CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

12 de fevereiro de 2014

Ilnéa Miranda está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros

Os Filhos Ocultos de Eva

Dos numerosos ditos populares ligados à visão, talvez o mais conhecido e mais óbvio seja o que afirma que os olhos são as janelas da alma. O significado deste adágio entretanto, como quase tudo na sabedoria popular, corre em mão dupla:- o olhar não nega o que a alma vê e sente. E olhos seguem por aí reconhecendo e expondo almas ao mundo do jeito que lhes parecem. Alguns, porém, fazem-no de forma única, muito peculiar.

Que olhos, por exemplo, seriam aqueles que descrevem e desenham fadas, elfos, gnomos, bruxas, duendes e toda sorte de pequenas entidades elementais habitantes de uma Terra de Maravilhas que, para a maioria dos humanos, só existe no imaginário das histórias infantis? 


Janet Hill
Para mortais comuns, de olhar cotidiano e adulto, uma abóbora é uma abóbora e, quando vêem uma delas, o máximo que conseguem, em bissexto rasgo de criatividade, é imaginá-las servindo de recipiente próprio para o quitute especial da casa da sogra ou do restaurante favorito. Aos privilegiados, contudo, é dado enxergar, no trivial e rotundo legume, a carruagem da princesa. 

A mitologia islandesa  conta que Eva estava banhando seus filhos no rio, quando Deus falou com ela. Assustada e temerosa, escondeu aqueles que ainda não tinha banhado. Deus perguntou-lhe se ali estavam todos os filhos que tinha e ela respondeu que sim. O Senhor então declarou que aqueles que ela ocultara Dele seriam mantidos fora do alcance de visão humano. E os filhos ocultos de Eva se transformaram em seres encantados.




Quem sabe alguns deles não conseguiram transpor a barreira imposta por Deus e não se misturaram aos homens disfarçados de escritores e ilustradores dos mitos e lendas desse Reino Encantado de todas as culturas? Talvez nem mesmo eles tenham consciência da tarefa escolhida, e nem percebam que seu olhar vai além da forma da folha, ou da planta, ou de uma gota que faz cintilar a luz do sol. Este olhar especial reconhece os pequeninos seres que ali se escondem, mas só se mostram a seus iguais e, quem sabe, a uns poucos escolhidos cuja retina repousa na alma.




Não importa. Para estas pessoas incríveis e neste lugar onde fantasia e realidade de misturam, se fundem, se confundem e se completam, só o impossível é impossível. Tudo o mais, simplesmente, é.




Ilnéa é natural do Estado do Rio de Janeiro e moradora de Niterói. É escritora, tradutora, terapeuta vibracional, contadeira de histórias... e advogada das coisas em que acredita... e, faz tempo, acredita no CLIc!

"Sou do tempo da Ver & Dicto, penso que bem no princípio... e para lá me fui pelo carinho de Norma Lannes, amiga, sim, desde os tempos do Ballet de Eunice Linton. Poderia eu ter guia melhor?"

Seu livro "Eu Menina Toda Prosa... e alguma Poesia" foi debatido no clube de leitura Icaraí em Setembro de 2012




 

11 de fevereiro de 2014

Fernando Robles está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros

A criação de Carlos

São os fragmentos que nos constituem

Carlos chega ao colégio convencido de que criara algo completamente em cisão com o convencional, causando comoção em todo cabedal de correlatos e começando uma colossal celeuma.

Vivemos no universo
do simulacro e do fascínio


Denise, dedo-dura, denunciou despoticamente tal ditame, dizendo duvidar da dinâmica individual do delineamento da "dádiva" declarada por um disperso Carlos, desencadeando o debate.

Ernestina esclareceu o entrevero e elegantemente elaborou que era evidente que Denise estava, em parte, engajada em ensejar este embate por ene elocubrações que se eliciariam em sua efígie de empertigada examinadora, mas estabeleceu que Carlos nada exercera para dar elã a tal emblemático enfado, elogiando-o em sua empresa especial.  



