olmos cinza-azul-azul cinzento.

Brincando de Deus
Decidi te dar felicidade.
E, mais que isso pensei
Poder te fazer Feliz.
E te peguei no colo…
… te trouxe numa caixa…
… pequena… assim como você
E de segunda mão,
Assim como você.
Pobre criaturinha…
… ou pobre de mim?

Você se foi, quieta
Sem deixar vestígios
Além daqueles que deixou em mim.
Linda coisinha branco e cinza
           Me perdoe.
Brincar de Deus… não é fácil assim.

Ilnéa,

em 16 de dezembro de 1980


13 de fevereiro de 2014

Escritores participantes de "Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros"


Gostaram do que eles escreveram no livro do CLIc?




Você poderá encontrá-los e adquirir seus livros próprios no evento de lançamento da Antologia do CLIc


LANÇAMENTO


Clube de Leitura Icaraí  - 15 anos entre livros


14/02/2014

18:00 h

Livraria Icaraí

Rua Miguel de Frias, 9



12 de fevereiro de 2014

Ilnéa Miranda está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros

Os Filhos Ocultos de Eva

Dos numerosos ditos populares ligados à visão, talvez o mais conhecido e mais óbvio seja o que afirma que os olhos são as janelas da alma. O significado deste adágio entretanto, como quase tudo na sabedoria popular, corre em mão dupla:- o olhar não nega o que a alma vê e sente. E olhos seguem por aí reconhecendo e expondo almas ao mundo do jeito que lhes parecem. Alguns, porém, fazem-no de forma única, muito peculiar.

Que olhos, por exemplo, seriam aqueles que descrevem e desenham fadas, elfos, gnomos, bruxas, duendes e toda sorte de pequenas entidades elementais habitantes de uma Terra de Maravilhas que, para a maioria dos humanos, só existe no imaginário das histórias infantis? 


Janet Hill
Para mortais comuns, de olhar cotidiano e adulto, uma abóbora é uma abóbora e, quando vêem uma delas, o máximo que conseguem, em bissexto rasgo de criatividade, é imaginá-las servindo de recipiente próprio para o quitute especial da casa da sogra ou do restaurante favorito. Aos privilegiados, contudo, é dado enxergar, no trivial e rotundo legume, a carruagem da princesa. 

A mitologia islandesa  conta que Eva estava banhando seus filhos no rio, quando Deus falou com ela. Assustada e temerosa, escondeu aqueles que ainda não tinha banhado. Deus perguntou-lhe se ali estavam todos os filhos que tinha e ela respondeu que sim. O Senhor então declarou que aqueles que ela ocultara Dele seriam mantidos fora do alcance de visão humano. E os filhos ocultos de Eva se transformaram em seres encantados.




Quem sabe alguns deles não conseguiram transpor a barreira imposta por Deus e não se misturaram aos homens disfarçados de escritores e ilustradores dos mitos e lendas desse Reino Encantado de todas as culturas? Talvez nem mesmo eles tenham consciência da tarefa escolhida, e nem percebam que seu olhar vai além da forma da folha, ou da planta, ou de uma gota que faz cintilar a luz do sol. Este olhar especial reconhece os pequeninos seres que ali se escondem, mas só se mostram a seus iguais e, quem sabe, a uns poucos escolhidos cuja retina repousa na alma.




Não importa. Para estas pessoas incríveis e neste lugar onde fantasia e realidade de misturam, se fundem, se confundem e se completam, só o impossível é impossível. Tudo o mais, simplesmente, é.




Ilnéa é natural do Estado do Rio de Janeiro e moradora de Niterói. É escritora, tradutora, terapeuta vibracional, contadeira de histórias... e advogada das coisas em que acredita... e, faz tempo, acredita no CLIc!

"Sou do tempo da Ver & Dicto, penso que bem no princípio... e para lá me fui pelo carinho de Norma Lannes, amiga, sim, desde os tempos do Ballet de Eunice Linton. Poderia eu ter guia melhor?"

Seu livro "Eu Menina Toda Prosa... e alguma Poesia" foi debatido no clube de leitura Icaraí em Setembro de 2012




 

11 de fevereiro de 2014

Fernando Robles está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros

A criação de Carlos

São os fragmentos que nos constituem

Carlos chega ao colégio convencido de que criara algo completamente em cisão com o convencional, causando comoção em todo cabedal de correlatos e começando uma colossal celeuma.

Vivemos no universo
do simulacro e do fascínio


Denise, dedo-dura, denunciou despoticamente tal ditame, dizendo duvidar da dinâmica individual do delineamento da "dádiva" declarada por um disperso Carlos, desencadeando o debate.

Ernestina esclareceu o entrevero e elegantemente elaborou que era evidente que Denise estava, em parte, engajada em ensejar este embate por ene elocubrações que se eliciariam em sua efígie de empertigada examinadora, mas estabeleceu que Carlos nada exercera para dar elã a tal emblemático enfado, elogiando-o em sua empresa especial.  



A história sempre se repete como farsa?
Ou como farsa da farsa?
Ou a farsa é a história?
A história é um nada, pois não se tem história?
Fulgêncio fugiu do foro da fissão e, felizmente, fez-se fiar por sua fidalguia, falando apenas fáceis firulas fonéticas e fazendo fenecer em falácia as frases ferinas formuladas pela falastrona Denise.


Guilherme achou graça no golpe germinado pelos gorjeios galantes de Fulgêncio, que, genialmente, galgou outro gerenciamento grupal dos gestos grosseiros de Denise.


Heloísa, hispânica por herança helicoidal de seu DNA, em "hilos" hilários disse higienicamente sobre Carlos: ‘El ha hecho muy bien'.