A história sempre se repete como farsa?
Ou como farsa da farsa?
Ou a farsa é a história?
A história é um nada, pois não se tem história?
Fulgêncio fugiu do foro da fissão e, felizmente, fez-se fiar por sua fidalguia, falando apenas fáceis firulas fonéticas e fazendo fenecer em falácia as frases ferinas formuladas pela falastrona Denise.


Guilherme achou graça no golpe germinado pelos gorjeios galantes de Fulgêncio, que, genialmente, galgou outro gerenciamento grupal dos gestos grosseiros de Denise.


Heloísa, hispânica por herança helicoidal de seu DNA, em "hilos" hilários disse higienicamente sobre Carlos: ‘El ha hecho muy bien'.


Ivan, inda inadvertido e ilegítimo às indagações, indaga, com sua inata indolência ingênua de imberbe: ‘Mas, afinal, o que cargas d’água criou Carlos?!’



Robles é formado em Psicologia e Mestre pela UNIFESP 

"Conheci o CLIc em janeiro do ano 2012 (debate de O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago), por acaso, quando vinha e voltava muito de São Paulo — oriundo que sou de lá e aonde cursava mestrado na UNIFESP — em função de um início de namoro com uma moça aqui do estado do Rio e moradora de Niterói. Rato de livraria, perambulando pela praia vi e fui conhecer a livraria da UFF numa ocasião, fui convidado gentilmente (como sempre) por Dona Teresinha: aceitei... e adorei.

A partir de então, procurava sempre sincronizar minhas vindas com as semanas de encontro... acontece que hoje, findo meu mestrado, esta namorada virou minha mulher e esperamos um filho desta nossa união, o Clube de Leitura fez parte viva nesta nossa história, mudo-me para Niterói e espero cada vez mais desenvolver laços de amizade e trocas com todos muito interessantes e já queridos membros do grupo. Sou psicólogo e psicanalista clínico, mestre em Ciências da Saúde e em vias de garimpar algum doutorado pelos lados de cá."



9 de fevereiro de 2014

Gunter Karl Pressler e Casa Dalcídio Jurandir presentes no livro do CLIc




"Prezados,
A sexta-feira no Clube de Leitura foi uma experiência muito boa. Gostaria de voltar num outro momento e escutar o que os leitores interessados percebem e articulam. Acredito que assim se lida bem com a literatura, pois ela foi escrita para leitores voluntários que complementam sua experiência de vida com e pela literatura. Ela não foi escrita para ser "provada" nas leituras OBRIGATÒRIAS de vestibulares. Ainda tem esperanças...

Um grande abraço," (Gunter Karl Pressler em 06/06/2011)

Dr. Gunter Grass no Clube de Leitura Icaraí

Gunter Karl Pressler é doutor em Teoria Literária pela Universidade de Constança (Alemanha) e professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Pará (UFPA). Especialista na obra de Dalcídio Jurandir, compareceu ao Clube em 03/06/2011 discorrendo sobre a obra do autor, especialmente Marajó.


Nosso companheiro de leituras José Roberto na comemoração do centenário de Dalcídio na UFF

Lançamento do livro "Chove nos Campos de Cachoeira" na Livraria Icaraí

Veja +

Ceci Lohmann está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros


Hawkwood: Extreme Love

Fragmentos de "Memórias"


            Nessa tarde especial, um cheiro conhecido despertou-lhe. Sobressaltado, olhou ao seu redor e buscou-a, tateando o tecido da poltrona, como se ela estivesse ali viva, sorridente. Mas foi se dando conta de que apenas aquele aroma permanecia: tentou reconhecê-lo. Ah! Era um chá com folhas da caneleira que a empregada há anos lhe trazia sempre naquela mesma hora, no mesmo local, hábito comum entre os dois...

            ... Lembrou-se dos tempos de exílio, onde nos momentos em que os pássaros entoavam seus cantos, sentia a extrema angústia, pela distância dos que lhe eram queridos. Mas ela o acompanhara e juntos se abraçavam para suprir esse vazio.

            Ambos estiveram exilados em outro país: tempos difíceis que viviam.

            Lutaram e acreditaram ser possível a realização de um ideal, o desejo de uma sociedade mais justa. Participaram de movimentos de reforma agrária e tantos outros e foram perseguidos. Conseguiram se asilar e depois se exilaram, mas com grande dor.

            O sofrimento do exílio os entristecia: a casa, o jardim, os livros dispersos em tantas prateleiras, o desamparo... deles e de seus elos. Já não eram tão jovens, e chegavam àquele momento cruel da perda da esperança em realizar os ideais. Talvez essa tenha sido a maior tortura pela qual passaram...

Bruno Balegas de Sousa



            ... Já cansados e envelhecidos, retornaram ao país e à casa que sempre amaram. Retorno entremeado de novas buscas, de reconstrução de suas vidas. Refizeram a casa e a si mesmos...

            ... Numa manhã, ela acordou com fortes dores. Precisou acordá-lo, embora nunca o incomodasse. Como ex-guerrilheira era difícil mostrar-se frágil. Mesmo frente às torturas e interrogatórios manteve-se resistente. Há tempos sentia alguns enjoos, vertigens, fortes dores, mas não quis preocupá-lo. Recordava-se desses sofrimentos e atribuía às suas consequências, já que era comum àqueles que a sofreram. Agora, precisava dele, de seus cuidados e de seu abraço tranquilizador. Ele prontamente procurou medicações que pudessem aliviá-la. Mas no decorrer da manhã, seu estado foi piorando e, muito resignada, aceitou ir ao hospital. Sentia que piorava e angustiava-se por vê-lo assustado. Seu amor por ele era maior do que as dores que sentia. Ela nunca mais retornou... ( o Conto continua no livro do CLIc, onde se pode ler na íntegra esta bela e emocionante história da Ceci)





Ceci Lohmann é psicóloga pela UFRJ com formação psicanalítica na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, atuando em consultório.

"A curiosidade em conhecer o Clube me acompanhava há muito tempo: finalmente foi possível este contato, por volta de 2005.

A leitura do livro Memória de minhas putas tristes parece ter sido um convite ao momento que eu vivia: eu havia perdido meu marido,que era bem mais velho do que eu e uma pessoa muito vibrante, tal como o personagem de García Márquez. Assim, personagem e pessoa se multiplicaram na minha mente e a emoção foi profunda. A acolhida do grupo frente àquele momento foi ímpar. A partir daí veio minha paixão em pertencer e participar de um grupo de tal porte."




8 de fevereiro de 2014

Cicero Lapa está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros





Uma paixão

...

Maria Helena não esperou que os dois se separassem. Armada de uma vassoura, colocou seu cabo na junção dos sexos animais e forcejou para desengatá-los. Demorou. Os cachorros ladraram e por pouco sua própria cadela, indignada com a interrupção de sua cópula, não lhe mordeu o calcâneo. Finalmente, depois de quase meia hora, a dona do animal conseguiu destravá-los. O cachorro retirou de dentro da cadela nada menos que meio metro de peru que ainda derramava sêmen por toda parte. Latindo, ameaçando morder, o vira lata e sua dama não consentiam antecipar sua demorada cópula.

...

(leia o Conto na íntegra no livro do CLIc)





Cicero Coelho Lapa nasceu em Floriano, Piauí. Graduado em Direito pela Faculdade Candido Mendes. Frequenta o CLIc desde 2008.