Ivan, inda inadvertido e ilegítimo às indagações, indaga, com sua inata indolência ingênua de imberbe: ‘Mas, afinal, o que cargas d’água criou Carlos?!’



Robles é formado em Psicologia e Mestre pela UNIFESP 

"Conheci o CLIc em janeiro do ano 2012 (debate de O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago), por acaso, quando vinha e voltava muito de São Paulo — oriundo que sou de lá e aonde cursava mestrado na UNIFESP — em função de um início de namoro com uma moça aqui do estado do Rio e moradora de Niterói. Rato de livraria, perambulando pela praia vi e fui conhecer a livraria da UFF numa ocasião, fui convidado gentilmente (como sempre) por Dona Teresinha: aceitei... e adorei.

A partir de então, procurava sempre sincronizar minhas vindas com as semanas de encontro... acontece que hoje, findo meu mestrado, esta namorada virou minha mulher e esperamos um filho desta nossa união, o Clube de Leitura fez parte viva nesta nossa história, mudo-me para Niterói e espero cada vez mais desenvolver laços de amizade e trocas com todos muito interessantes e já queridos membros do grupo. Sou psicólogo e psicanalista clínico, mestre em Ciências da Saúde e em vias de garimpar algum doutorado pelos lados de cá."



9 de fevereiro de 2014

Gunter Karl Pressler e Casa Dalcídio Jurandir presentes no livro do CLIc




"Prezados,
A sexta-feira no Clube de Leitura foi uma experiência muito boa. Gostaria de voltar num outro momento e escutar o que os leitores interessados percebem e articulam. Acredito que assim se lida bem com a literatura, pois ela foi escrita para leitores voluntários que complementam sua experiência de vida com e pela literatura. Ela não foi escrita para ser "provada" nas leituras OBRIGATÒRIAS de vestibulares. Ainda tem esperanças...

Um grande abraço," (Gunter Karl Pressler em 06/06/2011)

Dr. Gunter Grass no Clube de Leitura Icaraí

Gunter Karl Pressler é doutor em Teoria Literária pela Universidade de Constança (Alemanha) e professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Pará (UFPA). Especialista na obra de Dalcídio Jurandir, compareceu ao Clube em 03/06/2011 discorrendo sobre a obra do autor, especialmente Marajó.


Nosso companheiro de leituras José Roberto na comemoração do centenário de Dalcídio na UFF

Lançamento do livro "Chove nos Campos de Cachoeira" na Livraria Icaraí

Veja +

Ceci Lohmann está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros


Hawkwood: Extreme Love

Fragmentos de "Memórias"


            Nessa tarde especial, um cheiro conhecido despertou-lhe. Sobressaltado, olhou ao seu redor e buscou-a, tateando o tecido da poltrona, como se ela estivesse ali viva, sorridente. Mas foi se dando conta de que apenas aquele aroma permanecia: tentou reconhecê-lo. Ah! Era um chá com folhas da caneleira que a empregada há anos lhe trazia sempre naquela mesma hora, no mesmo local, hábito comum entre os dois...

            ... Lembrou-se dos tempos de exílio, onde nos momentos em que os pássaros entoavam seus cantos, sentia a extrema angústia, pela distância dos que lhe eram queridos. Mas ela o acompanhara e juntos se abraçavam para suprir esse vazio.

            Ambos estiveram exilados em outro país: tempos difíceis que viviam.

            Lutaram e acreditaram ser possível a realização de um ideal, o desejo de uma sociedade mais justa. Participaram de movimentos de reforma agrária e tantos outros e foram perseguidos. Conseguiram se asilar e depois se exilaram, mas com grande dor.

            O sofrimento do exílio os entristecia: a casa, o jardim, os livros dispersos em tantas prateleiras, o desamparo... deles e de seus elos. Já não eram tão jovens, e chegavam àquele momento cruel da perda da esperança em realizar os ideais. Talvez essa tenha sido a maior tortura pela qual passaram...

Bruno Balegas de Sousa



            ... Já cansados e envelhecidos, retornaram ao país e à casa que sempre amaram. Retorno entremeado de novas buscas, de reconstrução de suas vidas. Refizeram a casa e a si mesmos...

            ... Numa manhã, ela acordou com fortes dores. Precisou acordá-lo, embora nunca o incomodasse. Como ex-guerrilheira era difícil mostrar-se frágil. Mesmo frente às torturas e interrogatórios manteve-se resistente. Há tempos sentia alguns enjoos, vertigens, fortes dores, mas não quis preocupá-lo. Recordava-se desses sofrimentos e atribuía às suas consequências, já que era comum àqueles que a sofreram. Agora, precisava dele, de seus cuidados e de seu abraço tranquilizador. Ele prontamente procurou medicações que pudessem aliviá-la. Mas no decorrer da manhã, seu estado foi piorando e, muito resignada, aceitou ir ao hospital. Sentia que piorava e angustiava-se por vê-lo assustado. Seu amor por ele era maior do que as dores que sentia. Ela nunca mais retornou... ( o Conto continua no livro do CLIc, onde se pode ler na íntegra esta bela e emocionante história da Ceci)





Ceci Lohmann é psicóloga pela UFRJ com formação psicanalítica na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, atuando em consultório.

"A curiosidade em conhecer o Clube me acompanhava há muito tempo: finalmente foi possível este contato, por volta de 2005.

A leitura do livro Memória de minhas putas tristes parece ter sido um convite ao momento que eu vivia: eu havia perdido meu marido,que era bem mais velho do que eu e uma pessoa muito vibrante, tal como o personagem de García Márquez. Assim, personagem e pessoa se multiplicaram na minha mente e a emoção foi profunda. A acolhida do grupo frente àquele momento foi ímpar. A partir daí veio minha paixão em pertencer e participar de um grupo de tal porte."