Clube de Leitura Icaraí lança livro para incentivar novos leitores


Depois de 15 anos e 132 obras lidas e debatidas em encontros periódicos, o Clube de Leitura Icaraí se prepara para lançar seu primeiro livro comemorativo. Construída de forma colaborativa, a brochura reúne o registro da história e do funcionamento do grupo, além de coletânea com textos inéditos assinados por seus membros. O objetivo é compartilhar experiências e incentivar a criação de novas confrarias. Clube de Leitura Icaraí: 15 anos entre livros (Editora da UFF, 208p.) tem lançamento marcado para o dia 14 de fevereiro, às 18h, na Livraria Icaraí (rua Miguel de Frias 9, anexo, Icaraí, Niterói), onde nos últimos cinco anos acontecem as reuniões do grupo.
CLUBE DE LEITURA peq“Queremos ler, debater leituras, encontrar outras pessoas com interesses afins, trocar ideias, festejar, celebrar a vida, sim, isso é tudo o que queremos!“, define Evandro de Andrade, que assina a organização do livro ao lado de Cintia Campos. Dividida em três partes principais, a obra começa com breves discussões sobre temas pertinentes, como o papel da literatura e dos livros, as diferentes formas de ler e o valor da leitura em grupo. Segue apresentando o Clube de Leitura Icaraí, sua história, a dinâmica das reuniões, os canais de comunicação (o grupo mantém um blog e está presente no Facebook e no Twitter), a escolha dos livros, o que já foi lido, os desdobramentos, os participantes, o papel do moderador e vários depoimentos de seus membros. Na segunda seção, há uma pequena amostra da produção literária inspirada em obras debatidas, que demonstra como a leitura pode desenvolver a criação de novos textos.
Antologia – Em 2013, surgiram no Clube de Leitura brincadeiras que visam à criação coletiva de textos. Através do blog foram desenvolvidas várias propostas de final para a crônica A mulher madura, de Affonso Romano de Sant´Anna, além dos contos Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim? e Um carnaval inesquecível, este último escolhido para abrir a terceira e última parte do livro. Na sequência, são publicadas as produções com tema livre, reunindo haicais, sonetos, poemas, prosas poéticas, crônicas e contos.
“Deixemos que proliferem clubes de leitura A, B, C... de todas as letras do alfabeto, deste mundo e de outros mundos! Por que não ser o nosso clube a mola propulsora desse desafio?”, convida Dília Gouveia, filósofa e professora.


Clube de Leitura Icaraí



4 de fevereiro de 2014

Alô, CLIc!




Nesta sexta feira, 7/2/2014, às 11h50, faltando uma semana para o lançamento do livro do nosso Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros, daremos um alô para Daisy Lúcidi em seu programa de variedades diário na Radio Nacional  Alô Daisy.


Rádio Nacional AM Rio de Janeiro 1.130 kHz  


CLIc aqui para ouvir



3 de fevereiro de 2014

Dília Gouvea: relançamento em dose dupla no próximo dia 06/02

Dília Gouvea nos brinda com Fernando Pessoa e heterônimos, Bovary e Dr. Fausto em seus dois primeiros volumes da coleção "Encontros Literários". Acontece na Livraria Blooks, no próximo dia 6 de fevereiro, na galeria do cinema Arteplex, em Botafogo. Não perca!


Alguns dos muitos presentes ao lançamento em Niterói,
 na Guttemberg. Atrás da lente, essa que vos fala

2 de fevereiro de 2014

Mais vale a fé do que o pau da barca: Ilnéa Miranda

Diz a história que um homem estava muito doente, quase, quase beirando a morte. Tão grave que nem a Esperança lhe fazia mais companhia. Da doença, ninguém nada sabia. De remédios, menos ainda. Até que alguém chegou e disse - e disse por ouvir dizer - que, do outro lado do rio que passava em frente à casa, um rio largo, tão largo que nem se conseguia ver a outra margem, crescia uma árvore enorme, que nem se lhe via a copa.

Desta árvore se dizia ter poderes de medicina, que um chá das lascas de sua madeira, curava qualquer mazela, mesmo desconhecida.

Então um certo compadre, barqueiro por profissão, prometeu ao doente que atravessaria o rio em busca do tal remédio. E lá se foi o barqueiro, cumprir a sua tarefa. Só que no meio da lida, do outro lado do rio, encontrou uns outros gajos (e umas gajas também, por certo) e caiu numa folia, que vai conversa, vem conversa, esqueceu sua promessa. E fez o caminho de volta sem ter da árvore uma lasca.

Estando quase a chegar de volta a sua aldeia, o gajo lembrou a promessa, mas não se deu por achado: pegou a faca afiada e tirou algumas lascas do fundo do próprio barco e embrulhou, direitinho para levar ao doente.

Foi feito o chá, sem demora e sem demora tomado.

Passado um tempo de chá, descanso e muita oração, o homem, recuperado, foi agradecer ao outro o tal chá amilagrado. Depois do abraço apertado, e de muita falação, o barqueiro, aliviado, com um sorriso maroto, resmungou 'pros' seus botões:

Bem minha mãe me dizia: "mais vale a fé do que o pau da barca."